Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi Florestas E Danças E Tormentos
Cantavam rouxinóis e uivavam ventos
Nos céus atravessados por cometas.
Vi luz a pique sobre as faces nuas,
Vi olhos que eram como fundas luas
Magnéticas suspensas sobre o mar.
Vi poentes em sangue alucinados
Onde os homens e as sombras se cruzavam
Em gestos desmedidos, mutilados.
Levada por fantásticos caminhos
Atravessei países vacilantes,
E nas encruzilhadas riam anjos
Inconscientes e puros como estrelas.
Nos céus atravessados por cometas.
Vi luz a pique sobre as faces nuas,
Vi olhos que eram como fundas luas
Magnéticas suspensas sobre o mar.
Vi poentes em sangue alucinados
Onde os homens e as sombras se cruzavam
Em gestos desmedidos, mutilados.
Levada por fantásticos caminhos
Atravessei países vacilantes,
E nas encruzilhadas riam anjos
Inconscientes e puros como estrelas.
1 197
Sophia de Mello Breyner Andresen
Exílio
Espero tecendo os dias
Imagino e contemplo.
Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
Imagino e contemplo.
Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
1 557
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando Brilhou a Aurora, Dissolveram-Se
Entre a luz as florestas encantadas.
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos.
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.
E ao encontro da noite caminhei.
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos.
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.
E ao encontro da noite caminhei.
1 383
Carlos Drummond de Andrade
Recado
Ao comandante do navio Aldábi,
que ora deixa este porto: boa rota
e que tudo lhe corra a vento suave,
mas sobretudo, amigo, tome nota:
Vai no vapor alguém que recomendo
ao zelo neerlandês meticuloso
com tulipas ou vidas. Fique atento
quer ao concreto quer ao vaporoso.
Este é diverso, e verso, entre os turistas
papa-milhas errantes pela Terra:
as forças naturais lhe são submissas
à alquimia do verbo, que não erra.
Vai sobre o mar, ou leva o mar consigo?,
o mar de sentimentos brasileiros,
de pernambucanos, índias, infinito
viver em comunhão, alvissareiros
descobrimentos do subsolo humano
contidos na palavra cadenciada
que punge e que embalsama, e tanto, tanto
artifício gentil, noite-alvorada.
Foi bom que este seu barco se chamasse
algo assim como estrela, sem ser Vênus,
mas venusinamente abrindo espaço
claro e profundo a périplos serenos.
Que demanda o viajante? uma londrina
lua reticenciosa, a ponte calma
sobre o rio discreto, a meia-tinta
de coisas ocorridas dentro n’alma?
Mas Londres, por que Londres? Não pergunte
aquilo que ele mesmo não responde.
(“O poeta é um fingidor.”) Seu reino é Tule
ou Pasárgada, e fica não sei onde.
Leve-o, navio, em leve travessia
a essa Europa que o viu enfermo e velho,
e ora jovem e são, rico de vida,
irá vê-lo, milagre de evangelho.
Pois milagre é a poesia, Aldábi: leme,
angra, remédio, púrpura bandeira.
Zele e traga de volta, pontualmente,
o nosso grande e bom Manuel Bandeira.
21/07/1957
que ora deixa este porto: boa rota
e que tudo lhe corra a vento suave,
mas sobretudo, amigo, tome nota:
Vai no vapor alguém que recomendo
ao zelo neerlandês meticuloso
com tulipas ou vidas. Fique atento
quer ao concreto quer ao vaporoso.
Este é diverso, e verso, entre os turistas
papa-milhas errantes pela Terra:
as forças naturais lhe são submissas
à alquimia do verbo, que não erra.
Vai sobre o mar, ou leva o mar consigo?,
o mar de sentimentos brasileiros,
de pernambucanos, índias, infinito
viver em comunhão, alvissareiros
descobrimentos do subsolo humano
contidos na palavra cadenciada
que punge e que embalsama, e tanto, tanto
artifício gentil, noite-alvorada.
Foi bom que este seu barco se chamasse
algo assim como estrela, sem ser Vênus,
mas venusinamente abrindo espaço
claro e profundo a périplos serenos.
Que demanda o viajante? uma londrina
lua reticenciosa, a ponte calma
sobre o rio discreto, a meia-tinta
de coisas ocorridas dentro n’alma?
Mas Londres, por que Londres? Não pergunte
aquilo que ele mesmo não responde.
(“O poeta é um fingidor.”) Seu reino é Tule
ou Pasárgada, e fica não sei onde.
