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Poemas neste tema

Liberdade

Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - As Cigarras

Enchia a manhã da aldeia
o outono estridente
das cigarras sonoras.
Me acerquei: as cativas
em suas pequenas jaulas
eram a companhia dos meninos,
eram o violoncelo inumerável
da pequena aldeia
e da China o rumor
e o movimento de ouro.

Divisei apenas às prisioneiras
em suas jaulas minúsculas
de bambu fresco,
mas quando voltei para partir,
os camponeses
puseram o castelo de cigarras
em minhas mãos.

Recordo em minha infância os peões
do trem em que meu pai trabalhava,
os coléricos filhos
da intempérie, apenas
vestidos com farrapos,
os rostos maltratados pela chuva ou a areia,
as testas divididas
por cicatrizes ásperas,
e eles me levavam
ovos empavonados de perdiz,
escaravelhos verdes,
cantáridas de cor de lua,
e todo esse tesouro
das mãos gigantes maltratadas
às minhas mãos de menino,
tudo isso
me fez rir e chorar,
me fez pensar e cantar,
lá nos bosques
chuvosos
de minha infância.

E agora
estas cigarras
em seu castelo de bambu oloroso,
do fundo da terra chinesa,
rascando sua estridente
nota de ouro,
chegavam às minhas mãos
de mãos batizadas pela pólvora
que conquistou a liberdade, chegavam
lá das amplas terras
libertadas,
mas eram as mãos do povo,
as grandes mãos,
que nas minhas deixavam
seu tesouro.
Eu recordei minha infância
e quando pela terra
fui medindo
e cantando,
mas nada,
nada
como isto,
este tesouro vivo.
E então comigo andaram,
me acompanharam
durante meus dias de China.

Na manhã, em minha peça de hotel,
trinta cigarras
diziam meu nome
com um som agudo
de aço verde
e eu lhes dava folhas
que comiam,
tirando de suas jaulas pequenas máscaras
de guerreiros pintados, e na tarde,
quando nas vastas terras
o sol tombava,
um dia mais havia afirmado na pátria
a liberdade do povo.

Em minha janela
as cigarras com uma só voz
metálica
cantavam
paia os campos,
para os meninos,
para as outras cigarras,
para as folhas e para as colheitas,
para toda a terra:
despediam o dia
com a altura incrível de seu canto,
e assim, de minha janela,
de dia e de noite,
te saudava, China,
uma voz da terra
que as mãos do povo
me entregaram,
uma multiplicada voz que vai cantando
comigo, nos caminhos.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Voando Para o Sol

Desde as extensões enrugadas
do Norte, Noroeste, fui voando
até Pequim alaranjado e verde.
Yennan sob meu voo
era uma só casca amarela
de lua mineral e de vazio.
Os motores e o vento,
o sol aéreo,
saudaram a terra sagrada,
as covas desde onde
a liberdade acumulou sua pólvora.
Já os heróis não estavam
entre as cicatrizes da terra:
sua semente
alta e livre crescia
debulhada e reunida.
Ardia a pele seca
do deserto de Gobi, as regiões
das fronteiras lunares,
os ramos arenosos
de teu largo mundo, China,
até que o vôo baixo
decifrou as campinas,
as águas, os jardins,
e de repente em tua margem,
Pequim, antigo e novo,
me recebeste. Então
rumor de terra e trigo e primavera,
passos nos caminhos,
ruas povoadas até o infinito,
como se reunisses
num copo puro
todo o rumor da água
para mim levantaste
as vidas de teu povo:
os agudos silvados,
os ruídos do aço,
tremor de céu e seda.
Eu levantei em meu copo
tuas numerosas vidas
e o antigo silêncio.

Era o dom que me davas, uma força
de antiga pedra que canta,
de velho rio que fecunda
a jovem primavera.

