Poemas neste tema
Vento e Ar
António Ramos Rosa
Quem Pega o Sol do Osso E Lhe Dá a Boca?
Quem pega o sol do osso e lhe dá a boca?
Quem dá o seio firme à mão dilacerada?
Quem saceia de orvalho uma sede nocturna?
Quem abriu esta mão ao turbilhão do dia?
Pulsa a terra e o pulso torna-se o movimento
de fibras minerais ferindo a pedra feliz.
Mil filhos do sol, mil campos, mil abraços
restabelecem a torre, sua pureza rubra.
Ó sabor da alegria, ó sabor de argila!
Aqui é o campo da boca mais sedenta:
Liberta o arco da cabeça,
diz bom dia ao vento.
Quem dá o seio firme à mão dilacerada?
Quem saceia de orvalho uma sede nocturna?
Quem abriu esta mão ao turbilhão do dia?
Pulsa a terra e o pulso torna-se o movimento
de fibras minerais ferindo a pedra feliz.
Mil filhos do sol, mil campos, mil abraços
restabelecem a torre, sua pureza rubra.
Ó sabor da alegria, ó sabor de argila!
Aqui é o campo da boca mais sedenta:
Liberta o arco da cabeça,
diz bom dia ao vento.
1 062
António Ramos Rosa
Lanço Uma Linha Ao Vento Lanço Um Lado
Lanço uma linha ao vento lanço um lado
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
1 091
António Ramos Rosa
Não É Uma Imagem
Não é uma imagem, mas o fogo.
O fogo inteiro, chama do ventre.
Não é uma imagem, eu respiro
com todo o peito desta árvore
e me detenho neste nó.
Eu sou mais cego nesta luz
do que a madeira silenciosa.
Não é uma imagem, é o ar
e a luz que inunda o corpo inteiro.
Não é uma imagem, eu respiro
pelo pulso e pelo ouvido,
e a minha língua lambe o surdo
metal seco desta tarde.
Não é uma imagem, é uma crespa
e nua ramagem sobre o rosto.
Sou trespassado e vulnerado
pelo ar da luz, pela luz do ar.
O fogo inteiro, chama do ventre.
Não é uma imagem, eu respiro
com todo o peito desta árvore
e me detenho neste nó.
Eu sou mais cego nesta luz
do que a madeira silenciosa.
Não é uma imagem, é o ar
e a luz que inunda o corpo inteiro.
Não é uma imagem, eu respiro
pelo pulso e pelo ouvido,
e a minha língua lambe o surdo
metal seco desta tarde.
Não é uma imagem, é uma crespa
e nua ramagem sobre o rosto.
Sou trespassado e vulnerado
pelo ar da luz, pela luz do ar.
952
António Ramos Rosa
Creio Em Teu Silêncio, Na Tua Pele de Luz,
Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
1 079
António Ramos Rosa
O Caminho Que Se Abre E Que Se Perde
Quando te acariciamos,
quando nos acaricias,
água das folhas, ar
que nos respiras
— que água de caminho breve
em nós se perde?
Que clara palavra
abre o espaço
a este puro caminho
que nos precede?
*
Caminho branco,
sempre o teu solo se perde.
Caminho que se abre,
flecha viva.
Não deixa rastro.
Sua face perdida
é esta:
a sede do ar.
*
Quando o percorro — e ele me percorre
o corpo se renova.
Como o sei eu se um intervalo se forma
onde ele se move
e o seu começo é o seu fim?
Antes da palavra se inicia e acaba,
caminho branco,
prestes a começar sempre,
sem que nunca comece e sempre inicial.
Depois da palavra e antes dela,
flecha viva,
o teu espaço é mortal.
Escrever é perseguir
teu invisível voo
prolongando o túmulo do ar.
quando nos acaricias,
água das folhas, ar
que nos respiras
— que água de caminho breve
em nós se perde?
Que clara palavra
abre o espaço
a este puro caminho
que nos precede?
*
Caminho branco,
sempre o teu solo se perde.
Caminho que se abre,
flecha viva.