Leve-o, navio, em leve travessia
a essa Europa que o viu enfermo e velho,
e ora jovem e são, rico de vida,
irá vê-lo, milagre de evangelho.
Pois milagre é a poesia, Aldábi: leme,
angra, remédio, púrpura bandeira.
Zele e traga de volta, pontualmente,
o nosso grande e bom Manuel Bandeira.
21/07/1957
763
Carlos Drummond de Andrade
A Um Viajante
Eu vi você flutuando
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
1 177
Carlos Drummond de Andrade
Edifício São Borja
Cólica premonitória
caminho do suicídio
fome de gaia-ciência
São Borja
Esqueléticos desajustados
brigando com a vida nus
surgindo à noite em fragmentos
São Borja
Ritmo de poeta mais forte
nesta mão se inoculando
projeto de fuga ao Chile
à tua casa de infância
ao adro da igreja tombada
São Borja
Cerveja em copo de pedra
sonhos os mais obscuros
na palma da mão
no reuma
São Borja
Santo da mais pura estima
nunca jamais invocado
sem estrelas se desfazendo
ou navios se cruzando
e se saudando: boa viagem
no caos
na peste
no espasmo
São Borja
São Borja São Borja São
quatro mãos quatro facadas
num peito só todo aberto
e nele cabe a cidade
o vento na roupa
uma outra longa amazônia
São Borja
Imolação das Venezas
as terras distribuídas
o mar limpo
a cabeça loura
em ativa deleitação
viajando sozinha
São Borja
Palavras de muita força
embalsamadas
explodindo na alva
futuras verdades ainda sangrentas
cofre a saquear, jardim
de chaves fluidas
São Borja
Trompa de caça trombeta
de final juízo improvável
sinusite
raiva
São Borja
Canoa sem fado e peixes
canções jandaias madréporas
anêmonas
sorrimos
São Borja
outra vez sorrimos
O tempo se despencando
por trás das guerras púnicas
na face dos gregos
num dedo de estátua
posse de anel
segredo
São Borja
A vida povoada
a morte sem aproveitadores
a eternidade afinal expelida
estamos todos presentes
felizes calados
completos
Santo São Borja.
caminho do suicídio
fome de gaia-ciência
São Borja
Esqueléticos desajustados
brigando com a vida nus
surgindo à noite em fragmentos
São Borja
Ritmo de poeta mais forte
nesta mão se inoculando
projeto de fuga ao Chile
à tua casa de infância
ao adro da igreja tombada
São Borja
Cerveja em copo de pedra
sonhos os mais obscuros
na palma da mão
no reuma
São Borja
Santo da mais pura estima
nunca jamais invocado
sem estrelas se desfazendo
ou navios se cruzando
e se saudando: boa viagem
no caos
na peste
no espasmo
São Borja
São Borja São Borja São
quatro mãos quatro facadas
num peito só todo aberto
e nele cabe a cidade
o vento na roupa
uma outra longa amazônia
São Borja
Imolação das Venezas
as terras distribuídas
o mar limpo
a cabeça loura
em ativa deleitação
viajando sozinha
São Borja
Palavras de muita força
embalsamadas
explodindo na alva
futuras verdades ainda sangrentas
cofre a saquear, jardim
de chaves fluidas
São Borja
Trompa de caça trombeta
de final juízo improvável
sinusite
raiva
São Borja
Canoa sem fado e peixes
canções jandaias madréporas
anêmonas
sorrimos
São Borja
outra vez sorrimos
O tempo se despencando
por trás das guerras púnicas
na face dos gregos
num dedo de estátua
posse de anel
segredo
São Borja
A vida povoada
a morte sem aproveitadores
a eternidade afinal expelida
estamos todos presentes
felizes calados
completos
Santo São Borja.
1 637
Carlos Drummond de Andrade
Postal Para Catherine
Paris pede postais
para Catherine.
Rápido, que a menina
espera no hospital.
Comprem no jornaleiro da esquina
lagoas e corcovados
escrevam do outro lado
um beijo
mandem para Catherine
à morte no hospital.
Ela quer ver o mundo
pintado de outra cor
não branco de parede
o branco desolado
sem qualquer imagem.
Telefonem para Minas
peçam postais de serras
pairando no fim do azul,
de estalactites, vacas
pastando sonho na campina.
Pinheiros-do-paraná saúdem
verticalmente Catherine.
A flor mais triunfal
aberta em bandeja sobre a água
siga do Norte para Catherine.
