Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Pablo Neruda
Manhã - XVIII
Pelas montanhas vais como vem a brisa
ou a corrente brusca que baixa da neve
ou melhor tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na espessura.
Toda a luz do Cáucaso cai sobre teu corpo
como numa pequena vasilha interminável
em que a água se muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.
Pelos montes o velho caminho de guerreiros
e embaixo enfurecida brilha como uma espada
a água entre muralhas de mãos minerais,
até que tu recebes dos bosques de repente
o ramo ou o relâmpago de umas flores azuis
e a insólita flecha de um aroma selvagem.
ou a corrente brusca que baixa da neve
ou melhor tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na espessura.
Toda a luz do Cáucaso cai sobre teu corpo
como numa pequena vasilha interminável
em que a água se muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.
Pelos montes o velho caminho de guerreiros
e embaixo enfurecida brilha como uma espada
a água entre muralhas de mãos minerais,
até que tu recebes dos bosques de repente
o ramo ou o relâmpago de umas flores azuis
e a insólita flecha de um aroma selvagem.
1 212
Pablo Neruda
Tarde - LXIII
Não só pelas terras desertas onde a pedra salina
é como a rosa única, é flor pelo mar enterrada,
andei; mas pela margem de rios que cortam a neve.
As amargas alturas das cordilheiras conhecem meus passos.
Emaranhada, silvante região de minha pátria selvagem,
lianas cujo beijo mortal se encadeia na selva,
lamento molhado da ave que surge lançando seus calafrios,
oh região de perdidas dores e pranto inclemente!
Não só são meus a pele venenosa do cobre
ou o salitre estendido como estátua jazente e nevada,
mas a vinha, a cerejeira premiada pela primavera,
são meus, e eu pertenço como átomo negro
às áridas terras e à luz do outono nas uvas,
a esta pátria metálica elevada por torres de neve.
é como a rosa única, é flor pelo mar enterrada,
andei; mas pela margem de rios que cortam a neve.
As amargas alturas das cordilheiras conhecem meus passos.
Emaranhada, silvante região de minha pátria selvagem,
lianas cujo beijo mortal se encadeia na selva,
lamento molhado da ave que surge lançando seus calafrios,
oh região de perdidas dores e pranto inclemente!
Não só são meus a pele venenosa do cobre
ou o salitre estendido como estátua jazente e nevada,
mas a vinha, a cerejeira premiada pela primavera,
são meus, e eu pertenço como átomo negro
às áridas terras e à luz do outono nas uvas,
a esta pátria metálica elevada por torres de neve.
1 313
Pablo Neruda
Faz Tempo
Faz tempo, numa viagem
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
1 074
Pablo Neruda
Os Deuses do Rio
Ovídio e Garcilaso desterrados
ontem em tuas ribeiras,
Romênia, te coroem,
te coroem e cantem.
Águas leve teu rio fecundando
as vidas e a areia,
povoe o amor tuas casas e teus bosques,
com cachos se cubram
teus braços e tuas faces.
Não só ao homem
livre
de tuas novas cidades e campinas
celebro.
Não só aos trabalhos criadores
de escolas e de usinas
eu dedico meu canto.
Não só aos canais
abertos na rocha e na terra
para que andem repartindo espigas
as águas do Danúbio
eu minha lira consagro,
senão a ti, Romênia,
a teu nobre sabor de terra e vinho,
a teu pão generoso
repartido em teu povo,
o aroma de pinheiros e mimosas
que o vento te faz dádiva.
Eu canto
na pele de tuas uvas,
no brilho dos olhos
que dali se juntam aos meus
como dois raios negros,
tuas danças antigas
que hoje brilham na luz que conquistaste
como flores ou fogo,
na amizade de todos,
na mão serena do Partido,
na alegria
da paz romena,
tua lembrança inumerável
que canta como um rio.
Romênia,
hoje lá das areias de minha pátria
eu te escrevo esta carta.
Recebe-a, Romênia.
Leva borrifos do Pacífico,
leva vozes e beijos,
leva neve de altíssimas montanhas,
leva cantos e lutas
de meu povo.
Honra e amor, Romênia,
sobem em ti como duas vinhas novas.
A inteligência fita com teus olhos.
Em tua boca sorriem os cachos.
ontem em tuas ribeiras,
Romênia, te coroem,
te coroem e cantem.
Águas leve teu rio fecundando
as vidas e a areia,
povoe o amor tuas casas e teus bosques,
com cachos se cubram
teus braços e tuas faces.
Não só ao homem
livre
de tuas novas cidades e campinas
celebro.
Não só aos trabalhos criadores
de escolas e de usinas
eu dedico meu canto.
Não só aos canais
abertos na rocha e na terra
para que andem repartindo espigas
as águas do Danúbio
eu minha lira consagro,
senão a ti, Romênia,
a teu nobre sabor de terra e vinho,
a teu pão generoso
repartido em teu povo,
o aroma de pinheiros e mimosas
que o vento te faz dádiva.
Eu canto
na pele de tuas uvas,
no brilho dos olhos
que dali se juntam aos meus
como dois raios negros,
tuas danças antigas
que hoje brilham na luz que conquistaste
como flores ou fogo,
na amizade de todos,
na mão serena do Partido,
na alegria
da paz romena,
tua lembrança inumerável
que canta como um rio.
Romênia,
hoje lá das areias de minha pátria
eu te escrevo esta carta.
Recebe-a, Romênia.
Leva borrifos do Pacífico,
leva vozes e beijos,
leva neve de altíssimas montanhas,
leva cantos e lutas
de meu povo.
Honra e amor, Romênia,
sobem em ti como duas vinhas novas.
A inteligência fita com teus olhos.
Em tua boca sorriem os cachos.
1 331
Pablo Neruda
V - A ilha
Todas as ilhas do mar foram feitas pelo vento.
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.
1 183
Pablo Neruda
Quero Saber
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender.
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender.
1 075
Pablo Neruda
Canto XII - Os Rios do Canto
I
Carta a Miguel Otero Silva, em Caracas (1948)
Um amigo me trouxe a tua carta escrita
com palavras invisíveis, sobre sua roupa, em seus olhos.
Como és alegre, Miguel, como somos alegres!
Nada resta num mundo de úlceras estucadas
senão nós, indefinidamente alegres.
Vejo passar o corvo e não me pode fazer mal.
Tu observas o escorpião e limpas a tua guitarra.
Vivemos entre as feras, cantando, e quando tocamos
um homem, a matéria de alguém em quem acreditávamos,
e este homem se desmorona como um pastel podre,
tu em teu venezuelano patrimônio recolhes
o que pode salvar-se, enquanto eu defendo
a brasa da vida.
Que alegria, Miguel!
Me perguntarás onde estou? Te contarei
- dando só detalhes úteis ao governo -
que nesta costa cheia de pedras selvagens
unem-se o mar e o campo, ondas e pinheiros,
águias e procelárias, espumas e prados.
Já viste de muito perto e o dia todo
como voam os pássaros do mar? É como
se levassem as cartas do mundo a seus destinos.
Passam os alcatrazes como barcos do vento,
outras aves que voam como flechas e trazem
as mensagens dos reis defuntos, dos príncipes
enterrados com fios de turquesa nas costas andinas,
e as gaivotas feitas de brancura redonda,
que esquecem continuamente as suas mensagens.
Como é azul a vida, Miguel, quando pusemos nela
amor e luta, palavras que são o pão e o vinho,
palavras que eles ainda não podem desonrar,
porque nós saímos para a rua de escopeta e cantos.
Eles estão perdidos conosco, Miguel.
Que podem fazer senão matar-nos, e ainda assim
não lhes é um bom negócio, só podem
tratar de alugar um andar diante de nós e seguir-nos
para aprender a rir e a chorar como nós.
Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, ó Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas vielas das minas
para ver como viviam outros homens.
E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”.
Tossiram, ficaram muito desgostosos, me cortaram o cumprimento,
deixaram de me chamar de Teócrito, e acabaram
por me insultar e mandar toda a polícia para prender-me,
porque eu não continuava preocupado exclusivamente de assuntos
[metafísicos.
Mas eu tinha conquistado a alegria.
Desde então me levantei para ler as cartas
que trazem as aves do mar de tão longe,
cartas que chegam molhadas, mensagens que pouco a pouco
vou traduzindo com lentidão e segurança: sou meticuloso
como um engenheiro neste estranho ofício.
E saio de repente à janela.
É um quadrado
de transparência, é pura a distância
de ervas e penhascos, e assim vou trabalhando
entre as coisas que amo: ondas, pedras, vespas,
com uma embriagadora felicidade marinha.
Mas ninguém gosta de que estejamos alegres, a ti te incumbiram
de um papel bonachão: “Mas não exagere, não se preocupe”,
e a mim me quiseram espetar num insectário, entre as lágrimas,
para que estas me afogassem e eles pudessem fazerseus discursos
[em meu túmulo.
Eu me lembro que um dia no pampa arenoso
do salitre, havia quinhentos homens
em greve.
Era a tarde abrasadora
de Tarapacá.
E quando os rostos haviam recolhido
toda a areia e o exangue sol seco do deserto,
vi chegar a meu coração, como uma taça de ódio,
a velha melancolia.
Naquela hora de crime,
na desolação das salinas, nesse minuto débil
da luta, em que poderíamos ter sido vencidos,
uma menina pequenina e pálida chegada das minas
disse com uma voz valente em que se juntavam o cristal e o aço
um poema teu, um velho poema teu que roda entre os olhos enrugados
de todos os operários e lavradores de minha pátria, da América.
E aquele pedaço de teu canto refulgiu de repente
em minha boca como uma flor purpúrea
e desceu pelo meu sangue, enchendo-o de novo
com uma alegria transbordante nascida de teu canto.
E eu pensei não só em ti, mas em tua Venezuela amarga.
Há anos, vi um estudante que tinha nos tornozelos
o sinal das cadeias que um general lhe havia imposto,
e me contou como os acorrentados trabalhavam nos caminhos
e os calabouços onde a gente se perdia.
Porque assim foi a nossa América:
uma planura com rios devoradores e constelações
de mariposas (em alguns lugares, as esmeraldas são espessas
[como maçãs),
porém sempre ao longo da noite e dos rios,
há tornozelos que sangram, antes perto do petróleo,
hoje perto do nitrato, em Pisagua, onde um déspota sujo
enterrou a flor de minha pátria para que morra, e ele
[possa comerciar com os ossos.
Por isso cantas, por isso, para que a América desonrada e ferida
faça tremer as suas mariposas e recolha suas esmeraldas
sem o espantoso sangue do castigo coagulado
nas mãos dos verdugos e dos mercadores.
Eu compreendi como estarias alegre, perto do Orenoco, cantando,
certamente, ou então comprando vinho para a tua casa,
ocupando o teu posto na luta e na alegria,
largo de ombros, como são os poetas deste tempo,
- com roupas claras e sapatos de uso para caminhar.
Desde então, fiquei pensando em escrever-te algum dia,
e quando Guillén chegou, todo cheio de histórias tuas
que se desprendiam de toda a roupa
e que sob as castanheiras de minha casa se derramaram,
me disse: “Agora”, nem assim comecei a escrever-te.
Mas hoje foi demais: passou pela minha janela
não apenas uma ave do mar, mas milhares,
e recolhi as cartas que ninguém lê e que elas levam
pelas praias do mundo, até perdê-las.
E aí, em cada uma lia palavras tuas
e eram como as que eu escrevo e sonho e canto,
e aí decidi enviar-te esta carta, que aqui termino
para olhar pela janela o mundo que nos pertence.
II
A Rafael Alberti
(Puerto de Santa María, Espanha)
Rafael, antes de chegar à Espanha me apareceu a caminho a tua poesia, rosa literal, cacho biselado,
e ela até agora tem sido para mim não uma lembrança
mas uma luz olorosa, emanação de um mundo.
A tua terra ressequida pela crueldade trouxeste
o orvalho que o tempo havia esquecido,
e a Espanha acordou contigo na cintura,
outra vez coroada de aljôfar matutino.
Recordarás o que trazia: sonhos despedaçados
por implacáveis ácidos, permanências
em águas desterradas, em silêncios
de onde as raízes amargas emergiam
como paus queimados no bosque,
Com posso esquecer, Rafael, aquele tempo?
A teu país cheguei como quem cai
em uma lua de pedra, encontrando em todas as partes
águias do agreste, secos espinhos,
mas a tua voz, marinheiro, esperava
para dar-me as boas-vindas e a fragrância
da flor de laranjeira, o mel dos frutos marinhos.
E a tua poesia estava na mesa, nua.
Os pinheirais do sul, as raças da uva
deram a teu diamante cortado suas resinas,
e ao tocar tão formosa claridade, muita sombra
da que traz ao mundo se desfez.
Arquitetura feita na luz, como as pétalas,
através de teus versos de embriagador aroma,
eu vi a água de antanho, a neve hereditária,
e a ti mais que ninguém eu devo a Espanha.
Com teus dedos toquei colméia e páramo,
conheci as praias gastas pelo povo
como por um oceano, e os degraus
em que a poesia foi rasgando
toda a sua vestimenta de safiras.
Tu sabes que só se ensina ao irmão.
E nessa
hora não só aquilo me ensinaste,
não só a apagada pompa de nossa estirpe,
mas a retidão de teu destino,
e quando mais uma vez chegou o sangue à Espanha
defendi o patrimônio do povo que era meu.
Já sabes, já todo mundo sabe estas coisas.
Eu quero somente estar contigo,
e hoje que te falta a metade da vida,
tua terra, a que tens mais direito que uma árvore,
hoje que das desgraças da pátria não só
o luto do que amamos, mas também a tua ausência cobrem
a herança da oliveira que devoram os lobos,
te quero dar, ai!, se pudesse, irmão grande,
a estrelada alegria que então me deste.
Entre nós dois a poesia
se toca como pele celeste,
e contigo gosto de recolher um cacho de uvas,
este pâmpano, aquela raiz das trevas.
A inveja que abre portas nos seres
não pôde abrir a tua porta nem a minha.
És belo
como quando a cólera do vento
desencadeia seu vestido lá fora
e estão o pão, o vinho e o fogo conosco,
deixar que uive o vendedor de fúria,
deixar que silve o que passou entre teus pés,
e levantar a taça cheia de âmbar
com todo o rito da transparência.
Alguém quer esquecer que és o primeiro?
Deixa-o navegar e encontrará o teu rosto.
Alguém quer enterrar-nos precipitadamente?
Está bem, mas tem a obrigação do vôo.
Virão, mas quem pode sacudir a colheita
que com a mão do outono foi erguida
até tingir o mundo com o tremor do vinho?
Dá-me esta taça, irmão, e escuta: estou rodeado
de minha América úmida e torrencial, às vezes
perco o silêncio, perco a corola noturna,
e me rodeia o ódio, talvez nada, o vazio
dum vazio, o crepúsculo
dum cão, duma rã,
e então sinto que tanta terra minha nos separe,
e quero ir a tua casa, em que eu sei, me esperas,
só para sermos bons como só nós
podemos sê-lo.
Não devemos nada.
E a ti, sim, é que devem, e és uma pátria: espera.
Voltarás, voltaremos.
Quero contigo um dia
em tuas ribeiras ir embriagados de ouro
até teus portos, portos do sul que então não atingi.
