Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Herberto Helder
Os Capítulos Maiores da Minha Vida
os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
1 238
Herberto Helder
O Poema - Ii
A palavra erguia-se como um candelabro,
a voz ardia como um inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina. Quando os arbustos
eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo íamos cantando
a fábula e o próprio rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem
sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos lábios,
a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso. Toda a casa
acaba a noite, cria a auréola
em torno do objecto, enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça partia-se nas mãos — sangue:
um sinal, um símbolo. E cantar
era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na ressonância e volúpia
do tempo. E a mão procurava o punhal,
a boca beijava a laje nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas
ou no coração da sementeira.
E era então o fogo aquilo a que o beijo,
em sua graça, firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se gastou
que não seja visitada, nenhum deus
é tão grande que se não perca na substância
da sombra. — Uma flor e um grito,
um copo e um breve minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos tocou,
o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo da morte, pedra
a pedra, chama a chama — erguido,
amado,
aprendido.
a voz ardia como um inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina. Quando os arbustos
eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo íamos cantando
a fábula e o próprio rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem
sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos lábios,
a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso. Toda a casa
acaba a noite, cria a auréola
em torno do objecto, enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça partia-se nas mãos — sangue:
um sinal, um símbolo. E cantar
era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na ressonância e volúpia
do tempo. E a mão procurava o punhal,
a boca beijava a laje nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas
ou no coração da sementeira.
E era então o fogo aquilo a que o beijo,
em sua graça, firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se gastou
que não seja visitada, nenhum deus
é tão grande que se não perca na substância
da sombra. — Uma flor e um grito,
um copo e um breve minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos tocou,
o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo da morte, pedra
a pedra, chama a chama — erguido,
amado,
aprendido.
1 408
Herberto Helder
Já Me Custa No Chão do Inferno
já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
554
Herberto Helder
Não Quero Mais Mundo Senão a Memória Trémula
não quero mais mundo senão a memória trémula,
quando me perdi,
a cidade, o rio camoneano, o ar,
era como se os apanhasse de uma só vez,
um dia inteiro para ver como acabava em noite,
não quero senão perder-me nesse enigma:
um pequeno poema bastava para meter tudo lá dentro,
e a minha vida como nota,
rápida, ríspida,
nas margens,
mas tamanhas eram elas que não acabavam nunca,
notas mais notas,
o caos,
e eu ali à espera da morte entre canções roucas,
eu que, trémulo, não quero, digo, mais mundo,
eu que me perdi,
não tinham ainda começado o rio, o poema, o ar, a morte
quando me perdi,
a cidade, o rio camoneano, o ar,
era como se os apanhasse de uma só vez,
um dia inteiro para ver como acabava em noite,
não quero senão perder-me nesse enigma:
um pequeno poema bastava para meter tudo lá dentro,
e a minha vida como nota,
rápida, ríspida,
nas margens,
mas tamanhas eram elas que não acabavam nunca,
notas mais notas,
o caos,
e eu ali à espera da morte entre canções roucas,
eu que, trémulo, não quero, digo, mais mundo,
eu que me perdi,
não tinham ainda começado o rio, o poema, o ar, a morte
1 219
Herberto Helder
Fonte - Vi
Estás verdadeiramente deitada. É impossível gritar sobre esse abismo
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. As vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.
No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.
Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. E um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração ias águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.
Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.
Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
— talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas.
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. As vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.
No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.
Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. E um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração ias águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.
Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.
Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
— talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas.
663
Herberto Helder
Talvez Certa Noite Uma Grande Mão Anónima
talvez certa noite uma grande mão anónima tenha por mim,
um a um, lado alado, escavando,
escrito os nomes,
um a um escrito os nomes esquecidos,
e entre os nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre
2010.12
um a um, lado alado, escavando,
escrito os nomes,
um a um escrito os nomes esquecidos,
e entre os nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre
2010.12
1 028
Herberto Helder
A Força da Faca Ou É Um Jogo
a força da faca ou é um jogo,
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
1 002
Herberto Helder
Nenhuma Linha É Menos do Que Outrora
nenhuma linha é menos do que outrora
azougue, e basta:
é tudo só memória inverosímil,
sem proporção alguma: e nenhuma
consolação da forma
azougue, e basta:
é tudo só memória inverosímil,
sem proporção alguma: e nenhuma
consolação da forma
569
Herberto Helder
Em Certas Estações Obsessivas
Em certas estações obsessivas
insondáveis
pela doçura e a desordem, eu vi
sobre
o barulho dos buracos terrestres
as caras
engolfadas fulgurando até ao sangue, sua teia
de ossos fechada
por membranas que respiram com luz
própria.
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia. Vi
a massa arterial das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas.
