Poemas neste tema
Silêncio
João dos Sonhos
Ave breve dos seios
Ave breve dos seios em vôo
florindo nos galhos
que esta voz velou
Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o vôo
Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou
Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços
Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.
florindo nos galhos
que esta voz velou
Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o vôo
Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou
Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços
Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.
990
Levi Bucalem Ferrari
Afeto
Como demonstrar afeto no espaço contido?
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos
E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido
O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário
A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente
A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence
No espaço do contido
Obviamente
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos
E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido
O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário
A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente
A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence
No espaço do contido
Obviamente
836
Luiza Neto Jorge
As casas
I
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
3 747
Rainer Maria Rilke
Minha vida
não é esta hora abrupta
em que me vês tão açodado.
Sou uma àrvore em frente do meu fundo,
sou só uma das minhas muitas bocas
e,delas,a que mais cedo se fecha.
Sou o silêncio
que há entre duas notas
que só a custo se acostumam uma à outra:
porque a da morte quer elevar-se-
Mas no intervalo
escuro se congraçam
ambas trémulas.
E a melodia é bela.
em que me vês tão açodado.
Sou uma àrvore em frente do meu fundo,
sou só uma das minhas muitas bocas
e,delas,a que mais cedo se fecha.
Sou o silêncio
que há entre duas notas
que só a custo se acostumam uma à outra:
porque a da morte quer elevar-se-
Mas no intervalo
escuro se congraçam
ambas trémulas.
E a melodia é bela.
1 565
Luís Miguel Nava
Sem outro intuito
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
1 761
Jorge Melícias
O homem está dobrado sobre a mesa,
as palmas das mãos presas ao tampo,
a morte na nuca.
Em redor as mulheres delimitam a casa,
são os pulsos da casa,
e há um silêncio como um pedra rasgada.
Mas hão-de apagar-se as mulheres
primeiro que o fogo.
de A Luz nos Pulmões(2000)
a morte na nuca.
Em redor as mulheres delimitam a casa,
são os pulsos da casa,
e há um silêncio como um pedra rasgada.
Mas hão-de apagar-se as mulheres
primeiro que o fogo.
de A Luz nos Pulmões(2000)
860
Giacomo Leopardi
Infinito
Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
2 606
José Tolentino Mendonça
As casas
As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio
Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam,no entanto, perdidas
dentro da nossa casa
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio
Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam,no entanto, perdidas
dentro da nossa casa
2 790
E. E. Cummings
somewhere i have never travelled, gladly beyond
somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose
or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose
or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands
1 238
Daniel Faria
É por isso que adormeço numa luz em movimento
É por isso que adormeço numa luz em movimento
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo
Há nesse espaço uma fonte ,um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.
Há uma voz que bebo.Há um espaço entra as mãos mas não perco
A sede.A água multiplica-se porque o tiro do coração
Que escuta.
Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo
E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo
Há nesse espaço uma fonte ,um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.
Há uma voz que bebo.Há um espaço entra as mãos mas não perco
A sede.A água multiplica-se porque o tiro do coração
Que escuta.
Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo
E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
1 918
Daniel Faria
Portanto farei uma escada no coração
Portanto farei uma escada no coração
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavra
Em silêncio,portanto,pisando o coração.
de Dos Líquidos (2000)
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavra
Em silêncio,portanto,pisando o coração.
