Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

1924–2012 · viveu 88 anos BR BR

Lêdo Ivo é um poeta, romancista, contista e ensaísta brasileiro, figura de destaque na literatura contemporânea. A sua obra, marcada por uma profunda sensibilidade lírica e uma reflexão sobre a condição humana, explora temas como a memória, o tempo, a identidade e a paisagem nordestina. Com um estilo elegante e uma linguagem precisa, Ivo construiu uma obra consistente e influente, consolidando-se como um dos grandes nomes da poesia brasileira.

n. 1924-02-18, Maceió · m. 2012-12-23, Sevilha

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The Gate

The gate is open all day long
but at night, I myself go to close it.
I expect no nocturnal visitor
except the thief who jumps over the wall of dreams.
The night is so quiet that it makes me hear
the birth of fountains in the forests.
My bed, white as the Milky Way,
is too smau for me in the black night.
I occupy all the space in the world. My distracted hand
knocks down a star and frightens a bat.
The beating of my heart fascinares the owls
in the branches of the cedars, pondering the mystery
of day and night, born of tbe waters.
In my stonelike sleep I stay stifl and travel.
I am the wind that caresses artichokes
and rusts the harness hanging in the stable.
I am the ant that, guided by the constellations,
breathes the perfume of land and sea.
A man who dreams is everything that he isnt:
the sea that ships have damaged,
the black whistle of the train passing through trestles,
the soot that darkens the kerosene drum.
If I shut my gate before I sleep,
in dreams it opens itself.
And he who didnt come during the day,
stepping on dry, eucalyptus leaves,
comes at night and knows the way, like the dead,
who havent yet come, but know where I am,
covered by a winding sheet, like all who dream
and stir in the darkness, and shout the words
that escaped the dictionary and went to smell
the night air scented with jasmine and sweet, fermenting manure.
The undesirable visitors cross through the locked doors
and the Venetian blinds that filter the passage of the breeze,
and encircle me.
Oh, mystery of the world! No lock shuts the gate of night.
In vain at nightfall I thought to sleep
alone protected by the barbed wire that circles my fields
and by my dogs that dream with open eyes.
At night, a simple breeze destroys the walls of men.
Although my gate will be locked in the moming,
I know that someone opened it in the silence of night,
and, in the darkness, watched over my restless sleep.

O Portão Poema em Portugês

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Biografia

Identificação e contexto básico

Antônio Lêdo Ivo Brandão, conhecido como Lêdo Ivo, é um proeminente poeta, romancista, contista, ensaísta e jornalista brasileiro. Nasceu em Maceió, Alagoas, a 18 de fevereiro de 1924, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de abril de 2012. É considerado um dos grandes nomes da poesia brasileira da segunda metade do século XX e um intelectual influente na vida cultural do país. A sua nacionalidade é brasileira e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Lêdo Ivo cresceu numa família de classe média, com forte inclinação para as artes e a literatura, o que influenciou a sua formação. Desde cedo demonstrou interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo a cultura local e os movimentos literários da época. A sua formação académica incluiu o curso de Direito, que concluiu em 1947 na Universidade de Recife, mas a sua vocação literária sempre foi mais forte. A juventude em Maceió, com as suas paisagens e a cultura nordestina, marcou profundamente a sua obra futura.

