Poemas neste tema
Animais e Natureza
António Ramos Rosa
Como Quem Aflui Para o Que Nasce
ao Rui Knopfli
Como quem aflui para o que nasce,
um bicho fino e vertebrado
se desloca. Em sua boca vive
um desejo de ramos sem desenlace prévio.
As confusas cores animam-se: quase
se lêem, se desligam.
São as palavras, ou as casas, sombras vistas,
a confusão reúne assim dispersa,
num curso lento em que se apaga o rosto
e as veias se difundem
numa nova árvore.
Nada é real, tudo é real se for,
uma legível vela se respira
ou a língua que murmura: árvore, veias.
Um bicho há pouco inerme solto corre
e no espaço anima-se
sobre a terra verte
sua forma animal futura estende.
Ardor de ser, de tudo igual a tudo,
igual a si, assim o espaço vence.
Até chegar aqui e diz: agora.
Tudo o incita no presente e nunca
se detém, senão num ímpeto
radioso em que animal se estende.
Percorre todo o espaço que concentra,
animal de nomes, brilha de ser fácil:
porque a rua não é senão a rua,
nem a árvore tem outro nome: é árvore.
Com os nomes caminha o bicho solto
que se enuncia e o todo vive em sua marcha.
Por vezes límpido, ou obscuro, vibra inesperado.
No movimento dele e do seu espaço acordo,
descentro-me ou disparo, reúno-me, caminho,
tudo animal, assim o espaço volve
à claridade de ser espaço e tudo é novo,
em sua língua a vida vive em alto número.
Por ser a sua língua se desfaz
numa maré escura ou num vazio hiato.
Por ser já nada vejo e tudo é vago
neste momento em que o desejo acorda.
Que irei escrever sem o tremor da luz?
De memória nada direi, pois nada sei,
senão quando irrompe e aí está: estilhas unas
se formam e são as folhas da língua, mais que o ruído,
que estremecem presentes: porta ou telha vibram
e no nítido tremor tudo aflui por sob
a sombra que se esvai; de novo a terra é terra,
de novo se compõe a vida animalmente:
começo onde aflui o que nasce, novas áreas,
novos níveis se definem, as veias repercutem
este rumor de língua: metal das próprias coisas,
e sou ligeiro com as palavras deste dia,
e sou azul com o céu, verde com as árvores verdes,
presente para o presente, movo-me e não cesso.
Como quem aflui para o que nasce,
um bicho fino e vertebrado
se desloca. Em sua boca vive
um desejo de ramos sem desenlace prévio.
As confusas cores animam-se: quase
se lêem, se desligam.
São as palavras, ou as casas, sombras vistas,
a confusão reúne assim dispersa,
num curso lento em que se apaga o rosto
e as veias se difundem
numa nova árvore.
Nada é real, tudo é real se for,
uma legível vela se respira
ou a língua que murmura: árvore, veias.
Um bicho há pouco inerme solto corre
e no espaço anima-se
sobre a terra verte
sua forma animal futura estende.
Ardor de ser, de tudo igual a tudo,
igual a si, assim o espaço vence.
Até chegar aqui e diz: agora.
Tudo o incita no presente e nunca
se detém, senão num ímpeto
radioso em que animal se estende.
Percorre todo o espaço que concentra,
animal de nomes, brilha de ser fácil:
porque a rua não é senão a rua,
nem a árvore tem outro nome: é árvore.
Com os nomes caminha o bicho solto
que se enuncia e o todo vive em sua marcha.
Por vezes límpido, ou obscuro, vibra inesperado.
No movimento dele e do seu espaço acordo,
descentro-me ou disparo, reúno-me, caminho,
tudo animal, assim o espaço volve
à claridade de ser espaço e tudo é novo,
em sua língua a vida vive em alto número.
Por ser a sua língua se desfaz
numa maré escura ou num vazio hiato.
Por ser já nada vejo e tudo é vago
neste momento em que o desejo acorda.
Que irei escrever sem o tremor da luz?
De memória nada direi, pois nada sei,
senão quando irrompe e aí está: estilhas unas
se formam e são as folhas da língua, mais que o ruído,
que estremecem presentes: porta ou telha vibram
e no nítido tremor tudo aflui por sob
a sombra que se esvai; de novo a terra é terra,
de novo se compõe a vida animalmente:
começo onde aflui o que nasce, novas áreas,
novos níveis se definem, as veias repercutem
este rumor de língua: metal das próprias coisas,
e sou ligeiro com as palavras deste dia,
e sou azul com o céu, verde com as árvores verdes,
presente para o presente, movo-me e não cesso.
707
António Ramos Rosa
Da Incerteza Nasce
Da incerteza nasce,
ou dúvida. (Nem sempre.)
