Lista de Poemas

Condição para Aceitar

Condición para Aceptar

Que a morte me lembre
um mar transparente,
só assim a aceito:
silêncio final
dentro de meu peito,
perfeição de vagas
brancas e caladas,
paisagem abolida
no horizonte raso
do mar sem coqueiros,
vazio do mundo
após a palavra
que quis dizer tudo
e não disse nada.

La muerte me evoque
un mar transparente,
sólo así la acepto:
silencio final
dentro de mi pecho,
perfección de ondas
blancas y calladas,
paisaje abolido
en la lontananza
del mar sin palmeras,
vacío del mundo
tras de la palabra
que pretende inflarse
y no dice nada.

1 220

O Demolidor

El Demoledor

O amor não é um arquiteto.
Igual às térmites, destrói
a mais sólida construção
das paredes até o teto.

Dando razão à sem-razão,
o amor não respeita o intelecto.
Igual a um rato, surge e rói
o pão abstrato e o sol concreto.

O amor? Dois e dois não são quatro.
Caminho certo em concha errada,
coisa torta no colchão reto.

Amor! colinas sucessivas,
obelisco, língua que lambe,
pergunta feita ao Paracleto!

El amor no es un arquitecto.
Igual que las termitas, destruye
la más sólida construcción
de las paredes hasta el techo.

Dando razón a la sinrazón,
el amor no respeta el intelecto.
Corno un ratón, aparece y roe
el pan abstracto y el sol concreto.

El amor? Dos y dos no son cuatro.
Camino cierto en concha errada,
cosa torcida en el colchón derecho.

Amor! colinas sucesivas,
obelisco, lengua que lame.
pregunta hecha al Paracleto!

1 450

Soneto à Pátria

Sonnet aan mijn land

Nesta noite em Toronto junto ao lago gelado
que o grasnido dos gansos não ousa estremecer
minha pátria ofendida surge na escuridão
e vem ao meu encontro com o seu sol e andrajos.

Ao seu redor estão os goiamuns que moram
no chão mudo dos mangues, o sinal semafórico
que ao lado da guardamoria freme na maresia
e os mendigos que esperam a morte sob os viadutos.

Caminhando na neve nesta noite estrangeira,
entre as sílabas negras dos frígidos pinheiros,
murmuro no vento o teu nome desmatelado.

ó pátria desamada, ó rameira insultada,
quanto mais longe estás, teu espinho distante
mais dói na minha mão inútil e gelada.

Op deze avond in Toronto dicht bij het bevroren meer
dat het gegak der ganzen niet durft te doen beven
verschijnt mij uit het duister mijn verwonde land
en het komt tot mij met zijn zon en met zijn lompen.

Rondom bevinden zich de strandkrabben die wonen
in de stille grond der slikken, het verkeerslicht
dat ter zijde van het tolhuis flikkert in de zeelucht
en de bedelaars die onder bruggen wachten op de dood.

Wandelend door de sneeuw in deze buitenlandse nacht,
tussen de zwarte lettergrepen van de kille sparren,
fluister ik in de wind je verfomfaaide naam.

O gekleineerde hoer, mijn onbeminde land,
hoe verder weg je bent, hoe meer je verre stekel
schrijnt in mijn onnutte en verkilde hand.

1 712

Oiço, como se o cheiro

The Literary Narcissus

Único! Original!
A ninguém me assemelho,
nem mesmo à minha imagem
refletida no espelho.

Unique! Original!
I resemble no one,
not even my image
in the mirror.

1 676

De teef

Aangeirokken door de geur van bloed uit haar ingewanden
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.

A cadela Poema em Português

1 169

Esconderijo

Hiding

A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta.

The key-word
is always hidden
behind the door.

1 576

Poor Folk at the Bus Station

Poor folk travel. At the bus station
they crane their necks like geese to see
the place-names on the buses. The look on their faces
betrays their fear of losing something:
the suitcase that holds a transitor radio and a coat
of chilling drabness on a day without dreams,
the mortadella sandwich at the bottom of their bag,
and the suburban sunshine and dust beyond the viaducts.
Amid the uproar of loud-speakers and the wheezing of buses
they are seared of missing their connection
hidden in a haze of time-tables.
Some dozing on benches awaken with a start
though nightmares are the privilege of those
who fuel the hearing of bored psycho-analysts
in rooms as antiseptic as the cotton-wool that
plugs the nostrils of corpses.
Standing in queues poor folk adopt a serious expression
combining fear, impatience and submission.
How grotesque poor folk are! And how their stench
offends us even at a distance!
They have no concept of social graces and no idea
how to behave in public.
A nicotine-stained finger rubs an itching eye
that has nothing but matter to show for its dream.
From a sagging swollen breast a trickle of milk
drips into a tiny mouth familiar with tears.
On the platform poor folk come and go, leaping and clutching
baggage and parcels,
they ask silly questions at the ticket offices,
whisper mysterious words
and gaze at magazine covers with the starfled look
of someone who does not know the way to the threshold of life.
Why all this coming and going? And those gaudy clothes,
those yeflows reminiscent of palm oü that injure the delicate sight
of passengers forced to endure so many unpleasant odours
and those glaring reds one associares with a fun-fair or circus?
Poor folk do not know how to travel or dress.
Not even how to live: they have no concept of comfort
although some even possess a television set.
In truth, poor folk do not know how to die.
(They invariably have a sordid, vulgar death)
Throughout the world they are a nuisance,
unwanted travellers who occupy our seats
even when we are seated and they travel on foot.

Os Pobres na Estação Rodoviária Poema em Português

1 292

The Bats

Bats hide in the eaves of the customs house.
But where do the men hide who also fly
Their whole lives in the dark,
Bumping against white walls of love?

