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Poemas neste tema

Amor Romântico

Adélia Prado

Adélia Prado

Terra de Santa Cruz

Nas minhas bodas de ouro, esganada como os netos,
vou comer os doces.
Não terei a serenidade dos retratos
de mulheres que pouco falaram ou comeram.
Porque o frade se matou
no pequeno bosque fora do seu convento.
De outras vezes já disse: não haverá consolo. E houve:
música, poema, passeatas.
O amor tem ritmos que não são de tristeza:
forma de ondas, ímpeto, água corrente.
E agora? Que digo ao homem, ao trem, ao menino que
[me espera,
à jabuticabeira em flores, temporã?
Contemplar o impossível enlouquece.
Sou uma tênia no epigastro de Deus:
E agora? E agora? E agora?
Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro,
a fraternidade onde estava quando saíste,
ó desgraçado moço da minha pátria,
ao encontro desta árvore?
Meu inimigo sou eu. Os torturadores todos enlouquecem
[ao fim,
comem excrementos, odeiam seus próprios gestos
[obscenos,
os regimes iníquos apodrecem.
Quando andavas em círculos, a alma dividida,
o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?
Promovia tômbolas, é certo, benzia edifícios novos,
mas também te gerava, quem ousará negar, a ti
e a outros santos que deixam as bíblias marcadas:
“Na verdade carregamos em nós mesmos nossa sentença
[de morte.”
“Amai vossos inimigos.”
O que disse: “Quem crer viverá para sempre”, este também
balouçou do madeiro como fruto de escárnio.
Nada, nada que é humano é grandioso.
Me interrompe da porta a mocinha boçal. Quer mudas de
[trepadeira.
Meus cabelos levantam-se. Como um torturador eu piso
[e arranco
a muda, os olhos, as entranhas da intrusa
e não sendo melhor que Jó choro meus desatinos.
Sempre há quem pergunte a Judas qual a melhor árvore:
os loucos lúcidos, os santos loucos,
aqueles a quem mais foi dado, os quase sublimes.
Minha maior grandeza é perguntar: haverá consolo?
Num dedal cabem minha fé, minha vida e meu medo maior
[que é viajar de ônibus.
A tentação me tenta e eu fico quase alegre.
É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n’Ele
e não em nós.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu
[gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me
[guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai
[desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Festivais

I — DA CANÇÃO

Vinte canções, depois mais vinte
pedem licença à lei do ruído,
fazem soar, entre estampidos,
sua lição.
O Rio volta para a música
os seus ouvidos triturados.
O som é pobre? A letra, manca?
Não sejamos tão exigentes,
vamos ser francos:
o que se escuta, normalmente
pelas ruas sem pauta e solfa,
é o canto bárbaro de estouros
regougos pipocos roucos
melhor vertidos em quadrinhos:
Auch! Grunt! Grr! Tabuuum!
Plaft! Pow! Waham!
Eis que flui do Maracanãzinho
a melidoçura de uma valsa
de noite brasileira antiga
com beija-flores acordados
por Luciana de olhos marinhos.
E tem uma garota, Evinha,
no país dos diminutivos,
que parece nossa irmãzinha,
de tantos irmãos que irmana,
oi cantiguinha irmanadeira.
Ficam alguns a resmungar,
a debater, a perquirir
como que deve ser o jeito
da canção, mas todos os jeitos,
todas as vozes, acalantos,
alegrias, mensagens, prantos,
soledades, exaltações,
ternurina bobeira lírica,
nostalgias, ânsias futuras,
cotovelo-em-dor, abraço-em-transe
cabem no canto, são o canto.
Se não há festa no momento,
há festival
e entre faixas, flâmulas flamengas
e outras que tais
o povo escolhe, soberaníssimo,
seus ritmos ao tempo e ao vento.
Um sabor de voto percorre
a miniarena do Maraca
e a eleição, em dupla fase,
está mostrando a face clara:
o amor faz seu gol de letra
pelas letras do mundo inteiro:
Love is all, Love is all around
Mon enfant, mon amour
me has enseñado a conocer,
em beijo sideral,
lo que es el amor.
Je t’aime et la Terre est bleue.
(Não será tão bleue quanto queres,
mas há sempre um resto de arco-íris
na íris móbil das mulheres.)
Que importa se a melhor canção
não foi escrita nem sonhada?
Se não palpita em folha branca
e muda garganta?
Eu canto meu possível, neste
possível mundo
e uma alegria sem rataplã,
leve, redonda, sobra num mágico
voo andorinho,
das noites-dias do Maracanãzinho.
04/10/1969
II — DO CINEMA