Me mostrarás o mar onde sardinhas
e azeitonas disputam as areias,
e aqueles campos com os touros de olhos verdes
que Villalón (amigo que também
não veio me ver, pois estava enterrado)
tinha, e os tonéis de xerez, catedrais
em cujos corações gongorinos
arde o topázio com pálido fogo.
Iremos, Rafael, aonde jaz
aquele que com suas mãos e as tuas
a cintura da Espanha sustentava.
O morto que não pôde morrer, aquele a quem guardas,
porque só a tua existência o defende.
Lá está Federico, mas há muitos que, mergulhados, enterrados,
entre as cordilheiras espanholas, tombados
injustamente, derramados,
perdido cereal nas montanhas,
são nossos, e nós estamos em sua argila.
Vives porque sempre foste um deus milagroso.
A ninguém mais que a ti procuraram, queriam
devorar-te os lobos, quebrar teu poderio.
Cada um queria ser verme em tua morte.
Pois bem, se enganaram.
É talvez a estrutura
de tua canção, intacta transparência,
armada decisão de tua doçura,
dureza, fortaleza delicada,
o que salvou teu amor para a tua terra.
Eu irei contigo para provar a água
do Genil, do domínio que me deste,
a olhar na prata que navega
as efígies adormecidas que fundaram
as sílabas azuis de teu canto.
Entraremos também nas forjas: agora
o metal dos povos aí espera
nascer nas facas: passaremos cantando
junto às redes vermelhas que move o firmamento.
Facas, redes, cantos apagarão as dores.
Teu povo levará com as mãos queimadas
pela pólvora, como loureiro dos prados,
o que o teu amor foi debulhando na desgraça.
Sim, de nossos desertos nasce a flor, a forma
da pátria que o povo reconquista com trovões,
e não é um dia só o que elabora
o mel perdido, a verdade do sonho,
mas também cada raiz que se faz canto
até povoar o mundo com as suas folhas.
Lá estás, não há nada que não mova
a lua diamantina que deixaste:
a solidão, o vento nos rincões,
tudo toca o teu puro território,
e os últimos mortos, os que caem
na prisão, leões fuzilados,
e os das guerrilhas, capitães
do coração, estão umedecendo
a tua própria investidura cristalina,
teu próprio coração com suas raízes.
Passou o tempo desde aquele dia em que compartilhamos
dores que deixaram uma ferida radiante,
o cavalo da guerra que com suas ferraduras
atropelou a aldeia destroçando as vidraças.
Tudo aquilo nasceu debaixo da pólvora,
tudo aquilo te aguarda para erguer a espiga,
e nesse nascimento te envolverão de novo
o fumo e a ternura daqueles duros dias.
Vasta é a pele da Espanha e nela a tua espora
vive como uma espada de ilustre punho,
e não há olvido, não há inverno que te apague,
irmão fulgurante, dos lábios do povo.
Assim te falo, esquecendo talvez uma palavra,
respondendo por fim às cartas de que não te lembras
e que quando os climas do leste me cobriram
como aroma escarlate, chegaram
até a minha solidão.
Que teu rosto dourado
encontre nesta carta um dia de outro tempo,
e outro tempo de um dia que virá.
Me despeço
hoje, 1948, 16 de dezembro,
em algum ponto da América na qual canto.
III
A González Carbalho
(no Rio da Prata)
Quando a noite devorou os sons humanos, e desaprumou
sua sombra linha a linha,
ouvimos, no silêncio acrescentado, além dos seres,
o rumor do rio de González Carbalho,
sua água profunda e permanente, seu transcurso que parece
imóvel como o crescimento da árvore ou do tempo.
Este grande poeta fluvial acompanha o silêncio do mundo,
com sonora austeridade, e o que desejar no meio
do tráfego ouvi-lo, que coloque (como faz nos
bosques ou nos lhanos o explorador extraviado) seu ouvido
sobre a terra: e ainda mesmo no meio da rua ouvirá subir
entre os passos do estrondo esta poesia: as vozes
profundas da terra e da água.
Então sob a cidade e seu atropelo, sob as lâmpadas
de fralda escarlate, como o trigo que nasce, irrompendo em
toda latitude, este rio que canta.
Sobre seu leito, assustadas aves de
crepúsculo, gargantas de arrebol que dividem o espaço,
folhas purpúreas que descem.
Todos os homens que se atrevam a olhar a solidão:
os que toquem a corda abandonada, todos os
imensamente puros, e aqueles que da nau escutaram
sal, solidão e noite se reunirem,
ouvirão o coro de González Carbalho surgir alto e cristalino
da sua primavera noturna.
Lembrais outro? Príncipe de Aquitânia: à sua torre abolida
substituiu na hora inicial, o rincão das lágrimas
que o homem milenário extravasou taça a taça.
E que o saiba aquele que não olhou os rostos, o vencedor
ou o vencido:
preocupados pelo vento de safira ou pela taça amarga:
além da rua e rua, além de uma hora,
tocai estas trevas, e continuemos juntos.
Então, no mapa desordenado das pequenas vidas
com tinta azul: o rio, o rio das águas que cantam,
feito da esperança, do padecer perdido,
da água sem angústia que sobe à vitória.
Meu irmão fez este rio:
de seu alto e subterrâneo canto se construíram
estes graves sons molhados de silêncio.
Meu irmão é este rio que rodeia as coisas.
Onde estiverdes, na noite, de dia, a caminho,
sobre os desvelados trens dos prados,
ou junto à empapada rosa da alva fria,
ou ainda
entre as roupas, tocando
o torvelinbo,
caí por terra, que o vosso rosto receba
este grande pulsar de água secreta que circula.
Irmão, és o rio mais longo da terra:
atrás do orbe, soa a tua voz grave de rio,
e eu molho as mãos em teu peito
fiel a um tesouro nunca interrompido,
fiel à transparência da lágrima augusta,
fiel à eternidade agredida do homem.
IV
A Silvestre Revueltas, do México, em sua morte
(Oratório menor)
Quando um homem como Silvestre Revueltas
volta definitivamente à terra,
há um rumor, uma onda
de voz e pranto que prepara e propaga sua partida.
As pequenas raízes dizem aos cereais: “Morreu Silvestre”,
e o trigo ondula o seu nome nas encostas
e logo o pão o sabe.
Todas as árvores da América já o sabem
e também as flores geladas da nossa região ártica.
As gotas d'água o transmitem,
os rios indomáveis da
Araucania já sabem a notícia.
Da nevada ao lago, do lago á planta,
da planta ao fogo, do fogo ao fumo:
tudo o que arde, canta, floresce, dança e revive,
todo o permanente, alto e profundo da nossa América o acolhem,
pianos e pássaros, sonhos e sons, a rede palpitante
que une na aragem todos os nossos climas,
treme e traslada o coro funeral.
Silvestre morreu, Silvestre entrou em sua música total,
em seu silêncio sonoro.
Filho da terra, menino da terra, desde hoje entras no tempo.
Desde hoje o teu nome cheio de música voará quando
[se toque tua pátria, como de um sino,
com um som jamais ouvido, com o som do que foste, irmão.
Teu coração de catedral nos cobre neste instante como o firmamento
e teu canto grande e grandioso, tua ternura vulcânica,
enche toda a altura como uma estátua ardendo.
Por que derramaste a vida? Por que verteste
em cada taça o teu sangue? Por que buscaste
como um anjo cego, ferindo-se pelas portas escuras?
Ah, mas de teu nome sai música
e de tua música, como de um mercado,
saem coroas de louro fragrante
e maçãs de olor e simetria.
Neste dia solene de despedida és tu o despedido,
mas já não ouves,
teu nobre rosto falta e é como se faltasse
uma grande árvore no meio da casa do homem.
