Poemas neste tema
Música
Allen Ginsberg
Iluminação de Sather Gate
Por que nego o maná para os outros?
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.
1956
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.
1956
1 003
Allen Ginsberg
Garatuja
Rexroth, seu rosto refletindo a cansada
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
1 079
Allen Ginsberg
Para Lindsay
Vachel, as estrelas se apagaram
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho
1 504
Allen Ginsberg
Uivo
“Soltem as fechaduras das portas!
Soltem também as portas dos seus batentes!”
Dedicado a Jack Kerouac, novo Buda da prosa americana, que borrifou inteligência em onze livros escritos na metade deste número de anos (1951-1956) – On the Road, Visions of Neal, Dr. Sax, Springtime Mary, The Subterraneans, San Francisco Blues, Some of the Dharma, Book of Dreams, Wake Up, Mexico City Blues e Visions of Gerard –, criando uma prosódia bop espontânea e uma literatura clássica original. Várias frases e o título de Uivo são tirados dele.
William Seward Burroughs, autor de Naked Lunch, uma novela sem fim que deixará todo mundo louco.
Neal Cassady, autor de The First Third, uma autobiografia (1949) que iluminou Buda.
Todos esses livros estão publicados no Céu.
Uivo
para Carl Solomon
I
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o
Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos polos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários,
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão, que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adónis de Denver –
prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam até as agências de desemprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Hudson à luz azul de holofote antiaéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht
& tortillas sonhando com o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por
todos os dias da década seguinte,
que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanela em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,
que se jogaram da Ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown, nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô,
saltaram no imundo rio Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30
na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia do Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis, que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tânger para os garotos ou Pacífico Sul para a locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o túmulo, que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue & amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue, mergulhando logo a seguir na catatonia, voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e
lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia-noite dos domínios de mausoléu druídico do amor, o
sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –
Ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo –
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em
sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.
II
Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias!
Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!
Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus
jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz
escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! tesouros de esqueletos! capitais cegas! indústrias demoníacas! nações espectrais!
invencíveis hospícios! caralhos de granito! bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas levantando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!
Visões! profecias! alucinações! milagres! êxtases! descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! adorações! iluminações! religiões! o carregamento todo de bosta sensitiva!
Desabamentos! sobre o rio! saltos e crucifixões! descendo a correnteza!
Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! jogados nos
rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! o olhar selvagem! os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! rumo à solidão!
acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima!
III
Carl Solomon! Eu estou com você em Rockland
onde você está mais louco do que eu
Eu estou com você em Rockland
onde você deve sentir-se muito estranho
Eu estou com você em Rockland
onde você imita a sombra da minha mãe
Eu estou com você em Rockland
onde você assassinou suas doze secretárias
Eu estou com você em Rockland
onde você ri deste humor invisível
Eu estou com você em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma abominável máquina de escrever
Eu estou com você em Rockland
onde seu estado se tomou muito grave e é noticiado pelo rádio
Eu estou com você em Rockland
onde as faculdades do crânio não aguentam mais os vermes dos sentidos
Eu estou com você em Rockland
onde você bebe o chá dos seios das solteironas de Utica
Eu estou com você em Rockland
onde você bolina os corpos das suas enfermeiras as hárpias do Bronx
Eu estou com você em Rockland
onde você grita dentro de uma camisa de força que está perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo
Eu estou com você em Rockland
onde você martela o piano catatônico a alma é inocente e imortal e nunca poderia morrer impiamente num hospício armado,
Eu estou com você em Rockland
onde com mais cinquenta eletrochoques sua alma nunca mais
retornará a seu corpo de volta da sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio
Eu estou com você em Rockland
onde você acusa seus médicos de loucura e prepara a revolução socialista hebraica contra o Gólgota nacional e fascista
Eu estou com você em Rockland
onde você rasga os céus de Long Island e faz surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano
Eu estou com você em Rockland
onde há mais vinte e cinco mil camaradas loucos todos juntos cantando os versos finais da Internacional
Eu estou com você em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos sob nossas cobertas os Estados Unidos que tossem a noite toda e não nos deixam dormir
Eu estou com você em Rockland
onde despertamos eletrocutados do coma pelos nossos próprios aeroplanos da mente roncando sobre o telhado eles vieram jogar bombas angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora Ó choque de misericórdia
salpicado de estrelas a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres
Eu estou com você em Rockland
nos meus sonhos você caminha gotejante de volta de uma viagem marítima pela grande rodovia que atravessa a América em lágrimas até a porta do meu chalé dentro da Noite Ocidental
Soltem também as portas dos seus batentes!”
