Poemas neste tema
Amor Romântico
Affonso Romano de Sant'Anna
Ninfa
Diz um crítico
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
1 066
Affonso Romano de Sant'Anna
Pedes Explicação
Pedes explicações, que não sei dar,
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
1 025
Pablo Neruda
Os invulneráveis
Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
1 029
Pablo Neruda
Estou longe
É minha a hora infinita da Patagônia,
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
1 128
Affonso Romano de Sant'Anna
Amor de Ostra
Nunca soube como as ostras amam.
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.
1 338
Pablo Neruda
Manhã - III
Áspero amor, violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado,
lança das dores, corola da cólera,
por que caminhos e como te dirigiste a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias de meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumaça, mostraram minha morada?
O certo é que tremeu a noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,
enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas e espinhos
abriu no coração um caminho queimante.
cipoal entre tantas paixões eriçado,
lança das dores, corola da cólera,
por que caminhos e como te dirigiste a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias de meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumaça, mostraram minha morada?
O certo é que tremeu a noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,
enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas e espinhos
abriu no coração um caminho queimante.
1 194
Pablo Neruda
Manhã - XVI
Amo o pedaço de terra que tu és,
porque das campinas planetárias
outra estrela não tenho. Tu repetes
a multiplicação do universo.
Teus amplos olhos são a luz que tenho
das constelações derrotadas,
tua pele palpita como os caminhos
que percorre na chuva o meteoro.
De tanta lua foram para mim teus quadris,
de todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
de tanta luz ardente como mel na sombra
teu coração queimado por longos raios rubros,
e assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
pequena e planetária, pomba e geografia.
porque das campinas planetárias
outra estrela não tenho. Tu repetes
a multiplicação do universo.
Teus amplos olhos são a luz que tenho
das constelações derrotadas,
tua pele palpita como os caminhos
que percorre na chuva o meteoro.
De tanta lua foram para mim teus quadris,
de todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
de tanta luz ardente como mel na sombra
teu coração queimado por longos raios rubros,
e assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
pequena e planetária, pomba e geografia.
1 266
Pablo Neruda
Solo de Sal
(De repente o dia rápido se transformou em tristeza
e assim a barcarola que crescia cantando
se cala e permanece a voz sem movimento.)
Sabereis que naquela região que cruzava com medo
crispava a noite os ruídos secretos, a sombra selvática,
e eu me arrastava com os ônibus no misterioso universo:
Ásia negra, treva do bosque, cinza sagrada,
e minha juventude trêmula com asas de mosca
saltando daqui para lá pelos reinos escuros.
De repente se imobilizaram as rodas, desceram os
desconhecidos
e ali fiquei, ocidental, na solidão da selva:
ali sem sair daquele carro perdido na noite,
com vinte anos de idade esperando a morte, refugiado em meu idioma.
De repente um tambor na selva, uma tocha, um rumor da rota,
e aqueles que predestinei como meus assassinos
bailavam ali, sob o peso da escuridão da selva,
para entreter o viajante perdido em remotas regiões.
Assim quando tantos presságios levavam ao final de
minha vida,
os altos tambores, as tranças floridas, os cintilantes tornozelos
dançavam sorrindo e cantando para um estrangeiro.
Canto-te este conto, amor meu, porque o ensino
do homem se cumpre apesar do estranho atavio
e ali se fundaram em mim os princípios da alba,
ali despertou minha razão à fraternidade dos homens.
Foi no Vietnã, no Vietnã no ano de mil novecentos e vinte e oito.
Quarenta anos depois da música de meus companheiros
chegou o gás assassino queimando os pés e a música,
queimando o silêncio ritual da natureza
incendiando o amor e matando a paz das crianças.
Maldição ao atroz invasor! Diz agora o tambor reunindo
o pequeno país no nó de sua resistência.
Amor meu, cantei para ti os transcursos de mar e de dia,
e foi sonolenta a lua de minha barcarola na água
porque o dispôs o sistema de minha simetria
e o beijo incitante da primavera marinha.
