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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Os gatos

A sombra, a noite, o muro, o gato, o canto,
no silêncio de plumas. Sobre o muro
o gato e o seu noturno olhar na sombra
um reflexo de luz rompendo a noite.
Se a rosa é rosa um gato é sempre um gato
que anda em silêncio sobre pés de plumas.

É de crer haja mesmo o cão sem plumas,
líquido ou não, correndo no seu canto.
Não há, porém, sem plumas, nenhum gato,
nem aqui, nem acaso atrás do muro,
nesta noite global, ou noutra noite,
quer pintado de luz, ou feito em sombra.

Que exista mesmo um gato e sua sombra
é bom. Para que o mundo tenha plumas
e sons, porque dão vida à eterna noite.
No mundo sublunar o áspero canto
monofônico, miados sobre o muro,
Sempre que esteja ali, na sombra, o gato.

No meio da floresta o enorme gato
sob a copa de folhas e de sombra
onde não há nem construção nem muro.
Como se andassem sob chão de plumas
entre urros e grunhidos (são seu canto)
há grandes gatos fulvos sob a noite.

O muro, o imenso muro, esconde a noite,
a sombra, negra e enorme, esconde o gato.
As plumas tornam doce o ácido canto
quando o nosso universo é paz e sombra
- o íntimo travesseiro e suas plumas,
o castelo, o quintal, o quarto, o muro.

Da noite que corrói o velho muro
levantem-se os fantasmas, porque é noite.
Seus passos leves não requerem plumas.
No entanto é requerido sempre o gato,
para que haja ambiente, o gato, a sombra
o coro de uivos lúgubres por canto.

        O gato da noite
        no muro de canto
        nas plumas da sombra.
        O gato no canto
        do muro, na sombra
        das plumas da noite.

        O canto do gato
        no muro da noite,
        na sombra de plumas.

        A sombra da noite
        no canto do gato,
        nas plumas do muro.

        No canto do muro
        o gato na sombra
        da noite de plumas.

        No muro de plumas
        a noite do canto
        e a sombra do gato.

        Na sombra do muro
        o gato de plumas
        e o canto da noite.

                            janeiro, 1984
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

LITTLE BIRD

Poet

Little bird, sing me a sweet song deep
        Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
        More than far away.

Sing me a song of the things thou knew'st
        And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
        What is merely fair.

Bird

Young, too young hither I was brought
        From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
        Can I sing of these?

Poet

Sing, little bird, sing me that song -­
        None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
        But for what was never here.

Sing me, sing me that song, little bird;
        I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
        Till then bliss doth sting.

Bird

To breathe that singing I have no might;
        Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
        That thy tears do flow.

But thou, thou sing'st in woe, in ill,
        And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
        Shadows vague of it.

Poet

Ay, little bird, let us sing in all weather
        A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
        Truly goes away.
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