Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Manuel Bandeira
Elegia para Rui Ribeiro Couto
Meu caro Rui Ribeiro Couto, a mocidade
Promete mais que dá. Sonhamos se dormimos,
E sonhamos quando acordados. Altos cimos
Da aspiração, que em torno vê só a imensidade!
Assim, amigo, foi você; assim eu fui.
Mas terminada a mocidade, o sonho rui?
Não, não rui. Pois o sonho, amigo, não é cousa
Feita de pedra e cal: o sonho é cousa fluida.
Enquanto dura a mocidade, que não cuida
Senão de se gastar, nem pára, nem repousa,
Vai de despenhadeiro a outro despenhadeiro.
Mas com o tempo serena e flui como um ribeiro.
Um dia as ilusões de Vitorino Glória
Se terão dissipado. Em cada nervo e músculo
Sentirá ele, na doçura do crepúsculo,
O que houve de melhor na sua louca história.
Apaziguado há de sorrir ao sonho roto,
E encontrará, dentro em si mesmo, o pouso, o couto.
Promete mais que dá. Sonhamos se dormimos,
E sonhamos quando acordados. Altos cimos
Da aspiração, que em torno vê só a imensidade!
Assim, amigo, foi você; assim eu fui.
Mas terminada a mocidade, o sonho rui?
Não, não rui. Pois o sonho, amigo, não é cousa
Feita de pedra e cal: o sonho é cousa fluida.
Enquanto dura a mocidade, que não cuida
Senão de se gastar, nem pára, nem repousa,
Vai de despenhadeiro a outro despenhadeiro.
Mas com o tempo serena e flui como um ribeiro.
Um dia as ilusões de Vitorino Glória
Se terão dissipado. Em cada nervo e músculo
Sentirá ele, na doçura do crepúsculo,
O que houve de melhor na sua louca história.
Apaziguado há de sorrir ao sonho roto,
E encontrará, dentro em si mesmo, o pouso, o couto.
883
Manuel Bandeira
Poema do Mais Triste Maio
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam,
E os versos que me vêm, vêm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam,
E os versos que me vêm, vêm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
1 405
Manuel Bandeira
Vontade de Morrer
Não é que não me fales aos sentidos,
À inteligência, o instinto, o coração:
Falas demais até, e com tal suasão,
Que para não te ouvir selo os ouvidos.
Não é que sinta gastos e abolidos
Força e gosto de amar, nem haja a mão,
Na dos anos penosa sucessão,
Desaprendido os jogos aprendidos.
E ainda que tudo em mim murchado houvera,
Teu olhar saberia, senão quando,
Tudo alertar em nova primavera.
Sem ambições de amor ou de poder,
Nada peço nem quero e — entre nós —, ando
Com uma grande vontade de morrer.
CANÇÃO PARA A MINHA MORTE
Bem que filho do Norte
Não sou bravo nem forte.
Mas, como a vida amei
Quero te amar, ó morte,
— Minha morte, pesar
Que não te escolherei.
Do amor tive na vida
Quanto amor pode dar:
Amei não sendo amado,
E sendo amado, amei.
Morte, em ti quero agora
Esquecer que na vida
Não fiz senão amar.
Sei que é grande maçada
Morrer mas morrerei
— Quando fores servida —
Sem maiores saudades
Desta madrasta vida,
Que, todavia, amei.
À inteligência, o instinto, o coração:
Falas demais até, e com tal suasão,
Que para não te ouvir selo os ouvidos.
Não é que sinta gastos e abolidos
Força e gosto de amar, nem haja a mão,
Na dos anos penosa sucessão,
Desaprendido os jogos aprendidos.
E ainda que tudo em mim murchado houvera,
Teu olhar saberia, senão quando,
Tudo alertar em nova primavera.
Sem ambições de amor ou de poder,
Nada peço nem quero e — entre nós —, ando
Com uma grande vontade de morrer.
CANÇÃO PARA A MINHA MORTE
Bem que filho do Norte
Não sou bravo nem forte.
Mas, como a vida amei
Quero te amar, ó morte,
— Minha morte, pesar
Que não te escolherei.
Do amor tive na vida
Quanto amor pode dar:
Amei não sendo amado,
E sendo amado, amei.
Morte, em ti quero agora
Esquecer que na vida
Não fiz senão amar.
Sei que é grande maçada
Morrer mas morrerei
— Quando fores servida —
Sem maiores saudades
Desta madrasta vida,
Que, todavia, amei.
1 648
Manuel Bandeira
Passeio em São Paulo
Settembre. Andiamo. E tempo di migrare.
A rainha, em São paulo, chama-me.
É agora Maria Cacilda Stuart
E fala com sotaque voluntarioso,
Não paulista nem catarinense:
Acento beckeriano (com ck, não cqu),
Que suscita infartos de alma,
Tão imperativos quanto os de miocárdio.
