Literatura e Palavras
Raquel Nobre Guerra
Pelicano
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro do Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em Deus
por mim
Enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi
que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio -
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como um texto
e sacro
Manuel António Pina
Que dia? Que olhar?
e já todos se tinham ido embora
restavam paeis velhos, vidas mortas,
identidade, sujidade, eternidade.
Comeram o meu corpo e
beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;
e escreveram a minha Obra Completa;
sobro, desapossado, eu.
Resta-me ver televisão,
votar, passear o cão
(a cidadania!). Prosa também podia,
e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.
Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort?
Dar em aforista ou ainda pior?
Mudar de cidade? Desabitar-me?
Posmodernizar-me? Experienciar-me?
Com que palavras e sem que palavras?
Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam
por salões vazios e incendiados
entregando-se a guionistas e aparentados.
Cheira excessivamente a morte por aqui
como no fim de uma batalha cansada
de feridas antigas, e eu sobrevivi
do lado errado e pela razão errada.
"Que dia? Que olhar?"
(Beckett, "Dias felizes")
Que feridas? Que estanda-
te? Que alheias cicatrizes?
Estou diante de uma porta (de uma forma)
com o - como dizer? - coração
(um sítio sem lugar, uma situação)
cheio de palavras últimas e discórdia.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 304 e 305 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
O homem de Munique
Nuno Júdice
Uma palidez de alma
em formação - e do centro se desprende ile-
gível luz. Com as mãos rasgo o limite, também
eu entro na oca circunferência onde a lira
doente tocou o ocaso.
O silêncio substitui a exuberante vegetação
das vozes. Amortalha o horizote um crepúsculo
de risos. Entre sombras, vagueia ainda o corpo
opaco do mudo mensageiro, cujo regresso saudei
da submarina folhagem.
Na lenta enumeração os meus olhos se fixam.
Do acaso a distante música os atinge; rodam
suspensos da cavidade do rosto. Um jorro
branco irrompe o som,
e da ferida aberta os lábios omitem o verso.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 20 | Na regra do jogo, 1982
Raquel Nobre Guerra
Uma vez ofereceste-me bananas
flores para ti, vinha escrito.
Percebo bem a inutilidade da poesia
como de resto a literatura que finge
a mínima desordem dos mundos
o que importa é fingir uma pose.
Explico.
O mais extremo acto de egoísmo:
ter a dimensão própria da caricatura
e endossá-la aos outros.
O que toca a afinal e a quem, que sejamos sinistros?
E o amor um candeeiro de rua frouxo que à nossa passagem se desliga.
Dou conta dos perecíveis.
De ti sabe-se que tinhas um jeito especial
de dar bailinho aos deuses com as mãos
enquanto eu de nariz espetado nesse cima
preferia o abandono onde nada me faltava.
Entendo agora que as bananas dormem com as tuas mãos debaixo da terra e que o nosso amor flutua ainda na calcite.
O mundo, seja como for, cabe nisto.
E eu corro para casa com um bouquet de flores mas tu não estás.
Nada que não estivesse previsto,
heartbreakers, love comes in spurts.
Manuel António Pina
A leitura
ave imortal não nascida para morrer
que imovelmente me fita da lembrança,
alguma voz anterior fala no que posso escrever
e no que posso ler; talvez o anjo cabalístico
tocando-me o lábio superior ao nascer
me tenha condenado ao destino paroxístico
e ocioso de repetir, repetir, repetir,
até, puro de novo, me calar por fim,
eu que, com minhas mãos, matei o albatroz,
que culpa penará então a minha alheia voz
dos meus versos, nos vossos errando sem mim?
Não, não me peçais ainda concordância,
estarei ocupado de mais à minha escuta
no coração e na boca, no oiro e na cicuta,
e na escuridão dos livros, talvez os da minha infância.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 308 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Nenhuma coisa
é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.
Desta maneira (e doutras -
a carne é triste, hélas, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?
Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 17 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Os tempos não
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.
Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 11 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Silêncio e escuridão e nada mais
Edificarei a minha igreja sobre as tuas ruínas
Tenho um coração mortal um coração
fora de si como um marido irado
Dentro da casa se instala
a descomunal traição.
Eu sou aquele que rouba, o marido,
o caluniador, abri-vos portas de ouro...
