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Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Volta Espanha

 
 
Espanha, Espanha coração violeta,
me faltaste ao peito, tu me faltas
não como falta o sol na cintura
mas como o sal na garganta,
como o pão nos dentes, como o ódio
na colmeia negra, como o dia
em cima dos sobressaltos da aurora,
mas não é isso ainda, como o tecido
do elemento visceral, profunda
pálpebra que não fita e que não cede,
terreno mineral, rosa de osso
aberta em minha razão como um castelo.
 
A quem posso chamar senão à tua boca?
 
Tenho outros lábios que me representem?
 
Estás abandonada ou estou mudo?
 
Que significa tua calada esfera?
 
Aonde vou sem tua voz, areia mãe?
 
Que sou sem teu fanal crucificado?
 
Onde estou sem a água de tua rocha?
 
Que és tu se não me deste sangue?
Oh tormento! Recobra-me, recebe-me
antes que meu nome e minhas espigas
desapareçam na primavera.
Porque a tuas solidões iradas
vai meu destino acorrentado, ao peso
de tua vitória. A ti vou conduzido.
 
Espanha, és mais grave que uma data,
que uma adivinhação, que uma tormenta,
e não importa a torre desapiedada
de tua perdida voz, mas a dura
resistência, a pedra que sustenta.
 
Mas por que, se sou areia tua,
água em tuas águas, sangue em tuas feridas,
hoje me recusas a boca que me chama,
tua voz, a construção dê minha existência?
 
Peço ao que em teu ser é minha substância,
a teu dilaceramento de facas,
que se abram hoje, sobre a desventura,
as iluminações de teu rosto,
e te levantes, perfurando o céu,
rompendo as trevas e os sinais,
até surgir, farinha e alvorada,
lua acesa sobre os ossários.
 
Matarás. Mata, Espanha, santa virgem,
levanta-te empunhando a ternura
como uma cega rosa desatada
sobre as pedrarias infernais.
 
Vem a mim, devolve-me a torre
que me roubaram,
devolve-me a língua
e o povo que me esperam, espanta-me
com a unidade final de tua formosura.
Levanta-te em teu sangue e em teu fogo
o sangue que deste, o primeiro,
e o fogo, ninho de tua luz sagrada.
 
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

E Não Obstante...

Eu fiz uso
de Rabelais para a vida minha
como dos tomates.
Para mim
foi essencial sua carnívora trombeta,
sua principal algazarra.
E não obstante...
Aquela noite sozinha,
passei na costa dos pobres ricos,
na França lunática do Sul.
 
Eu vinha terrestre,
com o pó do Sul, a neve vermelha,
o ocaso de todos os caminhos.
Vinha feliz.
 
Eu despertava
com o colo dourado
da alegria
sob meu braço esquerdo,
com o talo amorado de uma rosa
sob meus novos beijos,
e então
a polícia,
muito correta,
me ofereceu cigarros
e me expulsou da França.
 
Era depois da primeira noite
de França. Entre sua terra
e meu corpo adormecido
o tempo havia passado
e aquela noite, sem sonhos,
em mim subiu a terra
com estrofes e vinhas.
Tremeu o coração enquanto dormia:
a terra o enchia
de elétrica beleza,
o tingia de verde,
água de França e vinho,
pâmpanos e raízes.
 
Antigos mortos amados,
açafrão e jasmins,
envolviam-me adormecido,
e eu pelas fragrâncias da terra
naveguei, trespassado,
até que o dia impôs sua espada branca
com gotas de orvalho
e então
veio
quem, senão ela,
a França de hoje,
a polícia,
e embora o navio me esperasse ancorado
para voltar ao Chile,
ali, entre cigarros, me expulsaram
de quase tudo o que amo,
e de nada serviu que eu servisse
a memória
de Charles d’Orléans, limpando diariamente
sua guitarra de luto,
de nada me serviu que Rimbaud viva
clandestino
em minha casa,
desde há muitos anos.
Ai de nada,
ai de nada.
Nem os olhos de Éluard como duas lâmpadas
de fogo azul sobre meus ombros.
Nada serviu.
A polícia
falava de instruções superiores,
e que fique bem claro:
não devo retornar nunca.
Não posso
pôr um só sapato
nesse proibido território.
Devo entender as coisas:
nem de trânsito,
nem voar por cima,
nem cruzar por baixo,
nem sussurrar junto ao mar, às ondas
da Normandia que amo.
Não posso
disfarçar-me de árvore e receber a chuva,
dormir junto aos berros.
Não devo junto a um rio
cantar ou chorar de alegria.
Não posso
comer queijo silvestre
com as alfaces
que ali são como lábios. Não posso
em Saint Louis de la Isla
beber meu vinho branco,
nenhuma,
nenhuma
tarde mais
de minha vida.
 
Foram completamente claros
e inteiramente obscuros.
Expulsam-me. Está claro.
Por que me expulsam? Obscuro.
Assim, a polícia
tomou em suas mãos
a condecoração que em outro tempo
o conde de Dampierre me deixou na lapela,
olharam-na
como se fosse um alho sujo
ou um toco de cigarro com gosto de sabão.
Eles tinham
instruções
eminentemente superiores,
e assim foi, cavalheiros e senhoras,
como parti da França.
É natural,
não necessito
explicar-me.
 
Todos sabemos
que a Embaixada
do Far West,
com seus vaqueiros,
cospem nas lâmpadas de cristal em Versailles.
Que com tabaco na boca
Jim Cola Cola
urina as estátuas
de Fontainebleau, as cegas
estátuas de rainhas adormecidas.
Todos sabemos isso, porém,
não quero falar a respeito,
não é meu tema.
 
Se eu tivesse
vinte anos
e se me houvessem
arrancado
a França da cintura,
este seria um longo
lamento, um comprido pranto.
Eu teria escrito
a morte e as exéquias
da mais olorosa primavera.
 
Mas, agora,
com tantas cicatrizes
que ainda não conseguiram
matar meu coração,
com a alegria
sem despertar ainda entre meus braços,
com toda a vida adiante,
com a esperança,
com tudo o que vem
quando nós não seremos mais,
com a França que amanhã
despertará também,
porque nunca dormiu,
com todos os jasmins e as vinhas,
as ruas, os caminhos,
e as canções que amo,
e que ninguém muito menos
a polícia
poderão arrancar-me da alma,
posso dizer, senhores
e senhoras,
que amo à doce França,
de onde me expulsaram.
E que continuo
vivendo
como se ali vivesse,
com sua terra e seus heróis,
com seu vinho e seu povo,
e que não despertei oficialmente
daquela única noite
em que todo o aroma
de sua profundeza e sua doçura
subiu em meu sonho para despedir-me.
 
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - Quando do Chile

Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.

O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.

Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.

Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?

Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.

Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?

Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?

Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.

Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.

Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
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