GENEVIÈVE WAITE
Pálida Joaninha
pálida e loura, muito loura e —
nem tão fria quanto no soneto
esvoaça entre leitos.
A borboleta presa no pulso
quer voar mas falta céu em Londres enevoada.

NEDA ARNERIC
O broto de 15
estrelando filmes
proibidos para
os brotos de 15.

BRASILEIRA
Florinda Bulcão, florido
balcão: com esse nome lindo
no frontispício do poema,
para que fazer cinema?

O NOME
Trintignant
trinta trinchantes
trinca nos troncos
tranca no trinco
tranco sonoro
— Adoro! —
diz num trinado
trêfega trintona.

LIQUIDAÇÃO
E Robbe-Grillet, de um lance,
mostra, encantado, seu lema:
— Já liquidei com o romance,
vou liquidar com o cinema.

TRÁFEGO
O diretor de Uma aventura no espaço
a poucos metros da Lua
veio ver pessoalmente
nossa terrível aventura no limitado
espaço de uma rua
de sinal enguiçado.

VELHA GUARDA
Joseph von Sternberg
Fritz Lang
Cavalcanti
3 ∑ 70:
210 anos de cinema
o poder é sempre jovem
quando é alguma coisa mais do que o poder.

MERCADO DE FILMES
Compra-se um
que tenha menos de 10 espiões
assassinos/assassinatos;
que, tendo cama,
tenha também outros móveis agradáveis
à vida comum do corpo,
como a espreguiçadeira, a mesa, a cadeira;
que tenha princípio,
meio e fim;
que não tenha charada nem blá-blá-blá,
enfim
um filme que não existe mais.
Paga-se tudo.

GENEALOGIA
Na piscina do Copa
tela líquida panorâmica
do festival de corpos
o repórter erudito
pergunta a Mireille Darc:
— Mademoiselle,
est-ce que vous êtes
la toute petite-fille de Jeanne d’Arc?

DESAFIO
Matemática de cine
a estudar em Ipanema
pelo jovem não quadrado
(Pasolini é quem previne):
Superbacana é o teorema
que não será demonstrado.
25/03/1969
865
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Velho Amor

