Poemas neste tema
Nação e Patriotismo
Pablo Neruda
Mais de Uma França
Transparente
é a terra:
bolha de água e ferro,
taça verde
de oceanos, campinas,
distâncias,
ondas de quartzo e cobre
nela se aquietaram.
O carvão no fundo
de corredores cegos
repousa sua energia.
Frutas e cereais
como o manto
de um antigo monarca
a cobrem com estrelas
amarelas:
desbordante é a taça
da terra:
toda a luz e toda
a sombra a acendem
e apagam,
ásperas, com espinhos
do inverno,
doce, cheia de todas
as doçuras:
planeta, guardas algo
mais vivente
e elétrico
que todos os metais:
é o homem
o pequeninho
ser que treme,
cai e levanta
a fronte mais ferida
e com o braço recém-arranhado
empunha os relâmpagos.
Vejo
os bosques calorosos,
a selva
em Laos,
insetos como folhas,
leopardos
de força silenciosa
e cintura fosfórica,
as grandes árvores trançadas
na antiga terra,
os monumentos úmidos
com seus narizes quebrados
e os olhos por onde
irrompem as ramagens.
Nada disto
nos interessa:
atende;
espera,
olha!
Aqui está o que amas:
Um pequeno
homem livre
com um rifle,
esperando.
É ele,
o guerrilheiro do Cambodja.
Espera
o mecânico passo
do invasor blindado.
Não pensa
na febre que espreita,
na serpente
de elétrico veneno:
só espera
o soldado
estrangeiro.
Ali na selva
as folhas
são sua pátria,
cada som de ave
ou água,
cada vôo
de borboleta ou pálpebra,
é sua pátria.
A pátria é uma folhagem
e em sua sombra
o homem,
o homem pequeninho,
defendendo
cada uma
de suas folhas.
Vietnam do outro lado.
Há rios pardos, trêmulos
de vidas e mensagens
que vão de terra a terra.
Os franceses
das cidades
ouvem o cochicho
da folhagem.
Por que deixaram
a frutal primavera
da França?
Disseram-lhes
que trariam
a cultura
e desde então
as metralhadoras
e o napalm
de Eisenhower,
a ruína e o incêndio,
desembarcam
com eles, os franceses.
Os netos
de Victor Hugo
não trazem
livros
mas
terríveis balas,
dores,
sangue.
Por isso
lá de Saigon se eleva
um negro
murmúrio
de fumaça e medo
que atravessa a terra
e cai
sobre a França,
sobre certas pequenas
casas pobres
cai
o medo da Indochina.
A morte,
uma notícia
com um nome de luto,
chega
como uma águia negra
das alturas da Ásia
e entra
na primavera
matutina da França
com uma sombra rápida
de garras.
é a terra:
bolha de água e ferro,
taça verde
de oceanos, campinas,
distâncias,
ondas de quartzo e cobre
nela se aquietaram.
O carvão no fundo
de corredores cegos
repousa sua energia.
Frutas e cereais
como o manto
de um antigo monarca
a cobrem com estrelas
amarelas:
desbordante é a taça
da terra:
toda a luz e toda
a sombra a acendem
e apagam,
ásperas, com espinhos
do inverno,
doce, cheia de todas
as doçuras:
planeta, guardas algo
mais vivente
e elétrico
que todos os metais:
é o homem
o pequeninho
ser que treme,
cai e levanta
a fronte mais ferida
e com o braço recém-arranhado
empunha os relâmpagos.
Vejo
os bosques calorosos,
a selva
em Laos,
insetos como folhas,
leopardos
de força silenciosa
e cintura fosfórica,
as grandes árvores trançadas
na antiga terra,
os monumentos úmidos
com seus narizes quebrados
e os olhos por onde
irrompem as ramagens.
Nada disto
nos interessa:
atende;
espera,
olha!
Aqui está o que amas:
Um pequeno
homem livre
com um rifle,
esperando.
É ele,
o guerrilheiro do Cambodja.
Espera
o mecânico passo
do invasor blindado.
Não pensa
na febre que espreita,
na serpente
de elétrico veneno:
só espera
o soldado
estrangeiro.
Ali na selva
as folhas
são sua pátria,
cada som de ave
ou água,
cada vôo
de borboleta ou pálpebra,
é sua pátria.
A pátria é uma folhagem
e em sua sombra
o homem,
o homem pequeninho,
defendendo
cada uma
de suas folhas.
Vietnam do outro lado.
Há rios pardos, trêmulos
de vidas e mensagens
que vão de terra a terra.
Os franceses
das cidades
ouvem o cochicho
da folhagem.
Por que deixaram
a frutal primavera
da França?
Disseram-lhes
que trariam
a cultura
e desde então
as metralhadoras
e o napalm
de Eisenhower,
a ruína e o incêndio,
desembarcam
com eles, os franceses.
Os netos
de Victor Hugo
não trazem
livros
mas
terríveis balas,
dores,
sangue.
Por isso
lá de Saigon se eleva
um negro
murmúrio
de fumaça e medo
que atravessa a terra
e cai
sobre a França,
sobre certas pequenas
casas pobres
cai
o medo da Indochina.
A morte,
uma notícia
com um nome de luto,
chega
como uma águia negra
das alturas da Ásia
e entra
na primavera
matutina da França
com uma sombra rápida
de garras.
1 201
Pablo Neruda
Os Deuses do Rio
Ovídio e Garcilaso desterrados
ontem em tuas ribeiras,
Romênia, te coroem,
te coroem e cantem.
Águas leve teu rio fecundando
as vidas e a areia,
povoe o amor tuas casas e teus bosques,
com cachos se cubram
teus braços e tuas faces.
Não só ao homem
livre
de tuas novas cidades e campinas
celebro.
Não só aos trabalhos criadores
de escolas e de usinas
eu dedico meu canto.
Não só aos canais
abertos na rocha e na terra
para que andem repartindo espigas
as águas do Danúbio
eu minha lira consagro,
senão a ti, Romênia,
a teu nobre sabor de terra e vinho,
a teu pão generoso
repartido em teu povo,
o aroma de pinheiros e mimosas
que o vento te faz dádiva.
Eu canto
na pele de tuas uvas,
no brilho dos olhos
que dali se juntam aos meus
como dois raios negros,
tuas danças antigas
que hoje brilham na luz que conquistaste
como flores ou fogo,
na amizade de todos,
na mão serena do Partido,
na alegria
da paz romena,
tua lembrança inumerável
que canta como um rio.
Romênia,
hoje lá das areias de minha pátria
eu te escrevo esta carta.
Recebe-a, Romênia.
Leva borrifos do Pacífico,
leva vozes e beijos,
leva neve de altíssimas montanhas,
leva cantos e lutas
de meu povo.
Honra e amor, Romênia,
sobem em ti como duas vinhas novas.
A inteligência fita com teus olhos.
Em tua boca sorriem os cachos.
ontem em tuas ribeiras,
Romênia, te coroem,
te coroem e cantem.
Águas leve teu rio fecundando
as vidas e a areia,
povoe o amor tuas casas e teus bosques,
com cachos se cubram
teus braços e tuas faces.
Não só ao homem
livre
de tuas novas cidades e campinas
celebro.
Não só aos trabalhos criadores
de escolas e de usinas
eu dedico meu canto.
Não só aos canais
abertos na rocha e na terra
para que andem repartindo espigas
as águas do Danúbio
eu minha lira consagro,
senão a ti, Romênia,
a teu nobre sabor de terra e vinho,
a teu pão generoso
repartido em teu povo,
o aroma de pinheiros e mimosas
que o vento te faz dádiva.
Eu canto
na pele de tuas uvas,
no brilho dos olhos
que dali se juntam aos meus
como dois raios negros,
tuas danças antigas
que hoje brilham na luz que conquistaste
como flores ou fogo,
na amizade de todos,
na mão serena do Partido,
na alegria
da paz romena,
tua lembrança inumerável
que canta como um rio.
Romênia,
hoje lá das areias de minha pátria
eu te escrevo esta carta.
Recebe-a, Romênia.
Leva borrifos do Pacífico,
leva vozes e beijos,
leva neve de altíssimas montanhas,
leva cantos e lutas
de meu povo.
Honra e amor, Romênia,
sobem em ti como duas vinhas novas.
A inteligência fita com teus olhos.
Em tua boca sorriem os cachos.
1 331
Pablo Neruda
Eu Saí de Minha Pátria
Cruzei as cordilheiras a cavalo.
Um tiranete, um bailarino vendia
minha pátria com metais e mineiros,
e enchia de paredes e prisões
o recinto ocupado pela aurora.
Saltei pelas gargantas arranhadas
da natureza galopando
sob um silêncio de arvoredo escuro.
De repente os gélidos pombais
da geleira despenhavam força,
plumas glaciais, puro poderio:
de repente terra e árvores se tornaram
áspera adversidade e cicatrizes,
talha-mares de súbita madeira,
impenetrável densidade tecida
como uma catedral, entre as folhas,
ou titânico sal resvaladiço,
ou desdentado cinturão de pedra.
Ainda mais, desci de repente
a terra vertical, e os ginetes
cindiam com suas tochas o caminho,
onde esperava o deus vertiginoso
de um novo rio desbordando espadas,
despenhando sua música secreta
sobre a hostilidade da espessura.
Um tiranete, um bailarino vendia
minha pátria com metais e mineiros,
e enchia de paredes e prisões
o recinto ocupado pela aurora.
Saltei pelas gargantas arranhadas
da natureza galopando
sob um silêncio de arvoredo escuro.
De repente os gélidos pombais
da geleira despenhavam força,
plumas glaciais, puro poderio:
de repente terra e árvores se tornaram
áspera adversidade e cicatrizes,
talha-mares de súbita madeira,
impenetrável densidade tecida
como uma catedral, entre as folhas,
ou titânico sal resvaladiço,
ou desdentado cinturão de pedra.
Ainda mais, desci de repente
a terra vertical, e os ginetes
cindiam com suas tochas o caminho,
onde esperava o deus vertiginoso
de um novo rio desbordando espadas,
despenhando sua música secreta
sobre a hostilidade da espessura.
1 121
Pablo Neruda
O Anjo Dos Rios
Saberás talvez que entre os rios férreos
da América passei. O alargamento
do Paraná me recebeu tremendo.
Era sua lentidão como a lua
que se desborda sobre as campinas
e era povoado de secretos lábios
que iam beijando seu gesto selvagem.
Rios territoriais, filhos rubros
das trevas úmidas da América,
eu vim a vossas águas, ao sangue
que noite e dia a combater areias
transporta vosso nome numeroso,
eu fui um ramo equatorial, uma réstia
de terra tua, de fluvial folhagem.
As longas águas me contaram toda
sua cantata de sangue paraguaio
e de Assunção as torres do martírio:
como muda de tigre a espessura,
como o petróleo mancha o estandarte
e como azeite e lodo se derramam
sobre os pobres mortos da pátria.