Mas a luz que vemos é desde hoje outra luz,
a rua que viramos é uma nova rua,
a mão que tocamos desde hoje tem a tua força,
todas as coisas adquirem vigor em teu descanso
e tua pureza subirá das pedras
para mostrar-nos a claridade da esperança.
Repousa, irmão, o dia teu terminou,
com a tua alma doce e poderosa o encheste
de luz mais alta que a luz do dia
e de um som azul como a voz do céu.
Teu irmão e teus amigos me pediram
que repita o teu nome pelos ares da América,
que o conheça o touro do pampa, e a neve,
que o arrebate o mar, que o discuta o vento.
Agora são as estrelas da América a tua pátria
e desde hoje a tua casa sem portas é a Terra.
V
A Miguel Hernández,
Assassinado nos presídios da Espanha
Chegaste a mim diretamente do Levante, Me trazias,
pastor de cabras, tua inocência enrugada,
a escolástica de velhas páginas, um odor
de Frei Luis, de flor de laranjeira, de esterco queimado
sobre os montes, e em tua máscara
a aspereza cereal da aveia segada
e um mel que media a terra com teus olhos.
Também o rouxinol em tua boca trazias.
Um rouxinol manchado de laranjas, um fio
de incorruptível canto, de força desfolhada.
Ai, rapaz, na luz sobreveio a pólvora
e tu, com rouxinol e com fuzil, andando
sob a lua e sob o sol da batalha.
Já sabes, filho meu, o quanto não pude fazer, já sabes
que para mim, de toda a poesia, tu eras o fogo azul.
Hoje sobre a terra ponho o meu rosto e te escuto,
te escuto, sangue, música, colméia agonizante.
Não vi deslumbrante raça como a tua,
nem raízes tão duras, nem mãos de soldado,
nem vi nada mais vivo que o teu coração
a se queimar na púrpura de minha própria bandeira.
Jovem eterno, vives, comuneiro de antanho,
inundado de germes de trigo e primavera,
enrugado e escuro como o metal inato,
esperando o minuto que erga a tua armadura.
Não estou só desde que morreste.
Estou com os que te buscam.
Estou com os que um dia chegarão a vingar-te.
Reconhecerás os meus passos entre esses
que se despenharão sobre o peito da Espanha
esmagando Caim para que nos devolva
os restos enterrados.
Que saibam os que te mataram que pagarão com sangue.
Que saibam os que te deram tormento que me verão um dia.
Que saibam os malditos que hoje incluem o teu nome
em seus livros, os Dámasos, os Gerardos, os filhos
de cadela, silenciosos cúmplices do verdugo,
que não será apagado o teu martírio, e tua morte
tombará sobre toda sua lua de covardes.
E os que te negaram em seu loureiro apodrecido,
na terra americana, o espaço que cobres
com a tua fluvial coroa de raio sangrado,
deixa-me dar-lhes eu o desdenhoso esquecimento
porque a mim quiseram mutilar com a tua ausência.
Miguel, longe da prisão de Osuna, longe
da crueldade, Mao Tsé-tung dirige
tua poesia despedaçada no combate
para a nossa vitória.
E Praga rumorosa
a construir a doce colméia que cantaste,
Hungria verde limpa seus celeiros
e dança junto ao rio que despertou do sonho.
E de Varsóvia sobe a sereia nua
que edifica a mostrar sua cristalina espada.
Mais além a terra se agiganta,
a terra,
que visitou o teu canto, o aço
que defendeu a tua pátria estão seguros,
acrescentados pela firmeza
de Stálin e seus filhos.
Já se achega
a luz a tua morada.
Miguel da Espanha, estrela
de terras arrasadas, não te esqueço, filho meu,
não te esqueço, filho meu!
Mas aprendi a vida
com a tua morte: meus olhos apenas se velaram,
e encontrei em mim não o pranto
mas as armas
inexoráveis!
Espera-as! Espera-me!
Carta a Miguel Otero Silva, em Caracas (1948)
Um amigo me trouxe a tua carta escrita
com palavras invisíveis, sobre sua roupa, em seus olhos.
Como és alegre, Miguel, como somos alegres!
Nada resta num mundo de úlceras estucadas
senão nós, indefinidamente alegres.
Vejo passar o corvo e não me pode fazer mal.
Tu observas o escorpião e limpas a tua guitarra.
Vivemos entre as feras, cantando, e quando tocamos
um homem, a matéria de alguém em quem acreditávamos,
e este homem se desmorona como um pastel podre,
tu em teu venezuelano patrimônio recolhes
o que pode salvar-se, enquanto eu defendo
a brasa da vida.
Que alegria, Miguel!
Me perguntarás onde estou? Te contarei
- dando só detalhes úteis ao governo -
que nesta costa cheia de pedras selvagens
unem-se o mar e o campo, ondas e pinheiros,
águias e procelárias, espumas e prados.
Já viste de muito perto e o dia todo
como voam os pássaros do mar? É como
se levassem as cartas do mundo a seus destinos.
Passam os alcatrazes como barcos do vento,
outras aves que voam como flechas e trazem
as mensagens dos reis defuntos, dos príncipes
enterrados com fios de turquesa nas costas andinas,
e as gaivotas feitas de brancura redonda,
que esquecem continuamente as suas mensagens.
Como é azul a vida, Miguel, quando pusemos nela
amor e luta, palavras que são o pão e o vinho,
palavras que eles ainda não podem desonrar,
porque nós saímos para a rua de escopeta e cantos.
Eles estão perdidos conosco, Miguel.
Que podem fazer senão matar-nos, e ainda assim
não lhes é um bom negócio, só podem
tratar de alugar um andar diante de nós e seguir-nos
para aprender a rir e a chorar como nós.
Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, ó Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas vielas das minas
para ver como viviam outros homens.
E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”.
Tossiram, ficaram muito desgostosos, me cortaram o cumprimento,
deixaram de me chamar de Teócrito, e acabaram
por me insultar e mandar toda a polícia para prender-me,
porque eu não continuava preocupado exclusivamente de assuntos
[metafísicos.
Mas eu tinha conquistado a alegria.
Desde então me levantei para ler as cartas
que trazem as aves do mar de tão longe,
cartas que chegam molhadas, mensagens que pouco a pouco
vou traduzindo com lentidão e segurança: sou meticuloso
como um engenheiro neste estranho ofício.
E saio de repente à janela.
É um quadrado
de transparência, é pura a distância
de ervas e penhascos, e assim vou trabalhando
entre as coisas que amo: ondas, pedras, vespas,
com uma embriagadora felicidade marinha.
Mas ninguém gosta de que estejamos alegres, a ti te incumbiram
de um papel bonachão: “Mas não exagere, não se preocupe”,
e a mim me quiseram espetar num insectário, entre as lágrimas,
para que estas me afogassem e eles pudessem fazerseus discursos
[em meu túmulo.
Eu me lembro que um dia no pampa arenoso
do salitre, havia quinhentos homens
em greve.
Era a tarde abrasadora
de Tarapacá.
E quando os rostos haviam recolhido
toda a areia e o exangue sol seco do deserto,
vi chegar a meu coração, como uma taça de ódio,
a velha melancolia.
Naquela hora de crime,
na desolação das salinas, nesse minuto débil
da luta, em que poderíamos ter sido vencidos,
uma menina pequenina e pálida chegada das minas
disse com uma voz valente em que se juntavam o cristal e o aço
um poema teu, um velho poema teu que roda entre os olhos enrugados
de todos os operários e lavradores de minha pátria, da América.
E aquele pedaço de teu canto refulgiu de repente
em minha boca como uma flor purpúrea
e desceu pelo meu sangue, enchendo-o de novo
com uma alegria transbordante nascida de teu canto.
