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Poemas neste tema

Nação e Patriotismo

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Fulgor e morte de Joaquín Murieta

Esta é a longa história de um homem inflamado.
Natural, valoroso, sua memória é uma acha de guerra.
É tempo de abrir o repouso, o sepulcro do claro bandido
e romper o ouvido oxidado que agora o enterra.
Talvez não encontrou seu destino o soldado e lamento
não ter conversado com ele, e com uma garrafa de vinho
ter esperado na História que passasse algum dia seu grande regimento.
Talvez aquele homem perdido no vento houvesse mudado o caminho.
O sangue caído lhe pôs nas mãos um raio violento,
agora passaram cem anos e já não podemos mudar seu destino:
assim é que comecemos sem ele e sem vinho nesta hora quieta
a história de meu compatriota, o bandido honorável don Joaquín Murieta.
É longa a história que aterra mais tarde e que nasce aqui abaixo
nesta angustura de terra que o Polo nos trouxe e o mar e a neve disputam,
aqui entre pereiras e telhas e chuva brilhavam as uvas chilenas
e como uma taça de prata que enche a noite sombria de pálido vinho
a lua do Chile crescia entre boldos, maitenes10, alfavacas, orégano, jasmins, feijões, loureiros, orvalho,
então nascia à luz do planeta um infante moreno
e na sombra serena é o raio que nasce, se chama Murieta,
e ninguém suspeita à luz da lua que um raio nascente
adormece no berço enquanto se esconde nos montes a lua:
é um menino chileno cor de azeitona e seus olhos ignoram o pranto.

Minha pátria lhe deu as medalhas do campo bravio, do pampa ardente:
parece ter forjado com frio e com brasas para uma batalha
seu corpo de arado e é um desafio sua voz e suas mãos são duas ameaças.

Vingança é o ferro, a pedra, a chuva, a fúria, a lança,
a chama, o rancor do desterro, a paz crepitante,
e o homem distante fica cego clamando na sombra vingança,
buscando na noite esperança sangrenta e castigo constante,
desperta o arredio e percorre a cavalo a terra noturna. Deus meu,
que busca o escuro à espreita do dano que brilha em sua mão cortante?

Vingança é o nome instantâneo de seu calafrio
que crava a carne ou golpeia no crânio ou assusta com boca alarmante
e mata e se afasta o dançante mortal galopando à beira do rio.

A chama do ouro percorre a terra do Chile do mar aos montes
e começa o desfile do horizonte até o Porto, o magnético feitiço,
despovoa Quillota, debulha Coquimbo, as naves esperam em Valparaíso.

Crescendo à sombra de salgueiros flexíveis nadava nos rios, domava os potros, lançava os laços,
ardia no brio, educava os braços, a alma, os olhos, e se ouviam cantar as esporas
quando do fundo do outono vermelho descia a galope em sua égua de estanho
vinha da cordilheira, de pedras hirsutas, de cerros hostis, de vento inumano,
trazia nas mãos o golpe vizinho do rio que fustiga e divide a neve fragrante e jazente
e o transpassava aquele livre alvedrio, a virtude selvagem que toca a fronte
dos indomáveis e sela com ira e limpeza o orgulho de algumas cabeças
que guarda o destino em suas atas de fogo e pureza, e assim o elegido
não sabe que está prometido e que deve matar e morrer na empresa.

Assim são as coisas amigo e é bom aprender e que saiba e conheça
os versos que escrevi e repita contando e cantando a lembrança de um livre chileno proscrito
que andando e andando e morrendo foi um mito infinito:
sua infância cantei ao instante e sabemos que foi o caminhante muito longe,
um dia mataram o chileno errante, contam os velhos de noite ao braseiro
e é como se falasse o riacho, a chuva silvante ou na nevasca chorasse no vento a neve distante
porque de Aconcágua partiu num veleiro buscando na água um caminho
e para a Califórnia a morte e o ouro chamavam com vozes ardentes que no fim decidiram seu negro destino.

