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Poemas neste tema

Solidão

Jorge Nascimento

Jorge Nascimento

Temporalidade do Desígnio

Já é tempo de construir o poema,
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.

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Ivan Sarney da Costa

Ivan Sarney da Costa

Vozes da Noite

Apagaram-se as luzes da cidade.
Longa e densa se compôs a noite.
Onde está o homem de ontem?
O verdureiro, o vendedor de carvão?
Anônimos polichinelos das ruas,
Alegria de todas as manhãs.
(A noite os consumiu no tempo.)
Os sepultou no tempo.
Laje fria de horror e mistério
Sobre os risos efêmeros da vida.
Há pouco piou uma rasga-mortalha.
— Sinal de agouro. Diria meu avô.
No entanto, o vôo da rasga-mortalha
É a única esperança dentro da noite.
Há sonhos aqui de amores reprimidos,
Acenos de mãos desencontradas,
Vozes caladas, corações ausentes,
Um peito só que quer conter o mundo.
De que me vale, às vezes, fazer versos
Se meus versos são cheios de egoísmo
E não tocam a boca do homem da rua,
Não cantam o desespero, nem são armas de combate?
Farei um grande e verdadeiro poema,
Com lágrimas, suor e revolta, um dia.
Poderia sair para olhar as estrelas.
Que esforço esse das estrelas.
Para brilharem na escuridão da noite!
Que esforço o da alma para suportar o corpo!
O corpo mergulha na materialidade.
A alma quer éter divinizado.
Não haverá corpo, nem sofrimento amanhã.
Haverá espaço vazio, recordações de rumos palmilhados,
Lembranças perdidas, amargura e solidão. Nada mais.
Como eu queria ouvir agora um grilo,
o alegre diálogo dos sapos,
E ver luzir a luz dos vagalumes,
Pontilhando de luz noite escura.
Como eu queria que estivesse aqui,
Branda, alegre, pueril, brilhante,
Como um bando mágico de inocentes vagalumes.

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