Poemas neste tema
Velhice e Envelhecimento
Martha Medeiros
pois não, senhor
pois não, senhor
disse assim que viu todo encurvado
com aquele paletó surrado
o cliente que acabara de entrar
estava sentado ali na praça, mocinho
nada fazia, só relembrava
quando surgiu uma dor de cabeça danada
resolvi lhe procurar
pois não, senhor
já consultou um doutor?
pior que a cabeça é o estômago
nossa, como incomoda
ainda ontem, contrariado
dormi todo contraído
pois não, senhor
sal de frutas, conta-gotas, antitérmico?
para complicar minha situação
tenho pedra nos rins
não disfarce, pode ter pena de mim
pois não, senhor
drágeas, xarope, injeção?
não vou nem lhe mostrar minha garganta
tão inflamada que mal posso lhe contar
todas as doenças que tenho
pois não, senhor
pomada, colírio, expectorante?
bem se vê que não tens experiência, rapaz
pois cá estou nesta farmácia
feliz de poder conversar
mas pra não dizer que lhe tomei o tempo
com licença, vou me pesar
disse assim que viu todo encurvado
com aquele paletó surrado
o cliente que acabara de entrar
estava sentado ali na praça, mocinho
nada fazia, só relembrava
quando surgiu uma dor de cabeça danada
resolvi lhe procurar
pois não, senhor
já consultou um doutor?
pior que a cabeça é o estômago
nossa, como incomoda
ainda ontem, contrariado
dormi todo contraído
pois não, senhor
sal de frutas, conta-gotas, antitérmico?
para complicar minha situação
tenho pedra nos rins
não disfarce, pode ter pena de mim
pois não, senhor
drágeas, xarope, injeção?
não vou nem lhe mostrar minha garganta
tão inflamada que mal posso lhe contar
todas as doenças que tenho
pois não, senhor
pomada, colírio, expectorante?
bem se vê que não tens experiência, rapaz
pois cá estou nesta farmácia
feliz de poder conversar
mas pra não dizer que lhe tomei o tempo
com licença, vou me pesar
1 102
Martha Medeiros
a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
1 093
Martha Medeiros
estarei em torno dos quarenta
estarei em torno dos quarenta
já terei passado pela Grécia e pelo Egito
e por algumas dificuldades
terei mais rugas, não morarei mais nesta rua
meus manuscritos estarão publicados
terei dois filhos e voltarei a ler os livros
que li na adolescência
terei um pouco mais de paciência, menos medo
da verdade e vou deixar de herança
um segredo enfim revelado
já terei passado pela Grécia e pelo Egito
e por algumas dificuldades
terei mais rugas, não morarei mais nesta rua
meus manuscritos estarão publicados
terei dois filhos e voltarei a ler os livros
que li na adolescência
terei um pouco mais de paciência, menos medo
da verdade e vou deixar de herança
um segredo enfim revelado
1 103
Sophia de Mello Breyner Andresen
Perca
Ainda há luz e já o rumor da tarde
me separa da sombra do pinhal
como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei
só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
me separa da sombra do pinhal
como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei
só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
1 218
Martha Medeiros
envelhecer, quem sabe
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão desastroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só
não seja assim tão desastroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só
1 189
Adélia Prado
Capela Sistina
Expropriando a palavra
do ‘r’ impossível à sua língua gentia,
o padre falava perturbado de pânico:
‘Eternidade! Palavra horível! Preparai-vos!’
Circundava-o e a nós no apertado redil
a própria mão de Deus.
Então o que fazer com pastos,
grinalda de nuvens sobre os morros,
neblina criando abismos,
inefáveis belezas entre véus?
Que palavras escuras eram aquelas
sopesadas de raios?
Eternidade? E a relva?
E repousar nela sem interdições,
sem ninguém me gritar: ô preguiçosa.
Céu de estrelas, sustos novos,
calores bons e esquisitos à vista de meninos.
As axilas da mãe me protegiam,
virtuoso amuleto o cinto com que o pai me batia.
Eles não iam morrer.
