Poemas neste tema
Silêncio
Maximiano de Sousa
Nem às paredes confesso
Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Eu sou sincera
Porque não quero
Dar-te um desgosto
Estribilho:
De quem eu gosto
nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.
Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
que eu tanto espero.
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo.
Estribilho:
De quem eu gosto, etc. etc.
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Eu sou sincera
Porque não quero
Dar-te um desgosto
Estribilho:
De quem eu gosto
nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.
Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
que eu tanto espero.
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo.
Estribilho:
De quem eu gosto, etc. etc.
1 109
Carlos Saraiva Pinto
valerá a pena escrever a neve
valerá a pena escrever a neve
em carreiros de água,
como se a noite fosse o líquido
que obedece às películas da distância.
a impressão ágil da sombra
que produz o efeito das tílias
e o sossego longínquo
do nada iluminado.
sobre a boca encontrarás
o sinal do silêncio
a sua mãe terrestre
que esquece as ervas,
os socalcos leves
que chegam ao rio
mortos em verbo.
valerá a pena
a asa envolvente do jasmim
o anjo insubmisso do trigo,
ou o espelho sonoro
que guarda a metafísica dos caminhos.
como o céu e o carvalho milenar,
o leito é isento de mágoa,
e a porta dos peregrinos
busca a religião da luz.
ouve e repara a teimosia
do vinhático
em perfumar o ar.
é inútil o tacto da boca.
descerás
pelos campos subterrâneos da névoa
e crescerá em ti
o profano esquecimento de tudo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
em carreiros de água,
como se a noite fosse o líquido
que obedece às películas da distância.
a impressão ágil da sombra
que produz o efeito das tílias
e o sossego longínquo
do nada iluminado.
sobre a boca encontrarás
o sinal do silêncio
a sua mãe terrestre
que esquece as ervas,
os socalcos leves
que chegam ao rio
mortos em verbo.
valerá a pena
a asa envolvente do jasmim
o anjo insubmisso do trigo,
ou o espelho sonoro
que guarda a metafísica dos caminhos.
como o céu e o carvalho milenar,
o leito é isento de mágoa,
e a porta dos peregrinos
busca a religião da luz.
ouve e repara a teimosia
do vinhático
em perfumar o ar.
é inútil o tacto da boca.
descerás
pelos campos subterrâneos da névoa
e crescerá em ti
o profano esquecimento de tudo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
1 056
Carlos Nogueira Fino
indicação do lugar
chegamos a uma página em branco atravessada por
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina
é o exacto lugar
indiciador dos músculos
quem ousa escancarar as portas à cidade
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina
é o exacto lugar
indiciador dos músculos
quem ousa escancarar as portas à cidade
987
Carlos de Oliveira
Entre duas memórias;
já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
de Entre Duas Memórias
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
de Entre Duas Memórias
2 225
Albano Dias Martins
Poema para
habitar
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem
os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até
que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem
os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até
que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
1 835
Fernando Pessoa
6 - DREAM
DREAM
It was somewhere secluded
In silence and moon.
All like a lagoon.
No cares there intruded
Save the vague winds swoon.
Landscape intermediate
Between dreams and land.
The wind slept, calm-fanned.
The waters were weedy at
Where we plunged our hand.
We let the hand wander
In the water unseen.
Our eyes were with th' sheen
Of the moonlit meander
Of the forest scene.
There we lost the spirit
Of our still being we.
We were fairy-free,
Having to inherit
Nothing from to be.
The fairies there and the elves
Damasked their moonlit train.
There we shall awhile gain
All the elusive selves
We never can obtain.
I feel pale and I shiver.
What power of the moonlight
Tremulous under the river
Thus pains me with delight?
What spell told by the moon
Unlooses all my soul?
O speak to me! I swoon!
I fade from life's control!
I am a far spirit, e'en
In the felt place of me.
O river too serene
For my tranquillity!
O ache somehow of living!
O sorrow for something!
O moon-pain the sense-giving
That I am vainly king
In some spell-bound realm mute,
In a lunar land lone!
