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Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Terremoto no Chile

O navio caminha na noite sem pés resvalando
na água sem fundo nem forma, na abóbada negra do mundo,
nas pobres cabinas o homem resolve suas mínimas normas,
a roupa, o relógio, o anel, os livros sangrentos que lê:
o amor escolheu seu esconderijo e a sombra entrelaça
um férreo relâmpago que cai frustrado no vazio
e em plena substância impassível resvala o navio
com um carregamento de pobres desnudos e mercadorias.

Ali, no começo da primavera marinha,
quando a ave assustada e faminta persegue a nave
e no sal aprazível do céu e da água aparece o aroma
do bosque da Europa, o cheiro da menta terrestre,
soubemos, amada, que o Chile sofria quebrado por um terremoto.
Deus meu, tocou o sino a língua do antepassado na minha boca,
outra vez, outra vez o cavalo iracundo pateia o planeta
e escolhe a pátria delgada, a beira do páramo andino
a terra que deu em sua angustura a uva celeste e o cobre absoluto
outra vez, outra vez a ferradura no rosto
da pobre família que nasce e padece outra vez o espanto e a greta,
o solo que separa os pés e divide o volume da alma
até fazê-la um lenço, um punhado de pó, um gemido.
Talvez és, Chile, a cauda do mundo, o cometa marinho
apenas colado ao assombro nevado da cordilheira
e o passo instantâneo de um átomo solto na veia magnética:
treme tua sombra de âmbar e tua geologia
como se o rechaço do Polo ao ímã de tuas vinhas azuis
fizesse o conflito, e tua essência, outra vez derramada,
outra vez deve unir sua desgraça e sua graça e nascer outra vez.

Pelos muros caídos, o pranto no triste hospital,
pelas ruas cobertas de escombros e medo,
pela mina que forma a sombra às doze do dia,
pela ave que voa sem árvore e o cachorro que uiva sem olhos,
pátria de água e de vinho, filha e mãe de minha alma,
deixa-me confundir-me contigo no vento e no pranto
e que o mesmo iracundo destino aniquile meu corpo e minha terra.

Oh sem par formosura do Norte deserto,
a areia infinita, os rastros metálicos dos meteoros,
a sombra cortando o desenho de sua geografia violeta
na clara paciência do dia vazio como uma basílica
na que estiveram sentadas as pedras caídas desde outro planeta:
a seu redor as colinas de colo irisado esperando e mais tarde
as estrelas mais frescas do mundo palpitam tão perto
que cheiram à sombra, a jasmim, à neve do céu.

Oh pampas desnudos, capítulos cruéis que só percorrem os olhos do ceibo2,
sem par é o nome do homem que cava na porta maldita
e rompe deixando suas mãos nos cemitérios
a crosta do astro escondido, nitrato, sulfato, bismuto,
e acima na neve deserta de cruzes a altura eriçada,
a entrega através de seu sangue o sangue maligno do cobre,
sem par é o nome do homem e modesto é seu suave costume,
se chama chileno, está acima e abaixo no fogo, no frio,
não tem outro nome e isso lhe basta, não tem sobrenome,
se chama também areal ou salitre ou quebranto
e somente se olhas suas mãos amargas saberás que é meu irmão.

Rosales, Ramírez, Machucas, Sotos, Aguileras,
Quevedos, Basoaltos, Urrutias, Ortegas, Navarros, Loyolas,
Sánchez, Pérez, Reyes, Tapias,
Conejeros, González, Martínez,
Cerdas, Montes, López, Aguirres, Morenos, Castillos,
Ampueros, Salinas, Bernales, Pintos, Navarretes,
Núñez, Carvajales, Carillos, Candias, Alegrías,
Parras, Rojas, Lagos, Jiménez, Azócares,
Oyarzunes, Arces, Sepúlvedas, Díaz,
Álvarez, Rodríguez, Zuñigas, Pereiras, Robles, Fuentes, Silvas,
nomes que são homens ou grãos de pólvora ou trigo,
estes são os nomes que assinam as páginas da primavera,
do vinho, do duro torrão, do carvão, do arado,
estes são os nomes de inverno, dos escritórios, dos
ministérios,
nomes de soldados, de agrários, de pobres e muitos, de
entrada cedo
e saída aberta na sombra sem glória e sem ouro:
a estes pertenço e agora na noite de alarma, tão longe
no meio do mar, na noite, os chamo e me chamo;
quem cai cai em mim, o ferido me fere, o que morre me
mata.

Oh pátria, formosura de pedras, tomates, peixes, cereais, abelhas, tonéis,
mulheres de doce cintura que inveja a lua minguante,
metais que formam teu claro esqueleto de espada,
aromas de assados de inverno com luz de guitarras noturnas,
perais carregados de mel cheiroso, cigarras, rumores
de estio repleto como os canastros das chacareiras,
oh amor de rocio do Chile em minha fronte, destrói este sonho de ira,
devolve-me intacta minha pátria pequena, infinita, calada, sonora e profunda!

Oh ramos do Sul quando o trem deixou para trás os limões
e segue para o Sul galopando e ofegando rolando para o Polo,
e passam os rios e entram os vulcões pelas janelinhas
e um cheiro de frio se estende como se a cor da terra
mudasse e minha infância
tomasse seu poncho molhado para percorrer os caminhosde agosto.

