Poemas neste tema
Vento e Ar
Edmir Domingues
Soneto quase social
E eu tomei porque noite se fazia
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
550
Edmir Domingues
soneto XXXV - A rua do vento norte
Servos do rei, tomemos nossa barca,
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.
E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.
Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,
e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.
E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.
Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,
e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.
770
Edmir Domingues
Do sal aos tabuleiros de xadrez
Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
680
Edmir Domingues
Onde se põe na lua as mágoas íntimas
Quando as asas do espanto, desfolhadas
sobre os muros do sono e do silêncio
foscas de tanto musgo que as invade
imergirem das pétalas do tempo,
noite, profunda e vasta como o sono,
como a névoa do chão, vasta e profunda,
se alongue sobre a prata dessas ondas
que guardam nossa fronte e nosso mundo.
E os sentimentos mudos, no silêncio,
tornando para o frêmito das salas,
sejam novos por fim, quando os idênticos
forem mortos da tanta antiguidade.
Noite de vozes roucas, precipícios
disfarçados no chão que não se espera,
onde deverá haver leve carícia
e mãos de carne em vez de mãos de pedra.
A luz resvala e é pouca, das esquinas
vem um vento sem cores e sem ritmos,
o junco nos espera e nós não vamos
quando nada nos prende à nossa cama.
Das nossas mãos, inermes da procura,
o sentido do tempo se desprende,
das viagens não viajadas por descuido
vêm tímidos fantasmas nesse vento,
e em tudo noite, e vasta e sem limite,
sem piscina e sem Lua e sem cantiga,
que o sentido do tempo se desprende
quando faltam sussurro e confidência.
Quando fosse vedado dizer Lua
nós diríamos Lua, com veemência,
que em mundo de aparência a face pura
(nos lagos em que dorme o nosso sangue)
Lua será na treva, sobre as águas,
o refúgio do parco pensamento,
cansado da suposta eternidade
que não resiste ao sopro inconsistente.
771
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
785
Edmir Domingues
A brisa terral
Baseado em crônica de Rubem Braga
Congelemos sentimentos.
Joaquina me atormenta,
e eu que não posso guardá-la!
e eu que não quero perdê-la!
A solução: congelemos.
Congelemos promissórias
(também a literatura)
a voz mansa da cantora
e o vento manso do mar .
Quando, insensato, esse vento
percorre-me a casa toda
onde estou posto em sossego;
vem falar-me de viagens,
fabulosas aventuras,
me conta o mito distante
da virgem nua do Báltico,
me conta no meu ouvido
o murmúrio da sereia
que está lânguida de amor
numa pequena ilha grega,
ai de mim, que ela me espera,
que me espera e eu lá não vou.
Feito o que, pela janela
sai levando-me a fumaça
do cigarro que eu fumava
e a paz que a minh alma tinha.
Fico imóvel, cai a noite,
chega-me o vento da terra,
me diz que em alguma curva
de qualquer obscuro rio
dos confins deste país,
um galho de ingá repousa
pendurado no remanso;
junto o mugido de um boi
o ranger de uma porteira
o pio triste das aves
mulheres fazendo esteiras
de quem as faces não vejo;
são escuras, vejo apenas
cabelos negros e lisos
elas falam muito baixo
das suas vozes me chega
apenas leve murmúrio.
Homens há, consertam redes,
tiram água da cacimba.
Então toca o telefone
e eis que estou no apartamento
presa de tempo e de espaço;
preciso por a gravata
e o paletó e sair.
Urge tomar providências
enquanto pessoas outras
preferem tomar maconha.
De eficiência me visto
envio flores às damas
parabéns aos cavalheiros
para sentir-me distinto.
Mas quando o garçon pergunta
o que desejo beber
eu minto, pedindo uísque
quando uisque não queria.
Queria aquela caneca
azul, de flores vermelhas,
apanhar na talha escura
a água que há na cacimba.
Não congelemos mais nada
e nada reestruturemos.
Pois há uma leve brisa
com cheiro quente de mato.
Há grilos na noite. E a vida
é uma coisa natural.
610
Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
874
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
1 282
Edmir Domingues
Uma viagem de volta do país de Caruaru
Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.
Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.
Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.
Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.
Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.
Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.
Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.
Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.
Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.
Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.
Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.
Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.
Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.
Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.
Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
736
Nuno Júdice
A caminho da feira
Deito à sorte a sorte que se abre
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
926
Ruy Belo
Na colina do instante
Há um cheiro de absinto quando os capricórnios
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 17 | Editorial Presença Lda., 1981
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 17 | Editorial Presença Lda., 1981
1 274
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sunion
Na nudez da luz (cujo exterior é o interior)
Na nudez do vento (que a si próprio se rodeia)
Na nudez marinha (duplicada pelo sal)
Uma a uma são ditas as colunas de Sunion
Na nudez do vento (que a si próprio se rodeia)
Na nudez marinha (duplicada pelo sal)
Uma a uma são ditas as colunas de Sunion
2 440
Sophia de Mello Breyner Andresen
Divaga Entre a Folhagem Perfumada
Divaga entre a folhagem perfumada
E adormece nas brisas embalada.