E o rio me contou o que os mortos
dizem falando do fundo das raízes,
pedindo ajuda ainda lá na morte,
sustendo bandeiras enterradas
enquanto os estrangeiros do petróleo
bebem com o carrasco no palácio.
Ali entre rios te encontrei, as águas
ainda iam dentro de meu próprio sangue
enumerando páginas do bosque,
e ali, anjo novo, estavas no fundo
da América
e sem reconhecer-te, “Camarada
anjo, és tu?” te disse,
e longas terras, trigos, ameaças,
ondas e pinheiros percorremos juntos
até que eu também sobre os mares
fechei os olhos e voei adormecido.
da América passei. O alargamento
do Paraná me recebeu tremendo.
Era sua lentidão como a lua
que se desborda sobre as campinas
e era povoado de secretos lábios
que iam beijando seu gesto selvagem.
Rios territoriais, filhos rubros
das trevas úmidas da América,
eu vim a vossas águas, ao sangue
que noite e dia a combater areias
transporta vosso nome numeroso,
eu fui um ramo equatorial, uma réstia
de terra tua, de fluvial folhagem.
As longas águas me contaram toda
sua cantata de sangue paraguaio
e de Assunção as torres do martírio:
como muda de tigre a espessura,
como o petróleo mancha o estandarte
e como azeite e lodo se derramam
sobre os pobres mortos da pátria.
E o rio me contou o que os mortos
dizem falando do fundo das raízes,
pedindo ajuda ainda lá na morte,
sustendo bandeiras enterradas
enquanto os estrangeiros do petróleo
bebem com o carrasco no palácio.
Ali entre rios te encontrei, as águas
ainda iam dentro de meu próprio sangue
enumerando páginas do bosque,
e ali, anjo novo, estavas no fundo
da América
e sem reconhecer-te, “Camarada
anjo, és tu?” te disse,
e longas terras, trigos, ameaças,
ondas e pinheiros percorremos juntos
até que eu também sobre os mares
fechei os olhos e voei adormecido.
1 150
Pablo Neruda
Epílogo - o Canto Repartido
Entre a cordilheira
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
1 258
Pablo Neruda
A Boca Que Canta
Vou desde os pinhais
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
1 238
Pablo Neruda
Aqui Vem Nazim Hikmet
Nazim, das prisões
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
1 469
Pablo Neruda
Sim, Camarada
Sim, camarada, é hora de jardim
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
1 147
Pablo Neruda
Iii - Quando do Chile
Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
2 130
Pablo Neruda
Chegou Homero
H. Arce e do Chile. Senhor meu,
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
1 157
Pablo Neruda
X. Proclama
Chilenos do mar! Ao assalto! Sou Cochrane. Eu venho de longe!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
1 131
Pablo Neruda
Espaços
Dali, da honra do oceano e da Patagônia agachada
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
589
Pablo Neruda
País
És minha pátria e compreendo teu canto e teu pranto
e toco o contorno de tuas tricolores guitarras chorando e cantando
porque sou um punhado de pó de tua cordilheira
e vivo em teu amor o suplício: de condecorar teus tormentos.
Vou contar-te a história de alguns, de algumas, de ninguém,
ouvindo a chuva que rompe seus rombos de vidro e se perde,
vou contar-te a história daquele ou do filho daquele
ou de ninguém, de todos, porque este destino de greda
nos faz no forno do povo parelhos, parentes profundos:
temos cabeças de cântaro e com olhos de boi generoso
os pés mais urgentes, as pernas que mudam de terra e de rio,
as mãos famintas e a cor da aveia queimada,
nós chilenos de costa e de monte, de chuva ou sequeiro,
somos quase sempre os mesmos errantes dispostos à
viagem do ouro.
e toco o contorno de tuas tricolores guitarras chorando e cantando
porque sou um punhado de pó de tua cordilheira
e vivo em teu amor o suplício: de condecorar teus tormentos.
Vou contar-te a história de alguns, de algumas, de ninguém,
ouvindo a chuva que rompe seus rombos de vidro e se perde,
vou contar-te a história daquele ou do filho daquele
ou de ninguém, de todos, porque este destino de greda
nos faz no forno do povo parelhos, parentes profundos:
temos cabeças de cântaro e com olhos de boi generoso
os pés mais urgentes, as pernas que mudam de terra e de rio,
as mãos famintas e a cor da aveia queimada,
nós chilenos de costa e de monte, de chuva ou sequeiro,
somos quase sempre os mesmos errantes dispostos à
viagem do ouro.
720
Pablo Neruda
Todos Me Perguntavam
Todos me perguntavam quando parto,
quando me vou. Assim parece
que houvesse selado em silêncio
um contrato terrível:
ir-se de qualquer modo a alguma parte
ainda que não quisesse ir-me a nenhum lugar.
Senhores; não meu vou,
eu sou de Iquique,
sou das vinhas negras de Parral,
da água de Temuco,
da terra delgada,
sou e estou.
quando me vou. Assim parece
que houvesse selado em silêncio
um contrato terrível:
ir-se de qualquer modo a alguma parte
ainda que não quisesse ir-me a nenhum lugar.
Senhores; não meu vou,
eu sou de Iquique,
sou das vinhas negras de Parral,
da água de Temuco,
da terra delgada,
sou e estou.
1 153
Pablo Neruda
Regresso
Ardente é voltar à espuma que acossa minha casa, ao vazio
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
995
Pablo Neruda
País
Pequeno país que sobre os montes bravios e a água infinita
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.
Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.
Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.
País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.
Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.
Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.
País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
574
Pablo Neruda
O desterro
Porque, bem-amada, é o homem que canta o que morre morrendo sem morte
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
1 161
Pablo Neruda
VIII. Um homem no Sul
Chegou o marinheiro! Os mares do Sul acolheram o homem que fugiu da névoa
e o Chile lhe estende suas mãos escuras mostrando o perigo.
E não é arrogante o guerreiro que quando sua nave recebe os quatro presentes,
a Cruz Estrelada do céu do Sul, o trevo de quatro diamantes
e baixa os olhos a minha pobre pátria andrajosa e sangrante,
compreende que aqui seu destino é fundar outra estrela no vasto vazio,
uma estrela no mar que defenda com raios de ferro o berço dos ofendidos.
e o Chile lhe estende suas mãos escuras mostrando o perigo.
E não é arrogante o guerreiro que quando sua nave recebe os quatro presentes,
a Cruz Estrelada do céu do Sul, o trevo de quatro diamantes
e baixa os olhos a minha pobre pátria andrajosa e sangrante,
compreende que aqui seu destino é fundar outra estrela no vasto vazio,
uma estrela no mar que defenda com raios de ferro o berço dos ofendidos.
1 027
Pablo Neruda
IX. As naves nasceram
Lord Cochrane estuda, examina, dirige, resolve, recolhe ao azar do caminho
os homens que a terra amarga, molhada de sangue, lhe entrega,
sobe-os à nave, batiza seus olhos terrestres com águas navais,
dirige os braços chilenos do mar até então imóvel,
coloca a insígnia de comando e a nova bandeira no áspero vento.
As naves nasceram. Os olhos de Cochrane navegam, indagam, espreitam.
os homens que a terra amarga, molhada de sangue, lhe entrega,
sobe-os à nave, batiza seus olhos terrestres com águas navais,
dirige os braços chilenos do mar até então imóvel,
coloca a insígnia de comando e a nova bandeira no áspero vento.
As naves nasceram. Os olhos de Cochrane navegam, indagam, espreitam.
937
Pablo Neruda
Canto VII - Canto Geral do Chile
Eternidade
Escrevo para uma terra recém-secada, recém-
fresca de flores, de pólen, de argamassa,
escrevo para umas crateras cujas cúpulas de giz
repetem seu redondo vazio junto à neve pura,
opino de imediato para o que apenas
leva o vapor ferruginoso recém-saído do abismo,
falo para as pradarias que não conhecem nome
além da pequena campânula do líquen ou o estame queimado
ou a áspera mata onde se inflama a égua.
De onde venho, senão destas primíparas, azuis
matérias que se enredam ou se encrespam ou se destituem
ou se esparzem a gritos ou se derramam sonâmbulas,
ou se galgam e formam o baluarte da árvore,
ou se somem e amarram a célula do cobre,
ou saltam ao ramo dos rios, ou sucumbem
na raça enterrada do carvão ou reluzem
nas trevas verdes da uva?
Nas noites durmo como os rios, percorrendo
algo incessantemente, rompendo ultrapassando
a noite natatória, levantando as horas
para a luz, apalpando as secretas
imagens que a cal desterrou, subindo pelo bronze
até as cataratas recém-disciplinadas, e toco
em um caminho de rios o que não distribui
nada além da rosa nascida, o hemisfério afogado.
A terra é uma catedral de pálpebras pálidas,
eternamente unidas e agregadas em um
vendaval de segmentos, em um sal de abóbadas,
em uma cor final de outono perdoado.
Não haveis, não haveis tocado nunca no caminho
o que a estalactite desnuda determina,
a festa entre as lâmpadas glaciais,
o alto frio das folhas negras,
não haveis entrado comigo nas fibras
que a terra escondeu,
não haveis tornado a subir depois de mortos
grão por grão os degraus da areia
até que as coroas do orvalho
cubram de novo urna rosa aberta,
não podeis existir sem ir morrendo
com o vestuário usado do destino.
Porém eu sou o nimbo metálico, a argola
encadeada a espaços, a nuvens, a terrenos
que toca precipitadas e emudecidas águas,
e torna a desafiar a intempérie infinita.
I
Hino e regresso (1939)
Pátria, minha pátria, volto a ti o sangue.
Mas te peço, como à mãe o menino
cheio de pranto.
Acolhe
esta guitarra cega
e este rosto perdido.
Saí para encontrar-te filhos pela terra,
saí para cuidar caídos com o teu nome de neve,
saí pata fazer uma casa com a tua madeira pura,
saí para levar tua estrela aos heróis feridos.
Agora quero dormir em tua substância.
Dá-me tua clara noite de penetrantes cordas,
tua noite de navio, tua estatura estrelada.
Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr meu braço em tua cintura exígua
e sentar-me em tuas pedras pelo mar calcinadas,
a deter o trigo e espiá-lo por dentro.
Vou eleger a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estame glacial do sino,
e espiando tua ilustre e solitária espuma
um ramo litoral tecerei para tua beleza.
Pátria, minha pátria
toda rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti se junta a águia ao enxofre
e em tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha acendendo o inimigo céu.
Guarda tua luz, ó pátria!, mantém
tua dura espiga de esperança em meio
ao cego ar temível.
Em tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino dos homens
que te faz defender uma flor misteriosa
só, na imensidade da América adormecida.
II
Quero voltar ao sul (1941)
Enfermo em Veracruz, recordo um dia do sul, minha terra, um dia de prata
como um rápido peixe na água do céu.
Loncoche, Lonquimay, Carahue, de cima
esparzidos, rodeados por silêncio e raízes,
sentados em seus tronos de couros e madeiras.