Recordo que a folha quebrada do peumo3 em minha boca cantou uma toada
e o cheiro do raulí4 enquanto chove se abriu como uma arca
e todos os sonhos do mundo são um arvoredo
por onde caminha a lembrança pisando as folhas.

Ai canta guitarra do Sul na chuva, no sol lancinante
que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes asas,
ai canta, racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
o inabarcável silêncio da primavera molhada,
e que tua canção me devolva a pátria em perigo:
que corram as cordas do canto no vento estrangeiro
porque meu sangue circula no meu canto se cantas,
se cantas, oh pátria terrível, no centro dos terremotos
porque assim necessitas de mim, ressurgida,
porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.

Não sei se morrestes e se morri: esperando sabê-lo te
canto este canto.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Solo de Sol

Hoje, este momento, este hoje destapado, aqui fora,
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.

Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.

Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.

Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - a Passageira de Capri

De onde, planta ou raio,
de onde, raio negro ou planta dura,
vinhas e vieste
até o rincão marinho?

Sombra do continente mais longínquo
há nos teus olhos, lua aberta
em tua boca selvagem,
e teu rosto é a pálpebra de uma fruta adormecida.
O pé acetinado de uma estrela é tua forma,
sangue e fogo de antigas lanças há em teus lábios.

De onde recolheste
pétalas transparentes
de manancial, de onde
trouxeste a semente
que reconheço? E depois
o mar de Capri em ti, mar estrangeiro,
por trás de ti as rochas, o azeite,
a reta claridade bem construída,
mas tu, eu conheço,
conheço essa rosa,
conheço o sangue dessa rosa,
sei que a conheço,
sei de onde vem,
e piso o ar livre de rios e cavalos
que tua presença traz à minha memória.

Tua cabeleira é uma carta vermelha
cheia de bruscos beijos e notícias,
tua afirmação, tua investidura clara
falam-me no meio-dia,
na meia-noite chamam à minha porta
como se adivinhassem
aonde querem regressar meus passos.

Talvez, desconhecida,
o sal de Maracaibo
ressoa em tua voz enchendo-a de sonho,
ou o frio vento de Valparaiso
sacudiu tua razão quando crescias.
O certo é que hoje, olhando-te ao passar
entre as aves de peito rosado
dos farelhões de Capri,
a labareda de teus olhos, algo
que vi voar lá de teu peito, o ar
que rodeia tua pele, a luz noturna
que de teu coração sem dúvida sai,
algo chegou à minha boca
com um sabor de flor que conhecia,
algo tingiu meus lábios com o licor escuro
das plantas silvestres de minha infância,
e eu pensei: esta dama,
ainda que o clássico azul derrame todos
os cachos do céu em sua garganta,
ainda que por trás dela os templos
nimbem com sua brancura coroada
tanta formosura,
ela não é, ela é outra,
algo crepita nela que me chama:
toda á terra que me deu a vida
está neste olhar, e estas mãos
sutis
recolheram a água na vertente
e estes mínimos pés foram medindo
as vulcânicas ilhas de minha pátria.
Oh tu, desconhecida, doce e dura,
quando já teu passo
desceu até perder-se,
e só as colunas
do templo roído e a safira verde
do mar que canta em meu desterro
ficaram sós, sós
comigo e com tua sombra,
meu coração deu um grande latejo,
como se uma enorme pedra sustentada
na invisível altura
caísse de repente
sobre a água e saltassem as espumas.

E despertei de tua presença então
com o rosto regado
pelo teu borrifo,
água e aroma e sonho,
distância e terra e onda!
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Cinturão

Carlos Augusto me mandou
um cinturão de couro de Orinoco.

Agora na cintura
levo um rio,
aves nupciais que em seu vôo levantam
as pétalas da espessura,
o longo trovão que perdi na infância
hoje o levo amarrado,
cosido com relâmpagos e chuva,
subjugando minhas velhas calças.
Couro de litoral, couro de rio,
te amo e toco,
és flor e madeira, sáurio e lodo,
és argila extensa.
Passo minha mão sobre tuas rugas
como sobre minha pátria. Tens lábios
de um beijo que me busca.
Mas não só amor, oh terra, tens,
sei que também me guardas
a dentada, o fio, o extermínio
que perguntam por mim todos os dias,
porque tua costa, América, não tem apenas plumas
de um leque incendiário,
não tem só açúcar luminoso,
frutas que pestanejam,
mas o venenoso sussurro
da facada secreta.

Aqui só
me provou o rio:
não fica mal em minha cintura.
O Orinoco
é como um nome que me falta.
Eu me chamo Orinoco,
devo ir com a água na cintura,
e desde agora
esta linha de couro
crescerá com a lua,
abrirá seus estuários na aurora,
caminhará as ruas
comigo e entrará nas reuniões
recordando-me
de onde sou: das terras abruptas
de Sinaloa e de Magallanes,
das pontas de ferro andino,
das ilhas de furacão,
porém mais que todos os lugares,
do rio caimão verde,
do Orinoco, envolto
pelas suas respirações,
que entre suas duas margens sempre recém-bordadas
vai estendendo seu canto pela terra.

Carlos Augusto, obrigado,
jovem irmão, porque no meu exílio
a água pátria me mandaste. Um dia
verás aparecer na corrente
do rio
que desatada corre e nos reúne,
um rosto, nosso povo,
alto e feliz cantando com as águas.
E quando esse rosto nos fitar
pensaremos “fizemos nossa parte”
e cantaremos com nossos rios,
com nossos povos cantaremos.
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