Coqueiral do Nordeste,
rumo a Paris onde a garota
viaja imóvel
vendo passar a Terra
plastificada em postal.
Canoa de Búzios
alpendre missioneiro do Rio Grande
talha de ouro da Bahia
procissões de navegantes
frevos, rodas de samba
gostocor do Brasil
ao natural
saltos, corredeiras
correi de avião para perto
da cama numerada de Catherine
a que vai morrer e olha
para longe do número
o espetáculo em flor
da vida no postal.
(O postal seleciona
o que vale ser visto
pela que diz adeus
à vida no geral.
Nada de imagem rude
em clichê de jornal
mostrando em branco e preto
o que já se adivinha
no quadrado do quarto
de hospital.)
Catherine morrendo
leva consigo a antologia
de sítios amoráveis
ilhas de prazer
e verduras felizes
(o capricho de Deus)
entre festas ingênuas
que celebram a vida
e a graça de viver
(o capricho do homem).
Empresa dos Correios,
não atrase a remessa
da chuva de postais
à menina, que o prazo
que a leucemia abriu
aos olhos esperantes
é um prazo fatal.
… A Cacilda aqui perto
de nós e sem olhar
que fale de um desejo,
sem voz que nos devolva
as suas trinta vidas
de trinta personagens
no quarto angustiado
à espera de Godot
à espera da esperança,
que daremos senão
amor amor em pânico
se ela não pede nada?
para Catherine.
Rápido, que a menina
espera no hospital.
Comprem no jornaleiro da esquina
lagoas e corcovados
escrevam do outro lado
um beijo
mandem para Catherine
à morte no hospital.
Ela quer ver o mundo
pintado de outra cor
não branco de parede
o branco desolado
sem qualquer imagem.
Telefonem para Minas
peçam postais de serras
pairando no fim do azul,
de estalactites, vacas
pastando sonho na campina.
Pinheiros-do-paraná saúdem
verticalmente Catherine.
A flor mais triunfal
aberta em bandeja sobre a água
siga do Norte para Catherine.
Coqueiral do Nordeste,
rumo a Paris onde a garota
viaja imóvel
vendo passar a Terra
plastificada em postal.
Canoa de Búzios
alpendre missioneiro do Rio Grande
talha de ouro da Bahia
procissões de navegantes
frevos, rodas de samba
gostocor do Brasil
ao natural
saltos, corredeiras
correi de avião para perto
da cama numerada de Catherine
a que vai morrer e olha
para longe do número
o espetáculo em flor
da vida no postal.
(O postal seleciona
o que vale ser visto
pela que diz adeus
à vida no geral.
Nada de imagem rude
em clichê de jornal
mostrando em branco e preto
o que já se adivinha
no quadrado do quarto
de hospital.)
Catherine morrendo
leva consigo a antologia
de sítios amoráveis
ilhas de prazer
e verduras felizes
(o capricho de Deus)
entre festas ingênuas
que celebram a vida
e a graça de viver
(o capricho do homem).
Empresa dos Correios,
não atrase a remessa
da chuva de postais
à menina, que o prazo
que a leucemia abriu
aos olhos esperantes
é um prazo fatal.
… A Cacilda aqui perto
de nós e sem olhar
que fale de um desejo,
sem voz que nos devolva
as suas trinta vidas
de trinta personagens
no quarto angustiado
à espera de Godot
à espera da esperança,
que daremos senão
amor amor em pânico
se ela não pede nada?
678
Carlos Drummond de Andrade
Governador Em Viagem
Do Rio a Vila Rica
passando por São Paulo
são léguas de infinito,
contrabando e onça,
carrapato, carrapicho,
inseguro pousar
na ventania dos ranchos.
Governador vai governando
a cavalo, que remédio?
Vai ouvindo, nomeando,
prendendo
se é caso de prender,
e recolhendo mesuras,
mas na hora de comer,
mas na hora de dormir,
de que lhe vale a patente?
Antes fosse para a Índia.
O sofrido espinhaço,
os dolentes intestinos
reclamam da jornada.
A escuridão sem tapetes
é bem naquele lugar
onde Judas perde as botas.
Ei, amigo, que me ofertas?
Chão de terra, sim, senhor.
E de boca?
Saberá Vossa Importância
que em minha trempe cozinho
a metade de um macaco
e umas poucas formigonas.
— A que sabem teus petiscos?
— Macaco, a caça mais fina
que pula neste fundão,
e bumbum de tanajura,
dês que cozido a preceito,
não há manteiga de Flandres
que em gosto se lhe compare.
