Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Marinheiro Real
Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.
1 755
Sophia de Mello Breyner Andresen
Rio
Rio, múltipla forma fugidia
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.
Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.
E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.
Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.
E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
1 521
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ir Beber-Te Num Navio de Altos Mastros
No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.
Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.
Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
1 213
Adélia Prado
Âncoras
Amo o deserto,
mas por causa das cobras
não alcanço o repouso
de sua cama de areia.
O jardineiro inepto
cortou o rebento esplêndido,
é meu braço que corta.
Nada é como quero que seja,
não há aqui um só lugar
que possa chamar de meu,
pareço amar a tristeza,
como o navio aos ferros do seu aprumo.
Lançar âncoras é uma ideia feliz.
Os navios me causam
compaixão e espanto.
mas por causa das cobras
não alcanço o repouso
de sua cama de areia.
O jardineiro inepto
cortou o rebento esplêndido,
é meu braço que corta.
Nada é como quero que seja,
não há aqui um só lugar
que possa chamar de meu,
pareço amar a tristeza,
como o navio aos ferros do seu aprumo.
Lançar âncoras é uma ideia feliz.
Os navios me causam
compaixão e espanto.
1 246
Adélia Prado
Reza do Homem Demente
Senhor deus meu Jesus Cristo,
eu pecador poderoso,
todo-poderoso contemplo
o mistério de ondas marítimas
que chocam meu coração.
Esta noite foi legal,
joguei futebol na Rússia
e fiz conferência à toa
debaixo do viaduto.
As pessoas só olhavam,
ninguém falava miau,
só um velho me entendia.
Ele também não falava
mas discutimos com proveito.
Muito esquisito este sonho,
aliviante demais,
muito engraçado também.
Quero mudar de enfermeiro,
essezinho aí parado
é delicado demaisinho,
seo Luizinho, inho, inho.
Chega, gente, fecha a porta
que eu quero ficar sozinho.
eu pecador poderoso,
todo-poderoso contemplo
o mistério de ondas marítimas
que chocam meu coração.
Esta noite foi legal,
joguei futebol na Rússia
e fiz conferência à toa
debaixo do viaduto.
As pessoas só olhavam,
ninguém falava miau,
só um velho me entendia.
Ele também não falava
mas discutimos com proveito.
Muito esquisito este sonho,
aliviante demais,
muito engraçado também.
Quero mudar de enfermeiro,
essezinho aí parado
é delicado demaisinho,
seo Luizinho, inho, inho.
Chega, gente, fecha a porta
que eu quero ficar sozinho.
1 147
Adélia Prado
Silabação
Na falha do dente mesma
ou entre ela e a estrela vermelha sobre o rio
cabem aviões e perguntas.
Fazem tediosas sentenças
sobre meu vestido e cabelos
enquanto eu faço um livro
que, segundo comadre minha,
‘deixa muitas recordações’.
Meu aspecto campônio
já perturbou um moço refinado
e passei maus bocados
com minha mãe me infernizando o ouvido:
‘vai arear seus pezinho à toa,
esse tal de Notajan
casa é com moça rica’.
Preferível seu ódio
a ouvir o nome querido
massacrado em sua boca.
Ó Jonathan, as palavras me matam,
as perfeitas e as cruas.
Milho, pó de café, sabão,
minha pobre mãe me preparou pra vida,
este vale de lágrimas.
Vale de lágrimas! Que palavra estupenda!
Assim diria, se soubesse,
em toda língua humana conhecida,
vale de lágrimas!
Os olhos da humanidade se exaurindo,
enchendo gargantas,
fossos entre os penhascos,
até virar um mar,
um mar salgado e amargo.
Mar, não, até virar um rio,
porque dizer assim vale de lágrimas
não é desesperado como o mar,
nem tão imenso.
O rio tem margens,
margens espraiam-se,
vegetação, animais, guardadores de gado,
o grito é ouvido.
ou entre ela e a estrela vermelha sobre o rio
cabem aviões e perguntas.
Fazem tediosas sentenças
sobre meu vestido e cabelos
enquanto eu faço um livro
que, segundo comadre minha,
‘deixa muitas recordações’.
Meu aspecto campônio
já perturbou um moço refinado
e passei maus bocados
com minha mãe me infernizando o ouvido:
‘vai arear seus pezinho à toa,
esse tal de Notajan
casa é com moça rica’.
Preferível seu ódio
a ouvir o nome querido
massacrado em sua boca.
Ó Jonathan, as palavras me matam,
as perfeitas e as cruas.
