Temas
Poemas neste tema

Vento e Ar

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Esquiador

homenagem a Vespeira
Facilidade e neve.
E uns traços leves, duros:
a precisão de quem desliza e marca,
a claridade do acto solar e frio.

Rasgos no solo de lâmina,
a vertigem exacta
quase minuciosa:
o desenho branco:
a perspectiva infinita.

A força leve.
*
A felicidade é o sinal da vertigem.
Concêntrica.
Mesmo no salto mortal e vivo.
Braços abertos, silenciosamente, no ar.
E amando a terra
cai
e continua.
*
Deslizando sobre precipícios,
uma só linha o conduz
e o envolve,
uma superfície isenta para todos os traços.
Afável e mortal,
dura e fria,
renascente,
extremamente visível.

Um só entusiasmo.
*
Sem palavras, uma palavra o anima
ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
de uma bailarina.
Mas ele percorre um corpo
e de todos os sulcos
(branco no branco)
outro corpo nupcial descreve.
*
A cegueira branca não o vence.
Mesmo quando se abre a bandeira das cores.
A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da inalterável página que desvenda.
*
Uma força imóvel, aguda e vertiginosa e ténue
e a claridade das arestas percutidas,
uma habitação modelada aereamente
e, no entanto, sem sair da terra,
uma terra branca, uma terra de ar.
Terrear.
*
Corpo desnudo, aparentemente oferto.
Proposta indemne, mas acabada e hostil.
Propícia à tentativa abrupta,
ao salto que inicia
o espaço temperado: a animação do ar.
A pulsação vasta, lenta, infindável.
Um abraço volante no inviolável.
*
Não é a terra que dança nem o homem
mas a força clara lavrando
o nome branco, sulco a sulco,
livre afirmação exacta
de um corpo que descobre
e se propaga.
*
Assim a fonte cria-se da sede
e do salto.
A fonte nasce sob os pés: é um corpo sedoso.
A fonte nasce continuamente
do próprio pulso.
A terra não roda.
Descendo, subindo: não contorna um rosto.
Um rosto forma
de neve e sol.
*
Tudo é sonoro porque o silêncio se deslumbra
e todas as diferenças se ligam
individualmente puras.
Só ele afirma a luz que não lhe pertence.
A luz que lemos.
676
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sobre o Rosto da Terra

a Maria Alberta Menéres
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver

deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
1 307
Odysséas Elýtis

Odysséas Elýtis

Marinha das Rochas

Tens um gosto de tormenta nos lábios - Mas por onde andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro 
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste

Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.

Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.

Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso 
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste

De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
796