Vislumbrei de repente
a velha árvore do mundo
coberta de flores e frutas.
Ouvi de repente
o rio da vida
passar cumulado e firme
de idiomas cristalinos.
Bebi em teu antigo copo
a dura transparência,
o novo dia:
sabor de estrela e terra se fundiram
em minha boca. E divisei teu rosto entre os rostos,
antiga e jovem mãe
sorridente,
semeando com teu traje de guerrilha,
e resguardando o trigo
e a paz de teu povo
com teu sorriso armado
e tua doçura de aço.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - o Pastor Perdido

Chamava-se Miguel. Era um pequeno
pastor das margens
de Orihuela.
Amei-o e coloquei sobre seu peito
minha masculina mão,
e cresceu sua estatura poderosa
até que na aspereza
da terra espanhola
se destacou seu canto
como um brusco carvalho
no qual se juntaram
todos os enterrados rouxinóis,
todas as aves do sonoro céu,
o esplendor do homem duplicado
no amor da mulher amada,
o zumbido oloroso
das loiras colmeias,
o ágrio cheiro materno
das cabras paridas,
o telégrafo puro
das cigarras vermelhas.
Miguel fez de tudo
— território e abelha,
noiva, vento e soldado —
barro para sua estirpe vencedora
de poeta do povo,
e assim saiu caminhando
sobre os espinhos de Espanha
com uma voz que agora
seus carrascos
têm que ouvir, escutam,
aqueles
que conservam as mãos
maculadas
com seu sangue indelével,
ouvem seu canto
e julgam
que é só terra
e água.
Não é certo.
É sangue,
sangue,
sangue de Espanha, sangue
de todos os povos de Espanha,
é seu sangue que canta
e nomeia e chama,
nomeia todas as coisas
porque a tudo ele amava,
mas essa voz não esquece,
esse sangue não esquece
de onde vem
e para quem canta.
Canta
para que se abram os cárceres
e ande a liberdade pelos caminhos.
Chama-me
para mostrar todos os lugares
por onde o arrastaram,
a ele, luz dos povos,
relâmpago de idiomas,
para mostrar-me
o presídio de Ocaña,
ali onde gota a gota
o sangraram,
ali onde cercearam
sua garganta,
ali onde o mataram sete anos
encarniçando-se
em seu canto
porque quando mataram esses lábios
apagaram-se as lâmpadas de Espanha.

E assim me chama e me diz:
“Aqui me justiçaram lentamente”
Assim o que amou e levava
sob sua pobre roupa
todos os mananciais espanhóis
foi assassinado sob
a sombra dos muros
enquanto tocavam todos os sinos
em honra do carrasco,
mas
os acasos
deram olor ao mundo aqueles dias
e aquele aroma era
o coração martirizado
do pastor de Orihuela
e era Miguel seu nome.

Aqueles dias e anos
enquanto agonizava,
na história
sepultou-se a luz,
mas ali palpitava
e amanhã voltará.
Aqueles dias e séculos
em que a Miguel Hernández
os carcereiros
deram tormento e agonia,
a terra sentiu falta
de seus passos de pastor sobre os montes
e o guerrilheiro morto,
ao tombar, vitorioso,
escutou da terra
levantar-se um rumor, um latejo,
como se entreabrissem as estrelas
de um jasmim silencioso:
era a poesia de Miguel.
Do fundo da terra falava,
do fundo da terra
falará para sempre,
é a voz de seu povo,
ele foi entre os soldados
como uma torre ardente.

Ele era
fortaleza
de cantos e estampidos,
foi como um padeiro:
com suas mãos
fazia seus sonetos,
Toda sua poesia
tem terra porosa,
cereais, areia,
barro e vento,
tem forma
de jarra levantina,
de anca fornida,
de barriga de abelha,
tem aroma
de trevo na chuva,
de cinza amaranto,
de fumaça de esterco, tarde
nas colinas.
Sua poesia
é milho agrupado
numa espiga de ouro,
é vinha de uvas negras, é garrafa
de cristal deslumbrante
cheia de vinho e água, noite e dia,
é espiga escarlate,
estrela anunciadora,
foice e martelo escritos com diamantes
na sombra de Espanha.

Miguel Hernández, toda
a alaranjada greda ou levedura
de tua terra e teu povo
reviverá contigo.
Tu a guardaste
com a mão mais tarda, na agonia,
porque estavas feito
para o amanhecer e a vitória,
estavas feito de água e terra virgem,
de assombro insaciável,
de plantas e de ninhos.
Eras
a germinação invencível
da matéria que canta,
eras
pátria da inteireza e dispuseste
contra os inimigos,
o mouro e o franquista,
uma mão pesada
cheia de trepadeiras e metais.
Com tua espada nos braços, invisível,
morrias,
mas não estavas só.
Não só a erva queimada
nas pobres colinas de Orihuela
espargiram tua voz e teu perfume
pelo mundo.
Teu povo parecia
mudo,
não fitava
tua morte,
não ouvia
as missas do desprezo
mas, anda,
anda e pergunta,
anda e vê se há alguém
que não saiba teu nome.