Saio do hotel com quatro olhos,
— Dois do presente,
Dois do passado.
Anhangabaú que já não é dos suicídios passionais!
O Hotel Esplanada virou catacumba.
Enfim a Rua Direita!
A minha Rua Direita:
Que saudades tinha dela!
Ainda existe a Casa Kosmos, mas
Não tem impermeáveis em liquidação.
Praça Antônio Prado, onde
Tudo é novo, salvo aquela meia dúzia de sobradinhos.
Montanha-russa da Avenida de São João!
O anjo cor-de-rosa não é mais cor-de-rosa:
O tempo patinou-o de negro.
Almoço com Di,
Que hoje é Emiliano di Cavalcanti.
Volto ao hotel pelo Anhangabaú.
Onde as Juvenilidades auriverdes? Onde
A passiflora? o espanto? a loucura? o desejo?
Ubi sunt?
Ubi sum?
— Obrigado, Mário, pela tua companhia.
A rainha, em São paulo, chama-me.
É agora Maria Cacilda Stuart
E fala com sotaque voluntarioso,
Não paulista nem catarinense:
Acento beckeriano (com ck, não cqu),
Que suscita infartos de alma,
Tão imperativos quanto os de miocárdio.
Saio do hotel com quatro olhos,
— Dois do presente,
Dois do passado.
Anhangabaú que já não é dos suicídios passionais!
O Hotel Esplanada virou catacumba.
Enfim a Rua Direita!
A minha Rua Direita:
Que saudades tinha dela!
Ainda existe a Casa Kosmos, mas
Não tem impermeáveis em liquidação.
Praça Antônio Prado, onde
Tudo é novo, salvo aquela meia dúzia de sobradinhos.
Montanha-russa da Avenida de São João!
O anjo cor-de-rosa não é mais cor-de-rosa:
O tempo patinou-o de negro.
Almoço com Di,
Que hoje é Emiliano di Cavalcanti.
Volto ao hotel pelo Anhangabaú.
Onde as Juvenilidades auriverdes? Onde
A passiflora? o espanto? a loucura? o desejo?
Ubi sunt?
Ubi sum?
— Obrigado, Mário, pela tua companhia.
1 186
Manuel Bandeira
Paráfrase de Ronsard
Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.
Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.
Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...
Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.
Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.
Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...
Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
1 301
Marina Colasanti
Todo campo de trigo
Cheguei tarde demais
o trigo foi ceifado
e esta estrada navega
em campos glabros
doces dorsos leoninos
espraiados sobre a falsa savana.
Todo campo de trigo
é o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em qualquer tempo
pássaros e papoulas junto aos talos
fugir de asas
filas de formigas
e o serralhar dos grilos sol adentro.
Todo campo de trigo é
o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em outros corpos.
E a carícia de pluma das espigas
o apartar-se das hastes contra o peito
o fino farfalhar daqueles campos
que atravessei com passos de menina
chegam-me intactos
dos trigais despidos
que cruzo agora
sem sair do carro.
Ravello, 2001
o trigo foi ceifado
e esta estrada navega
em campos glabros
doces dorsos leoninos
espraiados sobre a falsa savana.
Todo campo de trigo
é o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em qualquer tempo
pássaros e papoulas junto aos talos
fugir de asas
filas de formigas
e o serralhar dos grilos sol adentro.
Todo campo de trigo é
o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em outros corpos.
E a carícia de pluma das espigas
o apartar-se das hastes contra o peito
o fino farfalhar daqueles campos
que atravessei com passos de menina
chegam-me intactos
dos trigais despidos
que cruzo agora
sem sair do carro.
Ravello, 2001
1 139
Manuel Bandeira
Tempo-será
A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
2 055
Marina Colasanti
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 122
Marina Colasanti
Tempo afora, morte adentro
Gordas como repolhos
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
966
Marina Colasanti
Dois talhos de luz
Na taça de vidro
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
1 124
Marina Colasanti
De quem hoje penso
Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
1 100
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 276
Marina Colasanti
Respiram à noite
À noite
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 029
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 072
Marina Colasanti
Tive um rosto
Tive um rosto
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
1 515
Marina Colasanti
Nunca acreditando
Naquele ano de mil novecentos e noventa e nove
previa-se o fim do mundo para agosto
dia onze quarta-feira.
Não se organiza um fim de mundo
de um dia para o outro
nem mesmo o fim
de um insignificante mundo
como o nosso.
É de se crer que há muito
houvesse sido posta em movimento
a engrenagem fatal que
dente a dente
nos traria o desfecho.
E no entanto
ainda no dia nove
estávamos reunidos em congresso
pérolas e gravatas no pescoço
corpos cobertos por escuros trajes
vivos já presumidamente mortos discutindo
atrás da mesa com devidas flores
projectos para o próximo milénio.
previa-se o fim do mundo para agosto
dia onze quarta-feira.
Não se organiza um fim de mundo
de um dia para o outro
nem mesmo o fim
de um insignificante mundo
como o nosso.