Percurso literário

O percurso literário de Lêdo Ivo iniciou-se com a publicação do seu primeiro livro de poemas, "As Imaginações do Ouvinte", em 1944. Ao longo das décadas seguintes, consolidou a sua carreira como um escritor multifacetado, transitando com mestria entre a poesia, a prosa e o ensaio. Foi também jornalista e crítico literário, colaborando em diversos jornais e revistas. A sua obra poética é marcada por uma evolução constante, que partiu de influências modernistas para um lirismo mais pessoal e universal. Atuou também como tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lêdo Ivo abrange diversos géneros literários. Na poesia, destacam-se "A Poeira e a Rosa" (1958), "O Açúcar" (1971) e "O Ímpio" (2002). Os seus romances, como "As Alquimias" (1960) e "O Profeta e o Vulcão" (1986), exploram a condição humana e a busca por sentido. O seu estilo é caracterizado por um lirismo contido, pela elegância formal e pela profundidade da reflexão sobre temas como a memória, o tempo, a fugacidade da vida e a identidade. A paisagem nordestina, com a sua secura e a sua força, é frequentemente um cenário e um símbolo na sua obra. Lêdo Ivo utiliza uma linguagem precisa e evocativa, com uma musicalidade singular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Lêdo Ivo integrou a segunda geração do Modernismo brasileiro, embora a sua obra tenha transcendido as amarras de qualquer movimento específico. Viveu um período de efervescência cultural no Brasil, participando ativamente no debate intelectual e literário. A sua obra reflete as tensões e as transformações sociais e políticas do Brasil ao longo do século XX, abordando com sensibilidade as questões da identidade nacional e da condição humana num contexto de modernização.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Lêdo Ivo foi marcada pela sua dedicação à escrita e à cultura. Casado e pai de família, encontrou na estabilidade pessoal um alicerce para a sua criação literária. Manteve sempre uma postura discreta, mas ativa no meio intelectual, sendo respeitado pela sua erudição e pela sua integridade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lêdo Ivo obteve um reconhecimento significativo ao longo da sua carreira, sendo agraciado com diversos prémios literários importantes, como o Prémio Camões em 2013 (atribuído postumamente) e o Grande Prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. A sua obra é amplamente estudada e respeitada pela crítica, sendo considerada fundamental para a poesia e a prosa contemporâneas em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Lêdo Ivo foi influenciado por autores como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira, mas desenvolveu uma voz poética singular e inconfundível. O seu legado reside na sua capacidade de aliar a tradição lírica com a modernidade, na profundidade da sua reflexão existencial e na beleza formal da sua escrita. Influenciou gerações de poetas e escritores brasileiros, e a sua obra continua a ser um farol na literatura contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lêdo Ivo é frequentemente analisada sob a ótica da sua profunda meditação sobre a memória e o tempo, a sua capacidade de capturar a essência da paisagem e da alma nordestina, e a universalidade das suas preocupações existenciais. A sua poesia é um convite à contemplação da fragilidade da existência humana e à busca por sentido num mundo em constante mutação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua obra é a forma como a memória e a identidade se entrelaçam com a paisagem, criando uma forte conexão entre o eu lírico e o espaço geográfico. A sua discrição pessoal contrastava com a força e a eloquência da sua obra literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Lêdo Ivo faleceu no Rio de Janeiro, em 2012. A sua morte foi lamentada pelo mundo literário brasileiro e português. A sua vasta obra continua a ser publicada e reeditada, garantindo a sua memória e a sua permanente relevância na literatura em língua portuguesa.

Poemas

26

The Gate

The gate is open all day long
but at night, I myself go to close it.
I expect no nocturnal visitor
except the thief who jumps over the wall of dreams.
The night is so quiet that it makes me hear
the birth of fountains in the forests.
My bed, white as the Milky Way,
is too smau for me in the black night.
I occupy all the space in the world. My distracted hand
knocks down a star and frightens a bat.
The beating of my heart fascinares the owls
in the branches of the cedars, pondering the mystery
of day and night, born of tbe waters.
In my stonelike sleep I stay stifl and travel.
I am the wind that caresses artichokes
and rusts the harness hanging in the stable.
I am the ant that, guided by the constellations,
breathes the perfume of land and sea.
A man who dreams is everything that he isnt:
the sea that ships have damaged,
the black whistle of the train passing through trestles,
the soot that darkens the kerosene drum.
If I shut my gate before I sleep,
in dreams it opens itself.
And he who didnt come during the day,
stepping on dry, eucalyptus leaves,
comes at night and knows the way, like the dead,
who havent yet come, but know where I am,
covered by a winding sheet, like all who dream
and stir in the darkness, and shout the words
that escaped the dictionary and went to smell
the night air scented with jasmine and sweet, fermenting manure.
The undesirable visitors cross through the locked doors
and the Venetian blinds that filter the passage of the breeze,
and encircle me.
Oh, mystery of the world! No lock shuts the gate of night.
In vain at nightfall I thought to sleep
alone protected by the barbed wire that circles my fields
and by my dogs that dream with open eyes.
At night, a simple breeze destroys the walls of men.
Although my gate will be locked in the moming,
I know that someone opened it in the silence of night,
and, in the darkness, watched over my restless sleep.