O sul é um cavalo lançado a pique
coroado com lentas árvores e rocio,
quando levanta o verde focinho caem as gotas,
a sombra de sua cauda molha o grande arquipélago
e em seu intestino cresce o carvão venerado.
Nunca mais, dize-me, sombra, nunca mais, dize-me, mão,
nunca mais, dize-me, pé, porta, perna, combate,
transtornarás a selva, o caminho, a espiga,
a névoa, o frio, o que, azul, determinava
cada um de teus passos sem cessar consumidos?
Céu, deixa-me um dia de estrela a estrela ir-me
pisando luz e pólvora destroçando meu sangue
até chegar ao ninho da chuva!
Quero ir
por detrás da madeira pelo rio
Toltén fragrante, quero sair das serrações,
entrar nas cantinas com os pés empapados,
guiar-me pela luz da aveleira elétrica,
espichar-me junto ao excremento das vacas,
morrer e reviver mordendo o trigo.
Oceano, traze-me
um dia do sul, um dia agarrado a tuas ondas,
um dia de árvore molhada, traze um vento
azul polar a minha bandeira fria!
III
Melancolia perto de Orizaba (1942)
Que há para ti no sul senão um rio, uma noite,
umas folhas que o ar frio manifesta
e estende até cobrir as margens do céu?
Acaso a cabeleira do amor desemboca
como outra neve ou água do desfeito arquipélago,
como outro movimenta subterrâneo do fogo
e espera nos barracões outra vez,
onde as folhas caem tantas vezes
tremulando, devoradas por essa boca espessa,
e o brilho da chuva fecha sua trepadeira
desde a reunião dos grãos secretos
até a folhagem cheia de sinos e gotas?
Onde a primavera traz uma voz molhada
que zumbe nas orelhas do cavalo adormecido
e logo caí no ouro do trigo triturado
e logo assoma um dedo transparente na uva.
Que há para ti a esperar-te, onde, sem corredores,
sem paredes, te chama o sul?
Como o llanero escutas em tua mão a taça
da terra, pondo o teu ouvido nas raízes:
de longe um vento do hemisfério temível,
o galope no orvalho dos carabineiros:
onde a agulha cose com água fina o tempo
e sua esmiuçada costura se destrói:
que há para ti na noite de costados selvagens
uivando com a boca toda cheia de azul?
Há um dia talvez detido, um espinho
crava no velho dia seu aguilhão degradado
e sua antiga bandeira nupcial se despedaça.
Quem guardou um dia de bosque negro, quem
esperou umas horas de pedra, quem rodeia
a herança lastimada pelo tempo, quem foge
sem desaparecer no centro do ar?
Um dia, um dia cheio de folhas desesperadas,
um dia, uma luz partida pela fria safira,
um silêncio de ontem preservado no oco
de ontem, na reserva do território ausente.
Amo tua emaranhada cabeleira de couro,
tua antártica formosura de intempérie e cinza.
teu doloroso peso de céu combatente:
amo o vôo do ar do dia em que me esperas,
sei que não muda o beijo da terra, e não muda,
sei que não cai a folha da árvore, e não cai:
sei que o mesmo relâmpago detém seus metais
e a desamparada noite é a mesma noite,
porém és minha noite, porém és minha planta, a água
das glaciais lágrimas que conhecem meu cabelo.
Seja eu o que ontem me esperava no homem:
o que em louro, cinza, quantidade, esperança,
desenrola sua pálpebra no sangue,
no sangue que povoa a cozinha e o bosque,
as fábricas que o ferro cobre de plumas negras,
as minas verrumadas pelo suor sulfúrico.
Não só o ar agudo do vegetal me espera:
não só o trovão sobre o nevado esplendor:
lágrimas e fome como dois calafrios
sobem ao campanário da pátria e repicam:
é aí que em meio do fragrante céu,
é aí que quando outubro rebenta, e corre
a primavera antártica sob o fulgor do vinho,
há um lamento e outro e outro lamento e outro
até que cruzam neve, cobre, caminhos, naus,
e passam através da noite e da terra
até minha dessangrada garganta que os ouve.
Povo meu, que dizes? Marinheiro,
peão, alcaide, operário do salitre, me escutas?
Eu te ouço, irmão morto, irmão vivo, te ouço,
o que tu desejavas, o que enterraste, tudo,
o sangue que na areia e no mar derramavas,
o coração golpeado que resiste e assusta.
Que há para ti no sul? A chuva onde cai?
E desde o interstício, que mortos açoitaste?
Os meus, os do sul, os heróis sós,
o pão disseminado pela cólera amarga,
o longo luto, a fome, a dureza e a morte,
as folhas sobre eles tombaram, as folhas,
a lua sobre o peito do soldado, a lua.
o beco do miserável, e o silêncio
do homem em todas as partes, como um mineral duro
cujo veio de frio gela a luz de minh'alma
antes de construir o campanário nas alturas.
Pátria cheia de germes, não me chames, não posso
dormir sem teu olhar de cristal e treva.
Teu grito rouco de águas e seres me sacode
e ando no sonho à beira de tua espuma solene
até a última ilha de tua cintura azul.
Me chamas docemente como uma noiva pobre.
Tua longa luz de aço me cega e me busca
como uma espada cheia de raízes.
Pátria, terra estimável, queimada luz ardendo:
como o carvão dentro do fogo precipita
teu sal temível, tua despida sombra.
Seja eu o que ontem me esperava, e amanhã
resista num punhado de papoulas e poeira.
IV
Oceano
Se tua nudez evidente e verde,
se tua maçã desmedida, se
nas trevas tua mazurca, onde
está a tua origem?
Noite
mais doce que a noite,
sal
mãe, sal sangrento, curva mãe da água,
planeta percorrido pela espuma e a medula:
titânica doçura de estelar longitude:
noite com uma única onda na mão:
tempestade contra a águia marinha,
cega sob as mãos do sulfato insondável:
adega em tanta noite sepultada,
corola fria toda de invasão e ruído,
catedral enterrada a golpes na estrela.
Há o cavalo ferido que na idade de tua margem
percorre, pelo fogo glacial substituído,
há o abeto rubro transformado em plumagem
e desfeito em tuas mãos de atroz cristalaria,
e a incessante rosa combatida nas ilhas
e o diadema de água e lua que estabeleces.
Pátria minha, a tua terra
todo este céu escuro!
Toda esta fruta universal, toda esta
delirante coroa!
Para ti esta taça de espumas onde o raio
se perde como um albatroz cego, e onde o sol do sul
se levanta olhando tua condição sagrada.
V
Selaria
Para mim este arreio esboçado
como pesada rosa em prata e couro,
suave de fundura, liso e duradouro.
Cada recorte é uma mão, cada
costura é uma vida, nele vive
a unidade das vidas florestais,
uma cadeia de olhos e cavalos.
Os grãos da aveia o formaram,
o fizeram duro matagais e água,
a colheita opulenta lhe deu orgulho,
metal e tafiletes trabalhados:
e assim de desventuras e domínio
este trono saiu pelas campinas.
Olaria
Tarda pomba, alcanzia de argila,
em teu lombo de luto um signo, apenas
algo que te decifra.
Povo meu,
como com as tuas dores nas costas,
espancado e rendido, como foste
acumulando ciência desfolhada?
Prodígio negro, mágica matéria
elevada à luz por dedos cegos,
mínima estátua em que o mais secreto
da terra nos abre seus idiomas,
cântaro de Pomaire em cujo beijo
terra e pele se congregam, infinitas
formas do barro, luz das vasilhas,
a forma de uma mão que foi minha,
o passo de uma sombra que me chama,
sois reunião de sonhos escondidos,
cerâmica, pomba indestrutível!
Teares
Sabeis que lá a neve vigiando
os vales ou, melhor,
a primavera escura do sul, as aves negras
a cujo peito só uma gota de sangue
veio a tremer, a bruma
de um grande inverno que estendeu as asas,
assim é o território, e sua fragrância
sobe de flores pobres, derrubadas
pelo peso de cobre e cordilheiras.
- lá o tear fio a fio, buscando
reconstruiu a flor, subiu a pluma
a seu império escarlate, entretecendo
azuis e açafrões, a meada
do fogo e seu amarelo poderio,
a estirpe do relâmpago violeta,
o verde areento do lagarto.
Mãos do povo meu nos teares,
mãos pobres que tecem, uma a uma,
as plumagens de estrela que faltaram
a tua pele, Pátria de cor escura,
substituindo fibra por fibra o céu
para que cante o homem os seus amores
e galope acendendo cereais!
VI
Inundações
Os pobres vivem embaixo esperando que o rio
se levante à noite e os leve para o mar.
Vi pequenos berços que flutuavam, destroços
de vivendas, cadeiras, e uma cólera augusta
de lívidas águas em que se confundem o céu e o terror
Só é para ti, pobre, para tua esposa e tua sementeira,
para teu cão e tuas ferramentas, para que aprendas a ser mendigo.
A água não sobe até as casas dos cavalheiros
cujos nevados pescoços voam das lavanderias.
Come este lodo de roldão e estas ruínas que nadam
com teus mortos vagando docemente para o mar,
entre as pobres mesas e as perdidas árvores
que vão de tombo em tombo mostrando as raízes.
Terremoto
Acordei quando a terra dos sonhos faltou
sob a minha cama.
Uma coluna cega de cinza cambaleava no meio
da noite,
eu te pergunto: morri?
Dá-me a mão nesta ruptura do planeta
enquanto a cicatriz do céu roxo se faz estrela.
Ai! porém recordo, onde estão? onde estão?
Por que ferve a terra enchendo-se de morte?
Oh, máscaras sob as vivendas enroladas, sorrisos
que não atingiram o espanto, seres despedaçados
sob as vigas, cobertos pela noite.
E hoje amanheces, ó dia azul, vestido
para um baile, com a tua cauda de ouro
sobre o mar apagado dos escombros, ígneo,
buscando o rosto perdido dos insepultos.
VII
Atacama
Voz insofrível, disseminado
sal, substituída
cinza, ramo negro
em cujo extremo aljôfar aparece a lua
cega, por corredores enlutados de cobre.
Que material, que cisne oco
funde na areia sua nudez agônica
e endurece sua luz líquida e lenta?
Que raio duro rompe sua esmeralda
entre suas pedras indomáveis até
coagular o sal perdido?
Terra, terra
sobre o mar, sobre o ar, sobre o galope
da amazona cheia de corais:
adega amontoada onde o trigo
dorme na tremulante raiz do sino:
ó mãe do oceano!, produtora
do cego jaspe e a dourada sílica:
sobre tua pele pura de pão, longe do bosque,
nada, a não ser tuas linhas de segredo,
nada, a não ser o teu rosto de areia,
nada, a não ser as noites e os dias do homem,
mas junto à sede do cardo, lá,
onde um papel enterrado e esquecido, uma pedra
marca os fundos berços da espada e da taça,
indica os adormecidos pés do cálcio.
