Lista de Poemas

Sob os Ramos, 1907

É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora,
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.

Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.

Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...

Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 537

Horas Ígneas

I

Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes — de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido
— De amores ruivos, protervos —
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca
De animal.

II

O Sol, de bárbaro, estangue,
Olho, em volúpia de cisma,
Por uma cor só do prisma,
Veleiras, as naus — de sangue...

III

Tão longe levadas, pelas
Mãos de fluido ou braços de ar!
Cinge uma flora solar
— Grandes Rainhas — as velas.

Onda por onda ébria, erguida,
As ondas — povo do mar —
Tremem, nest'hora a sangrar,
Morrem — desejos da Vida!

IV

Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau — Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres — flores — num mangue...


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 491

Evoé, 1910

Primavera! — versos, vinhos...
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!

Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!

E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?

Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!

E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 406

Ritmo Eterno

Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha... Um sorriso da alma! — Um sorriso da aurora!
E Deus — ou Bem! ou Mal — é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu — a Natureza assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo...

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar...
Alvor, turquesa, ondula a matéria... É veludo,

É minh'alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 855

Cetáceo

Fuma. É cobre o zênite. E Chagosos do flanco
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada;
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.

Tine em cobre o zênite e o vento arqueja o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia, ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d água ou do sol vermelho.

1 891

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Luciano Santos
Luciano Santos

A foto não é de Pedro Kilkerry, mas de Alphonsus de Guimaraens.

Identificação e contexto básico

Pedro Kilkerry foi um poeta, dramaturgo e jornalista português, conhecido pela sua obra satírica e anticlerical. Nasceu em Lisboa e faleceu na mesma cidade. Foi uma figura proeminente da vida cultural e boémia lisboeta do final do século XIX e início do século XX, associado a círculos de contestação social e política.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e formação de Pedro Kilkerry. No entanto, o seu percurso sugere uma educação informal, marcada pela vivência nos meios literários e jornalísticos de Lisboa. A sua obra indica um conhecimento profundo da realidade social e política da época, bem como uma cultura literária diversificada.

Percurso literário

Kilkerry iniciou o seu percurso literário com a publicação de poemas em jornais e revistas, rapidamente ganhando notoriedade pelo seu tom satírico e irreverente. Foi também um prolífico dramaturgo, escrevendo peças de teatro que muitas vezes abordavam temas sociais e políticos de forma crítica. A sua atividade como jornalista foi fundamental para a divulgação da sua obra e para a sua inserção nos debates intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Pedro Kilkerry é predominantemente satírica, com um forte teor anticlerical e de crítica social. Utilizou o humor, a ironia e a paródia para expor as hipocrisias da sociedade portuguesa, especialmente a influência da Igreja Católica. O seu estilo é caracterizado pela linguagem coloquial, pela vivacidade e por um ritmo ágil, refletindo a sua ligação com o universo do teatro e do jornalismo. Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se poemas e peças teatrais que se tornaram populares pela sua ousadia e pela sua capacidade de captar o espírito da época.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Kilkerry viveu num período de grande instabilidade política e social em Portugal, marcado pelo fim da Monarquia e pela instauração da República. Foi uma época de efervescência cultural, com o surgimento de novos movimentos artísticos e literários, e de fortes tensões sociais e ideológicas. Kilkerry insere-se neste contexto como um crítico da ordem estabelecida, utilizando a sua arte como forma de intervenção e de protesto.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Pedro Kilkerry esteve intrinsecamente ligada à sua atividade literária e jornalística. Era conhecido pela sua boémia e pela sua participação ativa nos círculos intelectuais de Lisboa. As suas convicções políticas e anticlericais eram bem conhecidas e marcaram a sua vida e a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Pedro Kilkerry gozou de considerável popularidade junto do público que apreciava a sua obra satírica e irreverente. No entanto, o seu caráter contestatário e a natureza das suas críticas, especialmente à Igreja, nem sempre lhe garantiram um reconhecimento académico unânime. Hoje, é lembrado como um importante representante da literatura satírica portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Kilkerry foi influenciado pela tradição satírica portuguesa e pela literatura de contestação social. O seu legado reside na sua coragem em abordar temas polémicos e na sua contribuição para o desenvolvimento da sátira em Portugal, abrindo caminho para outras vozes críticas na literatura.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Kilkerry pode ser interpretada como um espelho das contradições e das hipocrisias da sociedade portuguesa da sua época. A sua crítica ao clero e às instituições tradicionais reflete um desejo de modernização e de libertação de dogmas opressivos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Pedro Kilkerry era conhecido pela sua inteligência rápida e pelo seu humor afiado, características que o tornavam uma figura carismática nos saraus literários. A sua participação ativa na vida boémia de Lisboa é um aspeto marcante da sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Pedro Kilkerry faleceu em Lisboa, deixando um legado de obras que continuam a ser apreciadas pela sua originalidade e pelo seu espírito crítico.