Disse-te: levar pelo mundo da viagem teus olhos amados!
A rosa que em meu coração estabelece seu povo fragrante!
E, disse, dou-te além disso a lembrança de pícaros e heróis,
o trovão do mundo acompanha com seu poderio meus beijos,
e assim foi a barca barqueira deslizando em minha barcarola.
Mas anos impuros, o sangue do homem distante
recai na espuma, nos mancha na onda, salpica a lua: são nossos,
são nossas dores aquelas distantes dores
e a resistência dos destruídos é parte concreta de minha alma.
Talvez esta guerra se irá como aquelas que nos compartiram,
deixando-nos mortos, matando-nos com os que mataram
mas a desonra deste tempo toca-nos a fronte com dedos queimados
e quem apagará o inflexível que teve o sangue inocente?
Amor meu, ao longo da costa longa
de uma pétala à outra a terra constrói o aroma
e já o estandarte da primavera proclama
nossa eternidade não por breve menos lacerante.
Se nunca a nave em seu império regressa com dedos intactos,
se a barcarola seguia seu rumo no trovão marinho
e se tua cintura dourada verteu sua beleza em minhas mãos
aqui submetemos neste regresso do mar, o destino,
e sem mais exame cumprimos com a labareda.
Quem ouve a essência secreta da sucessão,
da sucessiva estação que nos enche de sol ou de pranto?
Escolhe a terra calada uma folha, a ramificada póstuma
e cai na altura amarela como o testemunho de um advento.
O homem trepou em seus motores, se fizeram terríveis
as obras de arte, os quadros de chumbo, as tristes estátuas enfileiradas,
os livros que se dedicaram a falsificar o relâmpago,
os grandes negócios se fizeram com manchas de sangue no barro dos arrozais,
e da esperança de muitos ficou um esqueleto imprevisto:
o fim deste século pagava no céu o que nos devia,
e enquanto chegava à lua e deixava cair ferramentas de ouro,
não soubemos nós, os filhos do lento crepúsculo,
se se descobria outra forma de morte ou se tínhamos um novo planeta.
De minha parte e tua parte, cumprimos, compartilhamos esperanças e invernos
e fomos feridos não só pelos inimigos mortais
mas por mortais amigos (e isto pareceu mais amargo),
porém não me parece mais doce meu pão ou meu livro entretanto:
agregamos vivendo a cifra que falta à dor
e seguimos amando o amor e com nossa conduta direta
enterramos os mentirosos e vivemos com os verdadeiros.
Amor meu, a noite chegou galopando sobre as extensões do mundo.
Amor meu, a noite apaga o signo do mar e a nave resvala e repousa.
Amor meu, a noite acendeu seu instituto estrelado.
No vazio do homem adormecido a mulher navegou desvelada
e desceram os dois no sonho pelos rios que levam ao pranto
e cresceram de novo entre os animais escuros e os trens carregados de sombra
até que não chegaram a ser senão pálidas pedras noturnas.
É a hora, amor meu, de apartar esta rosa sombria,
cerrar as estrelas, enterrar a cinza na terra:
e na insurreição da luz, despertar com os que despertaram
ou seguir no sonho alcançando a outra margem do mar que não tem outra margem.
e assim a barcarola que crescia cantando
se cala e permanece a voz sem movimento.)
Sabereis que naquela região que cruzava com medo
crispava a noite os ruídos secretos, a sombra selvática,
e eu me arrastava com os ônibus no misterioso universo:
Ásia negra, treva do bosque, cinza sagrada,
e minha juventude trêmula com asas de mosca
saltando daqui para lá pelos reinos escuros.
De repente se imobilizaram as rodas, desceram os
desconhecidos
e ali fiquei, ocidental, na solidão da selva:
ali sem sair daquele carro perdido na noite,
com vinte anos de idade esperando a morte, refugiado em meu idioma.
De repente um tambor na selva, uma tocha, um rumor da rota,
e aqueles que predestinei como meus assassinos
bailavam ali, sob o peso da escuridão da selva,
para entreter o viajante perdido em remotas regiões.