Aos lagos mostra a sua face nua,
E vai dançar nos palcos vazios da Lua.
Pálida, de reflexo em reflexo desliza,
Não se curvam sequer as ervas que ela pisa.
É ela quem baloiça os lânguidos pinheiros,
Quem enrola em luar as suas mãos
E depois as espalha brancas nos canteiros.
E adormece nas brisas embalada.
Aos lagos mostra a sua face nua,
E vai dançar nos palcos vazios da Lua.
Pálida, de reflexo em reflexo desliza,
Não se curvam sequer as ervas que ela pisa.
É ela quem baloiça os lânguidos pinheiros,
Quem enrola em luar as suas mãos
E depois as espalha brancas nos canteiros.
1 925
Nuno Júdice
Soneto 1
Nos horizontes azulados onde gemem os pássaros
há um murmúrio de mastros, longo como o pescoço
de uma estátua de virgem. Trá-lo até mim o vento
e bebo-o de um trago, numa secura ardente de poço.
No cais onde tu, sombra ausente sob os painéis
litorais, bocejas um tédio de suis, estendo os braços,
ergo-me num só pé, e todo o corpo se levanta
no êxtase dos guindastes, numa fuga de batéis.
A ilha está próxima. Desembarco. O promontório
vago acolhe o barco numa vibração de lago. Corro
entre alas de gaivotas, perdido do meu próprio
corpo; e caio em mim. Esqueci-me das malas;
deixei-me no molhe. Quem sou? Dos céus o eco inglório
me persegue. Nas valas gritam deuses por socorro.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 50 | Na regra do jogo, 1982
há um murmúrio de mastros, longo como o pescoço
de uma estátua de virgem. Trá-lo até mim o vento
e bebo-o de um trago, numa secura ardente de poço.
No cais onde tu, sombra ausente sob os painéis
litorais, bocejas um tédio de suis, estendo os braços,
ergo-me num só pé, e todo o corpo se levanta
no êxtase dos guindastes, numa fuga de batéis.
A ilha está próxima. Desembarco. O promontório
vago acolhe o barco numa vibração de lago. Corro
entre alas de gaivotas, perdido do meu próprio
corpo; e caio em mim. Esqueci-me das malas;
deixei-me no molhe. Quem sou? Dos céus o eco inglório
me persegue. Nas valas gritam deuses por socorro.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 50 | Na regra do jogo, 1982
1 074
Susana Thénon
Oração
Quando deixará a lua
de preferir a esses poucos
que tanto à meia-noite
como ao amanhecer
gritam seu ardor sem freio.
Quando será definitivo
o direito a sonhar
sem verificar números
papéis rasgados, sexos,
velocidade sem pressa do sangue.
Quando morrerá o céu
- seus castigos -
e o raio será um menino
entre as folhas.
Quando arderão os ventos
sepultados.
de preferir a esses poucos
que tanto à meia-noite
como ao amanhecer
gritam seu ardor sem freio.
Quando será definitivo
o direito a sonhar
sem verificar números
papéis rasgados, sexos,
velocidade sem pressa do sangue.
Quando morrerá o céu
- seus castigos -
e o raio será um menino
entre as folhas.
Quando arderão os ventos
sepultados.
747
Nuno Júdice
Passado
Passou o vento, passou o dia,
passou a noite e a manhã.
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;
passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;
passou a vida como se nada fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa sem demora,
e passou tudo a quem ficou;
e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.
Nuno Júdice | "Geometria Variável" | Publicações Dom Quixote, 2005
passou a noite e a manhã.
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;
passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;
passou a vida como se nada fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa sem demora,
e passou tudo a quem ficou;
e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.
Nuno Júdice | "Geometria Variável" | Publicações Dom Quixote, 2005
1 465
Al Berto
escuto o lamento
escuto o lamento das águas e os passos rápidos das crianças pelas dunas
os ventos varrem, ainda uivam em todas as frestas do Reino das Índias
Índias de fome, Índias de noite gelada
procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola, e as cobras nos valados do Rio da Moura
o sumo das amoras e o cheiro fresco do sabão...a memória envolve-se nos lençóis que secam estendidos ao sol
adivinho lugares distantes e sombrios, habitados pelo Último Cavaleiro dos Ventos, o Zé Babão... por andará o Cabecinha? e a Tia Clementina? e o Cisinato? e o Perna-Marota? e a Ti Carlota? e a Dentinho d'Ouro? e
em mim nada secou
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar...e no coração persistente das plantas
os ventos varrem, ainda uivam em todas as frestas do Reino das Índias
Índias de fome, Índias de noite gelada
procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola, e as cobras nos valados do Rio da Moura
o sumo das amoras e o cheiro fresco do sabão...a memória envolve-se nos lençóis que secam estendidos ao sol
adivinho lugares distantes e sombrios, habitados pelo Último Cavaleiro dos Ventos, o Zé Babão... por andará o Cabecinha? e a Tia Clementina? e o Cisinato? e o Perna-Marota? e a Ti Carlota? e a Dentinho d'Ouro? e
em mim nada secou
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar...e no coração persistente das plantas
1 840
Nuno Júdice
O amor eterno
E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
1 869
Fernando Pessoa
Deixa passar o vento
Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 711
Fernando Pessoa
Sopra de mais o vento
Sopra de mais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...
