Poemas neste tema
Humanidade e Solidariedade
Mário Donizete Massari
Urbano
A cidade dorme,
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
936
Mário Donizete Massari
Muro
No povo
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
1 123
Mário Donizete Massari
África
(uma canção)
Negra paisagem
fere os olhos
de quem pode ver
e o medo guardado
pode a qualquer hora explodir
O palco que encena
os homens sensatos
que fazem a guerra
como quem começa
a viver
e nunca dão trégua
para que se possa
renascer
E rola no espaço
dor estilhaço
pedaços de vida
que a inconsciência
condenou
África continente
negra paz céu azul
explorada e servil
África fome e guerra
condenada e tão bela
irmã do povo Brasil
Negra paisagem
fere os olhos
de quem pode ver
e o medo guardado
pode a qualquer hora explodir
O palco que encena
os homens sensatos
que fazem a guerra
como quem começa
a viver
e nunca dão trégua
para que se possa
renascer
E rola no espaço
dor estilhaço
pedaços de vida
que a inconsciência
condenou
África continente
negra paz céu azul
explorada e servil
África fome e guerra
condenada e tão bela
irmã do povo Brasil
841
Mário Donizete Massari
Meninos
Meninos do morro
descem do morro
não pedem socorro
se pegam a socos
defendem o osso
da carne em ruínas
emudecem como sopro
do trem da Central que avisa . . .
No céu dos brasis
há meninos louros
negrinhos, caboclos
meninos moços, heróis
do sem fim
Meninos do morro
também há meninas
franzinas, despidas
Tentativa de ser
sopro de vida
descem do morro
não pedem socorro
se pegam a socos
defendem o osso
da carne em ruínas
emudecem como sopro
do trem da Central que avisa . . .
No céu dos brasis
há meninos louros
negrinhos, caboclos
meninos moços, heróis
do sem fim
Meninos do morro
também há meninas
franzinas, despidas
Tentativa de ser
sopro de vida
955
Mário Donizete Massari
Raimundo
(Perfil de um cidadão comum)
Raimundo
imundo perfil do mundo
(aos olhos de quem se faz surdo)
e não ouve do profundo os gritos
soturnos de fé.
Raimundo
imundo perfil do mundo
mundo que se fez muro
e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo
te busca; no dia a dia
dos vagabundos
nos palhaços do olhos
escuros
cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo
e Raimundo é apenas o perfil imundo
aos olhos de quem é surdo.
Raimundo
imundo perfil do mundo
(aos olhos de quem se faz surdo)
e não ouve do profundo os gritos
soturnos de fé.
Raimundo
imundo perfil do mundo
mundo que se fez muro
e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo
te busca; no dia a dia
dos vagabundos
nos palhaços do olhos
escuros
cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo
e Raimundo é apenas o perfil imundo
aos olhos de quem é surdo.
899
Marta Gonçalves
Água da Chuva
Muitos homens rastejam como a serpente
envenenam a água da chuva
esquecem que existe um rosto no cosmo.
envenenam a água da chuva
esquecem que existe um rosto no cosmo.
1 076
Marcelo Almeida de Oliveira
Anti- homem
Mentira, mentira, mentira,
mentira que nos faz humanos,
panos no corpo, amor na cabeça,
certeza de tudo, menos da morte;
mentira, filha e mãe da razão,
convença-me de que não somos apenas macacos carecas.
mentira que nos faz humanos,
panos no corpo, amor na cabeça,
certeza de tudo, menos da morte;
mentira, filha e mãe da razão,
convença-me de que não somos apenas macacos carecas.
1 031
Majela Colares
A Sombra da Mão
Ferro
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
881
Mário Hélio
20-X-(Arrife)
não vinhas tu
com pontes e cais,
logradouros e vilas,
bairros perdidos na metrópole ensimesmada
por estradas e viadutos como multidões em arcos
não vinhas tu
do continente vasto chorando pelos negrinhos
dos morros que morrem de fome
nas caladas calados que anseiam farfalhas
nas grandes vilas favelas abismadas
não vinhas tu severa de amores muda e negra
cidade dos portos e dos cais
oco rr eco rre... os meninos
correndo com os comparsas
com passos magros e velhos
em toda multidão semesplendores
é o teu destino acender velas
aos mistérios e crendices do teu povo inquieto
que plasma no rasto e nas arestas
no atol atlântico de aspecto altivo
é o teu dever projetar as novas luzes
proteger as velhas sombras
pedras ruas e alamedas
petrificando os ambíguos heróis.
