Poemas neste tema
Animais e Natureza
Primo Vieira
Haicai
Ao luar, o sapo
tenta engolir uma estrela:
cai fundo no poço!
Marulho de vagas.
Há ecos de eternidade
nos búzios do mar.
tenta engolir uma estrela:
cai fundo no poço!
Marulho de vagas.
Há ecos de eternidade
nos búzios do mar.
1 168
Rosani Abou Adal
Madrugada
Na placidez da noite,
o apito do guarda-noturno.
Um silvo longo e um breve.
A cadela ladra assustada
com medo da madrugada cálida.
Deitada no meio da rua,
de pernas para o alto,
a gata se lambe sossegada, tranqüila.
Um sibilo agudo se faz presente
na solidão noturna.
Nas casas silenciosas
as pessoas dormem,
cerradas entre quarto paredes,
revelam os segredos da familiaridade.
A gata permanece sobre o asfalto
fazendo confidências individuais.
A cadela frente ao portão
assiste a quietude da noite.
O homem sonha profundo,
o colchão grita frases de amor.
O guarda da noite vigia as casas,
observa as amigas da vida noturna.
Em frente à minha janela assovia
três vezes e prossegue a caminhada.
Acompanhada do meu isolamento
escuto silvos e observo as pessoas
caladas em suas privacidades.
Deitada no meu leito,
coberta com meu manto,
repouso com sofreguidão.
A gata, a cadela, o guarda,
companheiros da madrugada.
o apito do guarda-noturno.
Um silvo longo e um breve.
A cadela ladra assustada
com medo da madrugada cálida.
Deitada no meio da rua,
de pernas para o alto,
a gata se lambe sossegada, tranqüila.
Um sibilo agudo se faz presente
na solidão noturna.
Nas casas silenciosas
as pessoas dormem,
cerradas entre quarto paredes,
revelam os segredos da familiaridade.
A gata permanece sobre o asfalto
fazendo confidências individuais.
A cadela frente ao portão
assiste a quietude da noite.
O homem sonha profundo,
o colchão grita frases de amor.
O guarda da noite vigia as casas,
observa as amigas da vida noturna.
Em frente à minha janela assovia
três vezes e prossegue a caminhada.
Acompanhada do meu isolamento
escuto silvos e observo as pessoas
caladas em suas privacidades.
Deitada no meu leito,
coberta com meu manto,
repouso com sofreguidão.
A gata, a cadela, o guarda,
companheiros da madrugada.
1 097
Roberto Piva
Ritual dos 4 Ventos e dos 4 Gaviões
para Marco Antônio de Ossain
"Eu trago comigo os guardiões
dos Circuitos celestes."
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —
Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.
"Eu trago comigo os guardiões
dos Circuitos celestes."
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —
Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.
1 511
Roberto Piva
Manifesto da Poesia Xamânica e Bio-Alquímica
para meu antepassado
nº serpente
1. O mundo são os Lugares de Poder
2. Sacralização xamânica do cotidiano
3. Perspectivas bio-regionais
4. Selvagem & Sagrado
5. Gaviões são divindades solares portadoras de poder
6. Hórus-Falcão rei das duas terras
7. Ecologia da Linguagem
8. Estados alterados da consciência
9. O Gavião fala por nossa boca
10. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que em transe extático percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas & sobe aos céus em "viagens". Dante foi um xamã-cabalista que conheceu em sua viagem pelos 3 mundos os orixás travessos da Sombra.
11. O olho divino do gavião se transforma em plantas florescentes
12. ÍSIS, Virgem Negra, mãe do Hórus
13. O Gavião plana acima das metrópolis-necrópolis
14. Divindade dos limites do Horizonte
15. "A orgia faz circular a energia vital & Sagrada"
M. Eliade
16. "A marginalidade é formada por aqueles que estão "out" — aqueles que não tem acesso ao poder estabelecido involuntariamente por miséria, ou voluntariamente por escolha estética-religiosa"
Timothy Leary
17. Deixe a Visão chegar
18. É a hora da despedida dos deuses do deserto & chegada dos deuses da vegetação
19. Conspiração sagrada dos terráqueos anônimos & guerreiros do Zuwya
20. Estado de conhecimento sensorial
21. "Dirige as flechas da voz dos jovens para celebrar o gozo desta terra"
Píndaro
22. Ilha subterrânea do gavião. Livro Egípcio dos Mortos. Bardo Todol. Orixás & vida quântica. O caminho do xamã é o caminho do Coração.
