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Vento e Ar

Edmir Domingues

Edmir Domingues

A brisa terral


                                                              Baseado em crônica de Rubem Braga
Congelemos sentimentos.
Joaquina me atormenta,
e eu que não posso guardá-la!
e eu que não quero perdê-la!
A solução: congelemos.
Congelemos promissórias
(também a literatura)
a voz mansa da cantora
e o vento manso do mar .

Quando, insensato, esse vento
percorre-me a casa toda
onde estou posto em sossego;
vem falar-me de viagens,
fabulosas aventuras,
me conta o mito distante
da virgem nua do Báltico,
me conta no meu ouvido
o murmúrio da sereia
que está lânguida de amor
numa pequena ilha grega,
ai de mim, que ela me espera,
que me espera e eu lá não vou.

Feito o que, pela janela
sai levando-me a fumaça
do cigarro que eu fumava
e a paz que a minh alma tinha.

Fico imóvel, cai a noite,
chega-me o vento da terra,
me diz que em alguma curva
de qualquer obscuro rio
dos confins deste país,
um galho de ingá repousa
pendurado no remanso;
junto o mugido de um boi
o ranger de uma porteira
o pio triste das aves
mulheres fazendo esteiras
de quem as faces não vejo;
são escuras, vejo apenas
cabelos negros e lisos
elas falam muito baixo
das suas vozes me chega
apenas leve murmúrio.
Homens há, consertam redes,
tiram água da cacimba.

Então toca o telefone
e eis que estou no apartamento
presa de tempo e de espaço;
preciso por a gravata
e o paletó e sair.
Urge tomar providências
enquanto pessoas outras
preferem tomar maconha.

De eficiência me visto
envio flores às damas
parabéns aos cavalheiros
para sentir-me distinto.
Mas quando o garçon pergunta
o que desejo beber
eu minto, pedindo uísque
quando uisque não queria.
Queria aquela caneca
azul, de flores vermelhas,
apanhar na talha escura
a água que há na cacimba.

Não congelemos mais nada
e nada reestruturemos.

Pois há uma leve brisa
com cheiro quente de mato.
Há grilos na noite. E a vida
é uma coisa natural.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SECOND SIGHT

Whene'er thou dost undo
Thy dark, strange hair before the wind
And the wind takes it up and makes it woo
Tumult and violence in the way it sweeps
Along the air, mingling, unmingling, undefined
In the snake‑like madness it keeps.

Then I do know
That somewhere whence dreams come
And passions go,
Somewhere in that world contrary to this,
Yet landscaped, peopled as this is,
In a great southern sea
There is a storm and a hurled wreck
On rising rocks that cannot reck
For human misery.

The two things are but one.
Thy floating hair is that great ship undone
In a tossed, turbulent, dashed ocean.
Neither precedeth nor doth cause the other
Nor are the two as brother and brother,
But absolutely one, samely the same,
They have somehow an equal name
Where speech is of the essence of what is.

A real sight, like God's, should see the kiss
Of the wind through thy hair and the far storm
One thing, - ­yet two things because we see two
When we conceive them one, the double form
Coming to oneness in what we construe.

Therefore I grieve when thou letst thy hair take
The wind upon its long, thin, changing fingers,
For that sight of me that translates that to
The sterner meaning in what world I know
Only through what in me is not here awake, -
That sight of that mad wreck visibly lingers
And does in my imagination ache.

Alas! all things are linked, and we know not
Half the contents of our each casual thought.
We never see save one little dreamed bit
Of each feeling we have; we pass through it
Like rapid travellers that scarce can see
What they pass by and what they see see erringly.

What is the meaning of my writing this?
Nothing, save that this is,
I know not why, something I know and must
Utter, the purpose of it being with
That secret Being that made my body of dust
Bear my soul's ignored presence, and that breath
Of life that survives my each moment's death.
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