com pontes e cais,
logradouros e vilas,
bairros perdidos na metrópole ensimesmada
por estradas e viadutos como multidões em arcos
não vinhas tu
do continente vasto chorando pelos negrinhos
dos morros que morrem de fome
nas caladas calados que anseiam farfalhas
nas grandes vilas favelas abismadas
não vinhas tu severa de amores muda e negra
cidade dos portos e dos cais
oco rr eco rre... os meninos
correndo com os comparsas
com passos magros e velhos
em toda multidão semesplendores
é o teu destino acender velas
aos mistérios e crendices do teu povo inquieto
que plasma no rasto e nas arestas
no atol atlântico de aspecto altivo
é o teu dever projetar as novas luzes
proteger as velhas sombras
pedras ruas e alamedas
petrificando os ambíguos heróis.
820
Majela Colares
Outono de Pedra
O sol posto
em cada pálpebra
um sol posto
os cílios não terão amanhãs?
- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
........
João Cabral de Mello Neto
CANTO-II
Pau de arara em marés de asfalto
matolão aposentado na esquina
becos & guetos
aboios perdidos na avenida paulista
abstrato versus concreto
o dia morto rente ao viaduto
lágrimas de ocasos
suicídio das horas
chuvas cerebrais
penumbra ao meio dia
tatuada no olhar.
CANTO-III
No divã
argamassa de cimento
vida quase morte
(o complexo das unhas...)
indelével memória
arredia hipnose
divagações:
naquela terra distante
muitos sonhos se evadiram
levados pela distância
de noites cosmopolitas
sob o império do sol
e barricadas de chuvas
muitas vidas sucumbiram
perante a gota de orvalho
naquela terra distante
na palma da mão sedenta
nos dedos dos meus avós
nos traçaram esse destino:
L
É
G
U
A
S
t
i
r
a
n
a
s
a fio
de caminho e de poeira
e de areia em vez de rio
- a vida sujigada entre os dentes.
CANTO-IV
E no entanto ainda salta
ritmada da garganta
verso/rima: poesia
no mormaço dos alpendres
sob a luz do candeeiro
ou da vela de 100 Watts
e se é lua e mês de abril
o repente é mais vibrante
se exalando no galope
caudaloso e repicado
da viola enamorada
do poeta e cantador:
quando digo das coisas do sertão
este solo que inunda o meu cantar
vem a lua silente me escutar
debruçada em perdida solidão
canto os vícios sublimes da paixão
aflorada no rosto feminino
também canto este povo e seu destino
a incerteza no tempo inconseqüente
refletido por alma, corpo e mente
saga-gênese do homem nordestino
o meu canto é de rima soletrada
dissidente da língua adormecida
na rudez da palavra convergida
nas pupilas do verso represada
é a voz, dessa gente, entresonhada
entoando um galope à beira-mar
vem de longe segredos desvendar
o meu canto é enfim de vida e morte
palmilhado no peito livre e forte
do poeta que sabe improvisar.
CANTO-V
Muros sombrios, limites
fantasmas de coronéis
no subsolo gargalham
choramingam velhas mágoas
na memória do porão
sopra um vento frio e brando
com um cheiro melancólico
condensando nas narinas
pesadelos ancestrais
(muita terra, poucos donos
de tão longe este refrão)
no porão, calada História:
espinho de xiquexique
atravessado na artéria
cravado no calcanhar
medula-farpa da História
transpassado sobre a pele
ressecada pelo sol
de sangue-suor tingida
espichada na caatinga
espectro de rija sombra
consumido no serrote
esculpido pela goiva
no repuxo de aroeira
estaca/roseta/arame
entrecasca do pau-darco
dura imagem pressentida
moldurando o latifúndio
a flor do mandacaru
estampa um sorriso largo
brotado por entre espinhos
na solidão dessas tardes
qual homem sofrido e pasmo
que se contenta com o nada
nessa miséria de morte
no rude rosto de cáctus
a seca consome léguas
retirantes pés ao pó
resumidas nas estradas
do silêncio ruminado
suplicantes romarias
clamando nuvens errantes
em nome de Deus cavalgam
palavras, desilusões
a chuva vem afagar
o sertão com água santa
afaga também os lábios
ressequidos, a garganta
um brilho reluz nos olhos
transbordantes de esperança
de ver o grão desolado
vingar no magro torrão
a terra seca ou molhada
pelo sol mais causticante
ou pela chuva mais densa
é sempre esta mesma terra
ou tão molhada ou tão seca
que não mata a seca-fome
da mente sã e semi-árida
nesta escassez e descaso.