Mestre Rodrigo, o da DPHAN,
que me perdoe se neste canto
hoje canto a gentil balzaca
de seus encantos e quebrantos,
aquela que, noite após noite,
e dia após dia, inclusive
os domingos — outrora livres,
os feriados — antes gozados,
ele levava consigo como
a laranja leva no gomo
sua doce razão de ser,
ou, senão, como o peixe leva
em seu volteio pelas águas
a arte e ciência de nadar
(no seu caso, é arte de amar).
Oh, como vai nosso Rodrigo
M. F. de Andrade, atento
ao que possa fazer o vento,
intempérie, maldade, acaso,
a seu amor, e como luta,
bravo e sutil, em campo raso,
contra a solércia do inimigo!
Aqui vence um capoeira, adiante
um cartola, e outros, centenas
de investidas contra as serenas
feições e formas do seu love!
Merendava, de repente ouve
guai lancinante: “Aqui-del-rei!”
Corre presto a São Luís, Bahia,
São José ou São João del-Rei,
Parati — ao Brasil inteiro —,
pois essa bela — quem diria —
por toda parte anda e nem sempre
há a devida cortesia
nem o extasiado respeito
à dama que mora em seu peito.
De outro amante assim tão gamado
juro não sei, que este encanece
sem azedume em face à sorte
que tanto exige de ternura
e de defesa contra a morte
— morte, ruína, eterna ameaça
a pairar sobre sua amada.
Em velho paço, úmido beco,
numa igreja desmoronada
ou no pico de serra agreste,
ei-la que recebe a flechada,
o mortal insulto, mas chega
Rodrigo para defendê-la,
salvá-la, de carinho ungi-la.
E como sabe restituir-lhe
o viço perdido, a espontânea
graça do berço, sem disfarce!
“Batom não uses, minha filha,
que teus lábios ao natural
têm o desenho de uma ilha
feita do mais vivo coral.
Tira este excesso de pintura,
fruto de visível engano,
pois a original formosura
mais resplende a cada novo ano.
Nada de truques bossa-nova,
iê-iê-iê e pop-art, querida.
Nunca mais dormirei tranquilo
nem terá gosto minha vida
se adotares um novo estilo.”
Assim diz Rodrigo, e convoca
os mais argutos, credenciados
companheiros para o serviço
do seu bem, e todos acodem
a essa amável intimação:
Por Dom Rodrigo e sua dama!
Por aquela que ele mais ama
e a quem, entre naves e in-fólios,
deu a própria luz de seus olhos.
Alguém pergunta-me: “É paixão
que inflama e passa?” e eu lhe respondo:
Dura há trint’anos bem contados,
hoje completos, tão repletos,
que, pensando bem, são três séculos.
Já que pequei por indiscreto,
darei todo o serviço: o nome
da namorada rodriguiana,
essa imarcescível Roxana,
é a Arte Antiga do Brasil,
que com seu diadema de História
no dia 23 de abril
há trint’anos nele encontrou
o mais fiel e humilde escudeiro,
o que não aspira a maior glória
senão ir à Glória do Outeiro.
São trint’anos de luta vã?
Não e nunca, pois amanhã
todo o país, agradecido,
saberá louvar, por inteiro,
este casal Rodrigo-PHAN.
24/04/1966
827
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Que o Bairro Peixoto

O que o Bairro Peixoto
sabe de nós, e esqueceu!

Rua Anita Garibaldi
e Rua Siqueira Campos.
(Francisco Braga,
Décio Vilares,
nos espiando,
fingem que não?)

O calçadão na penumbra
andança que vai e volta
voltivai
a derivar para o túnel
em busca do hímen?
Volta:
banco de praça. Bambus.
Bambuzal de brisa em ais.

O bardo e a garota amavam-se
nas guerras da Dependência.
Seria brinco de amor
ou era somente brinco.

5 de Julho (fronteira
do reino escuro)
à face
de casas desprevenidas
jogávamos nos jardins
e nas caixas de correio
volumes indesculpáveis

de alheias dedicatórias
pedacinhos.

Se salta o cachorro? Credo.
Saltam quinhentos mastins.
Ganem a traça
de amor sem regulamento.
Prende mata esfola queima.
Viu? É dentro de mim, é dentro
do bardo que estão ganindo.

Bobeira de bobo besta.
Passa de nove mil horas,
urge voltar ao sacrário
de virgem.
Só mais um tiquinho. Não.
Sou eu, rei sábio, que ordeno.
Ri. Rimos de mim. Ficamos.

Dedos entrelaçados
e desejos geminados
no parque tão pueril.
Praça Edmundo, olá,
Bittencourt de berros brabos.
Se acaso nos visse aos beijos
babados, reincidentes,
protestava no jornal?

Menina mais sem juízo
rindo riso sem motivo
no jogo de diminutivos,
sabe o que estamos fazendo?
Amor.
Não é nada disso. Apenas
primícias cálidas. Calo-me.


Viajar nos seios. Embaixo.
Por trás.
Se vou mais longe, quem vai
me segurar?
Se fico por aqui mesmo,
quem vem
me resserenar?

Passo vinte anos depois
no mesmo Bairro Peixoto.
Ele que a tudo assistia,
nada lembra, no sol posto,
deste episódio canhoto.
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