Quer provar?
(Bravo Conde, pobre Conde
de Assumar,
já começa a vomitar.)
passando por São Paulo
são léguas de infinito,
contrabando e onça,
carrapato, carrapicho,
inseguro pousar
na ventania dos ranchos.
Governador vai governando
a cavalo, que remédio?
Vai ouvindo, nomeando,
prendendo
se é caso de prender,
e recolhendo mesuras,
mas na hora de comer,
mas na hora de dormir,
de que lhe vale a patente?
Antes fosse para a Índia.
O sofrido espinhaço,
os dolentes intestinos
reclamam da jornada.
A escuridão sem tapetes
é bem naquele lugar
onde Judas perde as botas.
Ei, amigo, que me ofertas?
Chão de terra, sim, senhor.
E de boca?
Saberá Vossa Importância
que em minha trempe cozinho
a metade de um macaco
e umas poucas formigonas.
— A que sabem teus petiscos?
— Macaco, a caça mais fina
que pula neste fundão,
e bumbum de tanajura,
dês que cozido a preceito,
não há manteiga de Flandres
que em gosto se lhe compare.
Quer provar?
(Bravo Conde, pobre Conde
de Assumar,
já começa a vomitar.)
1 004
Carlos Drummond de Andrade
Como Encarar a Morte
De longe
Quatro bem-te-vis levam nos bicos
o batel de ouro e lápis-lazúli,
e pousando-o sobre uma acácia
cantam o canto costumeiro.
O barco lá fica banhado
de brisa aveludada, açúcar,
e os bem-te-vis, já esquecidos
de perpassar, dormem no espaço.
A meia distância
Claridade infusa na sombra,
treva implícita na claridade?
Quem ousa dizer o que viu,
se não viu a não ser em sonho?
Mas insones tornamos a vê-lo
e um vago arrepio vara
a mais íntima pele do homem.
A superfície jaz tranquila.
De lado
Sente-se já, não a figura,
passos na areia, pés incertos,
avançando e deixando ver
um certo código de sandálias.
Salvo rosto ou contorno explícito,
como saber que nos procura
o viajante sem identidade?
Algum ponto em nós se recusa.
De dentro
Agora não se esconde mais.
Apresenta-se, corpo inteiro,
se merece nome de corpo
o gás de um estado indefinível.
Seu interior mostra-se aberto.
Promete riquezas, prêmios,
mas eis que falta curiosidade,
e todo ferrão de desejo.
Sem vista
Singular, sentir não sentindo
ou sentimento inexpresso
de si mesmo, em vaso coberto
de resina e lótus e sons.
Nem viajar nem estar quedo
em lugar algum do mundo, só
o não saber que afinal se sabe
e, mais sabido, mais se ignora.
Quatro bem-te-vis levam nos bicos
o batel de ouro e lápis-lazúli,
e pousando-o sobre uma acácia
cantam o canto costumeiro.
O barco lá fica banhado
de brisa aveludada, açúcar,
e os bem-te-vis, já esquecidos
de perpassar, dormem no espaço.
A meia distância
Claridade infusa na sombra,
treva implícita na claridade?
Quem ousa dizer o que viu,
se não viu a não ser em sonho?
Mas insones tornamos a vê-lo
e um vago arrepio vara
a mais íntima pele do homem.
A superfície jaz tranquila.
De lado
Sente-se já, não a figura,
passos na areia, pés incertos,
avançando e deixando ver
um certo código de sandálias.
Salvo rosto ou contorno explícito,
como saber que nos procura
o viajante sem identidade?
Algum ponto em nós se recusa.
De dentro
Agora não se esconde mais.
Apresenta-se, corpo inteiro,
se merece nome de corpo
o gás de um estado indefinível.
Seu interior mostra-se aberto.
Promete riquezas, prêmios,
mas eis que falta curiosidade,
e todo ferrão de desejo.
Sem vista
Singular, sentir não sentindo
ou sentimento inexpresso
de si mesmo, em vaso coberto
de resina e lótus e sons.
Nem viajar nem estar quedo
em lugar algum do mundo, só
o não saber que afinal se sabe
e, mais sabido, mais se ignora.
1 615
Carlos Drummond de Andrade
Parabéns
Meu amigo Pedro Nava
regressou de Juiz de Fora.
Parabéns a Pedro Nava,
parabéns a Juiz de Fora.
regressou de Juiz de Fora.