O Portão Poema em Portugês

2 299

Os Pobres na Estação Rodoviária

Os pobres viajam,
Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida no névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão
que tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências,
não sabem portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite escorre
para a pequena boca habituada ao choro.

Na plataforma eles vão o vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidos nos guichês,
sussurram palavras misteriosas
e contemplam os capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê
que doem na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos lugares
mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.
3 059

Descoberta Do Inefável

A Lêda
Sem o sublime, que é o poeta? Sem o inefável,
como pode louvar, não traindo a si mesmo,
a plena e estranha juventude da moça a quem ama?
Que é o poeta, que imita as marés,
sem adquirir com o tempo uma serenidade de coisa sempre nua
como se as estrelas estivessem caminhando governadas
pelo seu riso
e seus braços agitassem as árvores feridas pelo clarão da lua?

Sem que seu canto suba até os céus, sufocante música da terra,
que é o poeta?
Libertado estou quando canto. E quero
que minha respiração oriente a vontade das nuvens
e meu pensamento de amor se misture ao horizonte.
Cantando, quero outubro, gosto de lágrima, salsugem,
no instante anterior ao despertar, folha voando.

Sem o inefável, que dura sempre, sem permanecer,
como conseguirei louvar essa moça a quem amo
e que nasce em minha lembrança plena como a noite
e triunfante como uma rosa que durasse eternamente
e não se limitasse à glória de um dia?
Sem o inefável, que valoriza as mãos e faz o Amor voar,
não poderei descer de repente
ao inferno de seu corpo nu.

O sobrenatural ainda existe. E não seremos nós
que alteraremos a indizível ordem das coisas
com as nossas mãos que poderão ficar imóveis
em pleno amor, diante do corpo amado.

É inútil pensar que os anjos morreram
ou se despaisaram, buscando outros lugares.
Eles ainda estão, unidade admirável do Dia e da Noite,
entre as nuvens e as casas em que moramos.

Repentinamente, as vozes da infância nos chamam para a feérica viagem
e lembram que podemos fugir para o longe guardado ainda
no sempre.
Então, nossas necessidades não se reduzem apenas a comer,
dormir e amar.
Temos necessidade de anjos, para ser homens.
Temos necessidade de anjos, para ser poetas.

Vem, incontável música, e anuncia
(ao poeta e ao homem, humilde unidade)
a ressurreição diária dos anjos.
Restaura em mim a certeza de que a folha voando é seu indomável divertimento
pois às vezes sinto que meu primeiro verso foi murmurado talvez
sem que eu soubesse, por um anjo
perturbado com o meu ar desesperado de papel em branco.

Não é a manhã, depositando a semente de alegria no coração
dos homens.
Não é a vida, cântico triunfal descendo sobre as almas.
Não é o poeta, subindo pelos andaimes de carne da lembrança
de uma mulher.

São os anjos, que vieram ligar-nos mais uma vez
à ordem eterna e, à anunciação.
Não nos libertaremos jamais desses anjos
feitos de terra e mar, celestes criaturas
que deixam cair em nós o sol da harmonia.

É inútil matar os anjos.
Eles são invisíveis e traiçoeiros.
De repente, quando nos sentimos seguros, já não somos
os consumidores de instantes, e estamos
entre o Dia e a Noite, no umbral
de uma eternidade vigiada pelos anjos.

1 747

Gavião

O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurpação do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode
sepultura de pássaros.

1 512

A cadela

Atraídos pelo cheiro de sangue de suas entranhas
os cachorros seguem a cadela no cio como se fossem o séquito
de uma negra rainha. E a farejam num movimento impudico
que talvez merecesse ser chamado de amor.
A cadela finge que a perseguição a incomoda
e negaceia como as mulheres requestadas.
Um odor penetrante de vida a acompanha
entre os dois sóis que limitam a passagem do dia.
À noite, quando a encerram no galpão,
os cachorros ficam do lado de fora, desolados e fiéis.
E seus ganidos na escuridão nos ensinam
que o amor é uma paixão inútil, uma porta fechada.

1 883

Verdade e Mentira

Truth And Falsehood

O mar às avessas:
as constelações
são navios.

A poesia é uma mentira.
As estrelas não são navios.
O céu é uma ilusão.