Que deus me perdoará os meus erros humanistas?
Quebrada a espada já, rota
a Armadura, a Beleza, a Regra (Ó Ciência! Ó Cólera!)
Como escreverei? Sem que palavras? Quem? Qual?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 20 | Assírio & Alvim, 2012
Raquel Nobre Guerra
Aprendi a tranquilidade
com o domínio de um coração baixo.
De me perturbar menos a posição astrológica
de certas palavras no coração do verso.
Houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse humor
que me cheguei de cara toda à carcaça
julgando que o bife na mesa fosse meu.
Mas a natureza morta da metáfora
não me deu talho para o poema.
Sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre nós
como um sol mobilizado para a morte.
Sei, porque me chego para a frente com força
que o poeta transporta um saco de luz
com um coração doente que canta
mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro.
Que não me falhe a pontaria na hora de traçar
uma obra futura para nutrimento do espírito
- essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja mais
que cair na tentação de durar por escrito.
Minto, porque cedo ao poder das palavras
o que trago no saco são coisas remendadas
que vou deixando cair.
Se ao menos tivesse dois ou três dentes de ouro
e na lei que me confere vencida a ética
fizesse, como tu, felizes tantas bocas.
Mas aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço sombrio
um príncipe melancólico com abalos de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher
a correr urgências psiquiátricas para arranjar namoradinho.
Reconheço, no meio disto, a cantiga do bandido.
Se ao menos aprendesse a bravura dos recrutas:
Vá - pago um copo / a quem disser que me ama!
Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob mim.
Corrijam-me se estiver errada
mas a razão comovida de tudo
podia começar por aqui.
Agradecer aos destroços, abrir lume,
destinar-lhe estas últimas sete palavras.
Ser convicto enfim mesmo sem saber como.
Raquel Nobre Guerra
É evidente que nos mentem
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
Manuel António Pina
Passagem
é possível estar assim tão perto do fogo,
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?
Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palvras são de mais?
Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e como diremos rios?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 378 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Já não é possível
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?
O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.
Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 12 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
A mensagem do teu
salta bip o parapeito que nos separa
e habita urgentemente nos meus olhos
e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos
para a saudade publicada na tua cara
com slogans de néon interior
Sei que sabes uma palavra indecente
e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse
a tua roupa de dentro
Sei o que pensas sei o que fazes
sei coisas que tu mesma não sabes
Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim
afinal de contas é sargento de infantaria?
Mas deixa lá homens é o que há mais
E (sabes?) os oficiais
O morse lábio bip bip noticia:
ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA
E sei pormenores da tua respiração
concretos, fotografias
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 51 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Sob o tampo do poema
do cipreste. O vento frio puxava-lhe os cabelos para cima
do chapéu negro. Punha os óculos, apoiava-se ao muro.
Do outro lado um sinistro oceano impunha-lhe a vocação,
o sonho; bebia os pequenos barulhos terrestres
como quem se despede. Começou, finalmente, a reparar
na espessura das suas próprias mãos. O trabalho de segurar
a caneta sobre o papel gastara-lhes a pele. Levantou-as
à altura dos olhos e, através delas, viu o escuro traçado
do horizonte. Ficou assim, foi assim que o encontraram
os vorazes animais da morte. Mas a boca mexeu-se ainda
durante dias e noites sucessivas: "Poesia... poesia."
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 188 | Quetzal Editores, 1999
Manuel António Pina
A carta com cinco anos de atraso (ou mais)
É o primeiro dos "meus" dois poetas por aqui, a viver um aniversário de vida/morte desde que estou com eles. E estou com os "meus" poetas desde o principio da manhã do dia 28 de Agosto deste ano.
Não tenho por hábito assinalar/comemorar a morte, apenas as datas de nascimento. Mas esta situação é especial. E o Pina é muito especial para mim. Por várias razões. E sobressai uma: o ter aprendido a gostar dele, que foi e é uma luta boa.
Foi um poeta que me passou mais ou menos despercebido até à data em que se soube da doença que o matou.
Nessa altura aparecera-me como alguém tímido, discreto e triste. (Os poetas serão todos tristes ou carregarão mais tristeza? Ou talvez se importem menos que a tristeza se note... Não sei.)