Não deixa rastro.
Sua face perdida
é esta:
a sede do ar.
*
Quando o percorro — e ele me percorre
o corpo se renova.
Como o sei eu se um intervalo se forma
onde ele se move
e o seu começo é o seu fim?
Antes da palavra se inicia e acaba,
caminho branco,
prestes a começar sempre,
sem que nunca comece e sempre inicial.
Depois da palavra e antes dela,
flecha viva,
o teu espaço é mortal.
Escrever é perseguir
teu invisível voo
prolongando o túmulo do ar.
1 081
António Ramos Rosa
Fronte Ou Limiar
Fronte ou limiar se tu respiras
o grande solo do dia,
limiar do ar onde o ar aflora
o ar no ar.
Uma só onda no papel, uma onda nua,
o solo do cimo,
o branco mar do ar.
Se te respiro, janela
aberta sobre o vazio fresco,
o ar da mesa clara
do dia,
percorro-o num voo de sol,
na roda branca do céu,
margem total rasgada de ar,
latitude do centro, largo em fuga.
Se te respiro, sou
o suporte nu do ar.
Breve, tão breve lâmina
à flor do papel, à flor da terra.
Uma madeira nova — boca e vela.
Um puro assomo de ar.
o grande solo do dia,
limiar do ar onde o ar aflora
o ar no ar.
Uma só onda no papel, uma onda nua,
o solo do cimo,
o branco mar do ar.
Se te respiro, janela
aberta sobre o vazio fresco,
o ar da mesa clara
do dia,
percorro-o num voo de sol,
na roda branca do céu,
margem total rasgada de ar,
latitude do centro, largo em fuga.
Se te respiro, sou
o suporte nu do ar.
Breve, tão breve lâmina
à flor do papel, à flor da terra.
Uma madeira nova — boca e vela.
Um puro assomo de ar.
1 053
António Ramos Rosa
Diz o Objecto E a Imagem Que Não Existe,
Diz o objecto e a imagem que não existe,
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
1 152
António Ramos Rosa
Na Distância Breve Insuperável
Na distância breve insuperável
em que a lâmpada
apenas de ar
é ar
uma ilha rodeada de ar
um corpo não imaginado
visto
na distância insuperável
ilha inabordável
o desejo que se apaga
e se acende
de ilha em ilha
e o ar único de todas
o ar das ilhas únicas
que no estio se acende
e é lâmpada
de ar
apenas de ar
na distância breve insuperável
o espaço
do desejo
onde o ar as reúne
o efémero ar que passa
entre ausência e presença
entre o ar e o ar
a boca que diz sim
ao ar comum
das ilhas reunidas e dispersas
pelas ruas
animal de estio e brisa
animal forte
e branco
do desejo nu
de uma
que dança clara e forte
nas suas ancas
de mulher
ó ilha de ar
rodeada por todos os lados de ar
e apenas ar
ó distância breve insuperável
margem do desejo
inabolível
a minha fronte atinge essa fronteira
e apenas bebe o ar
mas
o fogo se acende a cada passo
e o espaço nu
é já ardor
caminho do desejo
que atravessa o ar
e entre o corpo e o corpo
o corpo interior projecta
ar de um corpo
a um corpo de ar
próximo futuro
que arde de ser-não ser
e a sombra refresca
na fronte
de um segredo vão
de um ar de todos
e ninguém
e ao olhar nu vem
o ar mais livre
mais leve
em que a lâmpada
apenas de ar
é ar
uma ilha rodeada de ar
um corpo não imaginado
visto
na distância insuperável
ilha inabordável
o desejo que se apaga
e se acende
de ilha em ilha
e o ar único de todas
o ar das ilhas únicas
que no estio se acende
e é lâmpada
de ar
apenas de ar
na distância breve insuperável
o espaço
do desejo
onde o ar as reúne
o efémero ar que passa
entre ausência e presença
entre o ar e o ar
a boca que diz sim
ao ar comum
das ilhas reunidas e dispersas
pelas ruas
animal de estio e brisa
animal forte
e branco
do desejo nu
de uma
que dança clara e forte
nas suas ancas
de mulher
ó ilha de ar
rodeada por todos os lados de ar
e apenas ar
ó distância breve insuperável
margem do desejo
inabolível
a minha fronte atinge essa fronteira
e apenas bebe o ar
mas
o fogo se acende a cada passo
e o espaço nu
é já ardor
caminho do desejo
que atravessa o ar
e entre o corpo e o corpo
o corpo interior projecta
ar de um corpo
a um corpo de ar
próximo futuro
que arde de ser-não ser
e a sombra refresca
na fronte
de um segredo vão