Débil, atravessa a folha.
A sua erva de animal:
a sede e o vazio da sombra.
Através das linhas
uma arbitrária rede justifica-se;
adiro à saliva do seu rastro:
a concha desenrola-se: uma casa
suspensa, vagarosa, incerta.
Uma figura? Ou vejo a casa mesma,
com olhos de animal, os olhos dele.
ou dúvida. (Nem sempre.)
Débil, atravessa a folha.
A sua erva de animal:
a sede e o vazio da sombra.
Através das linhas
uma arbitrária rede justifica-se;
adiro à saliva do seu rastro:
a concha desenrola-se: uma casa
suspensa, vagarosa, incerta.
Uma figura? Ou vejo a casa mesma,
com olhos de animal, os olhos dele.
1 041
António Ramos Rosa
Entre As Raízes
Dedos articulados através das folhas,
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
1 022
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
993
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 026
António Ramos Rosa
Campo E Corpo
Não houve antes nem haverá depois.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
1 149
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 092
António Ramos Rosa
Órbita de Verão — 2
Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
1 034
António Ramos Rosa
Aderência
A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
1 164
António Ramos Rosa
Zona Intermediária
A página presente, o edifício novo, a madeira leve, um perfume de vento.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
1 121
António Ramos Rosa
Um Fruto Verde-Amarelo
Um fruto verde-amarelo,
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
596
António Ramos Rosa
Neste Campo
Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
1 047
António Ramos Rosa
Ar Unânime
No vento e no fogo, uma única cintilação, o caminho — uma só respiração.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
1 190
António Ramos Rosa
Manchas
Uma palavra aberta
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara
espiral para o sol
Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado
Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul
Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento
Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara
espiral para o sol
Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado
Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul
Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento
Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
1 010
António Ramos Rosa
Febre Feliz
Febre feliz, de entre a sombra me incita,
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.
Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…
Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.
Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…
Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
1 059
António Ramos Rosa
Sementes Livres
a Pedro Tamen
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
553
António Ramos Rosa
Ex-Voto
Pelo muito que oiço
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
1 155
António Ramos Rosa
Seis Poemas da Terra
Ó verde caminho de ouro,
pequeno na memória
de duas lágrimas.
Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.
Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.
Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.
Enlaço troncos
e o mundo é meu.
Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.
Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
pequeno na memória
de duas lágrimas.
Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.
Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.
Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.
Enlaço troncos
e o mundo é meu.
Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.
Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
1 169
António Ramos Rosa
Uma Palavra Te Procura
Uma palavra te procura
ao nível desta existência suave
dura
uma palavra não para ostentação mas para seguir na estrada
no seu ágil correr de fogo
para te abrir o dia
para te fazer mais pequeno do que o buraco
para te dar um breve crepitar
de um insecto
a fuga precipitada ou o vagaroso pêlo
o imperceptível movimento
da água na vereda
a existência ínfima
de qualquer leve animal
ou folha
uma partícula de poeira
ou sulco
um estalido
uma palavra como uma chama um pouco mais clara do que o dia
só levemente mais clara do que a tua mão
e escura ou parda como a estrada
ao nível desta existência suave
dura
uma palavra não para ostentação mas para seguir na estrada
no seu ágil correr de fogo
para te abrir o dia
para te fazer mais pequeno do que o buraco
para te dar um breve crepitar
de um insecto
a fuga precipitada ou o vagaroso pêlo
o imperceptível movimento
da água na vereda
a existência ínfima
de qualquer leve animal
ou folha
uma partícula de poeira
ou sulco
um estalido
uma palavra como uma chama um pouco mais clara do que o dia
só levemente mais clara do que a tua mão
e escura ou parda como a estrada
543
António Ramos Rosa
Ter Um Braço de Barro, Um Braço Apenas
a Alexandre O’Neill
Ter um braço de barro, um braço apenas
todo o carinho: terra!
Cabelos, telhas, livros, solidões
pedras e pedras, pedras
e ruídos doces de casas velhas de fundos corredores.
Um braço: uma raiz.
Um menino que mija no escuro sobre as estrelas
sobre o meu rosto:
no chão, na terra, nas pedras, no estrume,
irmão do insecto, obscuro, pesado
de muros, ervas, ossos e flores.
Um pássaro?
Um braço
Um braço de terra, pedras, ossos,
um braço: todo o carinho, terra.
Ter um braço de barro, um braço apenas
todo o carinho: terra!
Cabelos, telhas, livros, solidões
pedras e pedras, pedras
e ruídos doces de casas velhas de fundos corredores.
Um braço: uma raiz.
Um menino que mija no escuro sobre as estrelas
sobre o meu rosto:
no chão, na terra, nas pedras, no estrume,
irmão do insecto, obscuro, pesado
de muros, ervas, ossos e flores.