Talvez essa coisa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta coisa calma
Que me faz a alma vivida...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.
Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...
Talvez essa coisa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta coisa calma
Que me faz a alma vivida...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.
Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!
1 903
Fernando Pessoa
O luar parece que se torna mais álgido, mais branco,
O luar parece que se torna mais álgido, mais branco, mais morto, as sombras mais escondidas em si, mais negras, o silêncio maior. Um vento frio faz sussurrar os pinhais e casando-se com a algidez do luar (...) De vez em quando renasce, sussurra e passa, sussurrando. A estrada, ao luar, é luar até onde se perde, de repente, curvando, nas sombras que o pinheiral projecta no caminho.
1 483
Fernando Pessoa
III - O mar jaz; gemem em segredo os ventos [1]
O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
994
Fernando Pessoa
Ah, tudo é símbolo e analogia!
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
1 657
Fernando Pessoa
SECOND SIGHT
Whene'er thou dost undo
Thy dark, strange hair before the wind
And the wind takes it up and makes it woo
Tumult and violence in the way it sweeps
Along the air, mingling, unmingling, undefined
In the snake‑like madness it keeps.
Then I do know
That somewhere whence dreams come
And passions go,
Somewhere in that world contrary to this,
Yet landscaped, peopled as this is,
In a great southern sea
There is a storm and a hurled wreck
On rising rocks that cannot reck
For human misery.
The two things are but one.
Thy floating hair is that great ship undone
In a tossed, turbulent, dashed ocean.
Neither precedeth nor doth cause the other
Nor are the two as brother and brother,
But absolutely one, samely the same,
They have somehow an equal name
Where speech is of the essence of what is.
A real sight, like God's, should see the kiss
Of the wind through thy hair and the far storm
One thing, - yet two things because we see two
When we conceive them one, the double form
Coming to oneness in what we construe.
Therefore I grieve when thou letst thy hair take
The wind upon its long, thin, changing fingers,
For that sight of me that translates that to
The sterner meaning in what world I know
Only through what in me is not here awake, -
That sight of that mad wreck visibly lingers
And does in my imagination ache.
Alas! all things are linked, and we know not
Half the contents of our each casual thought.
We never see save one little dreamed bit
Of each feeling we have; we pass through it
Like rapid travellers that scarce can see
What they pass by and what they see see erringly.
What is the meaning of my writing this?
Nothing, save that this is,
I know not why, something I know and must
Utter, the purpose of it being with
That secret Being that made my body of dust
Bear my soul's ignored presence, and that breath
Of life that survives my each moment's death.
Thy dark, strange hair before the wind
And the wind takes it up and makes it woo
Tumult and violence in the way it sweeps
Along the air, mingling, unmingling, undefined
In the snake‑like madness it keeps.
Then I do know
That somewhere whence dreams come
And passions go,
Somewhere in that world contrary to this,
Yet landscaped, peopled as this is,
In a great southern sea
There is a storm and a hurled wreck
On rising rocks that cannot reck
For human misery.
The two things are but one.
Thy floating hair is that great ship undone
In a tossed, turbulent, dashed ocean.
Neither precedeth nor doth cause the other
Nor are the two as brother and brother,
But absolutely one, samely the same,
They have somehow an equal name
Where speech is of the essence of what is.
A real sight, like God's, should see the kiss
Of the wind through thy hair and the far storm
One thing, - yet two things because we see two
When we conceive them one, the double form
Coming to oneness in what we construe.
Therefore I grieve when thou letst thy hair take
The wind upon its long, thin, changing fingers,
For that sight of me that translates that to
The sterner meaning in what world I know
Only through what in me is not here awake, -
That sight of that mad wreck visibly lingers
And does in my imagination ache.
Alas! all things are linked, and we know not
Half the contents of our each casual thought.
We never see save one little dreamed bit
Of each feeling we have; we pass through it
Like rapid travellers that scarce can see
What they pass by and what they see see erringly.
What is the meaning of my writing this?
Nothing, save that this is,
I know not why, something I know and must
Utter, the purpose of it being with
That secret Being that made my body of dust
Bear my soul's ignored presence, and that breath
Of life that survives my each moment's death.
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