Todos sabiam,
nos cárceres,
enquanto os carcereiros
jantavam com Cossío,
teu nome.
Era um fulgor molhado
pelas lágrimas
tua voz de mel selvagem.
Tua revolucionária
poesia
era, em silêncio, na cela,
de um cárcere a outro,
repetida,
entesourada,
e agora
desponta o germe,
sai teu grão à luz,
teu cereal violento
acusa,
em cada rua,
tua voz toma o caminho
das insurreições.

Ninguém, Miguel, te esqueceu.
Aqui te levamos todos
na metade do peito.

Filho meu, recordas
quando
te recebi e te coloquei
minha amizade de pedra nas mãos?
Pois bem, agora,
morto,
tudo me devolves.
Cresceste e crescido,
és,
és eterno,
és Espanha,
és teu povo,
já não podem matar-te.
Já levantaste
teu peito de celeiro,
tua cabeça
cheia de raios vermelhos,
já não te detiveram.
Agora
querem meter-se
como frades tardios
em tua lembrança,
querem regar com baba
teu rosto, guerrilheiro comunista.
Não podem.
Não os deixaremos.
Agora
fica puro,
fica silencioso,
permanece sonoro,
deixa
que rezem,
deixa
que caia o fio negro
de seus catafalcos podres
e bocas medievais.
Não sabem outra coisa.
Já chegará
teu vento,
o vento do povo,
o rosto de Dolores,
o passo vitorioso
de nossa nunca morta
Espanha,
e então,
arcanjo das cabras,
pastor caído,
gigantesco poeta de teu povo,
filho meu,
verás
que teu rosto enrugado
estará nas bandeiras,
viverá nas vitórias,
reviverá quando reviva o povo,
marchará conosco sem que ninguém
possa jamais separar-te do regaço de Espanha.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Polícia

Nós somos
da polícia.
— E você? Quem é?
Donde vem, aonde
pretende dirigir-se?
Seu pai? Seu cunhado?
Com quem dormiu as sete noites últimas?
— Eu dormi com meu amor, eu sou talvez,
talvez, talvez,
sou da Poesia —
E assim uma gôndola
mais negra que as outras
atrás de mim os transportou em Veneza,
em Bolonha, na noite,
no trem: sou uma sombra errante
seguida pela sombras.
Eu vi em Veneza, erguido o Campanile
elevando entre as pombas de São Marcos
seu tricórnio de polícia.
E Paulina, nua, no museu,
quando beijei sua bela boca fria
me disse: Tem em ordem seus papéis?
Na casa de Dante
sob os velhos telhados florentinos
há interrogatórios, e David
com seus olhos de mármore, sem pupilas
se esqueceu de seu pai, Buonarrotti,
porque o compelem diariamente a contar
o que com olhos cegos fitou.
No entanto aquele dia
em que me trasladaram à fronteira suíça
a polícia se deu conta de repente
que lhe saía no encalço
a militante poesia.
Não esquecerei a multidão romana
que na estação, de noite,
arrancou-me das mãos
da perseguidora polícia.

Como esquecer o gesto guerrilheiro
de Guttuso e o rosto de Giuliano,
a onda de ira, o soco nos narizes
dos sabujos, como esquecer Mário,
de quem no exílio
aprendi a amar a liberdade da Itália,
e agora irada sua cabeça branca
divisei confundindo-se
no mar agitado
de meus amigos e de meus inimigos?
Não esquecerei o pequeno
guarda-chuva de Elsa Morante
caindo sobre um peito policial
como a pesada pétala
de uma força florida.
E assim na Itália
por vontade do povo,
peso de poesia,
firmeza solidária,
ação da ternura
ficou meu destino.
E assim foi como
foi este livro nascendo
rodeado de mar e limoeiros,
escutando em silêncio,
detrás do muro da polícia,
como lutava e luta,
como cantava e canta
o valoroso povo
que ganhou uma batalha para que eu pudesse
descansar na ilha que me esperava
com um ramo em flor de jasmim na sua boca
e em suas pequenas mãos a fonte de meu canto.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Anjo Soviétivo

Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.

Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.

Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.

E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
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