Dedicado a Jack Kerouac, novo Buda da prosa americana, que borrifou inteligência em onze livros escritos na metade deste número de anos (1951-1956) – On the Road, Visions of Neal, Dr. Sax, Springtime Mary, The Subterraneans, San Francisco Blues, Some of the Dharma, Book of Dreams, Wake Up, Mexico City Blues e Visions of Gerard –, criando uma prosódia bop espontânea e uma literatura clássica original. Várias frases e o título de Uivo são tirados dele.
William Seward Burroughs, autor de Naked Lunch, uma novela sem fim que deixará todo mundo louco.
Neal Cassady, autor de The First Third, uma autobiografia (1949) que iluminou Buda.
Todos esses livros estão publicados no Céu.
Uivo
para Carl Solomon
I
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o
Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos polos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários,
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão, que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adónis de Denver –
prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam até as agências de desemprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Hudson à luz azul de holofote antiaéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht
& tortillas sonhando com o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por
todos os dias da década seguinte,
que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanela em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,
que se jogaram da Ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown, nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô,
saltaram no imundo rio Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30
na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia do Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis, que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tânger para os garotos ou Pacífico Sul para a locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o túmulo, que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue & amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue, mergulhando logo a seguir na catatonia, voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e
lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia-noite dos domínios de mausoléu druídico do amor, o
sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –
Ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo –
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em
sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.
II
Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias!
Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!
Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus
jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz
escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! tesouros de esqueletos! capitais cegas! indústrias demoníacas! nações espectrais!
invencíveis hospícios! caralhos de granito! bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas levantando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!
Visões! profecias! alucinações! milagres! êxtases! descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! adorações! iluminações! religiões! o carregamento todo de bosta sensitiva!
Desabamentos! sobre o rio! saltos e crucifixões! descendo a correnteza!
Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! jogados nos
rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! o olhar selvagem! os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! rumo à solidão!
acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima!
III
Carl Solomon! Eu estou com você em Rockland
onde você está mais louco do que eu
Eu estou com você em Rockland
onde você deve sentir-se muito estranho
Eu estou com você em Rockland
onde você imita a sombra da minha mãe
Eu estou com você em Rockland
onde você assassinou suas doze secretárias
Eu estou com você em Rockland
onde você ri deste humor invisível
Eu estou com você em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma abominável máquina de escrever
Eu estou com você em Rockland
onde seu estado se tomou muito grave e é noticiado pelo rádio
Eu estou com você em Rockland
onde as faculdades do crânio não aguentam mais os vermes dos sentidos
Eu estou com você em Rockland
onde você bebe o chá dos seios das solteironas de Utica
Eu estou com você em Rockland
onde você bolina os corpos das suas enfermeiras as hárpias do Bronx
Eu estou com você em Rockland
onde você grita dentro de uma camisa de força que está perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo
Eu estou com você em Rockland
onde você martela o piano catatônico a alma é inocente e imortal e nunca poderia morrer impiamente num hospício armado,
Eu estou com você em Rockland
onde com mais cinquenta eletrochoques sua alma nunca mais
retornará a seu corpo de volta da sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio
Eu estou com você em Rockland
onde você acusa seus médicos de loucura e prepara a revolução socialista hebraica contra o Gólgota nacional e fascista
Eu estou com você em Rockland
onde você rasga os céus de Long Island e faz surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano
Eu estou com você em Rockland
onde há mais vinte e cinco mil camaradas loucos todos juntos cantando os versos finais da Internacional
Eu estou com você em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos sob nossas cobertas os Estados Unidos que tossem a noite toda e não nos deixam dormir
Eu estou com você em Rockland
onde despertamos eletrocutados do coma pelos nossos próprios aeroplanos da mente roncando sobre o telhado eles vieram jogar bombas angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora Ó choque de misericórdia
salpicado de estrelas a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres
Eu estou com você em Rockland
nos meus sonhos você caminha gotejante de volta de uma viagem marítima pela grande rodovia que atravessa a América em lágrimas até a porta do meu chalé dentro da Noite Ocidental
2 842
Affonso Romano de Sant'Anna
Música Nas Cinzas
Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
1 130
Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Desentranhado de Uma Entrevista de Segóvia
Para Turíbio Santos
Em 1937 ganhei de Herman Hauser uma guitarra Hauser.