E eu pensei não só em ti, mas em tua Venezuela amarga.
Há anos, vi um estudante que tinha nos tornozelos
o sinal das cadeias que um general lhe havia imposto,
e me contou como os acorrentados trabalhavam nos caminhos
e os calabouços onde a gente se perdia.
Porque assim foi a nossa América:
uma planura com rios devoradores e constelações
de mariposas (em alguns lugares, as esmeraldas são espessas
[como maçãs),
porém sempre ao longo da noite e dos rios,
há tornozelos que sangram, antes perto do petróleo,
hoje perto do nitrato, em Pisagua, onde um déspota sujo
enterrou a flor de minha pátria para que morra, e ele
[possa comerciar com os ossos.
Por isso cantas, por isso, para que a América desonrada e ferida
faça tremer as suas mariposas e recolha suas esmeraldas
sem o espantoso sangue do castigo coagulado
nas mãos dos verdugos e dos mercadores.
Eu compreendi como estarias alegre, perto do Orenoco, cantando,
certamente, ou então comprando vinho para a tua casa,
ocupando o teu posto na luta e na alegria,
largo de ombros, como são os poetas deste tempo,
- com roupas claras e sapatos de uso para caminhar.
Desde então, fiquei pensando em escrever-te algum dia,
e quando Guillén chegou, todo cheio de histórias tuas
que se desprendiam de toda a roupa
e que sob as castanheiras de minha casa se derramaram,
me disse: “Agora”, nem assim comecei a escrever-te.
Mas hoje foi demais: passou pela minha janela
não apenas uma ave do mar, mas milhares,
e recolhi as cartas que ninguém lê e que elas levam
pelas praias do mundo, até perdê-las.
E aí, em cada uma lia palavras tuas
e eram como as que eu escrevo e sonho e canto,
e aí decidi enviar-te esta carta, que aqui termino
para olhar pela janela o mundo que nos pertence.
II
A Rafael Alberti
(Puerto de Santa María, Espanha)
Rafael, antes de chegar à Espanha me apareceu a caminho a tua poesia, rosa literal, cacho biselado,
e ela até agora tem sido para mim não uma lembrança
mas uma luz olorosa, emanação de um mundo.
A tua terra ressequida pela crueldade trouxeste
o orvalho que o tempo havia esquecido,
e a Espanha acordou contigo na cintura,
outra vez coroada de aljôfar matutino.
Recordarás o que trazia: sonhos despedaçados
por implacáveis ácidos, permanências
em águas desterradas, em silêncios
de onde as raízes amargas emergiam
como paus queimados no bosque,
Com posso esquecer, Rafael, aquele tempo?
A teu país cheguei como quem cai
em uma lua de pedra, encontrando em todas as partes
águias do agreste, secos espinhos,
mas a tua voz, marinheiro, esperava
para dar-me as boas-vindas e a fragrância
da flor de laranjeira, o mel dos frutos marinhos.
E a tua poesia estava na mesa, nua.
Os pinheirais do sul, as raças da uva
deram a teu diamante cortado suas resinas,
e ao tocar tão formosa claridade, muita sombra
da que traz ao mundo se desfez.
Arquitetura feita na luz, como as pétalas,
através de teus versos de embriagador aroma,
eu vi a água de antanho, a neve hereditária,
e a ti mais que ninguém eu devo a Espanha.
Com teus dedos toquei colméia e páramo,
conheci as praias gastas pelo povo
como por um oceano, e os degraus
em que a poesia foi rasgando
toda a sua vestimenta de safiras.
Tu sabes que só se ensina ao irmão.
E nessa
hora não só aquilo me ensinaste,
não só a apagada pompa de nossa estirpe,
mas a retidão de teu destino,
e quando mais uma vez chegou o sangue à Espanha
defendi o patrimônio do povo que era meu.
Já sabes, já todo mundo sabe estas coisas.
Eu quero somente estar contigo,
e hoje que te falta a metade da vida,
tua terra, a que tens mais direito que uma árvore,
hoje que das desgraças da pátria não só
o luto do que amamos, mas também a tua ausência cobrem
a herança da oliveira que devoram os lobos,
te quero dar, ai!, se pudesse, irmão grande,
a estrelada alegria que então me deste.
Entre nós dois a poesia
se toca como pele celeste,
e contigo gosto de recolher um cacho de uvas,
este pâmpano, aquela raiz das trevas.
A inveja que abre portas nos seres
não pôde abrir a tua porta nem a minha.
És belo
como quando a cólera do vento
desencadeia seu vestido lá fora
e estão o pão, o vinho e o fogo conosco,
deixar que uive o vendedor de fúria,
deixar que silve o que passou entre teus pés,
e levantar a taça cheia de âmbar
com todo o rito da transparência.
Alguém quer esquecer que és o primeiro?
Deixa-o navegar e encontrará o teu rosto.
Alguém quer enterrar-nos precipitadamente?
Está bem, mas tem a obrigação do vôo.
Virão, mas quem pode sacudir a colheita
que com a mão do outono foi erguida
até tingir o mundo com o tremor do vinho?
Dá-me esta taça, irmão, e escuta: estou rodeado
de minha América úmida e torrencial, às vezes
perco o silêncio, perco a corola noturna,
e me rodeia o ódio, talvez nada, o vazio
dum vazio, o crepúsculo
dum cão, duma rã,
e então sinto que tanta terra minha nos separe,
e quero ir a tua casa, em que eu sei, me esperas,
só para sermos bons como só nós
podemos sê-lo.
Não devemos nada.
E a ti, sim, é que devem, e és uma pátria: espera.
Voltarás, voltaremos.
Quero contigo um dia
em tuas ribeiras ir embriagados de ouro
até teus portos, portos do sul que então não atingi.
Me mostrarás o mar onde sardinhas
e azeitonas disputam as areias,
e aqueles campos com os touros de olhos verdes
que Villalón (amigo que também
não veio me ver, pois estava enterrado)
tinha, e os tonéis de xerez, catedrais
em cujos corações gongorinos
arde o topázio com pálido fogo.
Iremos, Rafael, aonde jaz
aquele que com suas mãos e as tuas
a cintura da Espanha sustentava.
O morto que não pôde morrer, aquele a quem guardas,
porque só a tua existência o defende.
Lá está Federico, mas há muitos que, mergulhados, enterrados,
entre as cordilheiras espanholas, tombados
injustamente, derramados,
perdido cereal nas montanhas,
são nossos, e nós estamos em sua argila.
Vives porque sempre foste um deus milagroso.
A ninguém mais que a ti procuraram, queriam
devorar-te os lobos, quebrar teu poderio.
Cada um queria ser verme em tua morte.
Pois bem, se enganaram.
É talvez a estrutura
de tua canção, intacta transparência,
armada decisão de tua doçura,
dureza, fortaleza delicada,
o que salvou teu amor para a tua terra.
Eu irei contigo para provar a água
do Genil, do domínio que me deste,
a olhar na prata que navega
as efígies adormecidas que fundaram
as sílabas azuis de teu canto.
Entraremos também nas forjas: agora
o metal dos povos aí espera
nascer nas facas: passaremos cantando
junto às redes vermelhas que move o firmamento.
Facas, redes, cantos apagarão as dores.
Teu povo levará com as mãos queimadas
pela pólvora, como loureiro dos prados,
o que o teu amor foi debulhando na desgraça.
Sim, de nossos desertos nasce a flor, a forma
da pátria que o povo reconquista com trovões,
e não é um dia só o que elabora
o mel perdido, a verdade do sonho,
mas também cada raiz que se faz canto
até povoar o mundo com as suas folhas.