Our fathers house was full of bats
hanging like lanterns from the old rafters
that supported the roof threatened by the rains.
"These children suck our blood," my father would sigh.

What man will throw the first stone at that mammal
who, like himself, is nourished by the blood of other beasts
(my brother! my brother!) and, banded together, demands
the sweat of his like even in the dark?

Man hides on the halo of a breast as young as the night;
on the fabric of his pillow, in the lantern light
man hoards the golden coins of his love.
But the bat, sleeping like a pendulum, only hoards the
offended day.
When he died, our father left us (myself and my eight
brothers)
his house where, at night, it rained through the broken
tiles.
We redeemed the loan and saved the bats.
Between our walls they wrangle, blind as we.

Os morcegos Poema em Português

1 339

Perdas e Danos

Losses and Privations

Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.

Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.

Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.

Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo.

He who sleeps forfeits the night.
He shuns eternity,
a captive candelabrum
in the darkness of the sky.

He who sleeps forfeits love,
the mature vigil
of the fiesh that dreams itself
awakened.

He who sleeps forfeits death
that breathes unseen
like the hare in the forest.

He who sleeps forfeits everything
that fortune places
on the table of the universe.

1 360

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Jéssica
Jéssica

Qual Foi a Primeira Obra Dele?

Identificação e contexto básico

Antônio Lêdo Ivo Brandão, conhecido como Lêdo Ivo, é um proeminente poeta, romancista, contista, ensaísta e jornalista brasileiro. Nasceu em Maceió, Alagoas, a 18 de fevereiro de 1924, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de abril de 2012. É considerado um dos grandes nomes da poesia brasileira da segunda metade do século XX e um intelectual influente na vida cultural do país. A sua nacionalidade é brasileira e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Lêdo Ivo cresceu numa família de classe média, com forte inclinação para as artes e a literatura, o que influenciou a sua formação. Desde cedo demonstrou interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo a cultura local e os movimentos literários da época. A sua formação académica incluiu o curso de Direito, que concluiu em 1947 na Universidade de Recife, mas a sua vocação literária sempre foi mais forte. A juventude em Maceió, com as suas paisagens e a cultura nordestina, marcou profundamente a sua obra futura.

Percurso literário

O percurso literário de Lêdo Ivo iniciou-se com a publicação do seu primeiro livro de poemas, "As Imaginações do Ouvinte", em 1944. Ao longo das décadas seguintes, consolidou a sua carreira como um escritor multifacetado, transitando com mestria entre a poesia, a prosa e o ensaio. Foi também jornalista e crítico literário, colaborando em diversos jornais e revistas. A sua obra poética é marcada por uma evolução constante, que partiu de influências modernistas para um lirismo mais pessoal e universal. Atuou também como tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lêdo Ivo abrange diversos géneros literários. Na poesia, destacam-se "A Poeira e a Rosa" (1958), "O Açúcar" (1971) e "O Ímpio" (2002). Os seus romances, como "As Alquimias" (1960) e "O Profeta e o Vulcão" (1986), exploram a condição humana e a busca por sentido. O seu estilo é caracterizado por um lirismo contido, pela elegância formal e pela profundidade da reflexão sobre temas como a memória, o tempo, a fugacidade da vida e a identidade. A paisagem nordestina, com a sua secura e a sua força, é frequentemente um cenário e um símbolo na sua obra. Lêdo Ivo utiliza uma linguagem precisa e evocativa, com uma musicalidade singular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Lêdo Ivo integrou a segunda geração do Modernismo brasileiro, embora a sua obra tenha transcendido as amarras de qualquer movimento específico. Viveu um período de efervescência cultural no Brasil, participando ativamente no debate intelectual e literário. A sua obra reflete as tensões e as transformações sociais e políticas do Brasil ao longo do século XX, abordando com sensibilidade as questões da identidade nacional e da condição humana num contexto de modernização.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Lêdo Ivo foi marcada pela sua dedicação à escrita e à cultura. Casado e pai de família, encontrou na estabilidade pessoal um alicerce para a sua criação literária. Manteve sempre uma postura discreta, mas ativa no meio intelectual, sendo respeitado pela sua erudição e pela sua integridade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lêdo Ivo obteve um reconhecimento significativo ao longo da sua carreira, sendo agraciado com diversos prémios literários importantes, como o Prémio Camões em 2013 (atribuído postumamente) e o Grande Prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. A sua obra é amplamente estudada e respeitada pela crítica, sendo considerada fundamental para a poesia e a prosa contemporâneas em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Lêdo Ivo foi influenciado por autores como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira, mas desenvolveu uma voz poética singular e inconfundível. O seu legado reside na sua capacidade de aliar a tradição lírica com a modernidade, na profundidade da sua reflexão existencial e na beleza formal da sua escrita. Influenciou gerações de poetas e escritores brasileiros, e a sua obra continua a ser um farol na literatura contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lêdo Ivo é frequentemente analisada sob a ótica da sua profunda meditação sobre a memória e o tempo, a sua capacidade de capturar a essência da paisagem e da alma nordestina, e a universalidade das suas preocupações existenciais. A sua poesia é um convite à contemplação da fragilidade da existência humana e à busca por sentido num mundo em constante mutação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua obra é a forma como a memória e a identidade se entrelaçam com a paisagem, criando uma forte conexão entre o eu lírico e o espaço geográfico. A sua discrição pessoal contrastava com a força e a eloquência da sua obra literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Lêdo Ivo faleceu no Rio de Janeiro, em 2012. A sua morte foi lamentada pelo mundo literário brasileiro e português. A sua vasta obra continua a ser publicada e reeditada, garantindo a sua memória e a sua permanente relevância na literatura em língua portuguesa.