de um ar de todos
e ninguém
e ao olhar nu vem
o ar mais livre
mais leve
1 041
António Ramos Rosa
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
1 086
António Ramos Rosa
Maio de 68
a Eduardo Prado Coelho
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
665
António Ramos Rosa
Dia de Verão
Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
1 007
António Ramos Rosa
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
1 007
António Ramos Rosa
Percursos
Atravesso a rua com o gosto do ar na língua, o silencioso pousar que me ergue do solo até à copa das árvores, o mar respirado, a sede entre o olhar e o tronco — estendo a mão para a terra, o ar: para rir entre as folhas na rua do ar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
1 202
António Ramos Rosa
A Língua Árida
Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
1 039
António Ramos Rosa
Sol de Inverno
Os joelhos gelam ao vento alto das ervas.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
1 072
António Ramos Rosa
Nova Estação
Toda a gente passou a cumprimentar-nos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.
É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.
A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.
Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.
O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhantes apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.
É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.
A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.
Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.
O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhantes apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.
1 041
António Ramos Rosa
Configurações
A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
1 020
António Ramos Rosa
O Esquiador
homenagem a Vespeira
Facilidade e neve.
E uns traços leves, duros:
a precisão de quem desliza e marca,
a claridade do acto solar e frio.
Rasgos no solo de lâmina,
a vertigem exacta
quase minuciosa:
o desenho branco:
a perspectiva infinita.
A força leve.
*
A felicidade é o sinal da vertigem.
Concêntrica.
Mesmo no salto mortal e vivo.
Braços abertos, silenciosamente, no ar.
E amando a terra
cai
e continua.
*
Deslizando sobre precipícios,
uma só linha o conduz
e o envolve,
uma superfície isenta para todos os traços.
Afável e mortal,
dura e fria,
renascente,
extremamente visível.
Um só entusiasmo.
*
Sem palavras, uma palavra o anima
ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
de uma bailarina.
Mas ele percorre um corpo
e de todos os sulcos
(branco no branco)
outro corpo nupcial descreve.
*
A cegueira branca não o vence.
Mesmo quando se abre a bandeira das cores.
A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da inalterável página que desvenda.
*
Uma força imóvel, aguda e vertiginosa e ténue
e a claridade das arestas percutidas,
uma habitação modelada aereamente
e, no entanto, sem sair da terra,
uma terra branca, uma terra de ar.
Terrear.
*
Corpo desnudo, aparentemente oferto.
Proposta indemne, mas acabada e hostil.
Propícia à tentativa abrupta,
ao salto que inicia
o espaço temperado: a animação do ar.
A pulsação vasta, lenta, infindável.
Um abraço volante no inviolável.
*
Não é a terra que dança nem o homem
mas a força clara lavrando
o nome branco, sulco a sulco,
livre afirmação exacta
de um corpo que descobre
e se propaga.
*
Assim a fonte cria-se da sede
e do salto.
A fonte nasce sob os pés: é um corpo sedoso.
A fonte nasce continuamente
do próprio pulso.
A terra não roda.
Descendo, subindo: não contorna um rosto.
Um rosto forma
de neve e sol.
*
Tudo é sonoro porque o silêncio se deslumbra
e todas as diferenças se ligam
individualmente puras.
Só ele afirma a luz que não lhe pertence.
A luz que lemos.
Facilidade e neve.
E uns traços leves, duros:
a precisão de quem desliza e marca,
a claridade do acto solar e frio.