Mas no caminho marinho, no branco veleiro maulino11
o amor sobreveio e Murieta descobre uns olhos escuros,
se sente inseguro perdido na nova certeza:
sua noiva se chama Tereza e ele não conheceu mulher camponesa
como esta Tereza que beija sua boca e seu sangue, e no grande oceano
perdida a barca na bruma, o amor se consuma e Murieta pressente que é este o amor infinito
e sabe talvez que está escrito seu fim e a morte o espera
e pede à Tereza sua noiva e mulher que se case com ele na nave veleira
e na primavera marinha Joaquín, domador de cavalos, tomou por esposa Tereza, mulher camponesa,
e os imigrantes em busca do ouro inumano e distante celebram este casamento
ouvindo as ondas que elevam seu eterno lamento;
e tal é a estranha cegueira do homem no rito da passageira alegria;
na nave o amor acendeu uma fogueira; não sabem que já começou a agonia.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

V ontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
V ontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes."
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Solilóquio

Talvez os imensos limites da pátria me lembrem os puros
E amargue em meu coração a descrença.
Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado! — algum dia, em alguma parte
Hei de lançar também as âncoras ardentes das promessas
Mas no meu coração intranquilo não há senão fome e sede
De lembranças inexistentes.

O que resta da grande paisagem de pensamentos vividos
Dize, minha alma, senão o vazio?
São verdades as lágrimas, os estremecimentos, os tédios longos
As caminhadas infinitas no oco da eterna voz que te obriga?
E no entanto o que crê em ti não tem o teu amor aprisionado
Escravo de fruições efêmeras...

Ah, será para sempre assim... o beijo pouco do tempo
Na face presa da eternidade
E em todos os momentos a sensação pobre de estar vivendo
E ter em si somente o que não pode ser vivido
E em todos os momentos a beleza, e apenas
Num só momento a prece...

Nunca me sorrirão vozes infantis no corpo, e quem sabe por tê-las
Muito ardentemente desejado...
Talvez os limites da pátria me lembrem os puros e enlouqueça
Em mim o que não foi da carne conquistado.
Muitas vezes hei de me dizer que não sou senão juventude
No seio do pântano triste.

Quero-te, porém, vida, súplica! o medo de mim mesmo
Não há na minha saudade.
É que dói não viver em amor e em renúncia
Quando o amor e a renúncia são terras dentro de mim
E uma vez mais me deitarei no frio, guia de luz perdido
Sem mistérios e sem sombra.

Bem viram os que temeram a minha angústia e as que se disseram:
— Ele perdeu-se no mar!
No mar estou perdido, sem céu e sem terra e sem sede de água
E nada senão minha carne resiste aos apelos do ermo...
O que restará de ti, homem triste, que não seja a tua tristeza
Fruto sobre a terra morta...

Não pensar, talvez... Caminhar ciliciando a carne
Sobre o corpo macerado da vida
Ser um milhão na mesma cidade desabitada
E sendo apenas um, ir acordando o amor e a angústia
E da inquietação vinda e multiplicada, arrancar um riso sem força
Sobre as paisagens inúteis.

Mas, oh, saber... — saber até o fundo do conhecimento
Sobre as aves e os lírios!
Saber a pureza bailando no pensamento como um gênio perfeito
E na alma os cantos límpidos e os voos de uma poesia!
E nada poder, nada, senão ir e vir como a sombra do condenado
Pelo silêncio em escuta...

E não sou um covarde... — sofro pelas manhãs e pelas tardes
E pelas noites desvaneço...
No entanto, é covarde que me sinto no olhar dos que me amam
E no prazer que arranco cem vezes da carne ou do espírito que quero
Ai de mim, tão grande, tão pequeno... — e quando o digo intimamente!
E em ambos, sem pânico...