Milho, pó de café, sabão,
minha pobre mãe me preparou pra vida,
este vale de lágrimas.
Vale de lágrimas! Que palavra estupenda!
Assim diria, se soubesse,
em toda língua humana conhecida,
vale de lágrimas!
Os olhos da humanidade se exaurindo,
enchendo gargantas,
fossos entre os penhascos,
até virar um mar,
um mar salgado e amargo.
Mar, não, até virar um rio,
porque dizer assim vale de lágrimas
não é desesperado como o mar,
nem tão imenso.
O rio tem margens,
margens espraiam-se,
vegetação, animais, guardadores de gado,
o grito é ouvido.
1 351
Adélia Prado
O Pelicano
Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi — como vi o navio — um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
— a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria.
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi — como vi o navio — um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
— a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria.
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
2 792
Adélia Prado
Bitolas
O mar existindo com este navio imenso,
coitado de quem não viu
e só soube de mar de rosas e rio de enchente parecendo
[um mar.
O navio apita, dentro dele é grande, dividido em
[cômodos,
tem espaço pra cozinha, piscina, sala de visita,
até capela tem com seu capelão! OHAH!
Tão diverso de anzolinho de piaba e água doce
esta água estendendo-se até dormir de cansaço
e virar país estrangeiro.
Coitados de pai e mãe que morreram sem ver.
Dizem que estrela-do-mar, quando está viva, é um bicho,
depois de seca é que vira enfeite de parede. Tem navio
que cabe essa rua toda de gente.
Eu dou as costas pro mar,
afogada em despeito choro um rio de lágrimas.
Já li ‘mar de sargaços’; seja o que for, é belo.
Qualquer homem é estrangeiro, comparado a outro
[homem
que nunca viu sua terra.
Não quero viajar mais. Tenho gravuras do mar e mais
o que me foi dado com pequeno quintal e distraiu meus
[avós
e foi causa de celebração e motins, juramentos solenes
acompanhados de viola e rostos graves.
Um doou um rim; outro, um lote,
outro me deu o enxoval pra estudar no ginásio
e sofreu até morrer da doença terrível,
sem um ai de sua boca que agravasse o Senhor.
Pecados graves, medo, inocências incríveis cometeram,
espraiaram satisfações por causa da chuva, das galinhas
[chocando,
por causa das passagens do livro prometendo alegria:
“A figura deste mundo passa, olho humano jamais viu
[o que espera os eleitos...”
Não quero saber do mar. No fundo da Mina, em Minas,
também tem frestas de luz.
Queria ser dramática e não sou.
Isto me fez sofrer até agora.
É um córrego, um veio d’água,
um estro pequeno, o meu.
Se o crítico tiver razão,
nunca terei estátua.
Valha-me, pai,
num mar de vaidades não me deixe morrer,
pela vida, entrego os versos todos;
na perna erisipelada
porei compressas quentes.
A noite inteira, se for preciso.
coitado de quem não viu
e só soube de mar de rosas e rio de enchente parecendo
[um mar.
O navio apita, dentro dele é grande, dividido em
[cômodos,
tem espaço pra cozinha, piscina, sala de visita,
até capela tem com seu capelão! OHAH!
Tão diverso de anzolinho de piaba e água doce
esta água estendendo-se até dormir de cansaço
e virar país estrangeiro.
Coitados de pai e mãe que morreram sem ver.
Dizem que estrela-do-mar, quando está viva, é um bicho,
depois de seca é que vira enfeite de parede. Tem navio
que cabe essa rua toda de gente.
Eu dou as costas pro mar,
afogada em despeito choro um rio de lágrimas.
Já li ‘mar de sargaços’; seja o que for, é belo.
Qualquer homem é estrangeiro, comparado a outro
[homem
que nunca viu sua terra.
Não quero viajar mais. Tenho gravuras do mar e mais
o que me foi dado com pequeno quintal e distraiu meus
[avós
e foi causa de celebração e motins, juramentos solenes
acompanhados de viola e rostos graves.
Um doou um rim; outro, um lote,
outro me deu o enxoval pra estudar no ginásio
e sofreu até morrer da doença terrível,
sem um ai de sua boca que agravasse o Senhor.
Pecados graves, medo, inocências incríveis cometeram,
espraiaram satisfações por causa da chuva, das galinhas
[chocando,
por causa das passagens do livro prometendo alegria:
“A figura deste mundo passa, olho humano jamais viu
[o que espera os eleitos...”