A verdade está na terra,
nos navios ancorados
ao longo do cais.

The sea topsy-turvy:
the constellations
are ships.

Poetry is a lie.
The stars arent ships.
The sky is an illusion.

The truths on earth —
the ships anchored
along the docks.

1 263

O Portão

O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.

The Gate Poema em Inglês

2 277

Soneto à Pátria

Sonnet aan mijn land

Nesta noite em Toronto junto ao lago gelado
que o grasnido dos gansos não ousa estremecer
minha pátria ofendida surge na escuridão
e vem ao meu encontro com o seu sol e andrajos.

Ao seu redor estão os goiamuns que moram
no chão mudo dos mangues, o sinal semafórico
que ao lado da guardamoria freme na maresia
e os mendigos que esperam a morte sob os viadutos.

Caminhando na neve nesta noite estrangeira,
entre as sílabas negras dos frígidos pinheiros,
murmuro no vento o teu nome desmatelado.

ó pátria desamada, ó rameira insultada,
quanto mais longe estás, teu espinho distante
mais dói na minha mão inútil e gelada.

Op deze avond in Toronto dicht bij het bevroren meer
dat het gegak der ganzen niet durft te doen beven
verschijnt mij uit het duister mijn verwonde land
en het komt tot mij met zijn zon en met zijn lompen.

Rondom bevinden zich de strandkrabben die wonen
in de stille grond der slikken, het verkeerslicht
dat ter zijde van het tolhuis flikkert in de zeelucht
en de bedelaars die onder bruggen wachten op de dood.

Wandelend door de sneeuw in deze buitenlandse nacht,
tussen de zwarte lettergrepen van de kille sparren,
fluister ik in de wind je verfomfaaide naam.

O gekleineerde hoer, mijn onbeminde land,
hoe verder weg je bent, hoe meer je verre stekel
schrijnt in mijn onnutte en verkilde hand.

1 764

Perdas e Danos

Losses and Privations

Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.

Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.

Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.

Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo.

He who sleeps forfeits the night.
He shuns eternity,
a captive candelabrum
in the darkness of the sky.

He who sleeps forfeits love,
the mature vigil
of the fiesh that dreams itself
awakened.

He who sleeps forfeits death
that breathes unseen
like the hare in the forest.

He who sleeps forfeits everything
that fortune places
on the table of the universe.

1 393

Poor Folk at the Bus Station

Poor folk travel. At the bus station
they crane their necks like geese to see
the place-names on the buses. The look on their faces
betrays their fear of losing something:
the suitcase that holds a transitor radio and a coat
of chilling drabness on a day without dreams,
the mortadella sandwich at the bottom of their bag,
and the suburban sunshine and dust beyond the viaducts.
Amid the uproar of loud-speakers and the wheezing of buses
they are seared of missing their connection
hidden in a haze of time-tables.
Some dozing on benches awaken with a start
though nightmares are the privilege of those
who fuel the hearing of bored psycho-analysts
in rooms as antiseptic as the cotton-wool that
plugs the nostrils of corpses.
Standing in queues poor folk adopt a serious expression
combining fear, impatience and submission.
How grotesque poor folk are! And how their stench
offends us even at a distance!
They have no concept of social graces and no idea
how to behave in public.
A nicotine-stained finger rubs an itching eye
that has nothing but matter to show for its dream.
From a sagging swollen breast a trickle of milk
drips into a tiny mouth familiar with tears.
On the platform poor folk come and go, leaping and clutching
baggage and parcels,
they ask silly questions at the ticket offices,
whisper mysterious words
and gaze at magazine covers with the starfled look
of someone who does not know the way to the threshold of life.
Why all this coming and going? And those gaudy clothes,
those yeflows reminiscent of palm oü that injure the delicate sight
of passengers forced to endure so many unpleasant odours
and those glaring reds one associares with a fun-fair or circus?
Poor folk do not know how to travel or dress.
Not even how to live: they have no concept of comfort
although some even possess a television set.
In truth, poor folk do not know how to die.
(They invariably have a sordid, vulgar death)
Throughout the world they are a nuisance,
unwanted travellers who occupy our seats
even when we are seated and they travel on foot.

Os Pobres na Estação Rodoviária Poema em Português

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Jéssica
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