XAMÃS PELA NOVA CONSCIÊNCIA
nº serpente
1. O mundo são os Lugares de Poder
2. Sacralização xamânica do cotidiano
3. Perspectivas bio-regionais
4. Selvagem & Sagrado
5. Gaviões são divindades solares portadoras de poder
6. Hórus-Falcão rei das duas terras
7. Ecologia da Linguagem
8. Estados alterados da consciência
9. O Gavião fala por nossa boca
10. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que em transe extático percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas & sobe aos céus em "viagens". Dante foi um xamã-cabalista que conheceu em sua viagem pelos 3 mundos os orixás travessos da Sombra.
11. O olho divino do gavião se transforma em plantas florescentes
12. ÍSIS, Virgem Negra, mãe do Hórus
13. O Gavião plana acima das metrópolis-necrópolis
14. Divindade dos limites do Horizonte
15. "A orgia faz circular a energia vital & Sagrada"
M. Eliade
16. "A marginalidade é formada por aqueles que estão "out" — aqueles que não tem acesso ao poder estabelecido involuntariamente por miséria, ou voluntariamente por escolha estética-religiosa"
Timothy Leary
17. Deixe a Visão chegar
18. É a hora da despedida dos deuses do deserto & chegada dos deuses da vegetação
19. Conspiração sagrada dos terráqueos anônimos & guerreiros do Zuwya
20. Estado de conhecimento sensorial
21. "Dirige as flechas da voz dos jovens para celebrar o gozo desta terra"
Píndaro
22. Ilha subterrânea do gavião. Livro Egípcio dos Mortos. Bardo Todol. Orixás & vida quântica. O caminho do xamã é o caminho do Coração.
XAMÃS PELA NOVA CONSCIÊNCIA
2 222
Paulo Lopes da Silva
Haicai
Metamorfose
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
1 358
Papiniano Carlos
Cântico
Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
1 920
Delores Pires
Inverno
Tremendo de frio
o cãozinho enovelado
espia a paisagem.
Avançada em anos
a cabeça do velhinho
contando geadas.
o cãozinho enovelado
espia a paisagem.
Avançada em anos
a cabeça do velhinho
contando geadas.
1 043
Pedro Kilkerry
Cetáceo
Fuma. É cobre o zênite. E Chagosos do flanco
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada;
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.
Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.
Tine em cobre o zênite e o vento arqueja o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.
E na verde ironia, ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d água ou do sol vermelho.
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada;
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.
Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.
Tine em cobre o zênite e o vento arqueja o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.
E na verde ironia, ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d água ou do sol vermelho.
1 910
Ona Gaia
Água
Água
trilhões de gotas d’água
Terra
imenso planeta azul
Fogo
balé de salamandras
ar
o sopro da vida em nós
inconsciente
a luz da escuridão ativa:
ativem o lúdico e tragam
a velocidade instantânea
da imaginação.
trilhões de gotas d’água
Terra
imenso planeta azul
Fogo
balé de salamandras
ar
o sopro da vida em nós
inconsciente
a luz da escuridão ativa:
ativem o lúdico e tragam
a velocidade instantânea
da imaginação.
919
Osório Dutra
Haicai
Descampado
Barulho, algazarra.
Periquitos esquisitos
nos ares, em farra.
Impressionismo
Nevoeiros que fogem
O monte, o córrego, a ponte
Ninguém na paisagem.
Barulho, algazarra.
Periquitos esquisitos
nos ares, em farra.
Impressionismo
Nevoeiros que fogem
O monte, o córrego, a ponte
Ninguém na paisagem.
929
Pe. Osvaldo Chaves
Angelim Intacto
Cearense, 21.10.23, padre católico e
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
1 134
Olinda Marques de Azevedo
Verão
Suco de manga
a escorrer pelas mãos
pingos de ouro.
Sutis vaga-lumes
acendem suas luzes.
Baile na floresta.
a escorrer pelas mãos
pingos de ouro.
Sutis vaga-lumes
acendem suas luzes.
Baile na floresta.
907
Otávio Ramos
O Gato
O gato é a peça mais instigante do jogo de xadrez.
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
1 192
Otacílio de Azevedo
Carro de Boi
Rodam, tardas, gemendo, as rodas, arrastando
os pesados pranchões de pau-darco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...
A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.
Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
Oh! Natureza — Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.
os pesados pranchões de pau-darco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...
A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.
Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
Oh! Natureza — Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.
1 305
Noel Nascimento
Pesquisa Estética
À procura
da sonoridade mais pura,
quis decifrar o mistério
da beleza natural.
Palavra por palavra,
desfolhei o poema
e despetalei a flor.
Em busca da magia de um canto
quase descubro
a fonte do amor.
O que faz o mavioso gorgeio,
seria a forcá que faz o vôo?
Onde a nascente no coração de cristal?