Estávamos seguros contra Deus e a eternidade horrível.
Até que dormiram pela última vez
e pela primeira vez eu fiquei velha.
Minha casamata agora,
as axilas do Deus de Michelangelo,
profundas, musculosas, bravas,
abundantes do suor de quem trabalha duro.
— Uma doutrina severa faz sofrer,
mas a ninguém perderá se for doutrina bela.
do ‘r’ impossível à sua língua gentia,
o padre falava perturbado de pânico:
‘Eternidade! Palavra horível! Preparai-vos!’
Circundava-o e a nós no apertado redil
a própria mão de Deus.
Então o que fazer com pastos,
grinalda de nuvens sobre os morros,
neblina criando abismos,
inefáveis belezas entre véus?
Que palavras escuras eram aquelas
sopesadas de raios?
Eternidade? E a relva?
E repousar nela sem interdições,
sem ninguém me gritar: ô preguiçosa.
Céu de estrelas, sustos novos,
calores bons e esquisitos à vista de meninos.
As axilas da mãe me protegiam,
virtuoso amuleto o cinto com que o pai me batia.
Eles não iam morrer.
Estávamos seguros contra Deus e a eternidade horrível.
Até que dormiram pela última vez
e pela primeira vez eu fiquei velha.
Minha casamata agora,
as axilas do Deus de Michelangelo,
profundas, musculosas, bravas,
abundantes do suor de quem trabalha duro.
— Uma doutrina severa faz sofrer,
mas a ninguém perderá se for doutrina bela.
835
Adélia Prado
Sala de Espera
A Bíblia, às vezes, não me leva em conta,
tão dura com minha gula.
Nem me adiantou envelhecer,
partes de mim seguem adolescentes,
estranhando privilégios.
Nunca me senti moradora,
a sensação é de exílio.
Criancinha de peito, essa já sabe,
seu olhar muda quando desmamada.
Tudo é igual a tudo,
mas por agora a unidade nos cega,
daí o múltiplo e suas distrações.
Deus sabe o que fez.
Mesmo com medo escrevo
que é 1º de julho de 2011.
Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.
Deus nunca me abandonou.
tão dura com minha gula.
Nem me adiantou envelhecer,
partes de mim seguem adolescentes,
estranhando privilégios.
Nunca me senti moradora,
a sensação é de exílio.
Criancinha de peito, essa já sabe,
seu olhar muda quando desmamada.
Tudo é igual a tudo,
mas por agora a unidade nos cega,
daí o múltiplo e suas distrações.
Deus sabe o que fez.
Mesmo com medo escrevo
que é 1º de julho de 2011.
Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.
Deus nunca me abandonou.
1 664
Adélia Prado
Mulheres
Ainda me restam coisas
mais potentes que hormônios.
Tenho um teclado e cito com elegância
Os Maias, A Civilização Asteca.
Falo alto, às vezes, para testar a potência,
afastar as línguas de trapo me avisando da velhice:
‘Como estás bem!’
Aos trinta anos tinha vergonha de parecer jovenzinha,
idade hoje em que as mulheres ainda maravilhosas se
[processam
ácidas e perfeitas como a legumes no vinagre.
De qualquer modo, se o mundo acabar
a culpa é nossa.
mais potentes que hormônios.
Tenho um teclado e cito com elegância
Os Maias, A Civilização Asteca.
Falo alto, às vezes, para testar a potência,
afastar as línguas de trapo me avisando da velhice:
‘Como estás bem!’
Aos trinta anos tinha vergonha de parecer jovenzinha,
idade hoje em que as mulheres ainda maravilhosas se
[processam
ácidas e perfeitas como a legumes no vinagre.
De qualquer modo, se o mundo acabar
a culpa é nossa.
2 169
Adélia Prado
Balido
Setenta anos redondos,
assim não se quebra o verso.
Na verdade tenho mais.
E então?
Respeito me insulta,
repele fantasias de rapto,
namoros no jardim cheirando a malva.
Quero um paranormal a me ensinar piano,
Consuelo dá aulas, mas seu toque é um martelo
e eu venero pianos.