VIII
Tocopilla
De Tocopilla ao sul, ao norte, areia,
calações ruídas, o lanchão, as tábuas
partidas, o retorcido ferro.
Quem à linha pura do planeta,
áurea e cozida, sonho, sal e pólvora
agregou o utensílio desfeito, a imundície?
Quem pôs o teto arriado, quem deixou as paredes
abertas, como um ramo
de papéis pisados?
Lôbrega luz do homem em ti destituído,
sempre tornando à conca de tua lua calcária,
apenas recebido por tua letal areia!
Gaivota rara das obras, arenque,
petrel anelado,
frutos, vós, filhos do espinhel sangrento
e da tempestade, vistes o chileno?
Vistes o humano, entre as duplas linhas do frio
e das águas, sob a dentadura
da linha de terra, na baía?
Piolhos, piolhos ardentes atacando o sal,
piolhos, piolhos da costa, povoações, mineiros,
de uma cicatriz do deserto até a outra,
contra a costa da lua, fora!,
bicando o selo frio sem idade.
Além dos pés do alcatraz, quando
nem água nem pão nem sombra tocam a dura etapa,
o exercício do salitre assoma
ou a estátua do cobre decide sua estatura.
É tudo como estrelas enterradas
como pontas amargas, como infernais
flores
brancas, nevadas de luz tremulante
ou verde e negro ramo de esplendores pesados.
Não vale ali a pena mas só a mão rota
do chileno escuro, não vale ali a dúvida.
Só o sangue.
Só esse golpe duro
que pergunta na veia pelo homem.
Na veia, na mina, na esburacada cova
sem água e sem laurel.
Ó pequenos
compatriotas queimados por esta luz mais agra
que o banho da morte, heróis escurecidos
pelo amanhecer do sal na terra,
onde fazeis vosso ninho, errantes filhos?
Quem vos viu entre as fibras rotas
dos portos desérticos?
Sob
a névoa de salmoura
ou atrás da costa metálica,
ou talvez ou talvez,
sob o deserto já, sob
sua palavra de pó
para sempre!
Chile, Metal e Céu,
e vós, chilenos,
semente, irmãos duros,
tudo disposto em ordem e silêncio
como a permanência das pedras.
IX
“Peumo”
Parti uma folha lajeada do matagal: um doce
aroma das bordas partidas
me tocou como asa profunda que voasse
da terra, de longe, de nunca.
Peumo, então vi tua folhagem, tua verdura
minuciosa, encrespada, cobrir com seus impulsos
teu tronco terrenal e tua largueza olorosa.
Pensei como és toda a minha terra: minha bandeira
deve ter aroma de peumo ao despregar-se,
um odor de fronteiras que de súbito
entram em ti com toda a pátria em sua corrente.
Peumo puro, fragrância de anos e cabeleiras
no vento, na chuva, sob a curvatura
da montanha, com um ruído de água que baixa
até nossas raízes, ó amor, ó tempo agreste
cujo perfume pode nascer, desenredar-se
de uma folha e encher-nos até derramarmos
a terra, como velhos cântaros enterrados!
“Quilas”
Entre as folhas retas que não sabem sorrir
encondes teu plantel de lanças clandestinas.
Tu não esqueceste.
Quando passo por tua folhagem
murmura a dureza, e despertam palavras
que ferem, sílabas que amamentam espinhos.
Tu não esqueces.
Eras argamassa molhada
com sangue, eras a coluna da casa e a guerra,
eras bandeira, teto de minha mãe araucana,
espada do guerreiro silvestre, Araucania
eriçada de flores que feriram e mataram.
Asperamente escondes as lanças que fabricas
e que conhece o vento da região selvagem,
a chuva, a águia dos bosques queimados,
e o sutil habitante recém-despossuído.
Talvez, talvez: não digas a ninguém o teu segredo.
Guarda para mim uma lança silvestre, ou madeira
de uma flecha.
Eu tampouco esqueci.
“Drimis Winterei”
Plantas sem nome, folhas
e cordas montanhosas,
ramos tecidos de ar verde, fios
recém-bordados, ganchos de metais escuros,
inumerável flora coronária
da umidade, do vasto vapor, da água imensa.
E entre toda a forma que buscou este entrelaçado,
entre estas folhas cujo molde intacto
equilibrou na chuva seu prodígio,
ó árvore, despertaste como um trovão
e em tua copa povoada por toda a verdura
adormeceu como um pássaro o inverno.
X
Zonas frias
Termo abandonado! Linha louca
em que a fogueira ou o cardo enfurecido
formam capas de azul eletrizado.
Pedras batidas por
agulhas do cobre, estradas
de material silêncio, ramos mergulhados
no sal das pedras.
Aqui estou, aqui estou,
boca humana entregue ao passo pálido
de um tempo detido como taça ou cadeira,
central presídio de água sem saída,
árvore de corporal flor derrubada,
unicamente surda e brusca areia.
Pátria minha, terrestre e cega como
nascidos aguilhões da areia, para ti toda
a fundação de minha alma, para ti as perpétuas
pálpebras de meu sangue, e de volta
o meu prato de papoulas.
Dá-me de noite, em meio às plantas terrestres,
a hostil rosa de orvalho que dorme em tua bandeira,
dá-me de lua ou de terra teu pão polvilhado
com teu temível sangue escuro:
sob a tua luz de areia
não há mortos, mas longos ciclos de sal, azuis
ramos de misterioso metal morto.
XI
“Chercanes”
Gostaria que não desconfiásseis: é verão,
a água me regou c levantou um desejo
como um ramo, um canto meu me mantém
como um tronco enrugado, com certas cicatrizes.
Minúsculos, amados, vinde a minha cabeça.
Aninhai em meus ombros nos quais passeia
o fulgor de um lagarto, em meus pensamentos
sobre os quais caíram tantas folhas,
ó círculos pequenos da doçura, grãos
de alado cereal, ovozinho emplumado,
formas puríssimas em que o olho
certeiro dirige vôo e vida,
aqui, aninhai em minha orelha, desconfiados
e diminutos: ajudai-me:
quero ser mais pássaro cada dia.
“Loica”
Perto de mim, sangrenta, mas ausente.
Com tua máscara cruel e teus olhos guerreiros,
Entre os torrões, saltando de um tesouro
Para outro, na plenitude pura e selvagem.
Conta-me como entre todas,
Em nossos matagais que a chuva
Tingiu com seus lamentos, como, só,
Teu peitilho recolhe todo o carmim do mundo?
Ai, és polvilhada pelo rubro verão,
Entraste na gruta do pólen escarlate
E tua mancha recolhe todo o fogo
E tua mancha recolhe todo o fogo.
E a este olhar mais que ao firmamento
E à noite nevada em seu baluarte andino
Quando abre o leque de cada dia, nada
A detém: só a tua sarça
Que continua ardendo sem queimar a terra.
“Chucao”
Na fria folhagem multiplicada, de súbito
A voz do chucao como se ninguém existisse
A não ser esse grito de toda a solidão unida,
Como essa voz de todas as árvores molhadas.
Passou a voz a tremer e escura sobre o meu cavalo,
mais lenta e mais profunda que um vôo: parei,
onde estava? Que dias eram aqueles?
Tudo o que vivi galopando naquelas
Estações perdidas, no mundo da chuva
Nas janelas, o puma na intempérie
Rondando com duas pontas de fogo sangüinário,
E o mar dos canis, entre túneis verdes
De empapada formosura, a solidão, o beijo
Da que amei mais jovem sob as aveleiras,
Tudo surgiu de súbito quando na selva o grito
Do chucao com as suas sílabas úmidas.
XII
Botânica
O sanguinário litre e o benéfico boldo
disseminam seu estilo
em irritantes beijos de animal esmeralda
ou antologias de águas escuras entre as pedras.
A gomeleira no cimo da árvore estabelece
sua dentadura nívea
e a selvagem aveleira constrói seu castelo
de páginas e gotas.
A artemísia e a chépica rodeiam
os olhos do orégano
e o radiante louro da fronteira
perfuma as longínquas intendências.
Quila e quelenquelén das manhãs.
Idioma frio das fúcsias,
que se vai por pedras tricolores
gritando viva o Chile com a espuma!
O dedal de ouro espera
os dedos da neve
e roda o tempo sem seu matrimônio,
que uniria os anjos do fogo e do açúcar.
A caneleira mágica
lava na chuva sua racial ramagem,
e precipita os seus lingotes verdes
sob a vegetal água do sul.
A doce aspa do olmo
com fanegas de flores
sobe as gotas do copihue rubro
para conhecer o sol das guitarras.
A agreste delgadilla
e o celestial poejo
bailam nos prados com o jovem orvalho
recentemente armado pelo rio Toltén.
A indecifrável doca
decapita a sua purpura na areia
e conduz seus triângulos marinhos
até as secas luas litorais.
A brunida papoula,
relâmpago e ferida, dardo e boca,
sobre o trigo queimante
põe as suas pontuações escarlates.
A tiliácea evidente
condecora os seus mortos
e tece suas famílias
com águas mananciais e medalhas de rio.
O paico arranja lâmpadas
no clima do sul, desamparado,
quando vem a noite
do mar jamais adormecido.
O roble dorme sozinho,
muito vertical, muito pobre, muito mordido,
muito decisivo no prado puro
com a sua roupa de maltrapilho maltratado
e sua cabeça cheia de solenes estrelas.
XIII
Araucária
Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantam.
O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho,
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.
Pranto eriçado, eternidade da água,
monte de escamas, raio de ferraduras,
tua atormentada casa se constrói
com pétalas de pura geologia.
O alto inverno beija a tua armadura
e te cobre de lábios destruídos:
a primavera de violento aroma
rompe a tua sede em tua implacável estátua:
e o grave outono espera inutilmente
derramar ouro em tua estatura verde.
XIV
Tomás Lago
Outras pessoas se deitaram entre as páginas dormindo
como insetos elzevirianos, entre eles
foram disputados certos livros recém-impressos
como no futebol, marcando gols de sabedoria.
Nós então cantamos na primavera
junto aos rios que arrastam pedras dos Andes,
e estávamos entrançados com nossas mulheres sorvendo
mais de uma colméia, devorando até o enxofre do mundo.
E não só isso mas muito mais: compartilhamos
a vida com humildes amigos que amamos,
e que nos ensinaram com as flechas do vinho
o alfabeto honrado da aldeia, o repouso
dos que conseguiram na dureza
sair cantando.
Ó dias em que juntos
visitamos a cova e os tugúrios,
destroçamos as teias de aranha, e nas margens
do sul sob a noite e sua argamassa
removida viajamos:
tudo era flor e pátria passageira,
tudo era chuva e material do fumo.
Que longa estrada caminhamos, detendo
o passo nas pousadas, dirigindo
nossa atenção a um extremo crepúsculo, a uma pedra,
a uma parede escrita por um carvão, a um grupo
de foguistas que de repente
nos ensinaram todas as canções do inverno.