Pena por pena,
depenei um canarinho,
tingi de sangue as minhas unhas,
mas ao abrir-lhe o peito
não achei a flautinha divinal ...
da sonoridade mais pura,
quis decifrar o mistério
da beleza natural.
Palavra por palavra,
desfolhei o poema
e despetalei a flor.
Em busca da magia de um canto
quase descubro
a fonte do amor.
O que faz o mavioso gorgeio,
seria a forcá que faz o vôo?
Onde a nascente no coração de cristal?
Pena por pena,
depenei um canarinho,
tingi de sangue as minhas unhas,
mas ao abrir-lhe o peito
não achei a flautinha divinal ...
789
Nai Frossard
A Teus Pés
Deito-me sob o veludo azul
Profundo que não existe,
Para acreditar que suspiros são flores que brotam
Entre Deus e o Diabo.
O suor que me embriaga
Bebo-o a curtos tragos,
Saboreando cada nota da música
Dos pássaros sobre nós.
Emocionados - leio em teu corpo - com olhos,
Tropeçam em beijos de cílios,
Mergulhados na pupila de um gato.
A poesia que descansa
Debaixo de um lustre de papel
Grita agora furando os tímpanos da casa.
— O silêncio que herdo de um doce homem
me segue por onde me levam meus próprios passos.
Profundo que não existe,
Para acreditar que suspiros são flores que brotam
Entre Deus e o Diabo.
O suor que me embriaga
Bebo-o a curtos tragos,
Saboreando cada nota da música
Dos pássaros sobre nós.
Emocionados - leio em teu corpo - com olhos,
Tropeçam em beijos de cílios,
Mergulhados na pupila de um gato.
A poesia que descansa
Debaixo de um lustre de papel
Grita agora furando os tímpanos da casa.
— O silêncio que herdo de um doce homem
me segue por onde me levam meus próprios passos.
404
Nelson Norberto Rodrigues
Haicai
Na lagoa azul
à sombra de uma palmeira
brincam alvos gansos
Nas folhas caídas
de uma palmeira real
foi-se a primavera
à sombra de uma palmeira
brincam alvos gansos
Nas folhas caídas
de uma palmeira real
foi-se a primavera
966
Newton de Freitas
Belo Exemplo
Olho a serra apontando para o céu
com os braços grandes dos seus picos,
com os dedos verdes das suas árvores.
Mas bem que ela não esquece os humildes,
nem o chão, nem as pedras que jazem a seus pés.
E pelo abismo, vinda das alturas,
como se fosse um véu de rendas,
como se fosse prata liqüefeita,
salta a linda cascata,
borbulhando eternal.
Ouço. A água geme entre as pedras lodosas,
canta e murmura, ou será que soluça?
Esse barulho de água beijando os penhascos
deve ser um poema de amor
que a serra sabe de cor para dizer ao chão...
Bendito o Deus-poeta que te fez, cascata!
Bendita a Natureza onde palpitam sonhos,
sonhos de amor, belezas, ilusões,
em todos os recantos, até nos abismos!
Cascata, és um sonho líquido e sublime.
De dia o sol se veste de ouro para contemplar-te,
de noite a lua e as estrelas te namoram sorrindo.
Tu vens do coração profundo das montanhas
e és um beijo eterno da nobreza da serra
à humilde chá das campinas sem glórias.
Quando os homens passarem a teus pés,
quando os homens te contemplarem,
os deslumbrados e os indiferentes,
ensina a eles o teu exemplo de fraternidade,
mostra-lhes a tua lição, cascata!
com os braços grandes dos seus picos,
com os dedos verdes das suas árvores.
Mas bem que ela não esquece os humildes,
nem o chão, nem as pedras que jazem a seus pés.
E pelo abismo, vinda das alturas,
como se fosse um véu de rendas,
como se fosse prata liqüefeita,
salta a linda cascata,
borbulhando eternal.
Ouço. A água geme entre as pedras lodosas,
canta e murmura, ou será que soluça?
Esse barulho de água beijando os penhascos
deve ser um poema de amor
que a serra sabe de cor para dizer ao chão...
Bendito o Deus-poeta que te fez, cascata!
Bendita a Natureza onde palpitam sonhos,
sonhos de amor, belezas, ilusões,
em todos os recantos, até nos abismos!
Cascata, és um sonho líquido e sublime.
De dia o sol se veste de ouro para contemplar-te,
de noite a lua e as estrelas te namoram sorrindo.
Tu vens do coração profundo das montanhas
e és um beijo eterno da nobreza da serra
à humilde chá das campinas sem glórias.