Não quero saber do mar. No fundo da Mina, em Minas,
também tem frestas de luz.
Queria ser dramática e não sou.
Isto me fez sofrer até agora.
É um córrego, um veio d’água,
um estro pequeno, o meu.
Se o crítico tiver razão,
nunca terei estátua.
Valha-me, pai,
num mar de vaidades não me deixe morrer,
pela vida, entrego os versos todos;
na perna erisipelada
porei compressas quentes.
A noite inteira, se for preciso.
1 238
Adélia Prado
Canícula
Ao meio-dia, deságua o amor
os sonhos mais frescos e intrigantes;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas,
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca.
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.
os sonhos mais frescos e intrigantes;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas,
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca.
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.
1 088
Carlos Drummond de Andrade
Fmi
Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 220
Carlos Drummond de Andrade
Carrancas do Rio São Francisco
As carrancas do rio São Francisco
largaram suas proas e vieram
para um banco da rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d’água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los; muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho…
08/08/1970
largaram suas proas e vieram
para um banco da rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d’água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los; muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho…
08/08/1970
2 164
Carlos Drummond de Andrade
Recado
Ao comandante do navio Aldábi,
que ora deixa este porto: boa rota
e que tudo lhe corra a vento suave,
mas sobretudo, amigo, tome nota:
Vai no vapor alguém que recomendo
ao zelo neerlandês meticuloso
com tulipas ou vidas. Fique atento
quer ao concreto quer ao vaporoso.
Este é diverso, e verso, entre os turistas
papa-milhas errantes pela Terra:
as forças naturais lhe são submissas
à alquimia do verbo, que não erra.
Vai sobre o mar, ou leva o mar consigo?,
o mar de sentimentos brasileiros,
de pernambucanos, índias, infinito
viver em comunhão, alvissareiros
descobrimentos do subsolo humano
contidos na palavra cadenciada
que punge e que embalsama, e tanto, tanto
artifício gentil, noite-alvorada.
Foi bom que este seu barco se chamasse
algo assim como estrela, sem ser Vênus,
mas venusinamente abrindo espaço
claro e profundo a périplos serenos.
Que demanda o viajante? uma londrina
lua reticenciosa, a ponte calma
sobre o rio discreto, a meia-tinta
de coisas ocorridas dentro n’alma?
Mas Londres, por que Londres? Não pergunte
aquilo que ele mesmo não responde.
(“O poeta é um fingidor.”) Seu reino é Tule
ou Pasárgada, e fica não sei onde.
Leve-o, navio, em leve travessia
a essa Europa que o viu enfermo e velho,
e ora jovem e são, rico de vida,
irá vê-lo, milagre de evangelho.
Pois milagre é a poesia, Aldábi: leme,
angra, remédio, púrpura bandeira.
Zele e traga de volta, pontualmente,
o nosso grande e bom Manuel Bandeira.
21/07/1957
que ora deixa este porto: boa rota
e que tudo lhe corra a vento suave,
mas sobretudo, amigo, tome nota:
Vai no vapor alguém que recomendo
ao zelo neerlandês meticuloso
com tulipas ou vidas. Fique atento
quer ao concreto quer ao vaporoso.
Este é diverso, e verso, entre os turistas
papa-milhas errantes pela Terra:
as forças naturais lhe são submissas
à alquimia do verbo, que não erra.
Vai sobre o mar, ou leva o mar consigo?,
o mar de sentimentos brasileiros,
de pernambucanos, índias, infinito
viver em comunhão, alvissareiros
descobrimentos do subsolo humano
contidos na palavra cadenciada
que punge e que embalsama, e tanto, tanto
artifício gentil, noite-alvorada.
Foi bom que este seu barco se chamasse
algo assim como estrela, sem ser Vênus,
mas venusinamente abrindo espaço
claro e profundo a périplos serenos.
Que demanda o viajante? uma londrina
lua reticenciosa, a ponte calma
sobre o rio discreto, a meia-tinta
de coisas ocorridas dentro n’alma?
Mas Londres, por que Londres? Não pergunte
aquilo que ele mesmo não responde.
(“O poeta é um fingidor.”) Seu reino é Tule
ou Pasárgada, e fica não sei onde.
Leve-o, navio, em leve travessia
a essa Europa que o viu enfermo e velho,
e ora jovem e são, rico de vida,
irá vê-lo, milagre de evangelho.
Pois milagre é a poesia, Aldábi: leme,
angra, remédio, púrpura bandeira.