Nos anos 50 fui tocar nos festivais de Granada
mas a Hauser adoeceu de três notas:
– um fá sustenido
– um sol natural
– e um dó natural agudo,
que se converteram no que chamamos: sons lobo.
Nem o filho de Hauser
nem o grande Viscondez de Genebra
ou qualquer luthier
a puderam curar.
Desde então, toco uma Fleta.
Em 1937 ganhei de Herman Hauser uma guitarra Hauser.
Nos anos 50 fui tocar nos festivais de Granada
mas a Hauser adoeceu de três notas:
– um fá sustenido
– um sol natural
– e um dó natural agudo,
que se converteram no que chamamos: sons lobo.
Nem o filho de Hauser
nem o grande Viscondez de Genebra
ou qualquer luthier
a puderam curar.
Desde então, toco uma Fleta.
1 027
Affonso Romano de Sant'Anna
Concerto de Dvorák
Soava na tela aquele concerto de celo de Dvorák:
eu via as imagens da orquestra
e as mãos e o rosto do possesso Misha Misky abraçado ao instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a espera, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
eu via as imagens da orquestra
e as mãos e o rosto do possesso Misha Misky abraçado ao instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a espera, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
777
Affonso Romano de Sant'Anna
O Músico de Auschwitz
Em Jerusalém
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
1 051
Pablo Neruda
Meio-Dia - LII
Cantas e a sol e a céu com teu canto
tua voz debulha o cereal do dia,
falam os pinheiros com sua língua verde:
trinam todas as aves do inverno.
O mar enche seus porões de passos,
de sinos, cadeias e gemidos,
tilintam metais e utensílios,
chiam as rodas da caravana.
Mas só tua voz escuto e sobe
tua voz com voo e precisão de flecha,
desce tua voz com gravidade de chuva,
tua voz esparge altíssimas espadas
volta tua voz pesada de violetas
e logo me acompanha pelo céu.
tua voz debulha o cereal do dia,
falam os pinheiros com sua língua verde:
trinam todas as aves do inverno.
O mar enche seus porões de passos,
de sinos, cadeias e gemidos,
tilintam metais e utensílios,
chiam as rodas da caravana.
Mas só tua voz escuto e sobe
tua voz com voo e precisão de flecha,
desce tua voz com gravidade de chuva,
tua voz esparge altíssimas espadas
volta tua voz pesada de violetas
e logo me acompanha pelo céu.
1 125
Pablo Neruda
A Estação Se Inaugura
Quando sob a terra
se preparam
as estações,
as seivas, as raízes,
as sementes,
o fogo,
a água
falam
buscando-se adereços,
polindo a caoba
da castanha futura,
endurecendo o níveo
marfim das amêndoas,
combinando os fios
das trepadeiras,
levantando o açúcar
verde dos cachos,
então
tudo está preparado:
o outono de mãos rubras,
ou a primavera pura,
ou o verão nos rios,
ou o inverno cor de estrela,
e França abre as portas:
inaugura-se o tempo.
Porque ali são mais belos
os bailes das folhas,
a seda crepitante
do outono nos bosques.
Ali as águas sabem
cantar de acordo
com o violino do vento.
Catedral e campina
faz já muitos anos
florescem recebendo
o mesmo beijo dúplice da chuva.
Ali no país de França
nasceu o vinho,
logo na transparência da taça
as palavras acharam
forma e som de cristal maduro
e os homens cantaram.
Ali
sempre os homens cantaram.
Chegou a guerra
como um alcatrão implacável,
mas do luto
a França saltou cantando.
Cantaram os valentes no muro
dos fuzilamentos. Cantaram
os comunistas da Comuna.