Eram
rápidas,
fortes,
espaçosas
as noites do poder. O alimento vinha
com o apuro do mel. O dom
desenvolvia em mim esses mesmos rostos
abertos a meio, com a lua
e o sol dentro e fora.
Lanho a lanho
cerrara-se a carne em seu tecido
redondo.
Vêem-se as raízes animais dos cancros, mas
no coração estrangulado, assim
estrangulada a água por circuitos
cegos,
quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
As caras irrompem
dos nós de sangue, dos rins, de uma
coluna
enraizada, uma
constelação calcária.
Às vezes
o mármore reflui numa onda muscular,
e sobre a torsão
interna
as mãos cruas ardem.
E o golpe que me abre desde a uretra
à garganta
brilha
como o abismo venoso da terra.
A pupila deste animal grande como uma pálpebra
ao espelho, nua, a dormir,
sob as radiações
brancas.
Longas estrelas rodam entre os pólos
das salas, voltam-se
as camisas
na translação dos dias ópticos, todo o ar se enche
de noites
largas.
O braço enxuto plantado.
Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue. Mas as cabeças, que olham
pelos lados
novos
de gárgulas jorrando toda a força
da luz interna,
vivem da energia
da nossa graça, da ferida
da elegância. A violência envenena-me.
As aberturas
que os braços fazem na água, aquilo
que eu fecho quando
o sono me corrompe ou quando
incito ou afugento as paisagens,
o que alimenta
as musas
abismadas
é tudo quanto me cega.
Também as mulheres se alumiam
pela abundância, pela
boca até ao fundo, o pêlo que salta,
omoplatas,
mãos redondas, os borbotões
da seda
escoada.
Têm
caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as
o movimento dos quartos, a matriz
secreta
do ouro afundada entre
a vulva e o coração,
a órbita
das laranjas à volta
estuante
da estaca.
A estrela voltaica queimando
a minha obra
morosa afina sombriamente cada cara
soldada
ponto a ponto,
sobre as válvulas, sobre
a luz que se abre e se fecha
na carne
lunar, implacável.
Tudo faísca: a fruta
que se apanha, o feixe
vertebral, os orifícios de sangue
entre os poros
da madeira.
Respira,
dói.
Como uma artéria radial,
a atenção
que dói de baixo para o alto, as meninges
abertas
por fendas luminosas.
Alimentava-me
dos rostos minados pela rede dos nervos
negros e das veias
até à raiz cravada
da voz
— o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos.
Desta cadeira vejo
a marcenaria da árvore.
Os fulcros do ouro, o hausto
do meio da terra.
O som espacial da pedra cai
no fundo do dia,
pulsa
a noite vascular, estendida
como uma toalha.
E dentro dessa noite cheia de ar negro,
os planetas
luzem
como rostos que se aproximam com as fendas
de sangue.
Às vezes
meu sangue enreda-se no fundo dos mortos.
O ar,
abraçam-no as grandes constelações
tácteis.
A noite
é uma árvore crua,
voraz,
entranhada.
Se a estrela transborda da boca,
a água
vivente
torce-se entre os braços ferozes. E das crateras
arranca-se
o rosto com os poros brancos
a toda a volta.
Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. E os dedos gravitacionais
sobre a queimadura
manobram os pequenos sóis
enxameados e baixos.
Com a fundura cristalográfica das caras
enervadas
na claridade, a estrela oficinal
crepitando
sobre
a ressaca redonda da carne.
O ouro fundido nos pulmões, cortado
na boca. Respira
o buraco onde o ar se incendeia.
E o equilíbrio
lunar
do sono, do poder.
Eu movo-me no mundo
como púrpura, a vara
das maçãs fechadas.
E escoa-se em mim o caudal
nuclear dos astros. Remoinhos de mel
obscuro. Os filões do álcool.
Esta golfada de luz pela ferida de um espelho.
E o rosto fendido e a claridade
arrancada
ao interior mais forte
da imagem.
Constelação de sangue,
o halo
de um orifício nocturno.
Os sóis turbilhonam entre
as espáduas.
Este é o dia rítmico e abundante.
Olho a brancura espasmódica,
a queimadura central
dessa imagem.
Meu sangue envolve os mortos
como um braço profundo.
Solda-os.
E toda a fruta está soldada à potência
da sua árvore.
Engolfo-me no espelho como a água
que pulsa num rosto, nessa abertura
salgada. Recebo a cara nos feixes
da minha cara, entre
constelações vertebrais, o fundo
das artérias.
Vi
dorsos torcerem-se à volta da sua dor.
No meio
o sorvedouro fazia um laço
de carne. Rodava em torno das válvulas negras
a estrela atómica.