Zele e traga de volta, pontualmente,
o nosso grande e bom Manuel Bandeira.
21/07/1957
763
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 167
Carlos Drummond de Andrade
Ao Sol da Praia
Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.
O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.
O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,
filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.
O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,
aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).
Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.
Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.
E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.
Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.
(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta
e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.
Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.
O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.
O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,
filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.
O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,
aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).
Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.
Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.
E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.
Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.
(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta
e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.
Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 394
Carlos Drummond de Andrade
Palavras No Mar
Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os naúfragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
— do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.
A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.
a palavra Encanto
balança os naúfragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
— do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.
A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.
1 234
Carlos Drummond de Andrade
Rua do Olhar
Entre tantas ruas
que passam no mundo,
a Rua do Olhar,
em Paris, me toca.
Imagino um olho
calmo, solitário,
a fitar os homens
que voltam cansados.
Olhar de perdão
para os desvarios,
de lento conselho
e cumplicidade.
Rua do Olhar:
as casas não contam,
nem contam as pedras,
caladas no chão.
Só conta esse olho
triste, na tarde,
percorrendo o corpo,
devassando a roupa...
A luz que se acende
não te ilumina.
O brilho sem brilho,
a vaga pestana
desse olho imóvel
oscilam nas coisas
(são apenas coisas
mas também respiram).
Pela noite abaixo
uma vida surda
embebe o silêncio,
como frio no ar.
Sinto que o drama
já não interessa.
Quem ama, quem luta,
quem bebe veneno?
Quem chora no escuro,
quem que se diverte
ou apenas fuma
ou apenas corre?
Uma rua — um olho
aberto em Paris
olha sobre o mar.
Na praia estou eu.
Vem, farol tímido,
dizer-nos que o mundo
de fato é restrito,
cabe num olhar.
Olhar de uma rua
a quem quer que passe.
Compreensão, amor
perdidos na bruma.
Que funda esperança
perfura o desgosto,
abre um longo túnel
e sorri na boca!
E sorri nas mãos,
no queixo, na rosa,
no menor dos bens
de ti, meu irmão!
que passam no mundo,
a Rua do Olhar,
em Paris, me toca.
Imagino um olho
calmo, solitário,
a fitar os homens
que voltam cansados.
Olhar de perdão
para os desvarios,
de lento conselho
e cumplicidade.
Rua do Olhar:
as casas não contam,
nem contam as pedras,
caladas no chão.
Só conta esse olho
triste, na tarde,
percorrendo o corpo,
devassando a roupa...
A luz que se acende
não te ilumina.
O brilho sem brilho,
a vaga pestana
desse olho imóvel
oscilam nas coisas
(são apenas coisas
mas também respiram).
Pela noite abaixo
uma vida surda
embebe o silêncio,
como frio no ar.
Sinto que o drama
já não interessa.
Quem ama, quem luta,
quem bebe veneno?
Quem chora no escuro,
quem que se diverte
ou apenas fuma
ou apenas corre?
Uma rua — um olho
aberto em Paris
olha sobre o mar.
Na praia estou eu.
Vem, farol tímido,
dizer-nos que o mundo
de fato é restrito,
cabe num olhar.
Olhar de uma rua
a quem quer que passe.
Compreensão, amor
perdidos na bruma.
Que funda esperança
perfura o desgosto,
abre um longo túnel
e sorri na boca!
E sorri nas mãos,
no queixo, na rosa,
no menor dos bens
de ti, meu irmão!
1 842
Carlos Drummond de Andrade
Noticias de Espanha
Aos navios que regressam
marcados de negra viagem,
aos homens que neles voltam
com cicatrizes no corpo
ou de corpo mutilado,
peço notícias de Espanha.
Às caixas de ferro e vidro,
às ricas mercadorias,
ao cheiro de mofo e peixe,
às pranchas sempre varridas
de uma água sempre irritada,
peço notícias de Espanha.
Às gaivotas que deixaram
pelo ar um risco de gula,
ao sal e ao rumor das conchas,
à espuma fervendo fria,
aos mil objetos do mar,
peço notícias de Espanha.
Ninguém as dá. O silêncio
sobe mil braços e fecha-se
entre as substâncias mais duras.
Hirto silêncio de muro,
de pano abafando boca,
de pedra esmagando ramos,
é seco e sujo silêncio
em que se escuta vasar
como no fundo da mina
um caldo grosso e vermelho.
Não há notícias de Espanha.
Ah, se eu tivesse navio!
Ah, se eu soubesse voar!