Lá estás, não há nada que não mova
a lua diamantina que deixaste:
a solidão, o vento nos rincões,
tudo toca o teu puro território,
e os últimos mortos, os que caem
na prisão, leões fuzilados,
e os das guerrilhas, capitães
do coração, estão umedecendo
a tua própria investidura cristalina,
teu próprio coração com suas raízes.
Passou o tempo desde aquele dia em que compartilhamos
dores que deixaram uma ferida radiante,
o cavalo da guerra que com suas ferraduras
atropelou a aldeia destroçando as vidraças.
Tudo aquilo nasceu debaixo da pólvora,
tudo aquilo te aguarda para erguer a espiga,
e nesse nascimento te envolverão de novo
o fumo e a ternura daqueles duros dias.
Vasta é a pele da Espanha e nela a tua espora
vive como uma espada de ilustre punho,
e não há olvido, não há inverno que te apague,
irmão fulgurante, dos lábios do povo.
Assim te falo, esquecendo talvez uma palavra,
respondendo por fim às cartas de que não te lembras
e que quando os climas do leste me cobriram
como aroma escarlate, chegaram
até a minha solidão.
Que teu rosto dourado
encontre nesta carta um dia de outro tempo,
e outro tempo de um dia que virá.
Me despeço
hoje, 1948, 16 de dezembro,
em algum ponto da América na qual canto.
III
A González Carbalho
(no Rio da Prata)
Quando a noite devorou os sons humanos, e desaprumou
sua sombra linha a linha,
ouvimos, no silêncio acrescentado, além dos seres,
o rumor do rio de González Carbalho,
sua água profunda e permanente, seu transcurso que parece
imóvel como o crescimento da árvore ou do tempo.
Este grande poeta fluvial acompanha o silêncio do mundo,
com sonora austeridade, e o que desejar no meio
do tráfego ouvi-lo, que coloque (como faz nos
bosques ou nos lhanos o explorador extraviado) seu ouvido
sobre a terra: e ainda mesmo no meio da rua ouvirá subir
entre os passos do estrondo esta poesia: as vozes
profundas da terra e da água.
Então sob a cidade e seu atropelo, sob as lâmpadas
de fralda escarlate, como o trigo que nasce, irrompendo em
toda latitude, este rio que canta.
Sobre seu leito, assustadas aves de
crepúsculo, gargantas de arrebol que dividem o espaço,
folhas purpúreas que descem.
Todos os homens que se atrevam a olhar a solidão:
os que toquem a corda abandonada, todos os
imensamente puros, e aqueles que da nau escutaram
sal, solidão e noite se reunirem,
ouvirão o coro de González Carbalho surgir alto e cristalino
da sua primavera noturna.
Lembrais outro? Príncipe de Aquitânia: à sua torre abolida
substituiu na hora inicial, o rincão das lágrimas
que o homem milenário extravasou taça a taça.
E que o saiba aquele que não olhou os rostos, o vencedor
ou o vencido:
preocupados pelo vento de safira ou pela taça amarga:
além da rua e rua, além de uma hora,
tocai estas trevas, e continuemos juntos.
Então, no mapa desordenado das pequenas vidas
com tinta azul: o rio, o rio das águas que cantam,
feito da esperança, do padecer perdido,
da água sem angústia que sobe à vitória.
Meu irmão fez este rio:
de seu alto e subterrâneo canto se construíram
estes graves sons molhados de silêncio.
Meu irmão é este rio que rodeia as coisas.
Onde estiverdes, na noite, de dia, a caminho,
sobre os desvelados trens dos prados,
ou junto à empapada rosa da alva fria,
ou ainda
entre as roupas, tocando
o torvelinbo,
caí por terra, que o vosso rosto receba
este grande pulsar de água secreta que circula.
Irmão, és o rio mais longo da terra:
atrás do orbe, soa a tua voz grave de rio,
e eu molho as mãos em teu peito
fiel a um tesouro nunca interrompido,
fiel à transparência da lágrima augusta,
fiel à eternidade agredida do homem.
IV
A Silvestre Revueltas, do México, em sua morte
(Oratório menor)
Quando um homem como Silvestre Revueltas
volta definitivamente à terra,
há um rumor, uma onda
de voz e pranto que prepara e propaga sua partida.
As pequenas raízes dizem aos cereais: “Morreu Silvestre”,
e o trigo ondula o seu nome nas encostas
e logo o pão o sabe.
Todas as árvores da América já o sabem
e também as flores geladas da nossa região ártica.
As gotas d'água o transmitem,
os rios indomáveis da
Araucania já sabem a notícia.
Da nevada ao lago, do lago á planta,
da planta ao fogo, do fogo ao fumo:
tudo o que arde, canta, floresce, dança e revive,
todo o permanente, alto e profundo da nossa América o acolhem,
pianos e pássaros, sonhos e sons, a rede palpitante
que une na aragem todos os nossos climas,
treme e traslada o coro funeral.
Silvestre morreu, Silvestre entrou em sua música total,
em seu silêncio sonoro.
Filho da terra, menino da terra, desde hoje entras no tempo.
Desde hoje o teu nome cheio de música voará quando
[se toque tua pátria, como de um sino,
com um som jamais ouvido, com o som do que foste, irmão.
Teu coração de catedral nos cobre neste instante como o firmamento
e teu canto grande e grandioso, tua ternura vulcânica,
enche toda a altura como uma estátua ardendo.
Por que derramaste a vida? Por que verteste
em cada taça o teu sangue? Por que buscaste
como um anjo cego, ferindo-se pelas portas escuras?
Ah, mas de teu nome sai música
e de tua música, como de um mercado,
saem coroas de louro fragrante
e maçãs de olor e simetria.
Neste dia solene de despedida és tu o despedido,
mas já não ouves,
teu nobre rosto falta e é como se faltasse
uma grande árvore no meio da casa do homem.
Mas a luz que vemos é desde hoje outra luz,
a rua que viramos é uma nova rua,
a mão que tocamos desde hoje tem a tua força,
todas as coisas adquirem vigor em teu descanso
e tua pureza subirá das pedras
para mostrar-nos a claridade da esperança.
Repousa, irmão, o dia teu terminou,
com a tua alma doce e poderosa o encheste
de luz mais alta que a luz do dia
e de um som azul como a voz do céu.
Teu irmão e teus amigos me pediram
que repita o teu nome pelos ares da América,
que o conheça o touro do pampa, e a neve,
que o arrebate o mar, que o discuta o vento.
Agora são as estrelas da América a tua pátria
e desde hoje a tua casa sem portas é a Terra.
V
A Miguel Hernández,
Assassinado nos presídios da Espanha
Chegaste a mim diretamente do Levante, Me trazias,
pastor de cabras, tua inocência enrugada,
a escolástica de velhas páginas, um odor
de Frei Luis, de flor de laranjeira, de esterco queimado
sobre os montes, e em tua máscara
a aspereza cereal da aveia segada
e um mel que media a terra com teus olhos.
Também o rouxinol em tua boca trazias.
Um rouxinol manchado de laranjas, um fio
de incorruptível canto, de força desfolhada.
Ai, rapaz, na luz sobreveio a pólvora
e tu, com rouxinol e com fuzil, andando
sob a lua e sob o sol da batalha.
Já sabes, filho meu, o quanto não pude fazer, já sabes
que para mim, de toda a poesia, tu eras o fogo azul.
Hoje sobre a terra ponho o meu rosto e te escuto,
te escuto, sangue, música, colméia agonizante.
Não vi deslumbrante raça como a tua,
nem raízes tão duras, nem mãos de soldado,
nem vi nada mais vivo que o teu coração
a se queimar na púrpura de minha própria bandeira.
Jovem eterno, vives, comuneiro de antanho,
inundado de germes de trigo e primavera,
enrugado e escuro como o metal inato,
esperando o minuto que erga a tua armadura.
