Poemas neste tema
Amor Romântico
Manuel Bandeira
Solau do Desamado
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
1 435
Manuel Bandeira
Ternura
Enquanto nesta atroz demora,
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;
Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;
Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;
Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;
E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha...
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;
Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;
Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;
Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;
E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha...
782
Manuel Bandeira
Paráfrase de Ronsard
Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.
Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.
Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...
Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.
Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.
Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...
Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
1 301
Manuel Bandeira
Mancha
Para reproduzir o donaire sem par
Desse alvo rosto e desse irônico sorriso
Que desconcerta e prende e atrai, fora preciso
A mestria de Helleu, de Boldini ou Besnard.
Luz faiscante malícia ao fundo desse olhar,
E há mais do inferno ali do que do paraíso...
O amor é tão-somente um pretexto de riso
Para esse coração flutuante e singular.
Flor de perfume raro e de esquisito encanto,
Ela zomba dos que (pobres deles!) sem cor
Vão-lhe aos pés ajoelhar ingenuamente... Enquanto
Alguém não lhe magoar a boca de veludo...
E não a fizer ver, por si, que isso de amor
No fundo é amargo e triste e dói mais do que tudo.
1907
Desse alvo rosto e desse irônico sorriso
Que desconcerta e prende e atrai, fora preciso
A mestria de Helleu, de Boldini ou Besnard.
Luz faiscante malícia ao fundo desse olhar,
E há mais do inferno ali do que do paraíso...
O amor é tão-somente um pretexto de riso
Para esse coração flutuante e singular.
Flor de perfume raro e de esquisito encanto,
Ela zomba dos que (pobres deles!) sem cor
Vão-lhe aos pés ajoelhar ingenuamente... Enquanto
Alguém não lhe magoar a boca de veludo...
E não a fizer ver, por si, que isso de amor
No fundo é amargo e triste e dói mais do que tudo.
1907
1 002
Marina Colasanti
Sobre a cama
Disjecta membra diz
o meu amado
batendo com a palma no lençol
e rimos amplos os dois
como crianças
e tudo é pena ao ar
e amor ao vento
desmembrados os membros
sobre a cama
aberto o corpo ao tempo
de brincar.
o meu amado
batendo com a palma no lençol
e rimos amplos os dois
como crianças
e tudo é pena ao ar
e amor ao vento
desmembrados os membros
sobre a cama
aberto o corpo ao tempo
de brincar.
1 045
Manuel Bandeira
Flor de Todos Os Tempos
Dantes a tua pele sem rugas,
A tua saúde
Escondiam o que era
Tu mesma.
Aquela que balbuciava
Quase inconscientemente:
"Podem entrar."
A que me apertava os dedos
Desesperadamente
Com medo de morrer.
A menina.
O anjo.
A flor de todos os tempos.
A que não morrerá nunca.
A tua saúde
Escondiam o que era
Tu mesma.
Aquela que balbuciava
Quase inconscientemente:
"Podem entrar."
A que me apertava os dedos
Desesperadamente
Com medo de morrer.
A menina.
O anjo.
A flor de todos os tempos.
A que não morrerá nunca.
1 494
Marina Colasanti
Cuidando de comida
Na sala de cima
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
1 182
Marina Colasanti
Aberta frincha
Há tempos não abraço meu amado
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
1 136
Marina Colasanti
Sobre um bosque de bétulas
A janela fechada
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
1 059
Marina Colasanti
A LARGURA DE UM HOMEM
A largura de um homem
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
1 066
Marina Colasanti
AINDA ASSIM
Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
970
Marina Colasanti
Como é Gentil
Os pelos da tua mão
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
1 402
Allen Ginsberg
Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
1 031
Allen Ginsberg
Malest Cornifici tuo Catullo
Estou feliz, Kerouac, seu louco Allen
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.
1 431
Allen Ginsberg
Porque Deus é amor, Jack?
Porque eu me deito
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
723
Allen Ginsberg
Mensagem
Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
1 038
Affonso Romano de Sant'Anna
Estranhamento
Estranho
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
1 160
Affonso Romano de Sant'Anna
Adolescência
Bom teria sido
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
1 149
Affonso Romano de Sant'Anna
Entrega
Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
637
Affonso Romano de Sant'Anna
Além do Entendimento
A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
1 087
Affonso Romano de Sant'Anna
Antropologia Sexual
Pela Natureza o homem é um ser polígamo.
(Há exceções. Poucas).
Pela Natureza a mulher é ser monógamo.
(Há exceções. Muitas).
Há quem discorde.
De qualquer maneira
a biologia comportamental dá provas.
Pela Cultura o homem tenta ser monógamo.
(Tenta).
Pela Cultura a mulher tenta ser polígama.
(Tenta).
Nisto já se vão muitos mil anos.
Convenhamos,
a passagem da Natureza à Cultura
e a tentativa de se chegar a um acordo
tem sido
um notável esforço do casal.
(Há exceções. Poucas).
Pela Natureza a mulher é ser monógamo.
(Há exceções. Muitas).
Há quem discorde.
De qualquer maneira
a biologia comportamental dá provas.
Pela Cultura o homem tenta ser monógamo.
(Tenta).
Pela Cultura a mulher tenta ser polígama.
(Tenta).
Nisto já se vão muitos mil anos.
Convenhamos,
a passagem da Natureza à Cultura
e a tentativa de se chegar a um acordo
tem sido
um notável esforço do casal.
1 161
Affonso Romano de Sant'Anna
Epifania Num Bar de Aix
Sempre pensei, seria assim a maturidade:
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
1 086