Assim quando tantos presságios levavam ao final de
minha vida,
os altos tambores, as tranças floridas, os cintilantes tornozelos
dançavam sorrindo e cantando para um estrangeiro.
Canto-te este conto, amor meu, porque o ensino
do homem se cumpre apesar do estranho atavio
e ali se fundaram em mim os princípios da alba,
ali despertou minha razão à fraternidade dos homens.
Foi no Vietnã, no Vietnã no ano de mil novecentos e vinte e oito.
Quarenta anos depois da música de meus companheiros
chegou o gás assassino queimando os pés e a música,
queimando o silêncio ritual da natureza
incendiando o amor e matando a paz das crianças.
Maldição ao atroz invasor! Diz agora o tambor reunindo
o pequeno país no nó de sua resistência.
Amor meu, cantei para ti os transcursos de mar e de dia,
e foi sonolenta a lua de minha barcarola na água
porque o dispôs o sistema de minha simetria
e o beijo incitante da primavera marinha.
Disse-te: levar pelo mundo da viagem teus olhos amados!
A rosa que em meu coração estabelece seu povo fragrante!
E, disse, dou-te além disso a lembrança de pícaros e heróis,
o trovão do mundo acompanha com seu poderio meus beijos,
e assim foi a barca barqueira deslizando em minha barcarola.
Mas anos impuros, o sangue do homem distante
recai na espuma, nos mancha na onda, salpica a lua: são nossos,
são nossas dores aquelas distantes dores
e a resistência dos destruídos é parte concreta de minha alma.
Talvez esta guerra se irá como aquelas que nos compartiram,
deixando-nos mortos, matando-nos com os que mataram
mas a desonra deste tempo toca-nos a fronte com dedos queimados
e quem apagará o inflexível que teve o sangue inocente?
Amor meu, ao longo da costa longa
de uma pétala à outra a terra constrói o aroma
e já o estandarte da primavera proclama
nossa eternidade não por breve menos lacerante.
Se nunca a nave em seu império regressa com dedos intactos,
se a barcarola seguia seu rumo no trovão marinho
e se tua cintura dourada verteu sua beleza em minhas mãos
aqui submetemos neste regresso do mar, o destino,
e sem mais exame cumprimos com a labareda.
Quem ouve a essência secreta da sucessão,
da sucessiva estação que nos enche de sol ou de pranto?
Escolhe a terra calada uma folha, a ramificada póstuma
e cai na altura amarela como o testemunho de um advento.
O homem trepou em seus motores, se fizeram terríveis
as obras de arte, os quadros de chumbo, as tristes estátuas enfileiradas,
os livros que se dedicaram a falsificar o relâmpago,
os grandes negócios se fizeram com manchas de sangue no barro dos arrozais,
e da esperança de muitos ficou um esqueleto imprevisto:
o fim deste século pagava no céu o que nos devia,
e enquanto chegava à lua e deixava cair ferramentas de ouro,
não soubemos nós, os filhos do lento crepúsculo,
se se descobria outra forma de morte ou se tínhamos um novo planeta.
De minha parte e tua parte, cumprimos, compartilhamos esperanças e invernos
e fomos feridos não só pelos inimigos mortais
mas por mortais amigos (e isto pareceu mais amargo),
porém não me parece mais doce meu pão ou meu livro entretanto:
agregamos vivendo a cifra que falta à dor
e seguimos amando o amor e com nossa conduta direta
enterramos os mentirosos e vivemos com os verdadeiros.
Amor meu, a noite chegou galopando sobre as extensões do mundo.
Amor meu, a noite apaga o signo do mar e a nave resvala e repousa.
Amor meu, a noite acendeu seu instituto estrelado.
No vazio do homem adormecido a mulher navegou desvelada
e desceram os dois no sonho pelos rios que levam ao pranto
e cresceram de novo entre os animais escuros e os trens carregados de sombra
até que não chegaram a ser senão pálidas pedras noturnas.