Não estou só desde que morreste.
Estou com os que te buscam.
Estou com os que um dia chegarão a vingar-te.
Reconhecerás os meus passos entre esses
que se despenharão sobre o peito da Espanha
esmagando Caim para que nos devolva
os restos enterrados.
Que saibam os que te mataram que pagarão com sangue.
Que saibam os que te deram tormento que me verão um dia.
Que saibam os malditos que hoje incluem o teu nome
em seus livros, os Dámasos, os Gerardos, os filhos
de cadela, silenciosos cúmplices do verdugo,
que não será apagado o teu martírio, e tua morte
tombará sobre toda sua lua de covardes.
E os que te negaram em seu loureiro apodrecido,
na terra americana, o espaço que cobres
com a tua fluvial coroa de raio sangrado,
deixa-me dar-lhes eu o desdenhoso esquecimento
porque a mim quiseram mutilar com a tua ausência.
Miguel, longe da prisão de Osuna, longe
da crueldade, Mao Tsé-tung dirige
tua poesia despedaçada no combate
para a nossa vitória.
E Praga rumorosa
a construir a doce colméia que cantaste,
Hungria verde limpa seus celeiros
e dança junto ao rio que despertou do sonho.
E de Varsóvia sobe a sereia nua
que edifica a mostrar sua cristalina espada.
Mais além a terra se agiganta,
a terra,
que visitou o teu canto, o aço
que defendeu a tua pátria estão seguros,
acrescentados pela firmeza
de Stálin e seus filhos.
Já se achega
a luz a tua morada.
Miguel da Espanha, estrela
de terras arrasadas, não te esqueço, filho meu,
não te esqueço, filho meu!
Mas aprendi a vida
com a tua morte: meus olhos apenas se velaram,
e encontrei em mim não o pranto
mas as armas
inexoráveis!
Espera-as! Espera-me!
1 080
Pablo Neruda
O Anjo Dos Rios
Saberás talvez que entre os rios férreos
da América passei. O alargamento
do Paraná me recebeu tremendo.
Era sua lentidão como a lua
que se desborda sobre as campinas
e era povoado de secretos lábios
que iam beijando seu gesto selvagem.
Rios territoriais, filhos rubros
das trevas úmidas da América,
eu vim a vossas águas, ao sangue
que noite e dia a combater areias
transporta vosso nome numeroso,
eu fui um ramo equatorial, uma réstia
de terra tua, de fluvial folhagem.
As longas águas me contaram toda
sua cantata de sangue paraguaio
e de Assunção as torres do martírio:
como muda de tigre a espessura,
como o petróleo mancha o estandarte
e como azeite e lodo se derramam
sobre os pobres mortos da pátria.
E o rio me contou o que os mortos
dizem falando do fundo das raízes,
pedindo ajuda ainda lá na morte,
sustendo bandeiras enterradas
enquanto os estrangeiros do petróleo
bebem com o carrasco no palácio.
Ali entre rios te encontrei, as águas
ainda iam dentro de meu próprio sangue
enumerando páginas do bosque,
e ali, anjo novo, estavas no fundo
da América
e sem reconhecer-te, “Camarada
anjo, és tu?” te disse,
e longas terras, trigos, ameaças,
ondas e pinheiros percorremos juntos
até que eu também sobre os mares
fechei os olhos e voei adormecido.
da América passei. O alargamento
do Paraná me recebeu tremendo.
Era sua lentidão como a lua
que se desborda sobre as campinas
e era povoado de secretos lábios
que iam beijando seu gesto selvagem.
Rios territoriais, filhos rubros
das trevas úmidas da América,
eu vim a vossas águas, ao sangue
que noite e dia a combater areias
transporta vosso nome numeroso,
eu fui um ramo equatorial, uma réstia
de terra tua, de fluvial folhagem.
As longas águas me contaram toda
sua cantata de sangue paraguaio
e de Assunção as torres do martírio:
como muda de tigre a espessura,
como o petróleo mancha o estandarte
e como azeite e lodo se derramam
sobre os pobres mortos da pátria.
E o rio me contou o que os mortos
dizem falando do fundo das raízes,
pedindo ajuda ainda lá na morte,
sustendo bandeiras enterradas
enquanto os estrangeiros do petróleo
bebem com o carrasco no palácio.
Ali entre rios te encontrei, as águas
ainda iam dentro de meu próprio sangue
enumerando páginas do bosque,
e ali, anjo novo, estavas no fundo
da América
e sem reconhecer-te, “Camarada
anjo, és tu?” te disse,
e longas terras, trigos, ameaças,
ondas e pinheiros percorremos juntos
até que eu também sobre os mares
fechei os olhos e voei adormecido.
1 150
Pablo Neruda
VIII - A ilha
No centro os rostos derrotados,
partidos e tombados, com seus grandes narizes
fundidos na crosta calcária da ilha,
para quem apontam os gigantes? ninguém?
um caminho, um estranho caminho de gigantes:
e ali ficou seu prodigioso peso caído,
beijando a cinza sagrada, regressando
ao magma natal, malferidos, cobertos
pela luz oceânica, a pouca chuva, o pó
vulcânico, e mais tarde
por esta solidão do umbigo do mundo:
a solidão redonda de todo o mar reunido.
Parece estranho ver viver aqui, dentro
do círculo, contemplar as lagostas
róseas, hostis caírem os caixotes
das mãos dos pescadores,
e estes, fundirem os corpos outra vez na água
agredindo as tocas de sua mercadoria,
ver as velhas cerzirem calças gastas
pela pobreza, ver entre folhagens
partidos e tombados, com seus grandes narizes
fundidos na crosta calcária da ilha,
para quem apontam os gigantes? ninguém?
um caminho, um estranho caminho de gigantes:
e ali ficou seu prodigioso peso caído,
beijando a cinza sagrada, regressando
ao magma natal, malferidos, cobertos
pela luz oceânica, a pouca chuva, o pó
vulcânico, e mais tarde
por esta solidão do umbigo do mundo:
a solidão redonda de todo o mar reunido.
Parece estranho ver viver aqui, dentro
do círculo, contemplar as lagostas
róseas, hostis caírem os caixotes
das mãos dos pescadores,
e estes, fundirem os corpos outra vez na água
agredindo as tocas de sua mercadoria,
ver as velhas cerzirem calças gastas
pela pobreza, ver entre folhagens
1 132
Pablo Neruda
Epílogo - o Canto Repartido
Entre a cordilheira
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
1 258
Pablo Neruda
Mais Outro
Eu voltei do fundo do mar
odiando as coisas molhadas:
me sacudi como os cachorros
das ondas que me queriam
e de repente me senti
contente de meu desembarque
e unicamente terrestre.
Os jornalistas dirigiram
sua maquinaria extravagante
contra meus olhos e meu umbigo
para que lhes contasse coisas
como se eu estivesse morto,
como se eu fosse um vulgar
cadáver especializado,
sem levar em conta meu ser
que me exigia caminhar
antes de que eu regressasse
a meus costumes espantosos:
estive a ponto de voltar
a submergir na maré.
Porque minha história se duplica
quando em minha infância descobri
meu depravado coração
que me fez cair no mar
e acostumar-me a ser submarino.
Ali estudei para pintor,
ali tive casa e peixe,
sob as ondas me casei,
já não me lembro quais foram
minhas noivas das profundezas
e o certo é que tudo aquilo
era uma incólume rotina:
me aborrecia com os peixes
sem incidências nem batalhas
e eles pensaram que talvez
eu era um monótono cetáceo.
Quando por imaginação
pisei a areia de Ilha Negra
e vivi como todo o mundo,
me tocam tanto a sineta
e perguntam coisas idiotas
sobre os aspectos remotos
de uma vida tão comum
não sei que fazer para espantar
estes estranhos bisbilhoteiros.