Mas tenho apenas meu canto,
e que vale um canto? O poeta,
imóvel dentro do verso,
cansado de vã pergunta,
farto de contemplação,
quisera fazer do poema
não uma flor: uma bomba
e com essa bomba romper
o muro que envolve Espanha.
marcados de negra viagem,
aos homens que neles voltam
com cicatrizes no corpo
ou de corpo mutilado,
peço notícias de Espanha.
Às caixas de ferro e vidro,
às ricas mercadorias,
ao cheiro de mofo e peixe,
às pranchas sempre varridas
de uma água sempre irritada,
peço notícias de Espanha.
Às gaivotas que deixaram
pelo ar um risco de gula,
ao sal e ao rumor das conchas,
à espuma fervendo fria,
aos mil objetos do mar,
peço notícias de Espanha.
Ninguém as dá. O silêncio
sobe mil braços e fecha-se
entre as substâncias mais duras.
Hirto silêncio de muro,
de pano abafando boca,
de pedra esmagando ramos,
é seco e sujo silêncio
em que se escuta vasar
como no fundo da mina
um caldo grosso e vermelho.
Não há notícias de Espanha.
Ah, se eu tivesse navio!
Ah, se eu soubesse voar!
Mas tenho apenas meu canto,
e que vale um canto? O poeta,
imóvel dentro do verso,
cansado de vã pergunta,
farto de contemplação,
quisera fazer do poema
não uma flor: uma bomba
e com essa bomba romper
o muro que envolve Espanha.
1 430
Carlos Drummond de Andrade
Notícias
Entre mim e os mortos há o mar
e os telegramas.
Há anos que nenhum navio parte
nem chega. Mas sempre os telegramas
frios, duros, sem conforto.
Na praia, e sem poder sair.
Volto, os telegramas vêm comigo.
Não se calam, a casa é pequena
para um homem e tantas noticias.
Vejo-te no escuro, cidade enigmática.
Chamas com urgência, estou paralisado.
De ti para mim, apelos,
de mim para ti, silêncio.
Mas no escuro nos visitamos.
Escuto vocês todos, irmãos sombrios.
No pão, no couro, na superfície
macia das coisas sem raiva,
sinto vozes amigas, recados
furtivos, mensagens em código.
Os telegramas vieram no vento.
Quanto sertão, quanta renúncia atravessaram!
Todo homem sozinho devia fazer uma canoa
e remar para onde os telegramas estão chamando.
e os telegramas.
Há anos que nenhum navio parte
nem chega. Mas sempre os telegramas
frios, duros, sem conforto.
Na praia, e sem poder sair.
Volto, os telegramas vêm comigo.
Não se calam, a casa é pequena
para um homem e tantas noticias.
Vejo-te no escuro, cidade enigmática.
Chamas com urgência, estou paralisado.
De ti para mim, apelos,
de mim para ti, silêncio.
Mas no escuro nos visitamos.
Escuto vocês todos, irmãos sombrios.
No pão, no couro, na superfície
macia das coisas sem raiva,
sinto vozes amigas, recados
furtivos, mensagens em código.
Os telegramas vieram no vento.
Quanto sertão, quanta renúncia atravessaram!
Todo homem sozinho devia fazer uma canoa
e remar para onde os telegramas estão chamando.
1 026
Carlos Drummond de Andrade
Privilégio do Mar
Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.
O edifício é sólido e o mundo também.
Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.
O mundo é mesmo de cimento armado.
Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta.. . improvável. . .
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!
Podemos beber honradamente nossa cerveja.
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.
O edifício é sólido e o mundo também.
Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.
O mundo é mesmo de cimento armado.
Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta.. . improvável. . .
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!
Podemos beber honradamente nossa cerveja.
2 976
Carlos Drummond de Andrade
Oceania
Amo burra, burramente
certa menina enfezada
para lá dos mares do sul.
Ela vem por sobre as ondas
enfeitiçar minha vida,
atrapalhar minha mesa,
dizer que espere... esperarei.
Garota das ilhas Fidji,
ela canta a cantiga morna
do pescador que foi pescado
por um grande peixe vermelho,
ela sobe no coqueiro,
ela sacode o coco
na minha cabeça,
essa menina enjoada. ..
Ora, eu amo essa menina
que vem dentro de um romance,
áspera, nítida, úmida,
brincar no meu pensamento,
espantar esse mosquito
que pousou no meu papel,
acender esse foguinho
através da Oceania.
E eu lhe pergunto: Filhinha,
para lá da Oceania
decerto que há outras meninas
e outros coqueiros, decerto!