Mãe não rima com nada,
nem velha,
só aparece telha, ovelha, orelha,
nada que preste. Cansei.
Tem um senhor distinto
querendo arrasar meu ego.
Com certeza minto.
Volta e meia estou perplexa
e toda rima que achei é circunflexa.
assim não se quebra o verso.
Na verdade tenho mais.
E então?
Respeito me insulta,
repele fantasias de rapto,
namoros no jardim cheirando a malva.
Quero um paranormal a me ensinar piano,
Consuelo dá aulas, mas seu toque é um martelo
e eu venero pianos.
Mãe não rima com nada,
nem velha,
só aparece telha, ovelha, orelha,
nada que preste. Cansei.
Tem um senhor distinto
querendo arrasar meu ego.
Com certeza minto.
Volta e meia estou perplexa
e toda rima que achei é circunflexa.
1 119
Adélia Prado
Mais Potente Que Hormônios
Falei sem me dar conta
de que falava coisa teosófica:
Tudo que eu peço Deus me dá.
Desde sempre vivi na eternidade.
Poeta velho é como o Rei Davi,
donzelas são escolhidas
pra lhe aquecer os ossos.
Todas o querem, ainda que, incendiadas,
só lhe restem palavras.
de que falava coisa teosófica:
Tudo que eu peço Deus me dá.
Desde sempre vivi na eternidade.
Poeta velho é como o Rei Davi,
donzelas são escolhidas
pra lhe aquecer os ossos.
Todas o querem, ainda que, incendiadas,
só lhe restem palavras.
1 117
Adélia Prado
Tenda E Cimitarra
O amor de Mahmoud
me põe mal-acostumada.
Corro o perigo de me deitar na preguiça,
querer comida na boca.
Meu amor por ele é sincero
mas muito judiador:
Tem Nossa Senhora no seu terra, benzinho?
Tem borboletas lá?
Quero comprar coisas no bazar de vocês,
pechinchar por sinais,
trocar simpatias com o turco maravilhoso
me olhando fixo e escuro
de tanta paixão por mim.
Mahmoud cerra os dentes de raiva,
cospe espadas em curva feito lua e
mesmo delicado me morde,
grunhindo na língua dele
uns belos sons que não entendo.
Mahmoud, nosso amor está prestes
a ficar conjugal, agora estou segura
de que nunca vais ver que envelheci.
me põe mal-acostumada.
Corro o perigo de me deitar na preguiça,
querer comida na boca.
Meu amor por ele é sincero
mas muito judiador:
Tem Nossa Senhora no seu terra, benzinho?
Tem borboletas lá?
Quero comprar coisas no bazar de vocês,
pechinchar por sinais,
trocar simpatias com o turco maravilhoso
me olhando fixo e escuro
de tanta paixão por mim.
Mahmoud cerra os dentes de raiva,
cospe espadas em curva feito lua e
mesmo delicado me morde,
grunhindo na língua dele
uns belos sons que não entendo.
Mahmoud, nosso amor está prestes
a ficar conjugal, agora estou segura
de que nunca vais ver que envelheci.
1 024
Adélia Prado
Dádivas
Como boas senhoras brincam as marrecas,
falsas mofinas debicando nos filhos.
Ruflares, respingos, grasnares,
que bom estar no mundo
a esta hora do dia!
De maneira perfeita tudo é bom,
até mulheres boçais amam gerânios,
não se tem certeza de que vamos morrer,
velhas se consentem em suas vulvas,
agradecendo a Deus por seus maridos.
Até eu, pudica, arrisco: Ei, baby!
Meu corpo me ama e quer reciprocidade.
São os relógios
o mais obsoleto dos inventos.
falsas mofinas debicando nos filhos.
Ruflares, respingos, grasnares,
que bom estar no mundo
a esta hora do dia!
De maneira perfeita tudo é bom,
até mulheres boçais amam gerânios,
não se tem certeza de que vamos morrer,
velhas se consentem em suas vulvas,
agradecendo a Deus por seus maridos.