Mas não só a lagarta andava camaleando,
em nossas janelas, banhada em celulose,
cada vez mais celestial em seu papel de culto,
mas também o ferruginoso, o iracundo, o vaqueiro
que nos queria cobrar com duas pistolas no peito,
ameaçando devorar as nossas mães
e empenhar nossos bens
(chamando a tudo isso heroísmo e outras coisas).
Nós os deixamos passar a olhá-los, não puderam
arrancar-nos uma casca, amolecer um ganido,
e cada um se foi a seu túmulo,
de jornais europeus ou pesos bolivianos.
Nossas lâmpadas continuam acesas, ardendo
mais altas que o papel e que os foragidos.
Rubén Azócar
Para as ilhas!, dissemos.
Eram dias de confiança
e estávamos sustentados por árvores ilustres:
nada nos parecia longe, tudo podia enredar-se
dum momento para outro na luz que produzíamos.
Chegamos com sapatos de couro grosso: chovia,
chovia nas ilhas, assim se mantinha o território
como uma mão verde, como luva
cujos dedos flutuavam
entre as algas vermelhas.
Enchemos de tabaco o arquipélago, fumávamos
até tarde no Hotel Nilsson, e disparávamos
ostras frescas para todos os pontos cardeais.
A cidade tinha uma fábrica religiosa
de cujas portas grandes, na tarde inanimada,
saía como um longo coleóptero um desfile
negro de sotainazinhas sob a triste chuva:
acudíamos a todos os borgonhas, enchíamos
o papel com os signos de uma dor hieróglifa.
Eu me evadi de repente: por muitos anos, distante,
em outros climas que acaudalaram minhas paixões
recordei as barcas sob a chuva, contigo,
que ali ficavas para que as tuas grandes sobrancelhas
lançassem suas raízes molhadas sobre as ilhas.
Juvencio Valle
Juvencio, ninguém sabe como tu e eu o segredo
do bosque de Boroa: ninguém
conhece certas veredas de terra avermelhada
sobre as quais acorda a luz da aveleira.
Quando as pessoas não nos ouvem não sabem
que ouvimos chover sobre árvores e tetos
de zinco, e que ainda amamos a telegrafista,
aquela, aquela moça que como nós
conhece o grito fundido das locomotivas
de inverno, nas comarcas.
Só tu, silencioso,
entraste no aroma que a chuva despenca,
incitaste o aumento dourado da flora,
recolheste o jasmim antes que ele nascesse.
O barro triste, defronte dos armazéns,
o barro triturado pelas graves carretas
como a negra argila de certos sofrimentos,
está (quem o sabe como tu?) derramado
por trás da profunda primavera.
Também
temos em segredo outros tesouros:
folhas que como línguas escarlates
cobrem a terra, e pedras suavizadas
pela torrente, pedras dos rios.
Diego Muñoz
Nós só nos defendemos, assim parece, com descobrimentos
e signos estendidos no papel tempestuoso,
mas que, capitães, corrigimos
a murros a rua maligna
e logo entre acordeões elevamos
o coração com águas e cordames.
Marinheiro, já regressaste de teus portos
de Guayaquil, odores de frutas poeirentas,
e de toda a terra um sol de aço
que te fez derramar vitoriosas espadas.
Hoje sobre os carvões da pátria chegou
uma hora - dores e amor - que compartilhamos,
e do mar sobressai sobre tua voz o fio
de uma fraternidade mais vasta que a terra.
XV
Ginete na chuva
Fundamentais águas, paredes de água, trevo
e aveia combatida,
cordoagens já unidas na rede duma noite
úmida, gotejante, selvagemente fiada,
gota desgarradora repetida no lamento,
cólera diagonal cortando o céu.
Galopam os cavalos de perfume empapado,
sob a água, golpeando a água, nela intervindo
com suas ramagens rubras de pelo, pedra e água:
e o vapor acompanha como um leite louco
a água endurecida com fugazes pombas.
Não há dia mas apenas as cisternas
do clima duro, do verde movimento
e as patas atam veloz terra c transcurso
entre bestial aroma de cavalo com chuva.
Mantas, montarias, xairéis agrupados
em sombrias romãs sobre os
ardentes lombos de enxofre que golpeiam
a selva decidindo-a.
Mais além, mais além, mais além, mais além,
mais além, mais além, mais além, mais alééééém,
os ginetes despencam a chuva, os ginetes
passam sob as aveleiras amargas, a chuva
torce em trêmulos raios seu trigo sempiterno.
Há luz da água, relâmpago confuso
derramado na folha, e do mesmo som do galope
sai uma água sem vôo, ferida pela terra.
Úmida rédea, abóbada enramada,
passos de passos, vegetal noturno
de estrelas rotas como gelo ou lua, ciclônico cavalo
coberto pelas flechas como um gelado espectro,
cheio de novas mãos nascidas na fúria,
golpeante maçã rodeada pelo medo
e sua grande monarquia de temível estandarte.
XVI
Mares do Chile
Em longínquas regiões
teus pés de espuma, tua esparzida praia
reguei com pranto desterrado e louco.
,
Hoje a tua boca venho, hoje a teu rosto.
Não ao coral sanguinário, não à queimada estrela,
nem às incandescentes e despencadas águas
entreguei o respeitoso segredo, nem a sílaba.
Guardei a tua voz enfurecida, uma pétala
de tutelar areia
entre os móveis e as velhas roupas.
Um pó de sinos, uma rosa molhada.
E muitas vezes era a água própria
de Arauco, a água dura:
mas eu conservava minha pedra submersa
c nesta, o palpitante som da tua sombra.
Ó mar do Chile, ó água
alta e cingida como aguda fogueira,
pressão e sonho e unhas de safira,
ó terremoto de sal e leões!
Vertente, origem, costa
do planeta, tuas pálpebras
abrem o meio-dia da terra
atacando o azul das estrelas!
O sal e o movimento se desprendem de ti
e repartem oceano às grutas do homem
até que além das ilhas teu peso
parte-se e estende um ramo de substâncias totais.
Mar do deserto norte, mar que fere o cobre
e adianta a espuma para a mão
do áspero habitante solitário,
entre alcatrazes, rochas de frio e esterco,
costa queimada ao passo de uma aurora desumana!
Mar de Valparaíso, onda
de luz sozinha e noturna,
janela do oceano
a que se assoma
a estátua de minha pátria
a ver com os olhos ainda cegos.
Mar do sul, mar oceano,
mar, lua misteriosa,
em Imperial aterrador de robles,
em Chiloé ao sangue assegurado
e de Magalhães ao limite
todo o silvo do sal, toda a lua louca,
e o estelar cavalo sem freio do gelo.
XVII
Ode de inverno ao rio Mapocho
Ó, sim, neve imprecisa.
Ó, sim, tremulando em plena flor de neve.
pálpebra boreal, pequeno raio gelado
quem, quem té chamou até o acinzentado vale,
quem, quem te arrastou desde o pico da águia
até onde as tuas puras águas tocam
os terríveis farrapos de minha pátria?
Rio, por que conduzes
água fria e secreta,
água que a alba dura das pedras
guardou em sua catedral inacessível,
até os pés feridos de meu povo?
Torna, torna à tua taça de neve, rio amargo,
torna, torna à tua taça de espaçosas escarchas,
submerge a tua prateada raiz em tua secreta origem
ou despenha-te e arrebenta-te em outro mar sem lágrimas!
Rio Mapocho quando a noite chega
e como negra estátua tombada
dorme sob as tuas pontes como um cacho negro
de cabeças batidas pelo frio e pela fome
como por duas imensas águias, ó rio,
ó duro rio parido pela neve,
por que não te ergues como imenso fantasma
ou como nova cruz de estrelas para os esquecidos?
Não, a tua rápida cinza corre agora
junto ao soluço lançado à água negra,
junto à manga rota que o vento endurecido
faz tremer sob as folhas do ferro.
Rio Mapocho, aonde levas
plumas de gelo para sempre feridas,
sempre junto à tua encardida ribeira
a flor selvagem nascerá mordida pelos piolhos
e a tua língua de frio raspará as faces
de minha pátria desnuda?
Oh, que não seja isso,
oh, que não seja, e que uma gota de tua espuma negra
salte da lama à flor do fogo
e precipite a semente do homem!
Escrevo para uma terra recém-secada, recém-
fresca de flores, de pólen, de argamassa,
escrevo para umas crateras cujas cúpulas de giz
repetem seu redondo vazio junto à neve pura,
opino de imediato para o que apenas
leva o vapor ferruginoso recém-saído do abismo,
falo para as pradarias que não conhecem nome
além da pequena campânula do líquen ou o estame queimado
ou a áspera mata onde se inflama a égua.
De onde venho, senão destas primíparas, azuis
matérias que se enredam ou se encrespam ou se destituem
ou se esparzem a gritos ou se derramam sonâmbulas,
ou se galgam e formam o baluarte da árvore,
ou se somem e amarram a célula do cobre,
ou saltam ao ramo dos rios, ou sucumbem
na raça enterrada do carvão ou reluzem
nas trevas verdes da uva?
Nas noites durmo como os rios, percorrendo
algo incessantemente, rompendo ultrapassando
a noite natatória, levantando as horas
para a luz, apalpando as secretas
imagens que a cal desterrou, subindo pelo bronze
até as cataratas recém-disciplinadas, e toco
em um caminho de rios o que não distribui
nada além da rosa nascida, o hemisfério afogado.
A terra é uma catedral de pálpebras pálidas,
eternamente unidas e agregadas em um
vendaval de segmentos, em um sal de abóbadas,
em uma cor final de outono perdoado.
Não haveis, não haveis tocado nunca no caminho
o que a estalactite desnuda determina,
a festa entre as lâmpadas glaciais,
o alto frio das folhas negras,
não haveis entrado comigo nas fibras
que a terra escondeu,
não haveis tornado a subir depois de mortos
grão por grão os degraus da areia
até que as coroas do orvalho
cubram de novo urna rosa aberta,
não podeis existir sem ir morrendo
com o vestuário usado do destino.
Porém eu sou o nimbo metálico, a argola
encadeada a espaços, a nuvens, a terrenos
que toca precipitadas e emudecidas águas,
e torna a desafiar a intempérie infinita.
I
Hino e regresso (1939)
Pátria, minha pátria, volto a ti o sangue.
Mas te peço, como à mãe o menino
cheio de pranto.
Acolhe
esta guitarra cega
e este rosto perdido.
Saí para encontrar-te filhos pela terra,
saí para cuidar caídos com o teu nome de neve,
saí pata fazer uma casa com a tua madeira pura,
saí para levar tua estrela aos heróis feridos.
Agora quero dormir em tua substância.
Dá-me tua clara noite de penetrantes cordas,
tua noite de navio, tua estatura estrelada.
Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr meu braço em tua cintura exígua
e sentar-me em tuas pedras pelo mar calcinadas,
a deter o trigo e espiá-lo por dentro.
Vou eleger a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estame glacial do sino,
e espiando tua ilustre e solitária espuma
um ramo litoral tecerei para tua beleza.