É de se crer que há muito
houvesse sido posta em movimento
a engrenagem fatal que
dente a dente
nos traria o desfecho.
E no entanto
ainda no dia nove
estávamos reunidos em congresso
pérolas e gravatas no pescoço
corpos cobertos por escuros trajes
vivos já presumidamente mortos discutindo
atrás da mesa com devidas flores
projectos para o próximo milénio.
968
Marina Colasanti
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
990
Marina Colasanti
DUAS ALÇAS DE COURO
Íamos a Bruges e a morte nos deteve
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
501
Marina Colasanti
DIA NÃO PASSA SEM
Há trinta anos decido
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
1 092
Allen Ginsberg
O retorno de Kral Majales
Nestas bodas de prata muito cabelo se foi da minha cabeça e eu sou o Rei de Maio
E entretanto eu sou o Rei de Maio meus uivos e proclamações atualmente estão expostos pelo FCC
nas ondas elétricas do ar da América das 6 da manhã à meia-noite
Então Rei de Maio eu retorno pelo do Céu voando para reclamar minha coroa de papel
E eu sou o Rei de Maio com alta pressão sangüínea, diabete, gota, paralisia facial, pedra nos rins e calmos óculos de grau
E visto a coroa pirada da não ignorância da não sabedoria e mais ainda do não medo da não
esperança na gravata capitalista picada e nos macacões comunistas
Sem rir da perda do planeta nos próximo cem anos
E eu sou o Rei de Maio que voltou com um diamante tão grande quanto o universo uma mente vazia
E eu sou o Rei de Maio carente de afeto bouzerant na primavera com uma débil prática de meditação
E eu sou Rei de Maio Professor de Inglês Com Boa Distinção do Brooklyn cantando
Tudo se foi tudo se foi tudo se foi demais tudo se foi céu-alto agora velha mente então Ah!
25 Abril de 1990
E entretanto eu sou o Rei de Maio meus uivos e proclamações atualmente estão expostos pelo FCC
nas ondas elétricas do ar da América das 6 da manhã à meia-noite
Então Rei de Maio eu retorno pelo do Céu voando para reclamar minha coroa de papel
E eu sou o Rei de Maio com alta pressão sangüínea, diabete, gota, paralisia facial, pedra nos rins e calmos óculos de grau
E visto a coroa pirada da não ignorância da não sabedoria e mais ainda do não medo da não
esperança na gravata capitalista picada e nos macacões comunistas
Sem rir da perda do planeta nos próximo cem anos
E eu sou o Rei de Maio que voltou com um diamante tão grande quanto o universo uma mente vazia
E eu sou o Rei de Maio carente de afeto bouzerant na primavera com uma débil prática de meditação
E eu sou Rei de Maio Professor de Inglês Com Boa Distinção do Brooklyn cantando
Tudo se foi tudo se foi tudo se foi demais tudo se foi céu-alto agora velha mente então Ah!
25 Abril de 1990
1 245
Marina Colasanti
Gardênias e um espelho
As cinco e vinte e cinco
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.
Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.
Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.
Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.
Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.
1 106
Allen Ginsberg
Crepúsculo “S.S. Azemour”
Enquanto a laranja luz-do-ocaso cai numa velha ideia
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
688
Marina Colasanti
PARA SEMPRE ATADOS
Há cento e vinte anos
no tapete da sala
o arco retesado ameaça
a gazela
o cavaleiro persa galopa
entre pavões
e as folhas de roseira se entrelaçam.
Há cento e vinte anos
uma pluma se dobra
no turbante
um chorão se debruça
sobre a água
e o leopardo entre lirios arma o salto.
Cento e vinte mil fios
feitos laçada
atam o dorso e o olhar
enfeixam verdes talos
retêm a flecha no arco
a garra no alto
a pluma no vento.
Entre trama e urdidura
as algemas dos nós
jamais afrouxam.
Imóveis estão para sempre
o medo
a fuga
a morte
proibidos de alcançar
o seu destino.
Nesse tempo suspenso
apoio os pés.
no tapete da sala
o arco retesado ameaça
a gazela
o cavaleiro persa galopa
entre pavões
e as folhas de roseira se entrelaçam.
Há cento e vinte anos
uma pluma se dobra
no turbante
um chorão se debruça
sobre a água
e o leopardo entre lirios arma o salto.
Cento e vinte mil fios
feitos laçada
atam o dorso e o olhar
enfeixam verdes talos
retêm a flecha no arco
a garra no alto
a pluma no vento.
Entre trama e urdidura
as algemas dos nós
jamais afrouxam.
Imóveis estão para sempre
o medo
a fuga
a morte
proibidos de alcançar
o seu destino.
Nesse tempo suspenso
apoio os pés.
1 106
Allen Ginsberg
Meu triste Eu
Certas vezes quando meus olhos estão vermelhos
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
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