de Dos Líquidos (2000)
2 322
Gastão Cruz
Transe
Transe
Num tempo neutro acordo
entre a noite e o dia
sob um céu ilegítimo condensa-se
a mudança
nuvens totais exprimem
a presente longínqua
madrugada
as aves sobrevivem na queda
ao
tempo branco
Acordo sob um céu sob um tecto
dum quarto
É uma imagem pobre uma velha
metáfora No exterior porém
das paredes toalhas além
dos vidros turvos de nuvens
apagadas
agride-me a imagem invisível
opaca
da madrugada externa
que
no dia se espalha
como uma norma espessa
uma neutra linguagem
O céu é como um poço como um mar
como um lago
comparações banais mas as mais
eficazes onde aves
como peixes
transitam lentamente errando
nas palavras
Procuro adormecer
o silêncio do
dia inutiliza a vida
Provavelmente nada
mudará ou talvez
tudo tenha mudado há muito
ou vá mudando
sob o lago do céu onde os
peixes descrevem
ilegítimos voos como velhas
metáforas
Num tempo neutro acordo
entre a noite e o dia
sob um céu ilegítimo condensa-se
a mudança
nuvens totais exprimem
a presente longínqua
madrugada
as aves sobrevivem na queda
ao
tempo branco
Acordo sob um céu sob um tecto
dum quarto
É uma imagem pobre uma velha
metáfora No exterior porém
das paredes toalhas além
dos vidros turvos de nuvens
apagadas
agride-me a imagem invisível
opaca
da madrugada externa
que
no dia se espalha
como uma norma espessa
uma neutra linguagem
O céu é como um poço como um mar
como um lago
comparações banais mas as mais
eficazes onde aves
como peixes
transitam lentamente errando
nas palavras
Procuro adormecer
o silêncio do
dia inutiliza a vida
Provavelmente nada
mudará ou talvez
tudo tenha mudado há muito
ou vá mudando
sob o lago do céu onde os
peixes descrevem
ilegítimos voos como velhas
metáforas
2 078
Alejandra Pizarnik
En esta noche, en este mundo
A Martha Isabel Moia
en esta noche en este mundo
las palabras del sueño de la infancia de la muerta
nunca es eso lo que uno quiere decir
la lengua natal castra
la lengua es un órgano de conocimiento
del fracaso de todo poema
castrado por su propia lengua
que es el órgano de la re-creación
del re-conocimiento
pero no el de la re-surrección
de algo a modo de negación
de mi horizonte de maldoror con su perro
y nada es promesa
entre lo decible
que equivale a mentir
(todo lo que se puede decir es mentira)
el resto es silencio
sólo que el silencio no existe
no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?
en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades?
ninguna palabra es visible
en esta noche en este mundo
las palabras del sueño de la infancia de la muerta
nunca es eso lo que uno quiere decir
la lengua natal castra
la lengua es un órgano de conocimiento
del fracaso de todo poema
castrado por su propia lengua
que es el órgano de la re-creación
del re-conocimiento
pero no el de la re-surrección
de algo a modo de negación
de mi horizonte de maldoror con su perro
y nada es promesa
entre lo decible
que equivale a mentir
(todo lo que se puede decir es mentira)
el resto es silencio
sólo que el silencio no existe
no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?
en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades?
ninguna palabra es visible
1 878
Gonzaga Leão
Soneto Um
No chão marcas de pés sujos de lama;
o alpendre para o sonho e para a rede;
janelas para a fuga; na parede
o salto do telhado; a noite e a cama
com destinos iguais para quem ama:
- água e fonte servindo `a mesma sede.
A casa em construção ainda, que de
de suor e barro se edifica, chama
para se completar, seus moradores.
Fumo de chaminé nos arredores
da noite terminada. E, no profundo
silêncio com que a vida se cobria,
um galo bate as asas e anuncia
a casa e a manhã dentro do mundo.
o alpendre para o sonho e para a rede;
janelas para a fuga; na parede
o salto do telhado; a noite e a cama
com destinos iguais para quem ama:
- água e fonte servindo `a mesma sede.
A casa em construção ainda, que de
de suor e barro se edifica, chama
para se completar, seus moradores.
Fumo de chaminé nos arredores
da noite terminada. E, no profundo
silêncio com que a vida se cobria,
um galo bate as asas e anuncia
a casa e a manhã dentro do mundo.
1 204
Gilson Nascimento
Morte ao amanhecer
Na quieta e calada madrugada
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga
Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio
Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente
E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga
Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio
Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente
E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando
912
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes
O Silêncio
O silêncio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
851
Wallace Stevens
O HOMEM DA NEVE
É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
1 981
Alonso Álvares Lopes
Haicai
Silêncio.
O passeio das nuvens
E mais nenhum pio
A noite sorri.
Lua crescente
Nos olhos do guri
O passeio das nuvens
E mais nenhum pio
A noite sorri.
Lua crescente
Nos olhos do guri
1 091
Juscelino Vieira Mendes
O Salvador
Porque isto é bom e agradável
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
1 023
Albano Dias Martins
Elegia
em forma de epístola
A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.
in:Coração
de Bússola(1967)
A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.
in:Coração
de Bússola(1967)
1 124
Daniel Faria
Deve ser o último tempo
Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 993
Carlos de Oliveira
Estalactite
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
2 752
Carlos Nogueira Fino
mesmo que o silêncio
mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
842
Albano Dias Martins
Espaço
disponível
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
1 214