Pátria, minha pátria
toda rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti se junta a águia ao enxofre
e em tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha acendendo o inimigo céu.
Guarda tua luz, ó pátria!, mantém
tua dura espiga de esperança em meio
ao cego ar temível.
Em tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino dos homens
que te faz defender uma flor misteriosa
só, na imensidade da América adormecida.
II
Quero voltar ao sul (1941)
Enfermo em Veracruz, recordo um dia do sul, minha terra, um dia de prata
como um rápido peixe na água do céu.
Loncoche, Lonquimay, Carahue, de cima
esparzidos, rodeados por silêncio e raízes,
sentados em seus tronos de couros e madeiras.
O sul é um cavalo lançado a pique
coroado com lentas árvores e rocio,
quando levanta o verde focinho caem as gotas,
a sombra de sua cauda molha o grande arquipélago
e em seu intestino cresce o carvão venerado.
Nunca mais, dize-me, sombra, nunca mais, dize-me, mão,
nunca mais, dize-me, pé, porta, perna, combate,
transtornarás a selva, o caminho, a espiga,
a névoa, o frio, o que, azul, determinava
cada um de teus passos sem cessar consumidos?
Céu, deixa-me um dia de estrela a estrela ir-me
pisando luz e pólvora destroçando meu sangue
até chegar ao ninho da chuva!
Quero ir
por detrás da madeira pelo rio
Toltén fragrante, quero sair das serrações,
entrar nas cantinas com os pés empapados,
guiar-me pela luz da aveleira elétrica,
espichar-me junto ao excremento das vacas,
morrer e reviver mordendo o trigo.
Oceano, traze-me
um dia do sul, um dia agarrado a tuas ondas,
um dia de árvore molhada, traze um vento
azul polar a minha bandeira fria!
III
Melancolia perto de Orizaba (1942)
Que há para ti no sul senão um rio, uma noite,
umas folhas que o ar frio manifesta
e estende até cobrir as margens do céu?
Acaso a cabeleira do amor desemboca
como outra neve ou água do desfeito arquipélago,
como outro movimenta subterrâneo do fogo
e espera nos barracões outra vez,
onde as folhas caem tantas vezes
tremulando, devoradas por essa boca espessa,
e o brilho da chuva fecha sua trepadeira
desde a reunião dos grãos secretos
até a folhagem cheia de sinos e gotas?
Onde a primavera traz uma voz molhada
que zumbe nas orelhas do cavalo adormecido
e logo caí no ouro do trigo triturado
e logo assoma um dedo transparente na uva.
Que há para ti a esperar-te, onde, sem corredores,
sem paredes, te chama o sul?
Como o llanero escutas em tua mão a taça
da terra, pondo o teu ouvido nas raízes:
de longe um vento do hemisfério temível,
o galope no orvalho dos carabineiros:
onde a agulha cose com água fina o tempo
e sua esmiuçada costura se destrói:
que há para ti na noite de costados selvagens
uivando com a boca toda cheia de azul?
Há um dia talvez detido, um espinho
crava no velho dia seu aguilhão degradado
e sua antiga bandeira nupcial se despedaça.
Quem guardou um dia de bosque negro, quem
esperou umas horas de pedra, quem rodeia
a herança lastimada pelo tempo, quem foge
sem desaparecer no centro do ar?
Um dia, um dia cheio de folhas desesperadas,
um dia, uma luz partida pela fria safira,
um silêncio de ontem preservado no oco
de ontem, na reserva do território ausente.
Amo tua emaranhada cabeleira de couro,
tua antártica formosura de intempérie e cinza.
teu doloroso peso de céu combatente:
amo o vôo do ar do dia em que me esperas,
sei que não muda o beijo da terra, e não muda,
sei que não cai a folha da árvore, e não cai:
sei que o mesmo relâmpago detém seus metais
e a desamparada noite é a mesma noite,
porém és minha noite, porém és minha planta, a água
das glaciais lágrimas que conhecem meu cabelo.
Seja eu o que ontem me esperava no homem:
o que em louro, cinza, quantidade, esperança,
desenrola sua pálpebra no sangue,
no sangue que povoa a cozinha e o bosque,
as fábricas que o ferro cobre de plumas negras,
as minas verrumadas pelo suor sulfúrico.
Não só o ar agudo do vegetal me espera:
não só o trovão sobre o nevado esplendor:
lágrimas e fome como dois calafrios
sobem ao campanário da pátria e repicam:
é aí que em meio do fragrante céu,
é aí que quando outubro rebenta, e corre
a primavera antártica sob o fulgor do vinho,
há um lamento e outro e outro lamento e outro
até que cruzam neve, cobre, caminhos, naus,
e passam através da noite e da terra
até minha dessangrada garganta que os ouve.
Povo meu, que dizes? Marinheiro,
peão, alcaide, operário do salitre, me escutas?
Eu te ouço, irmão morto, irmão vivo, te ouço,
o que tu desejavas, o que enterraste, tudo,
o sangue que na areia e no mar derramavas,
o coração golpeado que resiste e assusta.
Que há para ti no sul? A chuva onde cai?
E desde o interstício, que mortos açoitaste?
Os meus, os do sul, os heróis sós,
o pão disseminado pela cólera amarga,
o longo luto, a fome, a dureza e a morte,
as folhas sobre eles tombaram, as folhas,
a lua sobre o peito do soldado, a lua.
o beco do miserável, e o silêncio
do homem em todas as partes, como um mineral duro
cujo veio de frio gela a luz de minh'alma
antes de construir o campanário nas alturas.
Pátria cheia de germes, não me chames, não posso
dormir sem teu olhar de cristal e treva.
Teu grito rouco de águas e seres me sacode
e ando no sonho à beira de tua espuma solene
até a última ilha de tua cintura azul.
Me chamas docemente como uma noiva pobre.
Tua longa luz de aço me cega e me busca
como uma espada cheia de raízes.
Pátria, terra estimável, queimada luz ardendo:
como o carvão dentro do fogo precipita
teu sal temível, tua despida sombra.
Seja eu o que ontem me esperava, e amanhã
resista num punhado de papoulas e poeira.
IV
Oceano
Se tua nudez evidente e verde,
se tua maçã desmedida, se
nas trevas tua mazurca, onde
está a tua origem?
Noite
mais doce que a noite,
sal
mãe, sal sangrento, curva mãe da água,
planeta percorrido pela espuma e a medula:
titânica doçura de estelar longitude:
noite com uma única onda na mão:
tempestade contra a águia marinha,
cega sob as mãos do sulfato insondável:
adega em tanta noite sepultada,
corola fria toda de invasão e ruído,
catedral enterrada a golpes na estrela.
Há o cavalo ferido que na idade de tua margem
percorre, pelo fogo glacial substituído,
há o abeto rubro transformado em plumagem
e desfeito em tuas mãos de atroz cristalaria,
e a incessante rosa combatida nas ilhas
e o diadema de água e lua que estabeleces.
Pátria minha, a tua terra
todo este céu escuro!
Toda esta fruta universal, toda esta
delirante coroa!
Para ti esta taça de espumas onde o raio
se perde como um albatroz cego, e onde o sol do sul
se levanta olhando tua condição sagrada.
V
Selaria
Para mim este arreio esboçado
como pesada rosa em prata e couro,
suave de fundura, liso e duradouro.
Cada recorte é uma mão, cada
costura é uma vida, nele vive
a unidade das vidas florestais,
uma cadeia de olhos e cavalos.
Os grãos da aveia o formaram,
o fizeram duro matagais e água,
a colheita opulenta lhe deu orgulho,
metal e tafiletes trabalhados:
e assim de desventuras e domínio
este trono saiu pelas campinas.
Olaria
Tarda pomba, alcanzia de argila,
em teu lombo de luto um signo, apenas
algo que te decifra.
Povo meu,
como com as tuas dores nas costas,
espancado e rendido, como foste
acumulando ciência desfolhada?
Prodígio negro, mágica matéria
elevada à luz por dedos cegos,
mínima estátua em que o mais secreto
da terra nos abre seus idiomas,
cântaro de Pomaire em cujo beijo
terra e pele se congregam, infinitas
formas do barro, luz das vasilhas,
a forma de uma mão que foi minha,
o passo de uma sombra que me chama,
sois reunião de sonhos escondidos,
cerâmica, pomba indestrutível!
Teares
Sabeis que lá a neve vigiando
os vales ou, melhor,
a primavera escura do sul, as aves negras
a cujo peito só uma gota de sangue
veio a tremer, a bruma
de um grande inverno que estendeu as asas,
assim é o território, e sua fragrância
sobe de flores pobres, derrubadas
pelo peso de cobre e cordilheiras.
- lá o tear fio a fio, buscando
reconstruiu a flor, subiu a pluma
a seu império escarlate, entretecendo
azuis e açafrões, a meada
do fogo e seu amarelo poderio,
a estirpe do relâmpago violeta,
o verde areento do lagarto.
Mãos do povo meu nos teares,
mãos pobres que tecem, uma a uma,
as plumagens de estrela que faltaram
a tua pele, Pátria de cor escura,
substituindo fibra por fibra o céu
para que cante o homem os seus amores
e galope acendendo cereais!
VI
Inundações
Os pobres vivem embaixo esperando que o rio
se levante à noite e os leve para o mar.
Vi pequenos berços que flutuavam, destroços
de vivendas, cadeiras, e uma cólera augusta
de lívidas águas em que se confundem o céu e o terror
Só é para ti, pobre, para tua esposa e tua sementeira,
para teu cão e tuas ferramentas, para que aprendas a ser mendigo.
A água não sobe até as casas dos cavalheiros
cujos nevados pescoços voam das lavanderias.
Come este lodo de roldão e estas ruínas que nadam
com teus mortos vagando docemente para o mar,
entre as pobres mesas e as perdidas árvores
que vão de tombo em tombo mostrando as raízes.
Terremoto
Acordei quando a terra dos sonhos faltou
sob a minha cama.
Uma coluna cega de cinza cambaleava no meio
da noite,
eu te pergunto: morri?
Dá-me a mão nesta ruptura do planeta
enquanto a cicatriz do céu roxo se faz estrela.
Ai! porém recordo, onde estão? onde estão?
Por que ferve a terra enchendo-se de morte?
Oh, máscaras sob as vivendas enroladas, sorrisos
que não atingiram o espanto, seres despedaçados
sob as vigas, cobertos pela noite.
E hoje amanheces, ó dia azul, vestido
para um baile, com a tua cauda de ouro
sobre o mar apagado dos escombros, ígneo,
buscando o rosto perdido dos insepultos.
VII
Atacama
Voz insofrível, disseminado
sal, substituída
cinza, ramo negro
em cujo extremo aljôfar aparece a lua
cega, por corredores enlutados de cobre.
Que material, que cisne oco
funde na areia sua nudez agônica
e endurece sua luz líquida e lenta?
Que raio duro rompe sua esmeralda
entre suas pedras indomáveis até
coagular o sal perdido?