Peço a um sábio que me diga
onde posso viver tranquilo.
odiando as coisas molhadas:
me sacudi como os cachorros
das ondas que me queriam
e de repente me senti
contente de meu desembarque
e unicamente terrestre.
Os jornalistas dirigiram
sua maquinaria extravagante
contra meus olhos e meu umbigo
para que lhes contasse coisas
como se eu estivesse morto,
como se eu fosse um vulgar
cadáver especializado,
sem levar em conta meu ser
que me exigia caminhar
antes de que eu regressasse
a meus costumes espantosos:
estive a ponto de voltar
a submergir na maré.
Porque minha história se duplica
quando em minha infância descobri
meu depravado coração
que me fez cair no mar
e acostumar-me a ser submarino.
Ali estudei para pintor,
ali tive casa e peixe,
sob as ondas me casei,
já não me lembro quais foram
minhas noivas das profundezas
e o certo é que tudo aquilo
era uma incólume rotina:
me aborrecia com os peixes
sem incidências nem batalhas
e eles pensaram que talvez
eu era um monótono cetáceo.
Quando por imaginação
pisei a areia de Ilha Negra
e vivi como todo o mundo,
me tocam tanto a sineta
e perguntam coisas idiotas
sobre os aspectos remotos
de uma vida tão comum
não sei que fazer para espantar
estes estranhos bisbilhoteiros.
Peço a um sábio que me diga
onde posso viver tranquilo.
1 204
Pablo Neruda
Quando Eu Decidi
Quando eu decidi ficar límpido
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
1 103
Pablo Neruda
18
Aqui te amo.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
1 150
Pablo Neruda
Filosofia
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
1 166
Pablo Neruda
Um Animal Pequeno
Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
1 162
Pablo Neruda
Chegaram Uns Argentinos
Chegaram uns argentinos,
eram de Jujuy-e Mendoza,
um engenheiro, um médico,
três filhos como três uvas.
Eu não tinha nada que dizer.
Tampouco meus desconhecidos.
Então não nos dissemos nada.
Só respiramos juntos
o ar brusco do Pacífico sul,
o ar verde
da pampa líquida.
Talvez o levaram de volta
às suas cidades
como quem leva um cão de outro pais,
ou umas asas estranhas,
uma ave palpitante.
eram de Jujuy-e Mendoza,
um engenheiro, um médico,
três filhos como três uvas.
Eu não tinha nada que dizer.
Tampouco meus desconhecidos.
Então não nos dissemos nada.
Só respiramos juntos
o ar brusco do Pacífico sul,
o ar verde
da pampa líquida.
Talvez o levaram de volta
às suas cidades
como quem leva um cão de outro pais,
ou umas asas estranhas,
uma ave palpitante.
1 129
Pablo Neruda
Madrigal Escrito No Inverno
No fundo do mar profundo,
na noite de longas listas,
como um cavalo correndo atravessa
o teu calado calado nome.
Aloja-me às tuas costas, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, subitamente,
sobre a folha solitária, nocturna,
brotando do obscuro, por trás de ti.
Flor da doce luz completa,
socorre-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.
Agora então, a toda a largura,
de um esquecimento a outro residem comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a obscura noite preserva.
Acolhe-me na tarde fiandeira,
quando ao anoitecer trabalha
a sua roupa e no céu lateja
uma estrela cheia de vento.
Abeira de mim a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, tapando-me os olhos,
cruza comigo a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.
na noite de longas listas,
como um cavalo correndo atravessa
o teu calado calado nome.
Aloja-me às tuas costas, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, subitamente,
sobre a folha solitária, nocturna,
brotando do obscuro, por trás de ti.
Flor da doce luz completa,
socorre-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.
Agora então, a toda a largura,
de um esquecimento a outro residem comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a obscura noite preserva.
Acolhe-me na tarde fiandeira,
quando ao anoitecer trabalha
a sua roupa e no céu lateja
uma estrela cheia de vento.
Abeira de mim a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, tapando-me os olhos,
cruza comigo a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.
1 457
Pablo Neruda
Buscar
Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
1 115
Pablo Neruda
Não Há Muito Que Contar
Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
1 112
Pablo Neruda
Ida e Volta
Celebro a mensagem indireta e a taça de tua transparência
(quando em Valparaíso encontraste meus olhos perdidos)
porque eu a distância fechei o olhar buscando-te, amada,
e me despedi de mim mesmo deixando-te só.
Um dia, um cavalo que cruza o caminho do tempo, uma fogueira
que deixa na areia carvões noturnos como queimaduras
e desvencilhado, sem ver nem saber, prisioneira em minha curta desdita,
espero que voltes apenas partida de nossas areias.
Celebro esses passos que não divisei entre teus passos delgados,
a farinha incitante que tu despertaste nas padarias
e naquela gota de chuva que me dedicavas
achei, ao recolhê-la na costa, teu rasto encerrado na água.
Não devo descer as dunas nem ver o enxame da pescaria,
não tenho por que espreitar as baleias que atrai o Outono a Quintay
desde suas espaçosas moradias e procriações antárticas:
a natureza não pode mentir a seus filhos e espero,
espera, te espero. E se chegas, a sombra porá em seu
hemisfério
uma claridade de violetas que não conhecia a noite.
(quando em Valparaíso encontraste meus olhos perdidos)
porque eu a distância fechei o olhar buscando-te, amada,
e me despedi de mim mesmo deixando-te só.
Um dia, um cavalo que cruza o caminho do tempo, uma fogueira
que deixa na areia carvões noturnos como queimaduras
e desvencilhado, sem ver nem saber, prisioneira em minha curta desdita,
espero que voltes apenas partida de nossas areias.
Celebro esses passos que não divisei entre teus passos delgados,
a farinha incitante que tu despertaste nas padarias
e naquela gota de chuva que me dedicavas
achei, ao recolhê-la na costa, teu rasto encerrado na água.
Não devo descer as dunas nem ver o enxame da pescaria,
não tenho por que espreitar as baleias que atrai o Outono a Quintay
desde suas espaçosas moradias e procriações antárticas:
a natureza não pode mentir a seus filhos e espero,
espera, te espero. E se chegas, a sombra porá em seu
hemisfério
uma claridade de violetas que não conhecia a noite.
1 076
Pablo Neruda
XXIV - A ilha
Adeus, adeus, ilha secreta, rosa
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
1 194
Pablo Neruda
Integrações
Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
1 988
Pablo Neruda
3
Ah vastidão de pinhos, rumor de ondas quebrando,
lento jogo das luzes, campana solitária,
crepúsculo caindo em teus olhos, boneca,
caracol terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e minha alma neles se perde
tal como tu desejas e para onde tu queres.
Marca meu caminho em teu arco de esperança e
soltarei em delírio uma revoada de flechas.
Em torno de mim vejo tua cintura de névoa
e teu silêncio acossa mias horas perseguidas,
e és com teus braços de pedra transparente onde os
meus beijos ancoram e a minha úmida ânsia aninha.
Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim em horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrarem-se as espigas na boca do vento.
lento jogo das luzes, campana solitária,
crepúsculo caindo em teus olhos, boneca,
caracol terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e minha alma neles se perde
tal como tu desejas e para onde tu queres.
Marca meu caminho em teu arco de esperança e
soltarei em delírio uma revoada de flechas.
Em torno de mim vejo tua cintura de névoa
e teu silêncio acossa mias horas perseguidas,
e és com teus braços de pedra transparente onde os
meus beijos ancoram e a minha úmida ânsia aninha.
Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim em horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrarem-se as espigas na boca do vento.
1 257
Pablo Neruda
Iii - Quando do Chile
Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
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