Poemas neste tema
Liberdade
Vinicius de Moraes
A Partida
Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
1 312
Vinicius de Moraes
Místico
O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização...
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.
Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas —
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz —
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.
No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.
Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Porque as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?
Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...
Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a ideia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.
Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.
Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização...
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.
Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas —
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz —
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.
No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.
Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Porque as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?
Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...
Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a ideia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.
Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.
Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.
1 201
Martha Medeiros
a verdadeira mulher liberada
a verdadeira mulher liberada
não é a que deita sem ser casada
que toma um drinque depois das seis
que fez plástica mais de uma vez
que dirige uma empresa privada
que sai à noite sem ser escoltada
que não é financiada pelo seu ex
liberada é quem recusa clichês
e não dá queixa por ter sido cantada
não é a que deita sem ser casada
que toma um drinque depois das seis
que fez plástica mais de uma vez
que dirige uma empresa privada
que sai à noite sem ser escoltada
que não é financiada pelo seu ex
liberada é quem recusa clichês
e não dá queixa por ter sido cantada
1 393
Martha Medeiros
quando é que se decreta
quando é que se decreta
é hoje que sou feliz
quando é que se diz
que se fez a descoberta
quando é que se é indiscreta
e se põe os pingos nos is
quando é que esta força motriz
finalmente liberta
quando é que a dor não aperta
e se deixa de ouvir Elis
quando é que os sonhos juvenis
de outro modo se interpreta
quando é que de forma concreta
eu deixo de ser uma miss
quando é que eu corto a raiz
e passo a sonhar desperta
quando é que se fica esperta
e se passa a viver por um triz
quando é que eu chamo os guris
e deixo minha porta aberta
é hoje que sou feliz
quando é que se diz
que se fez a descoberta
quando é que se é indiscreta
e se põe os pingos nos is
quando é que esta força motriz
finalmente liberta
quando é que a dor não aperta
e se deixa de ouvir Elis
quando é que os sonhos juvenis
de outro modo se interpreta
quando é que de forma concreta
eu deixo de ser uma miss
quando é que eu corto a raiz
e passo a sonhar desperta
quando é que se fica esperta
e se passa a viver por um triz
quando é que eu chamo os guris
e deixo minha porta aberta
1 176
Martha Medeiros
se eu quisesse
se eu quisesse
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade
andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria às vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distribuiria beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro
faria tudo isso
se eu quisesse mesmo
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade
andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria às vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distribuiria beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro
faria tudo isso
se eu quisesse mesmo
1 027
Martha Medeiros
de um rali que escapei
de um rali que escapei
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha
1 143
Martha Medeiros
não quero mudar o sobrenome
não quero mudar o sobrenome
que carrego sustentando meu nome ateu
ele pode vir, eu deixo dormir na minha cama
mas não quero nada dele
que já não seja meu
que carrego sustentando meu nome ateu
ele pode vir, eu deixo dormir na minha cama
mas não quero nada dele
que já não seja meu
1 183
Martha Medeiros
marquei um encontro com o destino
marquei um encontro com o destino
mas cheguei antes da hora e não deu pra esperar
segui outro caminho e fui dar o que falar
mas cheguei antes da hora e não deu pra esperar
segui outro caminho e fui dar o que falar
1 107
Martha Medeiros
odeio
odeio
a ignorância dessa aldeia
escapo pelas frestas
embarco em outros voos
já tenho minhas passagens
secretas
a ignorância dessa aldeia
escapo pelas frestas
embarco em outros voos
já tenho minhas passagens
secretas
1 037
Martha Medeiros
quanto mais escrava
quanto mais escrava
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita
1 150
Martha Medeiros
o caminho é este
o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
fui.
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
fui.
1 137
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Ninfa
Branca.
Branca era a ninfa,
Branca e prisioneira
E impaciente.
Branca era a ninfa,
Branca e prisioneira
E impaciente.
1 347
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Estes Os Dias do Novo Estio Deslumbrado
Quando depomos as grades e as barreiras
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
1 064
Sophia de Mello Breyner Andresen
És Como a Terra-Mãe Que Nos Devora
Prendendo a nossa vida no seu peso.
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
1 513
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ode À Maneira de Horácio
Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida
1 129
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cá Fora
Abre a porta e caminha
Cá fora
Na nitidez salina do real
Junho de 1994
Cá fora
Na nitidez salina do real
Junho de 1994
1 678
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fechei À Chave
Fechei à chave todos os meus cavalos
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
1 335
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Deserto
Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
1 626
Sophia de Mello Breyner Andresen
Promessa
Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.
1 152
Adélia Prado
Outubro
El macaquito diria
se falasse espanhol
mas só sei português
e bater um coco no outro
ignorante e atrevida.
Outubro me dá desejos
secretos e confessáveis.
Grito alto
pelos mesmos motivos das cigarras.
se falasse espanhol
mas só sei português
e bater um coco no outro
ignorante e atrevida.
Outubro me dá desejos
secretos e confessáveis.
Grito alto
pelos mesmos motivos das cigarras.
1 244
Adélia Prado
Poema Com Absorvências No Totalmente Perplexas de Guimarães Rosa
Ah, pois, no conforme miro e vejo,
o por dentro de mim,
segundo o consentir
dos desarrazoados meus pensares,
é o brabo cavalo em as ventas arfando,
se querendo ir,
permanecido apenas no ajuste das leis do bem viver
comum,
por causa de uma total garantia se faltando em quem
m’as dê.
Ad’ formas que em tréguas assisto e assino
e o todo exterior desta minha pessoa recomponho.
Porém chega o só sinal mais leve
de que aquilo ou isso é verdadeiro
pra a reta eu alimpar com o meu brabo cavalo.
Ara! que eu não nasci pra permanência desta duvidação,
mas só para o ser eu mesmo, o de todo mundo desigual,
afirmador e consequente, Riobaldo, o Tatarana.
Ixi!
o por dentro de mim,
segundo o consentir
dos desarrazoados meus pensares,
é o brabo cavalo em as ventas arfando,
se querendo ir,
permanecido apenas no ajuste das leis do bem viver
comum,
por causa de uma total garantia se faltando em quem
m’as dê.
Ad’ formas que em tréguas assisto e assino
e o todo exterior desta minha pessoa recomponho.
Porém chega o só sinal mais leve
de que aquilo ou isso é verdadeiro
pra a reta eu alimpar com o meu brabo cavalo.
Ara! que eu não nasci pra permanência desta duvidação,
mas só para o ser eu mesmo, o de todo mundo desigual,
afirmador e consequente, Riobaldo, o Tatarana.
Ixi!
1 403
Carlos Drummond de Andrade
Epístola
E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
991
Carlos Drummond de Andrade
A Um Viajante
Eu vi você flutuando
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
1 177
Carlos Drummond de Andrade
Duração
O tempo era bom? Não era.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.
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