É a hora, amor meu, de apartar esta rosa sombria,
cerrar as estrelas, enterrar a cinza na terra:
e na insurreição da luz, despertar com os que despertaram
ou seguir no sonho alcançando a outra margem do mar que não tem outra margem.
1 189
Pablo Neruda
Quase Soneto
Mas, ai, aquela tarde o mataram:
foi deixar flores à sua esposa morta
e de repente o heroico acurralado
viu que a vida lhe fechou a porta.
De cada nicho um ianque disparava,
o sangue resvalava por seus braços
e quando cem covardes dispararam
um valente caiu com cem balaços.
E caiu entre as tumbas debulhado
ali onde seu amor assassinado,
sua esposa, o chamava ainda.
Seu sangue vingador e verdadeiro
pôde beijar assim a sua companheira
e ardeu o amor ali onde morria.
O ouro recebe este morto de pólvora e ouro enlutado,
o descabelado, o chileno sem cruz de soldado, nem sol, nem estandarte,
o filho sangrento e sangrante do ouro e a fúria terrestre,
o pobre violento e errante que na Califórnia dourada
seguiu alucinante uma luz desditada: o ouro seu leite nutritício
deu-lhe, com a vida e a morte, espreitado e vencido por ouro e cobiça.
Noturno chileno arrastado e ferido pelas circunstâncias do dano incessante,
o pobre soldado e amante sem a companheira nem a
companhia,
sem a primavera do Chile distante nem as alegrias que amamos e que ele defendia
em forma importuna atacando em seu escuro cavalo à luz da lua:
certeiro e seguro este raio de janeiro vingava os seus.
E morto em seu orgulho se foi bandoleiro não sei nem me importa, chegou a hora
de uma grande aurora que todas as sombras sepulta e
oculta com mãos de rosa fragrante,
a hora, o minuto em que achamos a eterna doçura do
mundo e buscamos
na desventura o amor que sustenta a cúpula da primavera.
E Joaquín Murieta não teve bandeira a não ser só uma dor assassina. E aquele desditado
achou assassinado seu amor por mascarados e assim um estrangeiro que saiu para viver e vencer
nas mãos do ouro tornou-se bandoleiro e chegou a
padecer, a matar e morrer.
foi deixar flores à sua esposa morta
e de repente o heroico acurralado
viu que a vida lhe fechou a porta.
De cada nicho um ianque disparava,
o sangue resvalava por seus braços
e quando cem covardes dispararam
um valente caiu com cem balaços.
E caiu entre as tumbas debulhado
ali onde seu amor assassinado,
sua esposa, o chamava ainda.
Seu sangue vingador e verdadeiro
pôde beijar assim a sua companheira
e ardeu o amor ali onde morria.
O ouro recebe este morto de pólvora e ouro enlutado,
o descabelado, o chileno sem cruz de soldado, nem sol, nem estandarte,
o filho sangrento e sangrante do ouro e a fúria terrestre,
o pobre violento e errante que na Califórnia dourada
seguiu alucinante uma luz desditada: o ouro seu leite nutritício
deu-lhe, com a vida e a morte, espreitado e vencido por ouro e cobiça.
Noturno chileno arrastado e ferido pelas circunstâncias do dano incessante,
o pobre soldado e amante sem a companheira nem a
companhia,
sem a primavera do Chile distante nem as alegrias que amamos e que ele defendia
em forma importuna atacando em seu escuro cavalo à luz da lua:
certeiro e seguro este raio de janeiro vingava os seus.
E morto em seu orgulho se foi bandoleiro não sei nem me importa, chegou a hora
de uma grande aurora que todas as sombras sepulta e
oculta com mãos de rosa fragrante,
a hora, o minuto em que achamos a eterna doçura do
mundo e buscamos
na desventura o amor que sustenta a cúpula da primavera.
E Joaquín Murieta não teve bandeira a não ser só uma dor assassina. E aquele desditado
achou assassinado seu amor por mascarados e assim um estrangeiro que saiu para viver e vencer
nas mãos do ouro tornou-se bandoleiro e chegou a
padecer, a matar e morrer.
