Lista de Poemas

Planta de Maceió

O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.

3 309

Os Peixes

Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.

1 631

O Portão

O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.

The Gate Poema em Inglês

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A Recompensa

Eis a dádiva da noite:
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa
na noite misteriosa.

1 295

Advertência a um Gavião

O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.

1 010

Haicai

Noite de Domingo

Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.

O Lago Habitado

Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.

1 871

Os Morcegos

Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?

A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.

Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?

No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.

Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oitoirmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.

The Bats Poema em Inglês

2 145

Postal de uma Batalha

Postcard From A Battle

É aqui, nesta cama, que a guerra começa.
Lutam os dois guerreiros
num campo de panos.
Como separar frente e dorso
se todo amo r é um espelho?
O róseo obelisco iguala o negro esgoto
na praça quadrilátera.
Dentro do dia, a noite não distingue
macho ou fêmea. E a boca se faz gruta
na selva clara onde dois bichos
se mordem e se lambem.

It is here, In this bed, that the war begins.
The two warriors struggle
on a field of sheets.
How to separate front from back
If ali love is a mirror?
On the four-sided field
the roseate obelisk is the same as the black drain.
Inside the day, night does not distinguish
male from female. And the mouth becomes a cave
in the clear jungle where two beasts
bite and lick each other.

904

Um hospital em Amsterdam

Ziekenhuis in Amsterdam

As janelas do hospital
eram olhos fechados
de cego ou moribundo.
E eu passava na rua
como quem traz
um ramalhete de flores.
Atrás das janelas
a morte dormia
e eu temia acordá-la
com os meus passos
de intruso.

De ramen van het ziekenhuis
waren gesloten ogen
van een blinde of een sterven
En ik liep door de straat
als wie een bos
bloernen brengt.
Achter de ramen
sliep de dood
die ik vreesde te weeken
met mijn stap
van indringer.

1 256

A Marmita

Em sua marmita
não leva o operário
qualquer metafísica.
Leva peixe frito,
arroz e feijão.
Dentro dela tudo
tem lugar marcado.
Tudo é limitado
e nada é infinito.
A caneca dágua
tem espaço apenas
para a sua sede.
E a marmita é igual
à boca do estômago,
feita sob medida
para a sua fome.
E quando termina
sua refeição,
ele ainda cata
todas as migalhas,
todo esse farelo
de um pão que suasse
durante o trabalho.
Tudo quanto ganha
o operário aplica
como um capital
em sua marmita.
E o que ele não ganha
embora trabalhe
é outro capital
que também investe:
palavra que diz
em seu sindicato,
frase que se escreve
no muro da fábrica,
visão do futuro
que nasce em seus olhos
que só com fumaça
se enchem de lágrimas.
Em sua marmita
não leva o operário
o caviar de
qualquer metafísica.
E sendo ele o mais
exato dos homens
tudo nele é físico
e material,
tem seu nome e forma,
seu peso e volume,
pode-se pegar.
Seu amor tem saia
pêlos e mucosas
e, fecundo, faz
novos operários.
As coisas se medem
pelo seu tamanho:
sono, mesa, trave.
No trem ou no bonde
nenhum operário
pode se espalhar
sem fazer esforço.
É como no mundo:
— tem que empurrar.
Vasilhame cheio
de matéria justa,
sua vida é exata
como uma marmita.
Nela cabe apenas
toda a sua vida.
E não cabe a morte
que esta não existe,
não sendo manual,
não sendo uma peça
de recauchutar.
(Artigo infinito,
sem ferro e sem aço,
qualquer um a embrulha
sem usar barbante
ou papel almaço.)
Fabril e imanente
o operário vive
do que sabe e faz
e, sendo vivente,
respira o que vê.
O tempo que o suja
de óleo e fuligem
é o mesmo que o lava,
tempo feito de água
aberta na tarde
e não de relógio.
E a própria marmita
também é lavada.
E quando ele a leva
de volta pra casa
ela, metal, cheira
menos a comida
do que a operário.

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Jéssica
Jéssica

Qual Foi a Primeira Obra Dele?