Cantou, decapitada,
a filha de Jean Richard. Canta
o povo da França,
enquanto os mercadores
atlânticos
vão preparando a carnificina.
Mas não apenas sala de espaçoso outono
ou primaveril pedraria
és, jardim
da França, rua
da França,
combatente,
escreveste com pedra e sangue
teu nome na muralha
do destino,
e como em ti os rios são seguros
de sua harmoniosa abundância,
assim teu povo,
rumo à plenitude, de margem a margem,
cumulado de lutas e dons,
restaurará, cantando,
a alegria.
se preparam
as estações,
as seivas, as raízes,
as sementes,
o fogo,
a água
falam
buscando-se adereços,
polindo a caoba
da castanha futura,
endurecendo o níveo
marfim das amêndoas,
combinando os fios
das trepadeiras,
levantando o açúcar
verde dos cachos,
então
tudo está preparado:
o outono de mãos rubras,
ou a primavera pura,
ou o verão nos rios,
ou o inverno cor de estrela,
e França abre as portas:
inaugura-se o tempo.
Porque ali são mais belos
os bailes das folhas,
a seda crepitante
do outono nos bosques.
Ali as águas sabem
cantar de acordo
com o violino do vento.
Catedral e campina
faz já muitos anos
florescem recebendo
o mesmo beijo dúplice da chuva.
Ali no país de França
nasceu o vinho,
logo na transparência da taça
as palavras acharam
forma e som de cristal maduro
e os homens cantaram.
Ali
sempre os homens cantaram.
Chegou a guerra
como um alcatrão implacável,
mas do luto
a França saltou cantando.
Cantaram os valentes no muro
dos fuzilamentos. Cantaram
os comunistas da Comuna.
Cantou, decapitada,
a filha de Jean Richard. Canta
o povo da França,
enquanto os mercadores
atlânticos
vão preparando a carnificina.
Mas não apenas sala de espaçoso outono
ou primaveril pedraria
és, jardim
da França, rua
da França,
combatente,
escreveste com pedra e sangue
teu nome na muralha
do destino,
e como em ti os rios são seguros
de sua harmoniosa abundância,
assim teu povo,
rumo à plenitude, de margem a margem,
cumulado de lutas e dons,
restaurará, cantando,
a alegria.
1 241
Pablo Neruda
Um
Por incompleto e fusiforme
me entendi com as agulhas
e logo me foram fiando
sem haver nunca terminado.
Por isso o amor que te dou,
minha mulher, mulher agulha,
se enrola em tua orelha molhada
pelo vendaval de Chillán
e se desenrola em teus olhos
desatando melancolias.
Não acho explicação amável
pra meu destino intermitente,
vaidade me conduzia
a inauditos heroísmos:
pescar debaixo da areia,
fazer buracos no ar,
comer mesmo todos os sinos.
E no entanto fiz pouco
ou não fiz nada no entanto
senão entrar por uma guitarra
e com ela sair cantando.
me entendi com as agulhas
e logo me foram fiando
sem haver nunca terminado.
Por isso o amor que te dou,
minha mulher, mulher agulha,
se enrola em tua orelha molhada
pelo vendaval de Chillán
e se desenrola em teus olhos
desatando melancolias.
Não acho explicação amável
pra meu destino intermitente,
vaidade me conduzia
a inauditos heroísmos:
pescar debaixo da areia,
fazer buracos no ar,
comer mesmo todos os sinos.
E no entanto fiz pouco
ou não fiz nada no entanto
senão entrar por uma guitarra
e com ela sair cantando.
1 110
Pablo Neruda
Sinos
Gostei desde antes de nascer de escutar os sinos,
tocar o orvalho no bronze dos campanários,
e depois crescendo selvagem entre paliçadas com barbas de musgo
afundei meus sapatos em barro e barbeito atravessando a chuva
voou a pomba-torcaz que como um braseiro de penas
ardia em sua furta-cor linhagem de colo e de cauda
e assim me criei solitário cantando para quem? Para ninguém:
talvez para aquelas regiões de troncos apodrecidos e lianas,
talvez para a úmida terra que afundava meus pés em um tenro sarcófago de folhas caídas,
mas eu não cresci para ouvidos humanos e quando caiu uma medalha
em meu peito, outorgada por merecimentos de canto,
olhei ao redor, com os olhos busquei para quem era o Prêmio
e baixei a cabeça, confuso, porque descobri que era meu
e que minha alma de alguma maneira se encontrou com os povos calados
e cantou publicando a pena ou a flor da gente que não conhecia.