Um pássaro?
Um braço
Um braço de terra, pedras, ossos,
um braço: todo o carinho, terra.
1 218
Odysséas Elýtis
O tempo é a sombra célere dos pássaros
Meus olhos escancarados em meio às suas imagens
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
898
Louise Glück
Parábola da fera
O gato anda em círculos na cozinha
com o passarinho morto,
sua nova possessão.
Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:
nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.
Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.
com o passarinho morto,
sua nova possessão.
Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:
nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.
Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.
1 123
Sully Prudhomme
O Cisne
Sem rumor, sob o espelho em lagos fundos, calmos,
O cisne impele a onda com as amplas palmas,
E desliza. A penugem em seus flancos, tal
Neves de abril tremendo ao sol de forma igual;
Mas, rijo, branco mastro a vibrar pelo vento,
Sua imensa asa o leva assim qual barco lento,
Passa seu belo peito acima de umas plantas,
Mergulha e sobre as águas o alonga, levanta,
Arqueia-o gracioso qual perfil de acanto
E guarda o negro bico em seu colo de encanto.
Ora ao longo dos pinhos, lar de sombra e paz,
Serpeia, deixando ervas espessas atrás
Arrastando-se assim como uma cabeleira,
E segue ele em suave e lânguida maneira.
A gruta onde o poeta escuta o que ele sente
E a fonte que lamenta um sempre eterno ausente
Lhe prazem; Lá gira ele; e a folha de salgueiro
Em silêncio caída, ao seu dorso se abeira.
Quanto mais ele faz-se ao largo; a se afastar
Do bosque escuro e, esplêndido, no azul reinar,
Só elegeu para saudar o alvor que admira
O lugar reluzente em onde o sol se mira.
E depois quando as margens tornam-se confusas,
Na hora onde toda forma é um espectro difuso,
Onde reduz um horizonte em rubro risco,
Enquanto nenhum junco ou espadana pisca,
Com as rãs verdes a soar no sereno ar
E quando o pirilampo refulge ao luar,
A ave, no sombrio lago aonde se reflete
O fulgor de uma noite láctea e violeta,
Como um jarro de prata em meio a diamantes,
Dorme, a cabeça entre asas e dois céus brilhantes.
tradução José Lino Grünewald
O cisne impele a onda com as amplas palmas,
E desliza. A penugem em seus flancos, tal
Neves de abril tremendo ao sol de forma igual;
Mas, rijo, branco mastro a vibrar pelo vento,
Sua imensa asa o leva assim qual barco lento,
Passa seu belo peito acima de umas plantas,
Mergulha e sobre as águas o alonga, levanta,
Arqueia-o gracioso qual perfil de acanto
E guarda o negro bico em seu colo de encanto.
Ora ao longo dos pinhos, lar de sombra e paz,
Serpeia, deixando ervas espessas atrás
Arrastando-se assim como uma cabeleira,
E segue ele em suave e lânguida maneira.
A gruta onde o poeta escuta o que ele sente
E a fonte que lamenta um sempre eterno ausente
Lhe prazem; Lá gira ele; e a folha de salgueiro
Em silêncio caída, ao seu dorso se abeira.
Quanto mais ele faz-se ao largo; a se afastar
Do bosque escuro e, esplêndido, no azul reinar,
Só elegeu para saudar o alvor que admira
O lugar reluzente em onde o sol se mira.
E depois quando as margens tornam-se confusas,
Na hora onde toda forma é um espectro difuso,
Onde reduz um horizonte em rubro risco,
Enquanto nenhum junco ou espadana pisca,
Com as rãs verdes a soar no sereno ar
E quando o pirilampo refulge ao luar,
A ave, no sombrio lago aonde se reflete
O fulgor de uma noite láctea e violeta,
Como um jarro de prata em meio a diamantes,
Dorme, a cabeça entre asas e dois céus brilhantes.
tradução José Lino Grünewald
721
António Ramos Rosa
Estou Como Se Não Houvesse Mais Para Dizer Que Uma Palavra
Estou como se não houvesse mais para dizer que uma palavra
uma interminável palavra
no interminável silêncio
Estou como um cavalo esquelético à beira dum horizonte
perdidos todos os caminhos
Estou no entanto familiar
e rodeado de presenças
Escarvo no chão absurdo
e uma pedra dá-me confiança
Na solidão da terra encontro
como o vestígio dum segredo
uma interminável palavra
no interminável silêncio
Estou como um cavalo esquelético à beira dum horizonte
perdidos todos os caminhos
Estou no entanto familiar
e rodeado de presenças
Escarvo no chão absurdo
e uma pedra dá-me confiança
Na solidão da terra encontro
como o vestígio dum segredo
1 098