Até eu, pudica, arrisco: Ei, baby!
Meu corpo me ama e quer reciprocidade.
São os relógios
o mais obsoleto dos inventos.
1 106
Adélia Prado
Neurolinguística
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
1 542
Adélia Prado
A Sagrada Face
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
1 274
Adélia Prado
O Holocausto
Uns calores no corpo inauguraram-se,
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
1 257
Adélia Prado
Salve Rainha
A melancolia ameaça.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
1 214
Adélia Prado
Mais Uma Vez
Não quero mais amar Jonathan.
Estou cansada deste amor sem mimos,
destinado a tornar-se um amor de velhos.
Oh! nunca falei assim —
um amor de velhos.
Ainda bem que é mentira.
Mesmo que Jonathan me olvide
e esta canção desafine
como um bolero ruim,
permaneço querendo a bicicleta holandesa
e mais tarde a cripta gótica
pra nossos ossos dormirem.
Ó Jonathan,
não depende de você
que a cornucópia invisível jorre ouro.
Nem de mim.
Quero enfear o poema
pra te lançar meu desprezo,
em vão.
Escreve-o quem me dita as palavras,
escreve-o por minha mão.
Estou cansada deste amor sem mimos,
destinado a tornar-se um amor de velhos.
Oh! nunca falei assim —
um amor de velhos.
Ainda bem que é mentira.
Mesmo que Jonathan me olvide
e esta canção desafine
como um bolero ruim,
permaneço querendo a bicicleta holandesa
e mais tarde a cripta gótica
pra nossos ossos dormirem.
Ó Jonathan,
não depende de você
que a cornucópia invisível jorre ouro.
Nem de mim.
Quero enfear o poema
pra te lançar meu desprezo,
em vão.
Escreve-o quem me dita as palavras,
escreve-o por minha mão.
1 223
Adélia Prado
A Seduzida
Por causa de Jonathan
minha idade regride.
Por certo morrerei
se insistir em só amar,
sem comer nem dormir.
Amor e morte são casados
e moram no abismo trevoso.
Seus filhos,
o que se chama Felicitas
tem o apelido de Fel.
O centro da luz é escuro
do negrume de Deus,
é sombra espessa de dia,
de noite tudo reluz.
Comigo os séculos porfiam
na encarnação de Jesus.
minha idade regride.
Por certo morrerei
se insistir em só amar,
sem comer nem dormir.
Amor e morte são casados
e moram no abismo trevoso.
Seus filhos,
o que se chama Felicitas
tem o apelido de Fel.
O centro da luz é escuro
do negrume de Deus,
é sombra espessa de dia,
de noite tudo reluz.
Comigo os séculos porfiam
na encarnação de Jesus.
1 157
Adélia Prado
O Corpo Humano
Quem me socorre é Deus e toda a corte celeste
com seus anjos e santos.
Uma sensação que tive esfumou-se, ia causar espanto,
tão insolitamente poética afigurava-se.
Tudo é por causa da morte, a mágica,
a forma provençal el corazón,
a mão desobturando o peito de seus ossos
e pinçando o que em mim é pura dor,
coração.
Ninguém entenderá bem o que digo
e é bom que seja assim pra que os poemas não
[desapareçam
e se façam necessários como o ar.
A danação seduz,
chegam a favos de mel os seus apelos.
Desminto quem disser: ah, os quintais de Minas, tão
[pacíficos!
porque neles sofri coisas que, com o auxílio de Deus,
nunca direi.
Livra-me, Senhor, da memória do pecado em meu
[espírito.
Lava-me com o hissopo e ficarei mais pura do que a neve.
Embora ainda não seja santa de levitar
achei no escuro a bolsa de água quente,
pode dormir confortado o meu doente querido.
Pra quando o mundo acabar, espero a vida feliz,
o corpo desta esperança, rosa pra sempre orvalhada.
Me dá alegria, Pai, eu só quero a alegria,
os olhos do moço em mim.