Por que você não me conta?
Eu queria tanto saber.
Ela diz que fique quieto,
que depois da Oceania
o mundo acaba.. . e que a praia
é só areia e silêncio.
O mundo acabou para nós!
Quebra coco, menina,
dança bem espalhado, menina,
canta bem machucado, menina,
com tua voz de Oceania.
certa menina enfezada
para lá dos mares do sul.
Ela vem por sobre as ondas
enfeitiçar minha vida,
atrapalhar minha mesa,
dizer que espere... esperarei.
Garota das ilhas Fidji,
ela canta a cantiga morna
do pescador que foi pescado
por um grande peixe vermelho,
ela sobe no coqueiro,
ela sacode o coco
na minha cabeça,
essa menina enjoada. ..
Ora, eu amo essa menina
que vem dentro de um romance,
áspera, nítida, úmida,
brincar no meu pensamento,
espantar esse mosquito
que pousou no meu papel,
acender esse foguinho
através da Oceania.
E eu lhe pergunto: Filhinha,
para lá da Oceania
decerto que há outras meninas
e outros coqueiros, decerto!
Por que você não me conta?
Eu queria tanto saber.
Ela diz que fique quieto,
que depois da Oceania
o mundo acaba.. . e que a praia
é só areia e silêncio.
O mundo acabou para nós!
Quebra coco, menina,
dança bem espalhado, menina,
canta bem machucado, menina,
com tua voz de Oceania.
1 233
Carlos Drummond de Andrade
A Voz
O Brasil tem muitas Aparecidas.
Tem Aparecida de Goiânia e de Goiás.
Tem Aparecida de Minas e do Oeste, no Paraná.
Tem Aparecida do Tabuado, em Mato Grosso,
e tantas outras, onde quer que a fé provoque aparições.
Tem sobretudo Aparecida de São Paulo,
onde uma santa apareceu nas águas do rio
e era uma santa negra do barro e do limo das profundezas do rio.
Pescadores a trouxeram, um altar a recolheu.
E há mais de dois séculos Nossa Senhora da Conceição
distribui milagres entre os humildes e os poderosos,
igualmente necessitados de milagre.
Maria d’Aparecida, não vieste das águas do rio.
Vieste de mais longe,
de um mais profundo abismo de raça e de sonho.
Tua voz caminheira
nos conta do que paira além da ciência dos Conservatórios
e do tratamento operístico da vida.
É uma voz que vem das entranhas do vento e dos coqueirais,
do sigilo dos minérios e das formações vulcânicas do amor.
Terrestre. Telúrica. Mulher.
Tua voz, d’Aparecida, é aparição
fulgurante, sensitiva, dramática
e vem do fundo nigroluminoso de nossos corações
e vai, e volta, e vai.
Maria d’Aparecida do Brasil,
aparecedoramente cantaril.
Tem Aparecida de Goiânia e de Goiás.
Tem Aparecida de Minas e do Oeste, no Paraná.
Tem Aparecida do Tabuado, em Mato Grosso,
e tantas outras, onde quer que a fé provoque aparições.
Tem sobretudo Aparecida de São Paulo,
onde uma santa apareceu nas águas do rio
e era uma santa negra do barro e do limo das profundezas do rio.
Pescadores a trouxeram, um altar a recolheu.
E há mais de dois séculos Nossa Senhora da Conceição
distribui milagres entre os humildes e os poderosos,
igualmente necessitados de milagre.
Maria d’Aparecida, não vieste das águas do rio.
Vieste de mais longe,
de um mais profundo abismo de raça e de sonho.
Tua voz caminheira
nos conta do que paira além da ciência dos Conservatórios
e do tratamento operístico da vida.
É uma voz que vem das entranhas do vento e dos coqueirais,
do sigilo dos minérios e das formações vulcânicas do amor.
Terrestre. Telúrica. Mulher.
Tua voz, d’Aparecida, é aparição
fulgurante, sensitiva, dramática
e vem do fundo nigroluminoso de nossos corações
e vai, e volta, e vai.
Maria d’Aparecida do Brasil,
aparecedoramente cantaril.
1 825
Carlos Drummond de Andrade
Dezembro
Oiti: a cigarra zine:
convite à praia. Tine
o sol no quadril, e o míni
véu dissolve, do biquíni.
convite à praia. Tine
o sol no quadril, e o míni
véu dissolve, do biquíni.
1 615
Carlos Drummond de Andrade
Entre o Ser E As Coisas
Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
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