CANTO-VI
Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras.
CANTO-VII
Áspero corpo
qual pedra granizo
sôfrega alma
de sonhos marcada
as mãos para o céu
louvando a Deus
os pés sobre o chão
entre o tudo e o nada
a vista acesa
buscando horizontes
ofusca no cinza
dos olhos calados
singrando a vida
embora inerte
atentos momentos
em dias fadados
partido do ontem
sem rumo e sem medo
veredas seguidas
acasos remotos
desertos cortados
de fome e de sede
galgando na pedra
futuro ignoto
rastro incansável
o sol feito abrigo
silhueta sinistra
alçando o infinito
geométrica figura
sangrando o ocaso
tempo infecundo
instante proscrito
o sangue que corre
em veias opacas
vias serenas
oculta segredos
do tardo momento
esculpido na rocha
do efêmero viver
de ânsia e degredo.
CANTO-VIII
O cantador repentista
e peregrino da viola
conhece o rumor dos ventos:
inesquecíveis memórias
marcam homens e destinos
a saga dos nordestinos
entrelaça a mesma História
na parca crença irrisória
este caos mais se afigura
exposta em tosca moldura
na forma: fome e miséria
o tênue pulsar da artéria
esvai-se na desventura
nos três mundos consagrados
divisas separam vidas
opressoras, oprimidas,
limites bem demarcados
em marcos configurados
simbólica ideologia
predomina e contagia
de vício a humana gente
falsa idéia incoerente
de mortal hipocrisia.
poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
.............
nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome
Haroldo de Campos
CANTO-IX
Unhas encravadas
fixadas
fichadas
no esmalte-sangue
do tijolo
subindo no asco da noite
possantes\imponentes\frias
colunas verticais
subindo no asco da noite
frágeis\humildes\tensas
colunas cervicais
andaimeandaime
\andaime
passaporte
para a vida extraida dos músculos
passaporte
para a morte fincada nos calos
antagônicos limites
sobem e descem
nas fibras de aço
nas fibras de nervos
CANTO-X
A colher alimenta
rica estrutura
substâncias imprescindíveis
para crescer
breve
para crescer
firme
para crescer
lorde
para crescer
nobre
para crescer
crescer para
pára crescer
cimento\ferro
pedra
tijolo
pedra\tijolo
ferro
cimento
tijolo
pedra
cimento\ferro
cimento
ferro
tijolo\pedra
homens\fome\homens
vida
poder\mais-valia
a l v e n a r i a
CANTO-XI
a
em cada pálpebra
um sol posto
os cílios não terão amanhãs?
- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
........
João Cabral de Mello Neto
CANTO-II
Pau de arara em marés de asfalto
matolão aposentado na esquina
becos & guetos
aboios perdidos na avenida paulista
abstrato versus concreto
o dia morto rente ao viaduto
lágrimas de ocasos
suicídio das horas
chuvas cerebrais
penumbra ao meio dia
tatuada no olhar.
CANTO-III
No divã
argamassa de cimento
vida quase morte
(o complexo das unhas...)
indelével memória
arredia hipnose
divagações:
naquela terra distante
muitos sonhos se evadiram
levados pela distância
de noites cosmopolitas
sob o império do sol
e barricadas de chuvas
muitas vidas sucumbiram
perante a gota de orvalho
naquela terra distante
na palma da mão sedenta
nos dedos dos meus avós
nos traçaram esse destino:
L
É
G
U
A
S
t
i
r
a
n
a
s
a fio
de caminho e de poeira
e de areia em vez de rio
- a vida sujigada entre os dentes.
CANTO-IV
E no entanto ainda salta
ritmada da garganta
verso/rima: poesia
no mormaço dos alpendres
sob a luz do candeeiro
ou da vela de 100 Watts
e se é lua e mês de abril
o repente é mais vibrante
se exalando no galope
caudaloso e repicado
da viola enamorada
do poeta e cantador:
quando digo das coisas do sertão
este solo que inunda o meu cantar
vem a lua silente me escutar
debruçada em perdida solidão
canto os vícios sublimes da paixão
aflorada no rosto feminino
também canto este povo e seu destino
a incerteza no tempo inconseqüente
refletido por alma, corpo e mente
saga-gênese do homem nordestino
o meu canto é de rima soletrada
dissidente da língua adormecida
na rudez da palavra convergida
nas pupilas do verso represada
é a voz, dessa gente, entresonhada
entoando um galope à beira-mar
vem de longe segredos desvendar
o meu canto é enfim de vida e morte
palmilhado no peito livre e forte
do poeta que sabe improvisar.