Me cansarei, redonda, casável,
capitulada entre massas e molhos,
sentirei fome e prazer,
ficarei velha e feliz
“porque meu auxílio está no nome do Senhor
que fez o céu e a terra”.
com seus anjos e santos.
Uma sensação que tive esfumou-se, ia causar espanto,
tão insolitamente poética afigurava-se.
Tudo é por causa da morte, a mágica,
a forma provençal el corazón,
a mão desobturando o peito de seus ossos
e pinçando o que em mim é pura dor,
coração.
Ninguém entenderá bem o que digo
e é bom que seja assim pra que os poemas não
[desapareçam
e se façam necessários como o ar.
A danação seduz,
chegam a favos de mel os seus apelos.
Desminto quem disser: ah, os quintais de Minas, tão
[pacíficos!
porque neles sofri coisas que, com o auxílio de Deus,
nunca direi.
Livra-me, Senhor, da memória do pecado em meu
[espírito.
Lava-me com o hissopo e ficarei mais pura do que a neve.
Embora ainda não seja santa de levitar
achei no escuro a bolsa de água quente,
pode dormir confortado o meu doente querido.
Pra quando o mundo acabar, espero a vida feliz,
o corpo desta esperança, rosa pra sempre orvalhada.
Me dá alegria, Pai, eu só quero a alegria,
os olhos do moço em mim.
Me cansarei, redonda, casável,
capitulada entre massas e molhos,
sentirei fome e prazer,
ficarei velha e feliz
“porque meu auxílio está no nome do Senhor
que fez o céu e a terra”.
1 863
Adélia Prado
Dolores
Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescidos do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
nem tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência...”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objeto de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos
[tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas
[dignas
não recusam casamento, antes acham o sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no
[cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
sofri três tipos de medo
acrescidos do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
nem tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência...”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objeto de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos
[tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas
[dignas
não recusam casamento, antes acham o sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no
[cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
1 867
Adélia Prado
Canto Eucarístico
Na fila da comunhão percebo à minha frente uma velha,
a mulher que há muitos anos crucificou minha vida,
por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços
[diante de mim:
‘juro pelo Magnificat que ela me tentou até eu cair,
peço perdão, por alma de meu pai morto,
pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela
[vez só’.
Coisas atrozes aconteceram.
Até tia Cininha, que morava longe,
deu de aparecer na volta do dia.
Conversávamos a portas fechadas,
ela com um ar no rosto que eu ainda não vira,
zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.
Houve punhos fechados, observações científicas
sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecia do
[vidro,
sobre como pode um homem, num só dia,
trocar duas camisas limpas.
Irritação, impertinência,
uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo,
uma alegria — que chamei assim à falta de outro nome —
invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas do
[diabo.
Rezei de modo terrível.
O perdão tinha espasmos de cobra malferida
e não queria perdoar,
era proparoxítono, um perdão grifado,
que se avisava perdão.
‘Olha, filha, aquela mulher que vai ali
não é digna do nosso cumprimento.’
‘Por que, mãe, não é dí-gui-na?’
‘Quando você crescer, entenderá.’
Senhor, eu não sou digno
que neste peito entreis,
mas vós, ó Deus benigno,
as faltas suprireis.
Na fila da comunhão cantamos, ambas.
A mulher velha e eu.
a mulher que há muitos anos crucificou minha vida,
por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços
[diante de mim:
‘juro pelo Magnificat que ela me tentou até eu cair,
peço perdão, por alma de meu pai morto,
pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela
[vez só’.
Coisas atrozes aconteceram.
Até tia Cininha, que morava longe,
deu de aparecer na volta do dia.
Conversávamos a portas fechadas,
ela com um ar no rosto que eu ainda não vira,
zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.
Houve punhos fechados, observações científicas
sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecia do
[vidro,
sobre como pode um homem, num só dia,
trocar duas camisas limpas.
Irritação, impertinência,
uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo,
uma alegria — que chamei assim à falta de outro nome —
invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas do
[diabo.
Rezei de modo terrível.
O perdão tinha espasmos de cobra malferida
e não queria perdoar,
era proparoxítono, um perdão grifado,
que se avisava perdão.