O ache as of a dying flute
When we would have't play on!
It was somewhere secluded
In silence and moon.
All like a lagoon.
No cares there intruded
Save the vague winds swoon.
Landscape intermediate
Between dreams and land.
The wind slept, calm-fanned.
The waters were weedy at
Where we plunged our hand.
We let the hand wander
In the water unseen.
Our eyes were with th' sheen
Of the moonlit meander
Of the forest scene.
There we lost the spirit
Of our still being we.
We were fairy-free,
Having to inherit
Nothing from to be.
The fairies there and the elves
Damasked their moonlit train.
There we shall awhile gain
All the elusive selves
We never can obtain.
I feel pale and I shiver.
What power of the moonlight
Tremulous under the river
Thus pains me with delight?
What spell told by the moon
Unlooses all my soul?
O speak to me! I swoon!
I fade from life's control!
I am a far spirit, e'en
In the felt place of me.
O river too serene
For my tranquillity!
O ache somehow of living!
O sorrow for something!
O moon-pain the sense-giving
That I am vainly king
In some spell-bound realm mute,
In a lunar land lone!
O ache as of a dying flute
When we would have't play on!
4 490
Fernando Pessoa
The master said you must not heed
The Master said you must not heed
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
4 262
Fernando Pessoa
31 - HORIZON
HORIZON
I
Unheard-of fathoms in the deep sea,
In cool caves deep
(The spoils of battle are not for thee)
For ever sleep.
No upward vision or shining mount
Rewards thy pain.
The secret angel keepeth no count
Of thy lost gain.
On the sphynx's mouth the tale is dead,
The path grass grown.
Our sorrow shall follow where thout hast led,
Through the Unknown.
Waitest thou hidden, or quiet rest
What silence forbids?
Give us at least thy unobtained quest
And the flowered meads.
I
Unheard-of fathoms in the deep sea,
In cool caves deep
(The spoils of battle are not for thee)
For ever sleep.
No upward vision or shining mount
Rewards thy pain.
The secret angel keepeth no count
Of thy lost gain.
On the sphynx's mouth the tale is dead,
The path grass grown.
Our sorrow shall follow where thout hast led,
Through the Unknown.
Waitest thou hidden, or quiet rest
What silence forbids?
Give us at least thy unobtained quest
And the flowered meads.
3 862
Fernando Pessoa
32 - HER FINGERS TOYED ABSENTLY WITH HER RINGS
A SENSATIONIST POEM
Her fingers toyed absently with her rings
There are fallen angels in the way you look
And great bridges over silent streams in your smile.
Your gestures are a lonely princess dreaming over a book
At a windows over a lake, on some distant isle.
If I were to stretch my hand and touch your that would be
Dawn behind the turrets of a city in some East.
The words hidden in my gesture would be moon light on the sea
Of your being something in my soul like gaiety in a feast
Let your silence tell me of the numberless dreams that are you,
Let the drooping of your eyelids veil landscapes that are you,
I ask no more than that you should come into my dreams and be true
To the wider seas within me and my inner eternal day.
Blossoms, blossoms, blossoms along the road of your going to speak.
Eighteenth century gardens, so sad in the middle of our dreaming them now,
Are the way you are conscious of yourself on your eyelids, by your lips, through your cheek.
O the road to Nowhere all for us and we there and a new God this to allow!
Do not scatter the silence that is the palace where our consciousness
Is now living at unity our duplicate lives of one soul.
What are we, in our dream of each other, but a picture which is
The masterpiece of a painter that never painted at all?
1916
Her fingers toyed absently with her rings
There are fallen angels in the way you look
And great bridges over silent streams in your smile.
Your gestures are a lonely princess dreaming over a book
At a windows over a lake, on some distant isle.
If I were to stretch my hand and touch your that would be
Dawn behind the turrets of a city in some East.
The words hidden in my gesture would be moon light on the sea
Of your being something in my soul like gaiety in a feast
Let your silence tell me of the numberless dreams that are you,
Let the drooping of your eyelids veil landscapes that are you,
I ask no more than that you should come into my dreams and be true
To the wider seas within me and my inner eternal day.