E me pergunto: Serei vazio de amor como os ciprestes
No seio da ventania?
Serei vazio de serenidade como as águas no seio do abismo
Ou como as parasitas no seio da mata serei vazio de humildade?
Ou serei o amor eu mesmo e a calma e a humildade eu mesmo
No seio do infinito vazio?

E me pergunto: O que é o perigo, onde a sua fascinação profunda
E o gosto ardente de morrer?
Não é a morte o meu voto murmurante
Que caminha comigo pelas estradas e adormece no meu leito?
O que é morrer senão viver placidamente
Na imutável espera?

Nada respondo — nada responde o desespero
Solidão sem desvario.
Mas resta, resta a ânsia das palavras murmuradas ao vento
E a emoção das visões vividas no seu melhor momento
Resta a posse longínqua e em eterna lembrança
Da imagem única.

Resta?... Já me disse blasfêmias no âmago do prazer sentido
Sobre o corpo nu da mulher
Já arranquei de mim mesmo o sumo da sabedoria
Para fazê-lo vibrar dolorosamente à minha vontade
E no entanto... posso me glorificar de ter sido forte
Contra o que sempre foi?

Hão de ir todos, todos, para as celebrações e para os ritos
Ficarei em casa, sem lar
Hei de ouvir as vozes dos amantes que não se entediam
E dos amigos que não se amam e não lutam
As portas abertas, à espera dos passos do retardatário
Não receberei ninguém.

Talvez nos imensos limites da pátria estejam os puros
E apenas em mim o ilimitado...
Mas oh, cerrar os olhos, dormir, dormir longe de tudo
Longe mesmo do amor longe de mim!
E enquanto se vão todos, heróicos, santos, sem mentira ou sem verdade
Ficar, sem perseverança...
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Adélia Prado

Adélia Prado

Terra de Santa Cruz

Nas minhas bodas de ouro, esganada como os netos,
vou comer os doces.
Não terei a serenidade dos retratos
de mulheres que pouco falaram ou comeram.
Porque o frade se matou
no pequeno bosque fora do seu convento.
De outras vezes já disse: não haverá consolo. E houve:
música, poema, passeatas.
O amor tem ritmos que não são de tristeza:
forma de ondas, ímpeto, água corrente.
E agora? Que digo ao homem, ao trem, ao menino que
[me espera,
à jabuticabeira em flores, temporã?
Contemplar o impossível enlouquece.
Sou uma tênia no epigastro de Deus:
E agora? E agora? E agora?
Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro,
a fraternidade onde estava quando saíste,
ó desgraçado moço da minha pátria,
ao encontro desta árvore?
Meu inimigo sou eu. Os torturadores todos enlouquecem
[ao fim,
comem excrementos, odeiam seus próprios gestos
[obscenos,
os regimes iníquos apodrecem.
Quando andavas em círculos, a alma dividida,
o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?
Promovia tômbolas, é certo, benzia edifícios novos,
mas também te gerava, quem ousará negar, a ti
e a outros santos que deixam as bíblias marcadas:
“Na verdade carregamos em nós mesmos nossa sentença
[de morte.”
“Amai vossos inimigos.”
O que disse: “Quem crer viverá para sempre”, este também
balouçou do madeiro como fruto de escárnio.
Nada, nada que é humano é grandioso.
Me interrompe da porta a mocinha boçal. Quer mudas de
[trepadeira.
Meus cabelos levantam-se. Como um torturador eu piso
[e arranco
a muda, os olhos, as entranhas da intrusa
e não sendo melhor que Jó choro meus desatinos.
Sempre há quem pergunte a Judas qual a melhor árvore:
os loucos lúcidos, os santos loucos,
aqueles a quem mais foi dado, os quase sublimes.
Minha maior grandeza é perguntar: haverá consolo?
Num dedal cabem minha fé, minha vida e meu medo maior
[que é viajar de ônibus.
A tentação me tenta e eu fico quase alegre.
É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n’Ele
e não em nós.
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