‘Olha, filha, aquela mulher que vai ali
não é digna do nosso cumprimento.’
‘Por que, mãe, não é dí-gui-na?’
‘Quando você crescer, entenderá.’
Senhor, eu não sou digno
que neste peito entreis,
mas vós, ó Deus benigno,
as faltas suprireis.
Na fila da comunhão cantamos, ambas.
A mulher velha e eu.
1 283
Adélia Prado
Flores
A boa-noite floriu suas flores grandes,
parecendo saia branca.
Se eu tocasse um piano elas dançavam.
Fica tão bom o mundo assim com elas,
que nem me desprezo por querer um marido.
Perfumam à noite.
A gaita de um menino que nunca morreu
toca erradinho e doce.
Eu cumpro alegremente minhas obrigações paroquiais
e não canso de esperar;
mais hoje, mais amanhã, qualquer coisa esplêndida
[acontece:
as cinco chagas, o disco voador, o poeta com seu cavalo
relinchando na minha porta.
Desejava tanto tomar bênção de pai e mãe,
juntar uns pios, umas nesgas de tarde,
um balançado de tudo que balança no vento
e tocar na flauta. É tão bom
que nem ligo que Deus não me conceda
ser bonita e jovem
— um dos desejos mais fundos da minha alma.
“O Espírito de Deus pairava sobre as águas...”
Sobre o meu, pairam estas flores
e sou mais forte que o tempo.
parecendo saia branca.
Se eu tocasse um piano elas dançavam.
Fica tão bom o mundo assim com elas,
que nem me desprezo por querer um marido.
Perfumam à noite.
A gaita de um menino que nunca morreu
toca erradinho e doce.
Eu cumpro alegremente minhas obrigações paroquiais
e não canso de esperar;
mais hoje, mais amanhã, qualquer coisa esplêndida
[acontece:
as cinco chagas, o disco voador, o poeta com seu cavalo
relinchando na minha porta.
Desejava tanto tomar bênção de pai e mãe,
juntar uns pios, umas nesgas de tarde,
um balançado de tudo que balança no vento
e tocar na flauta. É tão bom
que nem ligo que Deus não me conceda
ser bonita e jovem
— um dos desejos mais fundos da minha alma.
“O Espírito de Deus pairava sobre as águas...”
Sobre o meu, pairam estas flores
e sou mais forte que o tempo.
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Adélia Prado
A Serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
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Adélia Prado
Disritmia
Os velhos cospem sem nenhuma destreza
e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio.
O poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos, as três vezes por dia,
feito um monge com seu livro de horas.
A escova ficou velha e não penteia.
Neste exato momento o que interessa
são os cabelos desembaraçados.
Entre as pernas geramos e sobre isso
se falará até o fim sem que muitos entendam:
erótico é a alma.
Se quiser, ponho agora a ária na quarta corda,
pra me sentir clemente e apaziguada.
O que entendo de Deus é sua ira,
não tenho outra maneira de dizer.
As bolas contra a parede me desgostam,
mas os meninos riem satisfeitos.
Tarde como a de hoje, vi centenas.
Não sinto angústia, só uma espera ansiosa.
Alguma coisa vai acontecer.
Não existe o destino.
Quem é premente é Deus.
e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio.
O poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos, as três vezes por dia,
feito um monge com seu livro de horas.
A escova ficou velha e não penteia.
Neste exato momento o que interessa
são os cabelos desembaraçados.
Entre as pernas geramos e sobre isso
se falará até o fim sem que muitos entendam:
erótico é a alma.
Se quiser, ponho agora a ária na quarta corda,
pra me sentir clemente e apaziguada.
O que entendo de Deus é sua ira,
não tenho outra maneira de dizer.
As bolas contra a parede me desgostam,
mas os meninos riem satisfeitos.
Tarde como a de hoje, vi centenas.
Não sinto angústia, só uma espera ansiosa.
Alguma coisa vai acontecer.
Não existe o destino.
Quem é premente é Deus.
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