635
Pablo Neruda
XXII - A ilha
Amor, amor, oh separada minha
por tantas vezes mar como neve e distância,
mínima e misteriosa, rodeada
de eternidade, agradeço
não só teu olhar de donzela,
tua brancura oculta, rosa secreta, mas
o esplendor moral de teus estátuas,
a paz abandonada que me confiasse nas mãos:
o dia detido em tua garganta.
por tantas vezes mar como neve e distância,
mínima e misteriosa, rodeada
de eternidade, agradeço
não só teu olhar de donzela,
tua brancura oculta, rosa secreta, mas
o esplendor moral de teus estátuas,
a paz abandonada que me confiasse nas mãos:
o dia detido em tua garganta.
1 095
Affonso Romano de Sant'Anna
Villa Serbelloni, Primavera
Quando cheguei não havia flores, só promessas.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
969
Pablo Neruda
Manhã - XXV
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.
982
Pablo Neruda
Tarde - LX
A ti fere aquele que quis fazer-me dano,
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
1 044
Pablo Neruda
Noite - XCVIII
E esta palavra, este papel escrito
pelas mil mãos de uma só mão,
não fica em ti, não serve para sonhos,
cai à terra: ali permanece.
Não importa que a luz ou a louvação
se derramem e saiam da taça
se foram um tenaz tremor do vinho
se tingiu tua boca de amaranto.
Não quer mais a sílaba tardia,
o que traz e retraz o arrecife
de minhas lembranças, a irritada espuma,
não quer mais senão escrever teu nome.
E ainda que o cale meu sombrio amor
mais tarde o dirá a primavera.
pelas mil mãos de uma só mão,
não fica em ti, não serve para sonhos,
cai à terra: ali permanece.
Não importa que a luz ou a louvação
se derramem e saiam da taça
se foram um tenaz tremor do vinho
se tingiu tua boca de amaranto.
Não quer mais a sílaba tardia,
o que traz e retraz o arrecife
de minhas lembranças, a irritada espuma,
não quer mais senão escrever teu nome.
E ainda que o cale meu sombrio amor
mais tarde o dirá a primavera.
1 033
Pablo Neruda
Solo de Sol
Hoje, este momento, este hoje destapado, aqui fora,
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
2 241
Pablo Neruda
Noite - XC
Pensei morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas quando a morte vem tocar a porta
há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas quando a morte vem tocar a porta
há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.
1 140
Pablo Neruda
O Ramo Roubado
De noite iremos
roubar
um ramo florido.
Saltaremos o muro,
nas trevas do jardim alheio,
duas sombras na sombra.
Ainda não passou o inverno,
e a macieira aparece
subitamente transformada
em cascata de perfumadas estrelas.
De noite saltaremos
até ao seu trémulo firmamento,
e as tuas pequenas mãos e as minhas
roubarão as estrelas.
E em segredo,
na nossa casa,
na noite e na sombra,
entrará com os teus passos
o silencioso passo do perfume
e com pés siderais
o corpo claro da primavera.
roubar
um ramo florido.
Saltaremos o muro,
nas trevas do jardim alheio,
duas sombras na sombra.
Ainda não passou o inverno,
e a macieira aparece
subitamente transformada
em cascata de perfumadas estrelas.
De noite saltaremos
até ao seu trémulo firmamento,
e as tuas pequenas mãos e as minhas
roubarão as estrelas.
E em segredo,
na nossa casa,
na noite e na sombra,
entrará com os teus passos
o silencioso passo do perfume
e com pés siderais
o corpo claro da primavera.
1 265
Pablo Neruda
Tarde - LXVII
A grande chuva do Sul cai sobre Ilha Negra
como uma só gota transparente e pesada,
o mar abre suas folhas frias e a recebe,
a terra apreende o úmido destino de uma taça.
Alma minha, dá-me em teus beijos a água
salobre destes meses, o mel do território,
a fragrância molhada por mil lábios do céu,
a paciência sagrada do mar no inverno.
Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,
relata a água um longo rumor às janelas,
cresce o céu para baixo tocando as raízes,
e assim tece e destece sua rede celeste o dia
com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,
uma mulher, um homem e o inverno na terra.
LXVIII
(Carranca de Proa)
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
como uma só gota transparente e pesada,
o mar abre suas folhas frias e a recebe,
a terra apreende o úmido destino de uma taça.
Alma minha, dá-me em teus beijos a água
salobre destes meses, o mel do território,
a fragrância molhada por mil lábios do céu,
a paciência sagrada do mar no inverno.
Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,
relata a água um longo rumor às janelas,
cresce o céu para baixo tocando as raízes,
e assim tece e destece sua rede celeste o dia
com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,
uma mulher, um homem e o inverno na terra.
LXVIII
(Carranca de Proa)
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
1 253
Pablo Neruda
Cada Dia Matilde
Hoje a ti: és longa
como o corpo do Chile,
e delicada como uma flor de anis,
e em cada rama guardas testemunho
de nossas indeléveis primaveras.
Que dia é hoje? Teu dia.
E amanhã é ontem,
não tem acontecido,
não se foi nenhum dia das tuas mãos,
guardas o sol, a terra, as violetas
em tua pequena sombra quando dormes.
E assim cada manhã
me presenteias a vida.
como o corpo do Chile,
e delicada como uma flor de anis,
e em cada rama guardas testemunho
de nossas indeléveis primaveras.
Que dia é hoje? Teu dia.
E amanhã é ontem,
não tem acontecido,
não se foi nenhum dia das tuas mãos,
guardas o sol, a terra, as violetas
em tua pequena sombra quando dormes.
E assim cada manhã
me presenteias a vida.
1 323
Pablo Neruda
Tarde - LXXVII
Hoje é hoje com o peso de todo o tempo ido,
com as asas de tudo o que será amanhã,
hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
e a composição de um novo dia.
À tua boca elevada à luz ou à lua
se acresceram as pétalas de um dia consumido,
e ontem vem trotando por sua rua sombria
para que recordemos teu rosto que morreu.
Hoje, ontem e amanhã se comem caminhando,
consumimos um dia como uma vaca ardente,
nosso gado espera com seus dias contados,
mas em teu coração pôs sua farinha o tempo,
meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
tu és o pão de cada dia para minha alma.
com as asas de tudo o que será amanhã,
hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
e a composição de um novo dia.
À tua boca elevada à luz ou à lua
se acresceram as pétalas de um dia consumido,
e ontem vem trotando por sua rua sombria
para que recordemos teu rosto que morreu.
Hoje, ontem e amanhã se comem caminhando,
consumimos um dia como uma vaca ardente,
nosso gado espera com seus dias contados,
mas em teu coração pôs sua farinha o tempo,
meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
tu és o pão de cada dia para minha alma.
1 169
Pablo Neruda
Noite - LXXXIV
Uma vez mais, amor, a rede do dia extingue
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.
Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.
Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,
até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.
Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.
Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,
até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.
1 100
Pablo Neruda
Tarde - LXX
Talvez ferido vou sem ir sangrento
por algum dos raios de tua vida
e a meia selva me detém a água:
a chuva que tomba com seu céu.
Então toco o coração chovido:
ali sei que teus olhos penetraram
pela região extensa de minha pena
e um sussurro de sombra surge só:
Quem é? Quem é? Mas não teve nome
a folha ou a água escura que palpita
a meia selva, surda, no caminho,
e assim, amor meu, soube que fui ferido
e ninguém falava ali senão a sombra,
a noite errante, o beijo da chuva.
por algum dos raios de tua vida
e a meia selva me detém a água:
a chuva que tomba com seu céu.
Então toco o coração chovido:
ali sei que teus olhos penetraram
pela região extensa de minha pena
e um sussurro de sombra surge só:
Quem é? Quem é? Mas não teve nome
a folha ou a água escura que palpita
a meia selva, surda, no caminho,
e assim, amor meu, soube que fui ferido
e ninguém falava ali senão a sombra,
a noite errante, o beijo da chuva.