Afronte
ao alto da beleza áspera,
labaredas
vazadas de lado a lado do corpo
como uma corola cesariana.
E nessa
carne focal
curva,
o toque de um ferro vivo, um dedo, um osso
fechado,
no centro das aberturas onde a energia
se desencadeia.
E é cruel surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que devora:
às vezes
a força dos rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra.
22-23.XI.77.
insondáveis
pela doçura e a desordem, eu vi
sobre
o barulho dos buracos terrestres
as caras
engolfadas fulgurando até ao sangue, sua teia
de ossos fechada
por membranas que respiram com luz
própria.
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia. Vi
a massa arterial das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas.
Eram
rápidas,
fortes,
espaçosas
as noites do poder. O alimento vinha
com o apuro do mel. O dom
desenvolvia em mim esses mesmos rostos
abertos a meio, com a lua
e o sol dentro e fora.
Lanho a lanho
cerrara-se a carne em seu tecido
redondo.
Vêem-se as raízes animais dos cancros, mas
no coração estrangulado, assim
estrangulada a água por circuitos
cegos,
quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
As caras irrompem
dos nós de sangue, dos rins, de uma
coluna
enraizada, uma
constelação calcária.
Às vezes
o mármore reflui numa onda muscular,
e sobre a torsão
interna
as mãos cruas ardem.
E o golpe que me abre desde a uretra
à garganta
brilha
como o abismo venoso da terra.
A pupila deste animal grande como uma pálpebra
ao espelho, nua, a dormir,
sob as radiações
brancas.
Longas estrelas rodam entre os pólos
das salas, voltam-se
as camisas
na translação dos dias ópticos, todo o ar se enche
de noites
largas.
O braço enxuto plantado.
Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue. Mas as cabeças, que olham
pelos lados
novos
de gárgulas jorrando toda a força
da luz interna,
vivem da energia
da nossa graça, da ferida
da elegância. A violência envenena-me.
As aberturas
que os braços fazem na água, aquilo
que eu fecho quando
o sono me corrompe ou quando
incito ou afugento as paisagens,
o que alimenta
as musas
abismadas
é tudo quanto me cega.
Também as mulheres se alumiam
pela abundância, pela
boca até ao fundo, o pêlo que salta,
omoplatas,
mãos redondas, os borbotões
da seda
escoada.
Têm
caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as
o movimento dos quartos, a matriz
secreta
do ouro afundada entre
a vulva e o coração,
a órbita
das laranjas à volta
estuante
da estaca.
A estrela voltaica queimando
a minha obra
morosa afina sombriamente cada cara
soldada
ponto a ponto,
sobre as válvulas, sobre
a luz que se abre e se fecha
na carne
lunar, implacável.
Tudo faísca: a fruta
que se apanha, o feixe
vertebral, os orifícios de sangue
entre os poros
da madeira.
Respira,
dói.
Como uma artéria radial,
a atenção
que dói de baixo para o alto, as meninges
abertas
por fendas luminosas.
Alimentava-me
dos rostos minados pela rede dos nervos
negros e das veias
até à raiz cravada
da voz
— o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos.
Desta cadeira vejo
a marcenaria da árvore.
Os fulcros do ouro, o hausto
do meio da terra.
O som espacial da pedra cai
no fundo do dia,
pulsa
a noite vascular, estendida
como uma toalha.
E dentro dessa noite cheia de ar negro,
os planetas
luzem
como rostos que se aproximam com as fendas
de sangue.
Às vezes
meu sangue enreda-se no fundo dos mortos.
O ar,
abraçam-no as grandes constelações
tácteis.
A noite
é uma árvore crua,
voraz,
entranhada.
Se a estrela transborda da boca,
a água
vivente
torce-se entre os braços ferozes. E das crateras
arranca-se
o rosto com os poros brancos
a toda a volta.
Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. E os dedos gravitacionais
sobre a queimadura
manobram os pequenos sóis
enxameados e baixos.
Com a fundura cristalográfica das caras
enervadas
na claridade, a estrela oficinal
crepitando
sobre
a ressaca redonda da carne.
O ouro fundido nos pulmões, cortado
na boca. Respira
o buraco onde o ar se incendeia.
E o equilíbrio
lunar
do sono, do poder.
Eu movo-me no mundo
como púrpura, a vara
das maçãs fechadas.
E escoa-se em mim o caudal
nuclear dos astros. Remoinhos de mel
obscuro. Os filões do álcool.
Esta golfada de luz pela ferida de um espelho.
E o rosto fendido e a claridade
arrancada
ao interior mais forte
da imagem.
Constelação de sangue,
o halo
de um orifício nocturno.
Os sóis turbilhonam entre
as espáduas.