CANTO-V
Muros sombrios, limites
fantasmas de coronéis
no subsolo gargalham
choramingam velhas mágoas
na memória do porão
sopra um vento frio e brando
com um cheiro melancólico
condensando nas narinas
pesadelos ancestrais
(muita terra, poucos donos
de tão longe este refrão)
no porão, calada História:
espinho de xiquexique
atravessado na artéria
cravado no calcanhar
medula-farpa da História
transpassado sobre a pele
ressecada pelo sol
de sangue-suor tingida
espichada na caatinga
espectro de rija sombra
consumido no serrote
esculpido pela goiva
no repuxo de aroeira
estaca/roseta/arame
entrecasca do pau-darco
dura imagem pressentida
moldurando o latifúndio
a flor do mandacaru
estampa um sorriso largo
brotado por entre espinhos
na solidão dessas tardes
qual homem sofrido e pasmo
que se contenta com o nada
nessa miséria de morte
no rude rosto de cáctus
a seca consome léguas
retirantes pés ao pó
resumidas nas estradas
do silêncio ruminado
suplicantes romarias
clamando nuvens errantes
em nome de Deus cavalgam
palavras, desilusões
a chuva vem afagar
o sertão com água santa
afaga também os lábios
ressequidos, a garganta
um brilho reluz nos olhos
transbordantes de esperança
de ver o grão desolado
vingar no magro torrão
a terra seca ou molhada
pelo sol mais causticante
ou pela chuva mais densa
é sempre esta mesma terra
ou tão molhada ou tão seca
que não mata a seca-fome
da mente sã e semi-árida
nesta escassez e descaso.
CANTO-VI
Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras.
CANTO-VII
Áspero corpo
qual pedra granizo
sôfrega alma
de sonhos marcada
as mãos para o céu
louvando a Deus
os pés sobre o chão
entre o tudo e o nada
a vista acesa
buscando horizontes
ofusca no cinza
dos olhos calados
singrando a vida
embora inerte
atentos momentos
em dias fadados
partido do ontem
sem rumo e sem medo
veredas seguidas
acasos remotos
desertos cortados
de fome e de sede
galgando na pedra
futuro ignoto
rastro incansável
o sol feito abrigo
silhueta sinistra
alçando o infinito
geométrica figura
sangrando o ocaso
tempo infecundo
instante proscrito
o sangue que corre
em veias opacas
vias serenas
oculta segredos
do tardo momento
esculpido na rocha
do efêmero viver
de ânsia e degredo.
CANTO-VIII
O cantador repentista
e peregrino da viola
conhece o rumor dos ventos:
inesquecíveis memórias
marcam homens e destinos
a saga dos nordestinos
entrelaça a mesma História
na parca crença irrisória
este caos mais se afigura
exposta em tosca moldura
na forma: fome e miséria
o tênue pulsar da artéria
esvai-se na desventura
nos três mundos consagrados
divisas separam vidas
opressoras, oprimidas,
limites bem demarcados
em marcos configurados
simbólica ideologia
predomina e contagia
de vício a humana gente
falsa idéia incoerente
de mortal hipocrisia.
poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
.............
nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome
Haroldo de Campos
CANTO-IX
Unhas encravadas
fixadas
fichadas
no esmalte-sangue
do tijolo
subindo no asco da noite
possantes\imponentes\frias
colunas verticais
subindo no asco da noite
frágeis\humildes\tensas
colunas cervicais
andaimeandaime
\andaime
passaporte
para a vida extraida dos músculos
passaporte
para a morte fincada nos calos
antagônicos limites
sobem e descem
nas fibras de aço
nas fibras de nervos
CANTO-X
A colher alimenta
rica estrutura
substâncias imprescindíveis
para crescer
breve
para crescer
firme
para crescer
lorde
para crescer
nobre
para crescer
crescer para
pára crescer
cimento\ferro
pedra
tijolo
pedra\tijolo
ferro
cimento
tijolo
pedra
cimento\ferro
cimento
ferro
tijolo\pedra
homens\fome\homens
vida
poder\mais-valia
a l v e n a r i a
CANTO-XI
a
1 046
Lupe Cotrim Garaude
Ars Poética
Da desordem nunca
erguerei um verso.