Parabéns a Pedro Nava,
parabéns a Juiz de Fora.
1 250
Carlos Drummond de Andrade
Fim da Casa Paterna
I
E chega a hora negra de estudar.
Hora de viajar
rumo à sabedoria do colégio.
Além, muito além de mato e serra,
fica o internato sem doçura.
Risos perguntando, maliciosos
no pátio de recreio, imprevisível.
O colchão diferente.
O despertar em série (nunca mais
acordo individualmente, soberano).
A fisionomia indecifrável
dos padres professores.
Até o céu diferente: céu de exílio.
Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.
Vou dobrar-me
à regra nova de viver.
Ser outro que não eu, até agora
musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado
no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser — talvez isso — apenas eu
unicamente eu, a revelar-me
na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu, prefiro continuar
objeto de família.
II
A “condução” me espera:
o cavalo arreado, o alforje
da matalotagem,
o burrinho de carga,
o camarada-escudeiro, que irá
na retaguarda,
meu pai-imperador, o Abre-Caminho.
Os olhos se despedem da paisagem
que não me retribui.
A casa, a própria casa me ignora.
Nenhuma xícara ou porta me deseja
boa viagem.
Só o lenço de minha mãe fala comigo
e já se recolheu.
III
São oito léguas compridas
no universo sem estradas.
São morros de não acaba
e trilhas de tropa lenta
a nos barrar a passagem.
Pequenos rios de barro
sem iaras, sem canoas
e uns solitários coqueiros
vigiando mortas casas
de falecidas fazendas.
Ou são mergulhos na lama
de patas que não têm pressa
de chegar a Santa Bárbara.
Quando termina a viagem,
se por acaso termina,
pois vai sempre se adiando
o pouso que o pai promete
a consolar o menino?
Que imenso país é este
das Minas fora do mapa
contido no meu caderno?
Que Minas sem fim nem traço
de resmungo entre raríssimos
roceiros que apenas roçam
mão na aba do chapéu
em saudação de passante?
O cavalgar inexperto
martiriza o corpo exausto.
Se bem que macia a seda,
deixa o traseiro esfolado.
Até que afinal, hosana!
apeando em São Gonçalo
diante da suspirada
venda de Augusto Pessoa,
meu pai, descansando, estende-me
o copo quente e divino
de uma cerveja Fidalga.
Bebi. Bebemos. Avante.
IV
Tenho que assimilar a singularidade
do trem de ferro.
Sua bufante locomotiva, seus estertores,
seus rangidos, a angustiante
ou festiva mensagem do seu apito.
Ah, seus assentos conjugados de palhinha
sobre o estofo.
Nunca viajei em bloco, a vida
começa a complicar-se.
Novidade intrigante, o sabonete
preso na corrente.
Minha terra era livre, e meu quarto infinito.
E chega a hora negra de estudar.
Hora de viajar
rumo à sabedoria do colégio.
Além, muito além de mato e serra,
fica o internato sem doçura.
Risos perguntando, maliciosos
no pátio de recreio, imprevisível.
O colchão diferente.
O despertar em série (nunca mais
acordo individualmente, soberano).
A fisionomia indecifrável
dos padres professores.
Até o céu diferente: céu de exílio.
Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.
Vou dobrar-me
à regra nova de viver.
Ser outro que não eu, até agora
musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado
no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser — talvez isso — apenas eu
unicamente eu, a revelar-me
na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu, prefiro continuar
objeto de família.
II
A “condução” me espera:
o cavalo arreado, o alforje
da matalotagem,
o burrinho de carga,
o camarada-escudeiro, que irá
na retaguarda,
meu pai-imperador, o Abre-Caminho.
Os olhos se despedem da paisagem
que não me retribui.
A casa, a própria casa me ignora.
Nenhuma xícara ou porta me deseja
boa viagem.
Só o lenço de minha mãe fala comigo
e já se recolheu.
III
São oito léguas compridas
no universo sem estradas.
São morros de não acaba
e trilhas de tropa lenta
a nos barrar a passagem.
Pequenos rios de barro
sem iaras, sem canoas
e uns solitários coqueiros
vigiando mortas casas
de falecidas fazendas.
Ou são mergulhos na lama
de patas que não têm pressa
de chegar a Santa Bárbara.
Quando termina a viagem,
se por acaso termina,
pois vai sempre se adiando
o pouso que o pai promete
a consolar o menino?
Que imenso país é este
das Minas fora do mapa
contido no meu caderno?