Blossoms, blossoms, blossoms along the road of your going to speak.
Eighteenth century gardens, so sad in the middle of our dreaming them now,
Are the way you are conscious of yourself on your eyelids, by your lips, through your cheek.
O the road to Nowhere all for us and we there and a new God this to allow!
Do not scatter the silence that is the palace where our consciousness
Is now living at unity our duplicate lives of one soul.
What are we, in our dream of each other, but a picture which is
The masterpiece of a painter that never painted at all?
1916
8 531
Fernando Pessoa
XVIII - Indefinite space, which, by co-substance night,
Indefinite space, which, by co-substance night,
In one black mystery two void mysteries blends;
The stray stars, whose innumerable light
Repeats one mystery till conjecture ends;
The stream of time, known by birth-bursting bubbles;
The gulf of silence, empty even of nought;
Thought's high-walled maze, which the outed owner troubles
Because the string's lost and the plan forgot:
When I think on this and that here I stand,
The thinker of these thoughts, emptily wise,
Holding up to my thinking my thing-hand
And looking at it with thought-alien eyes,
The prayer of my wonder looketh past
The universal darkness lone and vast.
In one black mystery two void mysteries blends;
The stray stars, whose innumerable light
Repeats one mystery till conjecture ends;
The stream of time, known by birth-bursting bubbles;
The gulf of silence, empty even of nought;
Thought's high-walled maze, which the outed owner troubles
Because the string's lost and the plan forgot:
When I think on this and that here I stand,
The thinker of these thoughts, emptily wise,
Holding up to my thinking my thing-hand
And looking at it with thought-alien eyes,
The prayer of my wonder looketh past
The universal darkness lone and vast.
4 263
Fernando Pessoa
Meu pensamento, dito, já não é
Meu pensamento, dito, já não é
Meu pensamento.
Flor morta, bóia no meu sonho, até
Que a leve o vento,
Que a desvie a corrente, a externa sorte.
Se falo, sinto
Que a palavras esculpo a minha morte,
Que com toda a alma minto.
Assim, quanto mais digo, mais me engano,
Mais faço eu
Um novo ser postiço, que engalano
De ser o meu.
Já só pensando escuto-me e resido.
Já falo assim.
Meu próprio diálogo interior divide
Meu ser de mim.
Mas é quando dou forma e voz do spaço
Ao que medito
Que abro entre mim e mim, quebrado um laço,
Um abismo infinito.
Ah, quem dera a perfeita concordância
De mim comigo,
O silêncio interior sem a distância
Entre mim e o que eu digo!
Meu pensamento.
Flor morta, bóia no meu sonho, até
Que a leve o vento,
Que a desvie a corrente, a externa sorte.
Se falo, sinto
Que a palavras esculpo a minha morte,
Que com toda a alma minto.
Assim, quanto mais digo, mais me engano,
Mais faço eu
Um novo ser postiço, que engalano
De ser o meu.
Já só pensando escuto-me e resido.
Já falo assim.
Meu próprio diálogo interior divide
Meu ser de mim.
Mas é quando dou forma e voz do spaço
Ao que medito
Que abro entre mim e mim, quebrado um laço,
Um abismo infinito.
Ah, quem dera a perfeita concordância
De mim comigo,
O silêncio interior sem a distância
Entre mim e o que eu digo!
4 925
Fernando Pessoa
Não digas nada! Que hás-me de dizer?
Não digas nada! Que hás-me de dizer?
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia o cadafalso
Ao que ali cada dia vai morrer.
Mais vale não querer.
Sim, não querer, porque querer é um ponto,
Ponto no horizonte de onde estamos,
E que nunca atinges nem achas,
Presos locais da vida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.
Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo uma ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.
Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que os fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.
08/07/1934
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia o cadafalso
Ao que ali cada dia vai morrer.
Mais vale não querer.
Sim, não querer, porque querer é um ponto,
Ponto no horizonte de onde estamos,
E que nunca atinges nem achas,
Presos locais da vida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.
Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo uma ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.
Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que os fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.
08/07/1934
4 174
Fernando Pessoa
Vai lá longe, na floresta,
Vai lá longe, na floresta,
Um som de sons a passar,
Como de gnomos em festa
Que não consegue durar...
É um som vago e distinto.
Parece que entre o arvoredo
Quando seu rumor é extinto
Nasce outro som em segredo.
Ilusão ou circunstância?
Nada? Quanto atesta, e o que há
Num som, é só distância
Ou o que nunca haverá.
01/02/1934
Um som de sons a passar,
Como de gnomos em festa
Que não consegue durar...
É um som vago e distinto.
Parece que entre o arvoredo
Quando seu rumor é extinto
Nasce outro som em segredo.
Ilusão ou circunstância?
Nada? Quanto atesta, e o que há
Num som, é só distância
Ou o que nunca haverá.
01/02/1934
4 525
Fernando Pessoa
Quando já nada nos resta
Quando já nada nos resta
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.
Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.
Ter tido sperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.
09/08/1932
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.
Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.
Ter tido sperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.
09/08/1932
4 460
Fernando Pessoa
No fundo do pensamento
No fundo do pensamento
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar.
Se eu o pudesse tornar
Em palavras de dizer
Todos haviam de achar
O que ele está a esconder.
Todos haviam de ter
No fundo do pensamento
A novidade de haver
Um cantar velado e lento.
E cada um, desatento
Da vida que tem que achar
Teria o contentamento
De ouvir esse meu cantar.
17/03/1931
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar.
Se eu o pudesse tornar
Em palavras de dizer
Todos haviam de achar
O que ele está a esconder.
Todos haviam de ter
No fundo do pensamento
A novidade de haver
Um cantar velado e lento.
E cada um, desatento
Da vida que tem que achar
Teria o contentamento
De ouvir esse meu cantar.
17/03/1931
4 236
Fernando Pessoa
Há quanto tempo não canto
Há quanto tempo não canto
Na muda voz de sentir.
E tenho sofrido tanto
Que chorar fora sorrir.
Há quanto tempo não sinto
De maneira a o descrever,
Nem em ritmos vivos minto
O que não quero dizer...
Há quanto tempo me fecho
À chave dentro de mim.
E é porque já não me queixo
Que as queixas não têm fim.
Há tanto tempo assim duro
Sem vontade de falar!
Já estou amigo do escuro
Não quero o sol nem o ar.
Foi-me tão pesada e crescida
A tristeza que ficou
Que ficou toda na vida.
Para cantar não sonhou.
14/06/1930
Na muda voz de sentir.
E tenho sofrido tanto
Que chorar fora sorrir.
Há quanto tempo não sinto
De maneira a o descrever,
Nem em ritmos vivos minto
O que não quero dizer...
Há quanto tempo me fecho
À chave dentro de mim.
E é porque já não me queixo
Que as queixas não têm fim.
Há tanto tempo assim duro
Sem vontade de falar!
Já estou amigo do escuro
Não quero o sol nem o ar.
Foi-me tão pesada e crescida
A tristeza que ficou
Que ficou toda na vida.
Para cantar não sonhou.
14/06/1930
4 431
Fernando Pessoa
Deixa-me ouvir o que não ouço...
Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...
Deixa-me ouvir... Não fales alto!
Um momento!... Depois o amor,
Se quiseres... Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala...
O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez... Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Que pena sermos dois!
Meu amor, somos dois.
Vejo-te, somos dois...
12/08/1930
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...
Deixa-me ouvir... Não fales alto!
Um momento!... Depois o amor,
Se quiseres... Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala...
O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez... Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Que pena sermos dois!
Meu amor, somos dois.
Vejo-te, somos dois...
12/08/1930
4 701
Fernando Pessoa
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
4 392
Fernando Pessoa
Dentro em meu coração faz dor.
Dentro em meu coração faz dor.
Não sei donde essa dor me vem.
Auréola de ópio de torpor
Em torno ao meu falso desdém,
E laivos híbridos de horror
Como estrelas que o céu não tem.