tocar o orvalho no bronze dos campanários,
e depois crescendo selvagem entre paliçadas com barbas de musgo
afundei meus sapatos em barro e barbeito atravessando a chuva
voou a pomba-torcaz que como um braseiro de penas
ardia em sua furta-cor linhagem de colo e de cauda
e assim me criei solitário cantando para quem? Para ninguém:
talvez para aquelas regiões de troncos apodrecidos e lianas,
talvez para a úmida terra que afundava meus pés em um tenro sarcófago de folhas caídas,
mas eu não cresci para ouvidos humanos e quando caiu uma medalha
em meu peito, outorgada por merecimentos de canto,
olhei ao redor, com os olhos busquei para quem era o Prêmio
e baixei a cabeça, confuso, porque descobri que era meu
e que minha alma de alguma maneira se encontrou com os povos calados
e cantou publicando a pena ou a flor da gente que não conhecia.
1 116
Pablo Neruda
Obrigado, Violinos
Obrigado, violinos, por este dia
de quatro cordas.
É puro o som do céu,
a voz azul do ar.
de quatro cordas.
É puro o som do céu,
a voz azul do ar.
1 359
Pablo Neruda
Canção do Amor
Te amo, te amo, é minha canção
e aqui começa o desatino.
Te amo, te amo meu pulmão,
te amo, te amo minha videira,
e se o amor é como o vinho
és minha predileção
desde as mãos até os pés:
és a taça do depois
e a garrafa do destino.
Te amo pelo direito e o avesso
e não tenho tom nem tino
para cantar-te minha canção,
minha canção que não tem fim.
Em meu violino que desentoa
te declara meu violino
que te amo, te amo minha violoncela,
minha mulherzinha escura e clara,
meu coração, minha dentadura,
minha claridade e colher,
meu sal da semana escura,
minha lua de janela clara.
e aqui começa o desatino.
Te amo, te amo meu pulmão,
te amo, te amo minha videira,
e se o amor é como o vinho
és minha predileção
desde as mãos até os pés:
és a taça do depois
e a garrafa do destino.
Te amo pelo direito e o avesso
e não tenho tom nem tino
para cantar-te minha canção,
minha canção que não tem fim.
Em meu violino que desentoa
te declara meu violino
que te amo, te amo minha violoncela,
minha mulherzinha escura e clara,
meu coração, minha dentadura,
minha claridade e colher,
meu sal da semana escura,
minha lua de janela clara.
1 225
Pablo Neruda
Noite - LXXX
De viagens e dores eu regressei, amor meu,
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.
Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem-ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.
Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre minha cabeça sonhando:
que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormido.
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.
Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem-ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.
Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre minha cabeça sonhando:
que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormido.
1 269
José Saramago
2
Os habitantes da cidade doente de peste estão reunidos na praça grande que assim ficou conhecida porque todas as outras se atulharam de ruínas
Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu
Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes
Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior
Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera
E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo
Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig
É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça
Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu
Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes
Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior
Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera
E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo
Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig
É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça
Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
974
José Saramago
Em Violino Fado
Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.
Se no silêncio em que a canção esmorece
Ouro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.
Se no silêncio em que a canção esmorece
Ouro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
1 366
José Saramago
Contracanto
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
1 320
José Saramago
Salmo 136
Nem por abandonadas se calavam
As harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
O vento de Sião, nas cordas tensas,
A música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
Na lembrança Sião e no futuro,
Até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimentos nos pusessem,
Mais do que os corpos, as almas e as vontades,
Que nem sentimos já o ferro duro,
Se do que fomos deixaram as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem.
As harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
O vento de Sião, nas cordas tensas,
A música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
Na lembrança Sião e no futuro,
Até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimentos nos pusessem,
Mais do que os corpos, as almas e as vontades,
Que nem sentimos já o ferro duro,
Se do que fomos deixaram as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem.
1 366
José Saramago
Canção
Canção, não és ainda. Não te bastem
Os sons e as cadências, se do vento
O acenar da asa não tiveres.