Terra, terra
sobre o mar, sobre o ar, sobre o galope
da amazona cheia de corais:
adega amontoada onde o trigo
dorme na tremulante raiz do sino:
ó mãe do oceano!, produtora
do cego jaspe e a dourada sílica:
sobre tua pele pura de pão, longe do bosque,
nada, a não ser tuas linhas de segredo,
nada, a não ser o teu rosto de areia,
nada, a não ser as noites e os dias do homem,
mas junto à sede do cardo, lá,
onde um papel enterrado e esquecido, uma pedra
marca os fundos berços da espada e da taça,
indica os adormecidos pés do cálcio.
VIII
Tocopilla
De Tocopilla ao sul, ao norte, areia,
calações ruídas, o lanchão, as tábuas
partidas, o retorcido ferro.
Quem à linha pura do planeta,
áurea e cozida, sonho, sal e pólvora
agregou o utensílio desfeito, a imundície?
Quem pôs o teto arriado, quem deixou as paredes
abertas, como um ramo
de papéis pisados?
Lôbrega luz do homem em ti destituído,
sempre tornando à conca de tua lua calcária,
apenas recebido por tua letal areia!
Gaivota rara das obras, arenque,
petrel anelado,
frutos, vós, filhos do espinhel sangrento
e da tempestade, vistes o chileno?
Vistes o humano, entre as duplas linhas do frio
e das águas, sob a dentadura
da linha de terra, na baía?
Piolhos, piolhos ardentes atacando o sal,
piolhos, piolhos da costa, povoações, mineiros,
de uma cicatriz do deserto até a outra,
contra a costa da lua, fora!,
bicando o selo frio sem idade.
Além dos pés do alcatraz, quando
nem água nem pão nem sombra tocam a dura etapa,
o exercício do salitre assoma
ou a estátua do cobre decide sua estatura.
É tudo como estrelas enterradas
como pontas amargas, como infernais
flores
brancas, nevadas de luz tremulante
ou verde e negro ramo de esplendores pesados.
Não vale ali a pena mas só a mão rota
do chileno escuro, não vale ali a dúvida.
Só o sangue.
Só esse golpe duro
que pergunta na veia pelo homem.
Na veia, na mina, na esburacada cova
sem água e sem laurel.
Ó pequenos
compatriotas queimados por esta luz mais agra
que o banho da morte, heróis escurecidos
pelo amanhecer do sal na terra,
onde fazeis vosso ninho, errantes filhos?
Quem vos viu entre as fibras rotas
dos portos desérticos?
Sob
a névoa de salmoura
ou atrás da costa metálica,
ou talvez ou talvez,
sob o deserto já, sob
sua palavra de pó
para sempre!
Chile, Metal e Céu,
e vós, chilenos,
semente, irmãos duros,
tudo disposto em ordem e silêncio
como a permanência das pedras.
IX
“Peumo”
Parti uma folha lajeada do matagal: um doce
aroma das bordas partidas
me tocou como asa profunda que voasse
da terra, de longe, de nunca.
Peumo, então vi tua folhagem, tua verdura
minuciosa, encrespada, cobrir com seus impulsos
teu tronco terrenal e tua largueza olorosa.
Pensei como és toda a minha terra: minha bandeira
deve ter aroma de peumo ao despregar-se,
um odor de fronteiras que de súbito
entram em ti com toda a pátria em sua corrente.
Peumo puro, fragrância de anos e cabeleiras
no vento, na chuva, sob a curvatura
da montanha, com um ruído de água que baixa
até nossas raízes, ó amor, ó tempo agreste
cujo perfume pode nascer, desenredar-se
de uma folha e encher-nos até derramarmos
a terra, como velhos cântaros enterrados!
“Quilas”
Entre as folhas retas que não sabem sorrir
encondes teu plantel de lanças clandestinas.
Tu não esqueceste.
Quando passo por tua folhagem
murmura a dureza, e despertam palavras
que ferem, sílabas que amamentam espinhos.
Tu não esqueces.
Eras argamassa molhada
com sangue, eras a coluna da casa e a guerra,
eras bandeira, teto de minha mãe araucana,
espada do guerreiro silvestre, Araucania
eriçada de flores que feriram e mataram.
Asperamente escondes as lanças que fabricas
e que conhece o vento da região selvagem,
a chuva, a águia dos bosques queimados,
e o sutil habitante recém-despossuído.
Talvez, talvez: não digas a ninguém o teu segredo.
Guarda para mim uma lança silvestre, ou madeira
de uma flecha.
Eu tampouco esqueci.
“Drimis Winterei”
Plantas sem nome, folhas
e cordas montanhosas,
ramos tecidos de ar verde, fios
recém-bordados, ganchos de metais escuros,
inumerável flora coronária
da umidade, do vasto vapor, da água imensa.
E entre toda a forma que buscou este entrelaçado,
entre estas folhas cujo molde intacto
equilibrou na chuva seu prodígio,
ó árvore, despertaste como um trovão
e em tua copa povoada por toda a verdura
adormeceu como um pássaro o inverno.
X
Zonas frias
Termo abandonado! Linha louca
em que a fogueira ou o cardo enfurecido
formam capas de azul eletrizado.
Pedras batidas por
agulhas do cobre, estradas
de material silêncio, ramos mergulhados
no sal das pedras.
Aqui estou, aqui estou,
boca humana entregue ao passo pálido
de um tempo detido como taça ou cadeira,
central presídio de água sem saída,
árvore de corporal flor derrubada,
unicamente surda e brusca areia.
Pátria minha, terrestre e cega como
nascidos aguilhões da areia, para ti toda
a fundação de minha alma, para ti as perpétuas
pálpebras de meu sangue, e de volta
o meu prato de papoulas.
Dá-me de noite, em meio às plantas terrestres,
a hostil rosa de orvalho que dorme em tua bandeira,
dá-me de lua ou de terra teu pão polvilhado
com teu temível sangue escuro:
sob a tua luz de areia
não há mortos, mas longos ciclos de sal, azuis
ramos de misterioso metal morto.
XI
“Chercanes”
Gostaria que não desconfiásseis: é verão,
a água me regou c levantou um desejo
como um ramo, um canto meu me mantém
como um tronco enrugado, com certas cicatrizes.
Minúsculos, amados, vinde a minha cabeça.
Aninhai em meus ombros nos quais passeia
o fulgor de um lagarto, em meus pensamentos
sobre os quais caíram tantas folhas,
ó círculos pequenos da doçura, grãos
de alado cereal, ovozinho emplumado,
formas puríssimas em que o olho
certeiro dirige vôo e vida,
aqui, aninhai em minha orelha, desconfiados
e diminutos: ajudai-me:
quero ser mais pássaro cada dia.
“Loica”
Perto de mim, sangrenta, mas ausente.
Com tua máscara cruel e teus olhos guerreiros,
Entre os torrões, saltando de um tesouro
Para outro, na plenitude pura e selvagem.
Conta-me como entre todas,
Em nossos matagais que a chuva
Tingiu com seus lamentos, como, só,
Teu peitilho recolhe todo o carmim do mundo?
Ai, és polvilhada pelo rubro verão,
Entraste na gruta do pólen escarlate
E tua mancha recolhe todo o fogo
E tua mancha recolhe todo o fogo.
E a este olhar mais que ao firmamento
E à noite nevada em seu baluarte andino
Quando abre o leque de cada dia, nada
A detém: só a tua sarça
Que continua ardendo sem queimar a terra.
“Chucao”
Na fria folhagem multiplicada, de súbito
A voz do chucao como se ninguém existisse
A não ser esse grito de toda a solidão unida,
Como essa voz de todas as árvores molhadas.
Passou a voz a tremer e escura sobre o meu cavalo,
mais lenta e mais profunda que um vôo: parei,
onde estava? Que dias eram aqueles?
Tudo o que vivi galopando naquelas
Estações perdidas, no mundo da chuva
Nas janelas, o puma na intempérie
Rondando com duas pontas de fogo sangüinário,
E o mar dos canis, entre túneis verdes
De empapada formosura, a solidão, o beijo
Da que amei mais jovem sob as aveleiras,
Tudo surgiu de súbito quando na selva o grito
Do chucao com as suas sílabas úmidas.
XII
Botânica
O sanguinário litre e o benéfico boldo
disseminam seu estilo
em irritantes beijos de animal esmeralda
ou antologias de águas escuras entre as pedras.
A gomeleira no cimo da árvore estabelece
sua dentadura nívea
e a selvagem aveleira constrói seu castelo
de páginas e gotas.
A artemísia e a chépica rodeiam
os olhos do orégano
e o radiante louro da fronteira
perfuma as longínquas intendências.
Quila e quelenquelén das manhãs.
Idioma frio das fúcsias,
que se vai por pedras tricolores
gritando viva o Chile com a espuma!
O dedal de ouro espera
os dedos da neve
e roda o tempo sem seu matrimônio,
que uniria os anjos do fogo e do açúcar.
A caneleira mágica
lava na chuva sua racial ramagem,
e precipita os seus lingotes verdes
sob a vegetal água do sul.
A doce aspa do olmo
com fanegas de flores
sobe as gotas do copihue rubro
para conhecer o sol das guitarras.
A agreste delgadilla
e o celestial poejo
bailam nos prados com o jovem orvalho
recentemente armado pelo rio Toltén.
A indecifrável doca
decapita a sua purpura na areia
e conduz seus triângulos marinhos
até as secas luas litorais.
A brunida papoula,
relâmpago e ferida, dardo e boca,
sobre o trigo queimante
põe as suas pontuações escarlates.
A tiliácea evidente
condecora os seus mortos
e tece suas famílias
com águas mananciais e medalhas de rio.
O paico arranja lâmpadas
no clima do sul, desamparado,
quando vem a noite
do mar jamais adormecido.
O roble dorme sozinho,
muito vertical, muito pobre, muito mordido,
muito decisivo no prado puro
com a sua roupa de maltrapilho maltratado
e sua cabeça cheia de solenes estrelas.
XIII
Araucária
Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantam.
O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho,
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.
Pranto eriçado, eternidade da água,
monte de escamas, raio de ferraduras,
tua atormentada casa se constrói
com pétalas de pura geologia.
O alto inverno beija a tua armadura
e te cobre de lábios destruídos:
a primavera de violento aroma
rompe a tua sede em tua implacável estátua:
e o grave outono espera inutilmente
derramar ouro em tua estatura verde.
XIV
Tomás Lago
Outras pessoas se deitaram entre as páginas dormindo
como insetos elzevirianos, entre eles
foram disputados certos livros recém-impressos
como no futebol, marcando gols de sabedoria.
Nós então cantamos na primavera
junto aos rios que arrastam pedras dos Andes,
e estávamos entrançados com nossas mulheres sorvendo
mais de uma colméia, devorando até o enxofre do mundo.