1 205
Pablo Neruda
I - Os Regressos
No sul da Itália, na ilha,
recém-chegado
da Hungria deslumbrante, da abrupta
Mongólia,
o sol sobre o inverno,
o sol sobre o mar do inverno.
Outra vez,
outra vez comecemos,
amor, de novo façamos
um círculo na estrela.
Seja a luz,
seja a transparência.
Façamos
um círculo no pão.
Seja entre todos os homens
a partilha de todos os bens.
Faça-se a justiça,
faremos.
Vida,
me deste
tudo.
Afastaste de mim a solidão,
a solitária lâmpada
e o muro.
Deste-me
amor a mãos-cheias,
batalhas,
alegrias,
tudo.
E a ela me entregaste
apesar de mim.
Fechei os olhos.
Eu não queria vê-la.
Vieste
apesar disso, completa,
completa com todos os dons
e com a ferida que eu mesmo pus
dentro de ti com uma flor sangrenta
que me fez cambalear sem derrubar-me.
recém-chegado
da Hungria deslumbrante, da abrupta
Mongólia,
o sol sobre o inverno,
o sol sobre o mar do inverno.
Outra vez,
outra vez comecemos,
amor, de novo façamos
um círculo na estrela.
Seja a luz,
seja a transparência.
Façamos
um círculo no pão.
Seja entre todos os homens
a partilha de todos os bens.
Faça-se a justiça,
faremos.
Vida,
me deste
tudo.
Afastaste de mim a solidão,
a solitária lâmpada
e o muro.
Deste-me
amor a mãos-cheias,
batalhas,
alegrias,
tudo.
E a ela me entregaste
apesar de mim.
Fechei os olhos.
Eu não queria vê-la.
Vieste
apesar disso, completa,
completa com todos os dons
e com a ferida que eu mesmo pus
dentro de ti com uma flor sangrenta
que me fez cambalear sem derrubar-me.
1 156
Pablo Neruda
Vi - Regressou a Sirena
Amor, como se um dia
morresses,
e eu cavasse
e eu cavasse
noite e dia
em teu sepulcro
e te recompusesse,
levantasse teus seios desde o pó,
a boca que adorei, de suas cinzas,
construísse de novo
teus braços e tuas pernas e teus olhos,
tua cabeleira de metal torcido,
e te desse a vida
com o amor que te ama,
te fizesse andar de novo,
palpitar outra vez em tua cintura,
assim, amor, levantaram de novo
a cidade de Varsóvia.
Eu chegaria cego em tuas cinzas
mas te buscaria,
e pouco a pouco irias elevando
os edifícios doces de teu corpo,
e assim encontraram eles
na cidade amada
só vento e cinza,
fragmentos arrasados,
carvões que choravam na chuva,
sorrisos de mulher sob a neve.
Morta estava a formosa,
não existiam janelas,
a noite se encostava sobre a branca morta,
o dia iluminava a campina vazia.
E assim a levantaram,
com amor, e chegaram
cegos e soluçantes,
mas cavaram fundo,
limparam a cinza.
Era tarde, a noite,
o cansaço, a neve
detinham a pá,
e eles cavando acharam
primeiro a cabeça,
os alvos seios da doce morta,
seu traje de sirena,
e por fim o coração sob a terra,
enterrado e queimado mas vivo,
e hoje pulsa vivo, palpitando no meio
da reconstrução de sua beleza.
Agora compreendes como
o amor construiu as avenidas,
fez cantar a lua nos jardins.
Hoje quando
pétala a pétala tomba a neve
sobre os telhados e as pontes
e o inverno bate
as portas de Varsóvia,
o fogo, o canto
vivem de novo nos lares
que edificou o amor sobre a morte.