Mas não sabia se esse quadro que eu lhe colara se devia à doença ou se o Manel já era assim. Sei que nessa época comecei a sentir imensa pena de não o ter conhecido pessoalmente, o que continuo a sentir, mas agora em dobro.
De vez em quando subia-me a vontade de ir à procura de mais um texto e aos poucos fui construindo a ideia de que a poesia pode ser o equivalente a 'um sítio onde pousar a cabeça', uma expressão muito feliz do Manel. E agora estou a pensar nas razões de eu gostar de poesia... Uma, quando sou eu a rabiscar, é a de me permitir dizer coisas que não posso nem consigo dizer de outra forma. Outra razão, e esta tem que ver com o chegar-me aos poetas, é poder rever-me e reencontrar-me naquilo que outros escreveram. O bonito, o belo, o beber 'só' porque é bonito e belo, é outra razão; o estético pela palavra ou na palavra. A reinterpretação do mundo, também. E outros motivos haverá, que direi depois.
Quase a meio de Julho de 2016, mais precisamente no dia 12, na Lisboa à beira rio que me encanta, ofereceram-me uma antologia do Pina. "Todas as palavras - poesia reunida: 1974 -2011", numa lindíssima capa revestida a mar, que é uma pintura de Ilda David.
Essa foi a grande oportunidade de mergulhar mais fundo na poesia do Manel e de começar a entender melhor o estilo, os temas favoritos - escreveu muito para gatos e sobre gatos, por exemplo... tal como o geninho, que até lhes dedicou um livro... o que estes animais terão de tão especial para os poetas? - as cartas/poemas que escreveu para os amigos poetas.
E em boa parte foi este livro que me levou a propor ser "editora" (isto soa a tão sério!) do Manuel António Pina. Recordo-me de dizer no mail de adesão que era uma boa forma de rentabilizar o material que tinha, ao mesmo tempo que confessava não ser um dos meus poetas favoritos. Hoje já não diria isso porque as muitas leituras que tenho feito da obra e sobre a vida dele, fizeram com que o perspectivasse de outra forma. Há nele uma sensibilidade que eu desconhecia e que tem sido muito bom descobrir.
Tenho-me detido na forma do Manel interpretar a solidão e este é um dos lados surpreendentemente bons da poesia dele. E é também por isto que tenho pena que não tenha vivido mais anos. É que depois de ter lido muitos dos seus escritos, há em mim uma sensação muito forte de que o "meu" poeta tinha ainda muito para escrever sobre a solidão e que esta fase da vida lhe iria permitir fazê-lo de uma forma ainda mais apurada e talvez dizer muito do que ainda não tinha conseguido dizer. E esta é uma ideia muito forte que tenho.
Isabel Pires | 19 Outubro 2017
José Miguel Silva
Pedras e Morteiros
M.Tsvietaieva
Essa dos poetas, Senhora, com vocação
para apanhar no pelo, tem quase tanta graça
como a outra, de chamar vítimas às vítimas
oficiais do século XX. Como se a história
fosse um prato congelado e a moral
o restaurante onde se come mais barato.
Entretanto, nós somos acusados de atirar pedras.
Mas vede, Senhora, não são pedras, é o que resta
das nossas casas, abatidas por Golias.
Na mão que lhe estendemos deixou-nos esta funda.
Que mais podemos nós, senão utilizá-la?
Razão tem a pedra na conhecida fábula
da Pedra no Sapato quando diz:
todas as pedras são palestinianas.
José Miguel Silva
Poema com Apólogo Moral
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.
Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.
Manuel António Pina
As coisas
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 356 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Coração, sombras de quem?
e me falta sob as palavras
é o que me falta também onde
o coração verdadeiro falta?
A voz que fala,
a minha verdadeira voz de alguém,
é o silêncio que em
isto se cala?
E eu, ou quem?
O de mim, as palavras,
os gestos, o espaço?
Onde me pesas, cansaço?
Voz, a quem me falas?
Coração, sombras, de quem?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 114 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
[Tudo à minha volta ]
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira
o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.
A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.
Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,
como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?
É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.
Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.
Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Nocturno
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
Manuel António Pina
Arte poétca
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 309 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
O brilho das cinzas
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999