Dentro em mim cai silêncio em flocos.
Parou o cavaleiro à porta...
E o frio, e o gelo em brancos blocos
Mancha de hirto a noite morta...
Meus tédios desiguais, sufoco-os,
A minha alma jaz ela e absorta
Dentro em meu pensamento é mágoa...
Corre por mim um arrepio
Que é como o afluxo à tona de água
De se saber que há sob o rio
O que... Brilha na noite a frágua
Onde o tédio bate o ócio a frio.
07/08/1914
Não sei donde essa dor me vem.
Auréola de ópio de torpor
Em torno ao meu falso desdém,
E laivos híbridos de horror
Como estrelas que o céu não tem.
Dentro em mim cai silêncio em flocos.
Parou o cavaleiro à porta...
E o frio, e o gelo em brancos blocos
Mancha de hirto a noite morta...
Meus tédios desiguais, sufoco-os,
A minha alma jaz ela e absorta
Dentro em meu pensamento é mágoa...
Corre por mim um arrepio
Que é como o afluxo à tona de água
De se saber que há sob o rio
O que... Brilha na noite a frágua
Onde o tédio bate o ócio a frio.
07/08/1914
4 070
Fernando Pessoa
À NOITE
À NOITE
O silêncio é teu gémeo no Infinito.
Quem te conhece, sabe não buscar.
Morte visível, vens dessedentar
O vago mundo, o mundo estreito e aflito.
Se os teus abismos constelados fito,
Não sei quem sou ou qual o fim a dar
A tanta dor, a tanta ânsia par
Do sonho, e a tanto incerto em que medito.
Que vislumbre escondido de melhores
Dias ou horas no teu campo cabe?
Véu nupcial do fim de fins e dores.
Nem sei a angústia que vens consolar-me.
Deixa que eu durma, deixa que eu acabe
E que a luz nunca venha despertar-me!
14/09/1919
O silêncio é teu gémeo no Infinito.
Quem te conhece, sabe não buscar.
Morte visível, vens dessedentar
O vago mundo, o mundo estreito e aflito.
Se os teus abismos constelados fito,
Não sei quem sou ou qual o fim a dar
A tanta dor, a tanta ânsia par
Do sonho, e a tanto incerto em que medito.
Que vislumbre escondido de melhores
Dias ou horas no teu campo cabe?
Véu nupcial do fim de fins e dores.
Nem sei a angústia que vens consolar-me.
Deixa que eu durma, deixa que eu acabe
E que a luz nunca venha despertar-me!
14/09/1919
7 042
Fernando Pessoa
L’HOMME
L'HOMME
Não: toda a palavra é a mais. Sossega!
Deixa, da tua voz, só o silêncio anterior!
Como um mar vago a uma praia deserta, chega
Ao meu coração a dor.
Que dor? Não sei. Quem sabe saber o que sente?
Nem um gesto. Sobreviva apenas ao que tem que morrer
O luar e a hora e o vago perfume indolente
E as palavras por dizer.
12/06/1918
Não: toda a palavra é a mais. Sossega!
Deixa, da tua voz, só o silêncio anterior!
Como um mar vago a uma praia deserta, chega
Ao meu coração a dor.
Que dor? Não sei. Quem sabe saber o que sente?
Nem um gesto. Sobreviva apenas ao que tem que morrer
O luar e a hora e o vago perfume indolente
E as palavras por dizer.
12/06/1918
4 503
Fernando Pessoa
ABAT-JOUR
ABAT-JOUR
A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.
E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.
Bem sei... Era dia
E longe de aqui...
Quando me sorria
O que nunca vi!
E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...
28/02/1929
A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.
E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.
Bem sei... Era dia
E longe de aqui...
Quando me sorria
O que nunca vi!
E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...
28/02/1929
4 519
Fernando Pessoa
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Aguardo, equânime, o que não conheço –
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
13/12/1933
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
13/12/1933
2 294
Fernando Pessoa
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
01/06/1916
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
01/06/1916
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