Ai daqueles que fugiram e creram
escapar com a poesia:
não sabem que o amor está em Varsóvia,
e que quando a morte
ali foi derrotada,
e quando o rio passa,
reconhecendo seres e destinos,
como duas flores de perfume e prata,
cidade e poesia,
em suas cúpulas claras
guardam a luz, o fogo e o pão de seu destino.
Varsóvia milagrosa,
coração enterrado
de novo vivo e livre,
cidade em que se prova
como o homem é maior
que toda a desventura,
Varsóvia, deixa-me
tocar teus muros.
Não estão feitos de pedra ou de madeira,
de esperança estão feitos,
e o que tocar queira a esperança,
matéria firme e dura,
terra tenaz que canta,
metal que reconstrói,
areia indestrutível,
cereal infinito,
mel para todos os séculos,
martelo eterno,
estrela vencedora,
ferramenta invencível,
cimento da vida,
a esperança,
que aqui a toquem,
que aqui sintam nela como sobe
a vida e o sangue de novo,
porque o amor, Varsóvia,
levantou tua estátua de sirena
e se toco teus muros,
tua pele sagrada,
compreendo
que és a vida e que nos teus muros
morreu, por fim, a morte.
morresses,
e eu cavasse
e eu cavasse
noite e dia
em teu sepulcro
e te recompusesse,
levantasse teus seios desde o pó,
a boca que adorei, de suas cinzas,
construísse de novo
teus braços e tuas pernas e teus olhos,
tua cabeleira de metal torcido,
e te desse a vida
com o amor que te ama,
te fizesse andar de novo,
palpitar outra vez em tua cintura,
assim, amor, levantaram de novo
a cidade de Varsóvia.
Eu chegaria cego em tuas cinzas
mas te buscaria,
e pouco a pouco irias elevando
os edifícios doces de teu corpo,
e assim encontraram eles
na cidade amada
só vento e cinza,
fragmentos arrasados,
carvões que choravam na chuva,
sorrisos de mulher sob a neve.
Morta estava a formosa,
não existiam janelas,
a noite se encostava sobre a branca morta,
o dia iluminava a campina vazia.
E assim a levantaram,
com amor, e chegaram
cegos e soluçantes,
mas cavaram fundo,
limparam a cinza.
Era tarde, a noite,
o cansaço, a neve
detinham a pá,
e eles cavando acharam
primeiro a cabeça,
os alvos seios da doce morta,
seu traje de sirena,
e por fim o coração sob a terra,
enterrado e queimado mas vivo,
e hoje pulsa vivo, palpitando no meio
da reconstrução de sua beleza.
Agora compreendes como
o amor construiu as avenidas,
fez cantar a lua nos jardins.
Hoje quando
pétala a pétala tomba a neve
sobre os telhados e as pontes
e o inverno bate
as portas de Varsóvia,
o fogo, o canto
vivem de novo nos lares
que edificou o amor sobre a morte.
Ai daqueles que fugiram e creram
escapar com a poesia:
não sabem que o amor está em Varsóvia,
e que quando a morte
ali foi derrotada,
e quando o rio passa,
reconhecendo seres e destinos,
como duas flores de perfume e prata,
cidade e poesia,
em suas cúpulas claras
guardam a luz, o fogo e o pão de seu destino.
Varsóvia milagrosa,
coração enterrado
de novo vivo e livre,
cidade em que se prova
como o homem é maior
que toda a desventura,
Varsóvia, deixa-me
tocar teus muros.
Não estão feitos de pedra ou de madeira,
de esperança estão feitos,
e o que tocar queira a esperança,
matéria firme e dura,
terra tenaz que canta,
metal que reconstrói,
areia indestrutível,
cereal infinito,
mel para todos os séculos,
martelo eterno,
estrela vencedora,
ferramenta invencível,
cimento da vida,
a esperança,
que aqui a toquem,
que aqui sintam nela como sobe
a vida e o sangue de novo,
porque o amor, Varsóvia,
levantou tua estátua de sirena
e se toco teus muros,
tua pele sagrada,
compreendo
que és a vida e que nos teus muros
morreu, por fim, a morte.
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