Rasgos no solo de lâmina,
a vertigem exacta
quase minuciosa:
o desenho branco:
a perspectiva infinita.
A força leve.
*
A felicidade é o sinal da vertigem.
Concêntrica.
Mesmo no salto mortal e vivo.
Braços abertos, silenciosamente, no ar.
E amando a terra
cai
e continua.
*
Deslizando sobre precipícios,
uma só linha o conduz
e o envolve,
uma superfície isenta para todos os traços.
Afável e mortal,
dura e fria,
renascente,
extremamente visível.
Um só entusiasmo.
*
Sem palavras, uma palavra o anima
ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
de uma bailarina.
Mas ele percorre um corpo
e de todos os sulcos
(branco no branco)
outro corpo nupcial descreve.
*
A cegueira branca não o vence.
Mesmo quando se abre a bandeira das cores.
A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da inalterável página que desvenda.
*
Uma força imóvel, aguda e vertiginosa e ténue
e a claridade das arestas percutidas,
uma habitação modelada aereamente
e, no entanto, sem sair da terra,
uma terra branca, uma terra de ar.
Terrear.
*
Corpo desnudo, aparentemente oferto.
Proposta indemne, mas acabada e hostil.
Propícia à tentativa abrupta,
ao salto que inicia
o espaço temperado: a animação do ar.
A pulsação vasta, lenta, infindável.
Um abraço volante no inviolável.
*
Não é a terra que dança nem o homem
mas a força clara lavrando
o nome branco, sulco a sulco,
livre afirmação exacta
de um corpo que descobre
e se propaga.
*
Assim a fonte cria-se da sede
e do salto.
A fonte nasce sob os pés: é um corpo sedoso.
A fonte nasce continuamente
do próprio pulso.
A terra não roda.
Descendo, subindo: não contorna um rosto.
Um rosto forma
de neve e sol.
*
Tudo é sonoro porque o silêncio se deslumbra
e todas as diferenças se ligam
individualmente puras.
Só ele afirma a luz que não lhe pertence.
A luz que lemos.
676
António Ramos Rosa
Contemplação
Tudo o que avança ou quer,
afirmação serena,
sobre as fachadas limpas
sem sombra, desoladas.
Igualdade sem normas,
tão larga lassitude,
um homem se eleva lentamente
frente às fachadas lisas.
Contemplada casa
entre verdes disfarces,
luz jovem, luz serena,
na estação recriada.
Um nome acorda o ar.
Instante outro me iguala
à esquecida sombra
bronzeada, desperta.
Regresso quase sem pálpebras,
primeiras folhas altas,
à luminosa vontade
sem esforço, à flor, atenta.
Abro os olhos ao vento.
O que me falta respiro,
o que não tenho sou
esquecidamente firme.
afirmação serena,
sobre as fachadas limpas
sem sombra, desoladas.
Igualdade sem normas,
tão larga lassitude,
um homem se eleva lentamente
frente às fachadas lisas.
Contemplada casa
entre verdes disfarces,
luz jovem, luz serena,
na estação recriada.
Um nome acorda o ar.
Instante outro me iguala
à esquecida sombra
bronzeada, desperta.
Regresso quase sem pálpebras,
primeiras folhas altas,
à luminosa vontade
sem esforço, à flor, atenta.
Abro os olhos ao vento.
O que me falta respiro,
o que não tenho sou
esquecidamente firme.
1 007
António Ramos Rosa
Zona Intermediária
A página presente, o edifício novo, a madeira leve, um perfume de vento.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
1 121
António Ramos Rosa
Algo Se Forma
Alguém escreve.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
1 029
António Ramos Rosa
Sobre o Rosto da Terra
a Maria Alberta Menéres
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver
deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver
deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
1 307
António Ramos Rosa
Sementes Livres
a Pedro Tamen
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
553
Odysséas Elýtis
Marinha das Rochas
Tens um gosto de tormenta nos lábios - Mas por onde andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste
Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.
Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.
Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste
De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste
Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.
Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.
Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste
De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
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