Identificação e contexto básico

Antônio Lêdo Ivo Brandão, conhecido como Lêdo Ivo, é um proeminente poeta, romancista, contista, ensaísta e jornalista brasileiro. Nasceu em Maceió, Alagoas, a 18 de fevereiro de 1924, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de abril de 2012. É considerado um dos grandes nomes da poesia brasileira da segunda metade do século XX e um intelectual influente na vida cultural do país. A sua nacionalidade é brasileira e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Lêdo Ivo cresceu numa família de classe média, com forte inclinação para as artes e a literatura, o que influenciou a sua formação. Desde cedo demonstrou interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo a cultura local e os movimentos literários da época. A sua formação académica incluiu o curso de Direito, que concluiu em 1947 na Universidade de Recife, mas a sua vocação literária sempre foi mais forte. A juventude em Maceió, com as suas paisagens e a cultura nordestina, marcou profundamente a sua obra futura.

Percurso literário

O percurso literário de Lêdo Ivo iniciou-se com a publicação do seu primeiro livro de poemas, "As Imaginações do Ouvinte", em 1944. Ao longo das décadas seguintes, consolidou a sua carreira como um escritor multifacetado, transitando com mestria entre a poesia, a prosa e o ensaio. Foi também jornalista e crítico literário, colaborando em diversos jornais e revistas. A sua obra poética é marcada por uma evolução constante, que partiu de influências modernistas para um lirismo mais pessoal e universal. Atuou também como tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lêdo Ivo abrange diversos géneros literários. Na poesia, destacam-se "A Poeira e a Rosa" (1958), "O Açúcar" (1971) e "O Ímpio" (2002). Os seus romances, como "As Alquimias" (1960) e "O Profeta e o Vulcão" (1986), exploram a condição humana e a busca por sentido. O seu estilo é caracterizado por um lirismo contido, pela elegância formal e pela profundidade da reflexão sobre temas como a memória, o tempo, a fugacidade da vida e a identidade. A paisagem nordestina, com a sua secura e a sua força, é frequentemente um cenário e um símbolo na sua obra. Lêdo Ivo utiliza uma linguagem precisa e evocativa, com uma musicalidade singular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Lêdo Ivo integrou a segunda geração do Modernismo brasileiro, embora a sua obra tenha transcendido as amarras de qualquer movimento específico. Viveu um período de efervescência cultural no Brasil, participando ativamente no debate intelectual e literário. A sua obra reflete as tensões e as transformações sociais e políticas do Brasil ao longo do século XX, abordando com sensibilidade as questões da identidade nacional e da condição humana num contexto de modernização.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Lêdo Ivo foi marcada pela sua dedicação à escrita e à cultura. Casado e pai de família, encontrou na estabilidade pessoal um alicerce para a sua criação literária. Manteve sempre uma postura discreta, mas ativa no meio intelectual, sendo respeitado pela sua erudição e pela sua integridade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lêdo Ivo obteve um reconhecimento significativo ao longo da sua carreira, sendo agraciado com diversos prémios literários importantes, como o Prémio Camões em 2013 (atribuído postumamente) e o Grande Prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. A sua obra é amplamente estudada e respeitada pela crítica, sendo considerada fundamental para a poesia e a prosa contemporâneas em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Lêdo Ivo foi influenciado por autores como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira, mas desenvolveu uma voz poética singular e inconfundível. O seu legado reside na sua capacidade de aliar a tradição lírica com a modernidade, na profundidade da sua reflexão existencial e na beleza formal da sua escrita. Influenciou gerações de poetas e escritores brasileiros, e a sua obra continua a ser um farol na literatura contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lêdo Ivo é frequentemente analisada sob a ótica da sua profunda meditação sobre a memória e o tempo, a sua capacidade de capturar a essência da paisagem e da alma nordestina, e a universalidade das suas preocupações existenciais. A sua poesia é um convite à contemplação da fragilidade da existência humana e à busca por sentido num mundo em constante mutação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua obra é a forma como a memória e a identidade se entrelaçam com a paisagem, criando uma forte conexão entre o eu lírico e o espaço geográfico. A sua discrição pessoal contrastava com a força e a eloquência da sua obra literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Lêdo Ivo faleceu no Rio de Janeiro, em 2012. A sua morte foi lamentada pelo mundo literário brasileiro e português. A sua vasta obra continua a ser publicada e reeditada, garantindo a sua memória e a sua permanente relevância na literatura em língua portuguesa.