Este é o dia rítmico e abundante.
Olho a brancura espasmódica,
a queimadura central
dessa imagem.
Meu sangue envolve os mortos
como um braço profundo.
Solda-os.
E toda a fruta está soldada à potência
da sua árvore.
Engolfo-me no espelho como a água
que pulsa num rosto, nessa abertura
salgada. Recebo a cara nos feixes
da minha cara, entre
constelações vertebrais, o fundo
das artérias.
Vi
dorsos torcerem-se à volta da sua dor.
No meio
o sorvedouro fazia um laço
de carne. Rodava em torno das válvulas negras
a estrela atómica.
Afronte
ao alto da beleza áspera,
labaredas
vazadas de lado a lado do corpo
como uma corola cesariana.
E nessa
carne focal
curva,
o toque de um ferro vivo, um dedo, um osso
fechado,
no centro das aberturas onde a energia
se desencadeia.
E é cruel surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que devora:
às vezes
a força dos rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra.
22-23.XI.77.
1 185
Herberto Helder
As Manhãs Começam Logo Com a Morte Das Mães
as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
1 269
Eduardo Pitta
Duramente aprendemos
Duramente aprendemos.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
652
Herberto Helder
Os Ritmos 8
O que me exalta nas fotografias é o roubo — aquele roubo abrupto, resguardador, defensivo — às forças expansivas do tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
731
Eduardo Pitta
Ocupamos a paisagem
Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.
Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.
Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
— todo lâminas.
Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.
Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
— as mais sazonadas
as menos polidas.
Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.
Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.
Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
— todo lâminas.
Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.
Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
— as mais sazonadas
as menos polidas.
Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.
473
Herberto Helder
Os Ritmos 3
Uma mulher está sentada junto à sua janela.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
1 054
Herberto Helder
Os Ritmos 5
Estou no fundo da casa, no abismo possível dos oito anos.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
1 065
Herberto Helder
Os Ritmos 1
Vejo-lhes o rosto sem sombras, um pequeno rosto branco que tem raízes em águas lisas.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
632
Eduardo Pitta
Temos das coisas a lembrança das viagens
Temos das coisas a lembrança das viagens
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
512
Eduardo Pitta
Hesitas quanto à natureza
Hesitas quanto à natureza do travo na língua,
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.
Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,
entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.
Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.
Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,
entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.
Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
506
Eduardo Pitta
Nada de muito óbvio
Nada de muito óbvio mas havia
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu
episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes
com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu
episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes
com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
906
Eduardo Pitta
Nenhum de nós passeia impune
Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.
Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.
Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.
A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.
Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.
Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.
Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.
A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.
Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.
610
Erorci Santana
XXVI
Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.
(...)
Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.
(...)
Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
625
Eduardo Pitta
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
648
Fernando Fitas
Tivemos os silêncios vigiados
Tivemos os silêncios vigiados
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar
E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar
E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
636
Matilde Campilho
We’Ve Changed, Honey Boo
Como estava previsto nos registos, agora você é muito mais dada à astrologia e eu ao estudo dos cafés servidos nas beiras de estrada. A polícia não nos procura mais. O tribunal dos seiscentos dias resolveu que a misturada que fizemos com os nomes dos pássaros já não é uma questão para a segurança interna. Mensagens encriptadas na bula dos medicamentos, aromas desleais enfiados à socapa nos pacotinhos de sorvete, assobio nos ouvidos do sinaleiro- tudo parou. Quase nos prendiam por tráfico de influências, mas agora as urbanizações andam muito sossegadas. Daniel, entretanto, está morto. Walter emudeceu no caminho da composição e os jornais usam datas estranhas em seus cabeçalhos. Junto àquelas figuras de aviões e homens fardados aparece o nome do décimo sexto mês. Mudou tudo, honey, e a distância entre nós não foi certamente a causa para toda a explosão. Existem mais de trinca e nove marcas diferentes de café, isso sem contar as misturas solúveis. As professoras de Westbridge preferem-no forte. Os astronautas fora de missão bebem cafezinho claro, não vá acontecer uma emergência qualquer — quem entende de gravidade está muito consciente da ligação entre leveza e sono. Antes do horóscopo e dos mapas você prestava alguma atenção ao despertar do soldado. Acho que tinha qualquer coisa a ver com luz ou com melancolia, tinha certamente tudo a ver com crença. Quero dizer, tu trabalhavas na tipografia e eu ainda guardo a revista onde plantaste o retrato do barcalhão fazendo a vênia à alvorada. Falávamos muito de príncipes nessa época, e os príncipes pertencem às manhãs. Cada motel serve um café diferente, raios. Distingo os ares da China do vento do Cazaquistão num minuto. We’ve changed, honey boo, mas os climogramas permanecem.
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