Aqui me voltarás um outro dia:
Nocturno escurecido da lembrança,
Coral resplandecente de alegria
Os sons e as cadências, se do vento
O acenar da asa não tiveres.
Aqui me voltarás um outro dia:
Nocturno escurecido da lembrança,
Coral resplandecente de alegria
1 145
José Saramago
Balada
Dei a volta ao continente
Sem sair deste lugar
Interroguei toda a gente
Como o cego ou o demente
Cuja sina é perguntar
Ninguém me soube dizer
Onde estavas e vivias
(Já cansados de esquecer
Só vivos para morrer
Perdiam a conta aos dias)
Puxei da minha viola
Na soleira me sentei
Com a gamela da esmola
Com pão duro na sacola
Desiludido cantei
Talvez dissesse romanças
Ou cantigas de encantar
Aprendidas nas andanças
Das poucas aventuranças
De quem não soube esperar
Andavam longe os teus passos
Nem as cantigas ouviste
Vivias presa nos laços
Que faziam outros braços
No teu corpo que despiste
Quanto tempo ali fiquei
Sangrando os dedos nas cordas
Quantos arrancos soltei
Nesta fome que criei
Nem eu sei nem tu recordas
Porque nunca tos contei
Até que um dia cansaste
(Era pó não era monte)
Outra lembrança deixaste
E nas águas desta fonte
A tua sede mataste
— Ó arco da minha ponte
Sem sair deste lugar
Interroguei toda a gente
Como o cego ou o demente
Cuja sina é perguntar
Ninguém me soube dizer
Onde estavas e vivias
(Já cansados de esquecer
Só vivos para morrer
Perdiam a conta aos dias)
Puxei da minha viola
Na soleira me sentei
Com a gamela da esmola
Com pão duro na sacola
Desiludido cantei
Talvez dissesse romanças
Ou cantigas de encantar
Aprendidas nas andanças
Das poucas aventuranças
De quem não soube esperar
Andavam longe os teus passos
Nem as cantigas ouviste
Vivias presa nos laços
Que faziam outros braços
No teu corpo que despiste
Quanto tempo ali fiquei
Sangrando os dedos nas cordas
Quantos arrancos soltei
Nesta fome que criei
Nem eu sei nem tu recordas
Porque nunca tos contei
Até que um dia cansaste
(Era pó não era monte)
Outra lembrança deixaste
E nas águas desta fonte
A tua sede mataste
— Ó arco da minha ponte
1 186
José Saramago
Música
Grave som de alegria, o violoncelo
Passa lento na alma, em ela freme:
Murmuremos então ao corpo duplo,
Às bocas e às mãos, e aos desmaios,
Às secretas pesquisas que não temem
Nem vergonha, nem dor, nem a verdade:
É isto amor, um arco de alegria
Sobre a corda retensa do orgasmo.
Passa lento na alma, em ela freme:
Murmuremos então ao corpo duplo,
Às bocas e às mãos, e aos desmaios,
Às secretas pesquisas que não temem
Nem vergonha, nem dor, nem a verdade:
É isto amor, um arco de alegria
Sobre a corda retensa do orgasmo.
1 197
José Saramago
Disseram Que Havia Sol
Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas
Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas
Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas
E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas
Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas
Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas
Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas
E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas
Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo
1 177
José Saramago
Noite Branca
Sírio brilha no alto. Sobre o rio
O silêncio do fundo se difunde.
As colunas doiradas que sustentam
A terra luminosa, como estátuas sagradas,
São labaredas de água.
Duas sombras perdidas na fogueira,
Dois murmúrios de mágoa.
Esta hora é nocturna e verdadeira:
Sírio julga do alto, enquanto as sombras,
Confundidas de espanto e de miséria,
Se calam para ouvir nas águas calmas
A palavra e o canto.
O silêncio do fundo se difunde.
As colunas doiradas que sustentam
A terra luminosa, como estátuas sagradas,
São labaredas de água.
Duas sombras perdidas na fogueira,
Dois murmúrios de mágoa.
Esta hora é nocturna e verdadeira:
Sírio julga do alto, enquanto as sombras,
Confundidas de espanto e de miséria,
Se calam para ouvir nas águas calmas
A palavra e o canto.
1 110