Bem sei
que na bela superfície de um momento,
existe o alento
da Poesia.
Mas é do futuro,
é do instante que serve
a continuidade da vida
em sentimento,
que desejo o meu poema.
O Homem,
sofrido a prosseguir
na sua eternidade construída —
— eis o meu tema.
erguerei um verso.
Bem sei
que na bela superfície de um momento,
existe o alento
da Poesia.
Mas é do futuro,
é do instante que serve
a continuidade da vida
em sentimento,
que desejo o meu poema.
O Homem,
sofrido a prosseguir
na sua eternidade construída —
— eis o meu tema.
1 086
Mário Hélio
11-I(Formas)
vou deixar de fazer poema
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.
não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.
teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?
cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.
não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.
não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.
teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?
cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.
não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.
932
Luiz Moraes
Limites
Vi sofrendo
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
972
Leny Mara Souza
Suas Dores, Meus Gemidos
A um amigo
Estou querendo lhe ajudar,
Busco pessoas para ajudar-me,
Para ajudar você.
Você!
Cheio de vida,esperanças e sonhos...
... Tenha dentro de sí a fé
E a esperança,
De uma realização pessoal e lógica.
Estou querendo lhe ajudar,
Busco pessoas para ajudar-me,
Para ajudar você.
Você!
Cheio de vida,esperanças e sonhos...
... Tenha dentro de sí a fé
E a esperança,
De uma realização pessoal e lógica.
945
Leopoldo Neto
Noite de Natal
Cidades enfeitadas
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
947
Luiz Nogueira Barros
Eu
Eu sou aquele
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.
Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...
Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...
O JORNAL - 14.04.96
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.
Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...
Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...
O JORNAL - 14.04.96
945
Leão Moysés Zagury
Somália
Somália; terra sem dono,
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
1 155
Leandro Nogueira Monteiro
Terra Brazileira
Ó água doce! Quanto do teu açúcar
É cana do meu Brazil.
Por te explorarmos, quantos índios morreram,
Quantos bandeirantes não faleceram.
Quantos hectares foram devastados
Para que fosse nossa, oh harpa?
E valeu a pena? Tudo vale a pena
Pra terra não ser pequena.
Quem quer ter mais tesouros
Tem que conseguir mais oiro.
Deus à terra o verde e o amarelo deu
E nella é que inspirou-se o véu.
Paródia de "Mar Portuguez", de Fernando Pessoa
[Obs.: Gostaria de ressaltar que os "erros" como "brazileira", "Brazil", "oiro"
e "nella", são propositais, em busca de maior verossimilhança.]
É cana do meu Brazil.
Por te explorarmos, quantos índios morreram,
Quantos bandeirantes não faleceram.
Quantos hectares foram devastados
Para que fosse nossa, oh harpa?
E valeu a pena? Tudo vale a pena
Pra terra não ser pequena.
Quem quer ter mais tesouros
Tem que conseguir mais oiro.
Deus à terra o verde e o amarelo deu
E nella é que inspirou-se o véu.
Paródia de "Mar Portuguez", de Fernando Pessoa
[Obs.: Gostaria de ressaltar que os "erros" como "brazileira", "Brazil", "oiro"
e "nella", são propositais, em busca de maior verossimilhança.]
963
Leandro Nogueira Monteiro
TEL AVIV, 05-11-95
Por que morrem as pombas da Paz?
Por que são elas devoradas pelas serpentes?
Será que dessa Paz tem pavor
Aqueles que lutam em guerras de sangue?
Canta hoje o mundo a canção da dor
A mesma canção que ontem glorificou a Paz,
Embutida num aperto de mãos,
A mesma que amanhã adorará uma memória.
Choram-se hoje os risos de ontem
A perda, não de mais uma pomba, mas dum ninho,
De um vitorioso, que trazia consigo
O dom de ser o que era.
O mundo hoje diminuiu seu exército,
Perdeu um batalhão bem disfarçado de soldado.
Adeus, Yitzhak Rabin, guerreiro sem guerra.
Pomba, voa mais alto...
Por que são elas devoradas pelas serpentes?
Será que dessa Paz tem pavor
Aqueles que lutam em guerras de sangue?
Canta hoje o mundo a canção da dor
A mesma canção que ontem glorificou a Paz,
Embutida num aperto de mãos,
A mesma que amanhã adorará uma memória.
Choram-se hoje os risos de ontem
A perda, não de mais uma pomba, mas dum ninho,
De um vitorioso, que trazia consigo
O dom de ser o que era.
