Lista de Poemas

O Verme e a Estrela

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! ceguei da tua luz?


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
5 105

É o Silêncio

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Àfonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
.......................................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

5 571

Cetáceo

Fuma. É cobre o zenite. E, chagosos do flanco,
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada.
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um largo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunida a pele atijolada.

Tine em cobre o zenite e o vento arqueja e o oceano
Longo enfroca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d'água ou do sol vermelho.


14 de junho de 1909

In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 84
3 054

Vinho, 1909

Alma presa da Grécia, em prisão de turquesa!
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!

Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!

Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...

Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 198
2 999

Floresta Morta, 1909

Por que, à luz de um sol de primavera
Uma floresta morta? Um passarinho
Cruzou, fugindo-a, o seio que lhe dera
Abrigo e pouso e que lhe guarda o ninho.

Nem vale, agora, a mesma vida, que era
Como a doçura quente de um carinho,
E onde flores abriam, vai a fera
— Vidrado o olhar — lá vai pelo caminho.

Ah! quanto dói o vê-la, aqui, Setembro,
Inda banhada pela mesma vida!
Floresta morta a mesma coisa lembro;

Sob outro céu assim, que pouco importa,
Abrigo à fera, mas, da ave fugida,
Há no peito uma floresta morta.


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
3 877

Essa, que paira em meus sonhos

Essa, que paira em meus sonhos,
Em meus sonhos a brilhar,
E tem nos lábios risonhos
O nácar do Iônio — Mar —
Numa fantasia estranha,
Estranhamente a sonhei
E de beleza tamanha,
Enlouqueci. É o que sei.
Ela era, em plaustro dourado
Levado de urcos azuis,
De Paros nevirrosado,
Ombros nus, os seios nus...
E que de esteiras de estrelas,
De prásio, opala e rubim!
Na praia perto, por vê-las
Vi que saltava um delfim
Que longamente as fitando
Alçou a cauda, a tremer
E outros delfins, senão quando
Aparecer.


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 645

É o Silêncio

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...

..........................................

E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
3 400

Ad veneris lacrimas

Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...

Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.

Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...

Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.

1 891

Amor volat

Não, não é comigo que ele nasceu... A sua asa
Só a um tempo ruflou desse modo, tamanho!
Bateu-me o coração... E outro não sei que, estranho,
Rudamente o rasgou como o seu bico em brasa...

Entrou-mo todo, enfim, como quem entra em casa
E em meu sangue, a cantar, fez de um boêmio no banho!
Oh! Que pássaro mau! E eu nunca mais o apanho!
Vês: estou velho já. Treme-me o passo, e atrasa...

Olha-me bem, no peito, o rubro ninho aberto!
Hoje fúnebre, a piar, uma estrige ao telhado
E o meu seio vazio! e o meu leito deserto!

E vivo só por ver, como curvo aqui fico,
Esse pássaro voar largamente, um bocado
de músculos pingando a levar-me no bico!

2 522

Cérbero

É, não vens mais aqui... Pois eu te espero,
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
- Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!

É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.

Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aléia em flor que em vão, toda transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!

Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.

2 479

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Luciano Santos
Luciano Santos

A foto não é de Pedro Kilkerry, mas de Alphonsus de Guimaraens.

Identificação e contexto básico

Pedro Kilkerry foi um poeta, dramaturgo e jornalista português, conhecido pela sua obra satírica e anticlerical. Nasceu em Lisboa e faleceu na mesma cidade. Foi uma figura proeminente da vida cultural e boémia lisboeta do final do século XIX e início do século XX, associado a círculos de contestação social e política.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e formação de Pedro Kilkerry. No entanto, o seu percurso sugere uma educação informal, marcada pela vivência nos meios literários e jornalísticos de Lisboa. A sua obra indica um conhecimento profundo da realidade social e política da época, bem como uma cultura literária diversificada.

Percurso literário

Kilkerry iniciou o seu percurso literário com a publicação de poemas em jornais e revistas, rapidamente ganhando notoriedade pelo seu tom satírico e irreverente. Foi também um prolífico dramaturgo, escrevendo peças de teatro que muitas vezes abordavam temas sociais e políticos de forma crítica. A sua atividade como jornalista foi fundamental para a divulgação da sua obra e para a sua inserção nos debates intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Pedro Kilkerry é predominantemente satírica, com um forte teor anticlerical e de crítica social. Utilizou o humor, a ironia e a paródia para expor as hipocrisias da sociedade portuguesa, especialmente a influência da Igreja Católica. O seu estilo é caracterizado pela linguagem coloquial, pela vivacidade e por um ritmo ágil, refletindo a sua ligação com o universo do teatro e do jornalismo. Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se poemas e peças teatrais que se tornaram populares pela sua ousadia e pela sua capacidade de captar o espírito da época.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Kilkerry viveu num período de grande instabilidade política e social em Portugal, marcado pelo fim da Monarquia e pela instauração da República. Foi uma época de efervescência cultural, com o surgimento de novos movimentos artísticos e literários, e de fortes tensões sociais e ideológicas. Kilkerry insere-se neste contexto como um crítico da ordem estabelecida, utilizando a sua arte como forma de intervenção e de protesto.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Pedro Kilkerry esteve intrinsecamente ligada à sua atividade literária e jornalística. Era conhecido pela sua boémia e pela sua participação ativa nos círculos intelectuais de Lisboa. As suas convicções políticas e anticlericais eram bem conhecidas e marcaram a sua vida e a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Pedro Kilkerry gozou de considerável popularidade junto do público que apreciava a sua obra satírica e irreverente. No entanto, o seu caráter contestatário e a natureza das suas críticas, especialmente à Igreja, nem sempre lhe garantiram um reconhecimento académico unânime. Hoje, é lembrado como um importante representante da literatura satírica portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Kilkerry foi influenciado pela tradição satírica portuguesa e pela literatura de contestação social. O seu legado reside na sua coragem em abordar temas polémicos e na sua contribuição para o desenvolvimento da sátira em Portugal, abrindo caminho para outras vozes críticas na literatura.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Kilkerry pode ser interpretada como um espelho das contradições e das hipocrisias da sociedade portuguesa da sua época. A sua crítica ao clero e às instituições tradicionais reflete um desejo de modernização e de libertação de dogmas opressivos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Pedro Kilkerry era conhecido pela sua inteligência rápida e pelo seu humor afiado, características que o tornavam uma figura carismática nos saraus literários. A sua participação ativa na vida boémia de Lisboa é um aspeto marcante da sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Pedro Kilkerry faleceu em Lisboa, deixando um legado de obras que continuam a ser apreciadas pela sua originalidade e pelo seu espírito crítico.