E não só isso mas muito mais: compartilhamos
a vida com humildes amigos que amamos,
e que nos ensinaram com as flechas do vinho
o alfabeto honrado da aldeia, o repouso
dos que conseguiram na dureza
sair cantando.
Ó dias em que juntos
visitamos a cova e os tugúrios,
destroçamos as teias de aranha, e nas margens
do sul sob a noite e sua argamassa
removida viajamos:
tudo era flor e pátria passageira,
tudo era chuva e material do fumo.
Que longa estrada caminhamos, detendo
o passo nas pousadas, dirigindo
nossa atenção a um extremo crepúsculo, a uma pedra,
a uma parede escrita por um carvão, a um grupo
de foguistas que de repente
nos ensinaram todas as canções do inverno.
Mas não só a lagarta andava camaleando,
em nossas janelas, banhada em celulose,
cada vez mais celestial em seu papel de culto,
mas também o ferruginoso, o iracundo, o vaqueiro
que nos queria cobrar com duas pistolas no peito,
ameaçando devorar as nossas mães
e empenhar nossos bens
(chamando a tudo isso heroísmo e outras coisas).
Nós os deixamos passar a olhá-los, não puderam
arrancar-nos uma casca, amolecer um ganido,
e cada um se foi a seu túmulo,
de jornais europeus ou pesos bolivianos.
Nossas lâmpadas continuam acesas, ardendo
mais altas que o papel e que os foragidos.
Rubén Azócar
Para as ilhas!, dissemos.
Eram dias de confiança
e estávamos sustentados por árvores ilustres:
nada nos parecia longe, tudo podia enredar-se
dum momento para outro na luz que produzíamos.
Chegamos com sapatos de couro grosso: chovia,
chovia nas ilhas, assim se mantinha o território
como uma mão verde, como luva
cujos dedos flutuavam
entre as algas vermelhas.
Enchemos de tabaco o arquipélago, fumávamos
até tarde no Hotel Nilsson, e disparávamos
ostras frescas para todos os pontos cardeais.
A cidade tinha uma fábrica religiosa
de cujas portas grandes, na tarde inanimada,
saía como um longo coleóptero um desfile
negro de sotainazinhas sob a triste chuva:
acudíamos a todos os borgonhas, enchíamos
o papel com os signos de uma dor hieróglifa.
Eu me evadi de repente: por muitos anos, distante,
em outros climas que acaudalaram minhas paixões
recordei as barcas sob a chuva, contigo,
que ali ficavas para que as tuas grandes sobrancelhas
lançassem suas raízes molhadas sobre as ilhas.
Juvencio Valle
Juvencio, ninguém sabe como tu e eu o segredo
do bosque de Boroa: ninguém
conhece certas veredas de terra avermelhada
sobre as quais acorda a luz da aveleira.
Quando as pessoas não nos ouvem não sabem
que ouvimos chover sobre árvores e tetos
de zinco, e que ainda amamos a telegrafista,
aquela, aquela moça que como nós
conhece o grito fundido das locomotivas
de inverno, nas comarcas.
Só tu, silencioso,
entraste no aroma que a chuva despenca,
incitaste o aumento dourado da flora,
recolheste o jasmim antes que ele nascesse.
O barro triste, defronte dos armazéns,
o barro triturado pelas graves carretas
como a negra argila de certos sofrimentos,
está (quem o sabe como tu?) derramado
por trás da profunda primavera.
Também
temos em segredo outros tesouros:
folhas que como línguas escarlates
cobrem a terra, e pedras suavizadas
pela torrente, pedras dos rios.
Diego Muñoz
Nós só nos defendemos, assim parece, com descobrimentos
e signos estendidos no papel tempestuoso,
mas que, capitães, corrigimos
a murros a rua maligna
e logo entre acordeões elevamos
o coração com águas e cordames.
Marinheiro, já regressaste de teus portos
de Guayaquil, odores de frutas poeirentas,
e de toda a terra um sol de aço
que te fez derramar vitoriosas espadas.
Hoje sobre os carvões da pátria chegou
uma hora - dores e amor - que compartilhamos,
e do mar sobressai sobre tua voz o fio
de uma fraternidade mais vasta que a terra.
XV
Ginete na chuva
Fundamentais águas, paredes de água, trevo
e aveia combatida,
cordoagens já unidas na rede duma noite
úmida, gotejante, selvagemente fiada,
gota desgarradora repetida no lamento,
cólera diagonal cortando o céu.
Galopam os cavalos de perfume empapado,
sob a água, golpeando a água, nela intervindo
com suas ramagens rubras de pelo, pedra e água:
e o vapor acompanha como um leite louco
a água endurecida com fugazes pombas.
Não há dia mas apenas as cisternas
do clima duro, do verde movimento
e as patas atam veloz terra c transcurso
entre bestial aroma de cavalo com chuva.
Mantas, montarias, xairéis agrupados
em sombrias romãs sobre os
ardentes lombos de enxofre que golpeiam
a selva decidindo-a.
Mais além, mais além, mais além, mais além,
mais além, mais além, mais além, mais alééééém,
os ginetes despencam a chuva, os ginetes
passam sob as aveleiras amargas, a chuva
torce em trêmulos raios seu trigo sempiterno.
Há luz da água, relâmpago confuso
derramado na folha, e do mesmo som do galope
sai uma água sem vôo, ferida pela terra.
Úmida rédea, abóbada enramada,
passos de passos, vegetal noturno
de estrelas rotas como gelo ou lua, ciclônico cavalo
coberto pelas flechas como um gelado espectro,
cheio de novas mãos nascidas na fúria,
golpeante maçã rodeada pelo medo
e sua grande monarquia de temível estandarte.
XVI
Mares do Chile
Em longínquas regiões
teus pés de espuma, tua esparzida praia
reguei com pranto desterrado e louco.
,
Hoje a tua boca venho, hoje a teu rosto.
Não ao coral sanguinário, não à queimada estrela,
nem às incandescentes e despencadas águas
entreguei o respeitoso segredo, nem a sílaba.
Guardei a tua voz enfurecida, uma pétala
de tutelar areia
entre os móveis e as velhas roupas.
Um pó de sinos, uma rosa molhada.
E muitas vezes era a água própria
de Arauco, a água dura:
mas eu conservava minha pedra submersa
c nesta, o palpitante som da tua sombra.
Ó mar do Chile, ó água
alta e cingida como aguda fogueira,
pressão e sonho e unhas de safira,
ó terremoto de sal e leões!
Vertente, origem, costa
do planeta, tuas pálpebras
abrem o meio-dia da terra
atacando o azul das estrelas!
O sal e o movimento se desprendem de ti
e repartem oceano às grutas do homem
até que além das ilhas teu peso
parte-se e estende um ramo de substâncias totais.
Mar do deserto norte, mar que fere o cobre
e adianta a espuma para a mão
do áspero habitante solitário,
entre alcatrazes, rochas de frio e esterco,
costa queimada ao passo de uma aurora desumana!
Mar de Valparaíso, onda
de luz sozinha e noturna,
janela do oceano
a que se assoma
a estátua de minha pátria
a ver com os olhos ainda cegos.
Mar do sul, mar oceano,
mar, lua misteriosa,
em Imperial aterrador de robles,
em Chiloé ao sangue assegurado
e de Magalhães ao limite
todo o silvo do sal, toda a lua louca,
e o estelar cavalo sem freio do gelo.
XVII
Ode de inverno ao rio Mapocho
Ó, sim, neve imprecisa.
Ó, sim, tremulando em plena flor de neve.
pálpebra boreal, pequeno raio gelado
quem, quem té chamou até o acinzentado vale,
quem, quem te arrastou desde o pico da águia
até onde as tuas puras águas tocam
os terríveis farrapos de minha pátria?
Rio, por que conduzes
água fria e secreta,
água que a alba dura das pedras
guardou em sua catedral inacessível,
até os pés feridos de meu povo?
Torna, torna à tua taça de neve, rio amargo,
torna, torna à tua taça de espaçosas escarchas,
submerge a tua prateada raiz em tua secreta origem
ou despenha-te e arrebenta-te em outro mar sem lágrimas!
Rio Mapocho quando a noite chega
e como negra estátua tombada
dorme sob as tuas pontes como um cacho negro
de cabeças batidas pelo frio e pela fome
como por duas imensas águias, ó rio,
ó duro rio parido pela neve,
por que não te ergues como imenso fantasma
ou como nova cruz de estrelas para os esquecidos?
Não, a tua rápida cinza corre agora
junto ao soluço lançado à água negra,
junto à manga rota que o vento endurecido
faz tremer sob as folhas do ferro.
Rio Mapocho, aonde levas
plumas de gelo para sempre feridas,
sempre junto à tua encardida ribeira
a flor selvagem nascerá mordida pelos piolhos
e a tua língua de frio raspará as faces
de minha pátria desnuda?
Oh, que não seja isso,
oh, que não seja, e que uma gota de tua espuma negra
salte da lama à flor do fogo
e precipite a semente do homem!
1 400
Pablo Neruda
II. O processo
Vive a névoa como um grande octópode inchado de gás amarelo
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
1 178
Pablo Neruda
A doce pátria
A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
1 158
Pablo Neruda
Primavera no Chile
Belo é Setembro em minha pátria coberto com uma coroa de vime e violetas
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
1 275
Pablo Neruda
Tu entre os que pareciam estranhos
Tu, clara e escura, Matilde morena e dourada,
parecida com trigo e com vinho e com pão da pátria,
ali nos caminhos abertos por reinos depois devorados,
fazias cantar teus quadros e parecias, antiga e terrestre araucana,
com a ânfora pura que ardeu com o vinho naquela comarca
e te conhecia o azeite insigne das caçarolas
e as papoulas crescendo no pólen de antigos arados
te reconheciam e balançavam
bailando em teus pés rumorosos.
Porque são os mistérios do povo ser um e ser todos
e igual é tua mãe campestre que jaz nas gredas de Ñuble
à rajada etrusca que move as tranças tirrenas
e tu és um cântaro negro de Quinchamalí ou de Pompeia
erigido por mãos profundas que não têm nome:
por isso ao beijar-te, amor meu, e apertar com meus lábios tua boca,
em tua boca me deste a sombra e a música do barro terrestre.
parecida com trigo e com vinho e com pão da pátria,
ali nos caminhos abertos por reinos depois devorados,
fazias cantar teus quadros e parecias, antiga e terrestre araucana,
com a ânfora pura que ardeu com o vinho naquela comarca
e te conhecia o azeite insigne das caçarolas
e as papoulas crescendo no pólen de antigos arados
te reconheciam e balançavam
bailando em teus pés rumorosos.
Porque são os mistérios do povo ser um e ser todos
e igual é tua mãe campestre que jaz nas gredas de Ñuble
à rajada etrusca que move as tranças tirrenas
e tu és um cântaro negro de Quinchamalí ou de Pompeia
erigido por mãos profundas que não têm nome:
por isso ao beijar-te, amor meu, e apertar com meus lábios tua boca,
em tua boca me deste a sombra e a música do barro terrestre.
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