Quando os homens passarem a teus pés,
quando os homens te contemplarem,
os deslumbrados e os indiferentes,
ensina a eles o teu exemplo de fraternidade,
mostra-lhes a tua lição, cascata!
900
Oldegar Vieira
Gravuras no Vento
Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 206
Teruko Oda
Inverno
Silêncio profundo
Soba luz da eterna aurora
Dorme o campo seco.
Mugido sedento
Gado magro em pasto seco
Coqueiros ao vento.
Soba luz da eterna aurora
Dorme o campo seco.
Mugido sedento
Gado magro em pasto seco
Coqueiros ao vento.
1 094
Oldegar Vieira
Haicai
Revoadas
Revoadas brancas
sobre rochedos escuros:
gaivotas e espumas.
Alvorada
Pouco a pouco vai
canto claro dos galos
clareando o dia
Revoadas brancas
sobre rochedos escuros:
gaivotas e espumas.
Alvorada
Pouco a pouco vai
canto claro dos galos
clareando o dia
1 698
Oddone Marsiaj
Haicai
Campos queimados
Voltarão o verde e
As borboletas?
Vento nas ilhas
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros
Voltarão o verde e
As borboletas?
Vento nas ilhas
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros
1 065
Mutimati
O Ferro
Como se faz o ferro perguntou agora esta criança pequena
Que é um pastor de cabritos e há de ser homem
E há de ser um homem melhor que sabe do ferro
Com coragem de ferro e um coração generoso.
Expliquei-lhe mal porque só sei o que vi
E ninguém me falou nunca mais completo.
Menino: Há uma pedra de ferro que vem da Terra
Há outra pedra carvão que vem da Terra
Faz um forno de Terra como uma cabeça redonda
E no lugar dos cabelos põe canudos de Terra
Com dentro pedra de ferro bem apertada
E enche aquela cabeça de boca pequena
Com pedras carvão da Terra, bem apertadas.
Casa toda esta Terra de sorrisos diferentes
Com o Fogo macho acendido na manhã baixa
Com o Padrinho Ar de Fole sempre a dizer piadas
E a Madrinha Água Pouca esperando
Para dizer a sua sentença importante.
O ferro é o que fica da boda dos quatro elementos
Por isso o ferreiro é um Homem sábio
Faz a enxada, faz a machada, faz faca.
Com a semente de ferro que semeou
Planta e colhe nesta especial Agricultura
Come um pão de ferro que faz o coração generoso
O Ferreiro, este camponês especial
Menino.
Quanto tempo vai ficar esta criança pequena
Sem uma resposta melhor mais completa?
Que é um pastor de cabritos e há de ser homem
E há de ser um homem melhor que sabe do ferro
Com coragem de ferro e um coração generoso.
Expliquei-lhe mal porque só sei o que vi
E ninguém me falou nunca mais completo.
Menino: Há uma pedra de ferro que vem da Terra
Há outra pedra carvão que vem da Terra
Faz um forno de Terra como uma cabeça redonda
E no lugar dos cabelos põe canudos de Terra
Com dentro pedra de ferro bem apertada
E enche aquela cabeça de boca pequena
Com pedras carvão da Terra, bem apertadas.
Casa toda esta Terra de sorrisos diferentes
Com o Fogo macho acendido na manhã baixa
Com o Padrinho Ar de Fole sempre a dizer piadas
E a Madrinha Água Pouca esperando
Para dizer a sua sentença importante.
O ferro é o que fica da boda dos quatro elementos
Por isso o ferreiro é um Homem sábio
Faz a enxada, faz a machada, faz faca.
Com a semente de ferro que semeou
Planta e colhe nesta especial Agricultura
Come um pão de ferro que faz o coração generoso
O Ferreiro, este camponês especial
Menino.
Quanto tempo vai ficar esta criança pequena
Sem uma resposta melhor mais completa?
2 031
Nelson Ascher
Outra Gata
p/ Haroldo, felinófilo
Embora seja tão
minúscula, está viva
a gata que se esquiva
enquanto minha mão,
com mais de um arranhão,
conclui a tentativa
inútil e, à deriva,
afaga o nada em vão.
Fruindo em paz de sete
vidas, no entanto, a gata
faz sua toilette
e assim não se constata
que esconde um canivete
suíço em cada pata.
(Poemas extraídos de `Algo do Sol)
Embora seja tão
minúscula, está viva
a gata que se esquiva
enquanto minha mão,
com mais de um arranhão,
conclui a tentativa
inútil e, à deriva,
afaga o nada em vão.
Fruindo em paz de sete
vidas, no entanto, a gata
faz sua toilette
e assim não se constata
que esconde um canivete
suíço em cada pata.
(Poemas extraídos de `Algo do Sol)
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