O mundo hoje diminuiu seu exército,
Perdeu um batalhão bem disfarçado de soldado.
Adeus, Yitzhak Rabin, guerreiro sem guerra.
Pomba, voa mais alto...
963
Leny Mara Souza
Salvem-se
Não quero ser destruída pelo tempo
O tempo é constituído
Por seres humanos,
Na maioria insensíveis e corruptos
... Num processo de auto destruição
O tempo é constituído
Por seres humanos,
Na maioria insensíveis e corruptos
... Num processo de auto destruição
1 003
Luiz Nogueira Barros
Breves palavras sobre a poética deAntonio Massa
Antônio Massa me faz senti-lo como uma espécie de poeta do desencanto, no tocante ao seu canto e suas queixas sobre a condição humana. O poema Cartesianos é o mais expressivo dos versos que eu li. Nele o racionalismo é ponto de partida, e dentro do qual está, com toda a clareza, uma grande queixa, uma ode, um hino e, finalmente um manifesto pela liberdade, a liberdade que exigiria romper com os laços do convencionalismo racionalista das coisas institucionalizadas. Importa pois, sair das formas geométricas dentro das quais estamos perdidos, engradados, resignados a um teorema.
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
996
Lucídio Freitas
A meu Pai
Esqueço todo bem que, em minha estrada,
Prodigamente, como um Deus, semeio,
Fazendo meu o sofrimento alheio,
Amparando toda alma abandonada.
Quantas e quantas vezes tenho em meio
Da vida, dentro a noite erma e gelada,
Confortado a velhice desgraçada,
Na mornidão amiga do meu seio!
Para servir aos meus irmãos padeço
E dou-lhes a água e o pão, o teto e o leito
E o beijo que consola e que bendiz...
Mas todo bem que faço logo esqueço
Para guardar apenas no meu peito,
A saudade de um bem que eu nunca fiz...
Prodigamente, como um Deus, semeio,
Fazendo meu o sofrimento alheio,
Amparando toda alma abandonada.
Quantas e quantas vezes tenho em meio
Da vida, dentro a noite erma e gelada,
Confortado a velhice desgraçada,
Na mornidão amiga do meu seio!
Para servir aos meus irmãos padeço
E dou-lhes a água e o pão, o teto e o leito
E o beijo que consola e que bendiz...
Mas todo bem que faço logo esqueço
Para guardar apenas no meu peito,
A saudade de um bem que eu nunca fiz...
1 087
Lêdo Ivo
Os Morcegos
Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?
A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.
Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?
No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.
Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oitoirmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.
The Bats Poema em Inglês
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?
A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.
Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?
No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.
Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oitoirmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.
The Bats Poema em Inglês
2 167
Lêdo Ivo
The Bats
Bats hide in the eaves of the customs house.
But where do the men hide who also fly
Their whole lives in the dark,
Bumping against white walls of love?
Our fathers house was full of bats
hanging like lanterns from the old rafters
that supported the roof threatened by the rains.
"These children suck our blood," my father would sigh.
What man will throw the first stone at that mammal
who, like himself, is nourished by the blood of other beasts
(my brother! my brother!) and, banded together, demands
the sweat of his like even in the dark?
Man hides on the halo of a breast as young as the night;
on the fabric of his pillow, in the lantern light
man hoards the golden coins of his love.
But the bat, sleeping like a pendulum, only hoards the
offended day.
When he died, our father left us (myself and my eight
brothers)
his house where, at night, it rained through the broken
tiles.
We redeemed the loan and saved the bats.
Between our walls they wrangle, blind as we.
Os morcegos Poema em Português
But where do the men hide who also fly
Their whole lives in the dark,
Bumping against white walls of love?
Our fathers house was full of bats
hanging like lanterns from the old rafters
that supported the roof threatened by the rains.
"These children suck our blood," my father would sigh.
What man will throw the first stone at that mammal
who, like himself, is nourished by the blood of other beasts
(my brother! my brother!) and, banded together, demands
the sweat of his like even in the dark?
Man hides on the halo of a breast as young as the night;
on the fabric of his pillow, in the lantern light
man hoards the golden coins of his love.
But the bat, sleeping like a pendulum, only hoards the
offended day.
When he died, our father left us (myself and my eight
brothers)
his house where, at night, it rained through the broken
tiles.
We redeemed the loan and saved the bats.
Between our walls they wrangle, blind as we.
Os morcegos Poema em Português
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