Que Minas sem fim nem traço
de resmungo entre raríssimos
roceiros que apenas roçam
mão na aba do chapéu
em saudação de passante?
O cavalgar inexperto
martiriza o corpo exausto.
Se bem que macia a seda,
deixa o traseiro esfolado.
Até que afinal, hosana!
apeando em São Gonçalo
diante da suspirada
venda de Augusto Pessoa,
meu pai, descansando, estende-me
o copo quente e divino
de uma cerveja Fidalga.
Bebi. Bebemos. Avante.
IV
Tenho que assimilar a singularidade
do trem de ferro.
Sua bufante locomotiva, seus estertores,
seus rangidos, a angustiante
ou festiva mensagem do seu apito.
Ah, seus assentos conjugados de palhinha
sobre o estofo.
Nunca viajei em bloco, a vida
começa a complicar-se.
Novidade intrigante, o sabonete
preso na corrente.
Minha terra era livre, e meu quarto infinito.
1 671
Carlos Drummond de Andrade
Correio
A grande hora da chegada
do Correio.
Ninguém te escreve, mas que importa?
Correio é belo de chegar.
Surge no alto da ladeira
a mula portadora de malas,
trazendo o mundo inteiro no jornal.
O Agente do Correio está a postos
com os filhos funcionários a seu lado.
É família postal há muitos anos
consagrada a esse ofício religioso.
As malas borradas de lama
com registrados e impressos
que a chuva penetrante amoleceu
abrem-se perante os destinatários
como flores de lona
vindas de muito longe.
Cada família ou firma tem sua caixa aberta
onde se deposita a correspondência,
mas bom é recebê-la fresquinha das mãos
de Sô Fernando, que negaceia,
brinca de sonegar a carta urgente:
— Hoje não tem nada pra você.
— Mas eu vi, eu vi na sua mão.
— Engano seu. Quer um conselho?
Vai apanhar tiziu que está voando
lá fora.
Ver abrir a mala é coisa prima.
Traz as revistas de sábado
com três dias de viagem morro acima
abaixo acima, e o cheiro liso do papel
invadindo gravuras: Duque dança,
as barbas de Irineu bolem na brisa
do Senado, e na Rússia
o czar Nicolau tem o olhar vago
de quem vai ser fuzilado e ainda não sabe.
Tudo chega na hora
do Correio. A mula é mensageira
do Fato, e sabe
antes de nós toda a terrestre
aventura. Mal comeu
sua cota de milho, já prossegue
rumo do Itambé, levando o mundo.
do Correio.
Ninguém te escreve, mas que importa?
Correio é belo de chegar.
Surge no alto da ladeira
a mula portadora de malas,
trazendo o mundo inteiro no jornal.
O Agente do Correio está a postos
com os filhos funcionários a seu lado.
É família postal há muitos anos
consagrada a esse ofício religioso.
As malas borradas de lama
com registrados e impressos
que a chuva penetrante amoleceu
abrem-se perante os destinatários
como flores de lona
vindas de muito longe.
Cada família ou firma tem sua caixa aberta
onde se deposita a correspondência,
mas bom é recebê-la fresquinha das mãos
de Sô Fernando, que negaceia,
brinca de sonegar a carta urgente:
— Hoje não tem nada pra você.
— Mas eu vi, eu vi na sua mão.
— Engano seu. Quer um conselho?
Vai apanhar tiziu que está voando
lá fora.
Ver abrir a mala é coisa prima.
Traz as revistas de sábado
com três dias de viagem morro acima
abaixo acima, e o cheiro liso do papel
invadindo gravuras: Duque dança,
as barbas de Irineu bolem na brisa
do Senado, e na Rússia
o czar Nicolau tem o olhar vago
de quem vai ser fuzilado e ainda não sabe.
Tudo chega na hora
do Correio. A mula é mensageira
do Fato, e sabe
antes de nós toda a terrestre
aventura. Mal comeu
sua cota de milho, já prossegue
rumo do Itambé, levando o mundo.
1 062
Carlos Drummond de Andrade
O Poema da Bahia Que Não Foi Escrito
Um dia — faz muito, muito tempo —
achei que era imperativo fazer um poema sobre a Bahia,
mãe de nós todos, amante crespa de nós todos.
Mas eu nunca tinha visto, sentido, pisado, dormido, amado a Bahia.
Ela era para mim um desenho no atlas,
onde nomes brincavam de me chamar:
Boninal,
Gentio do Ouro,
Palmas do Monte Alto,
Quijingue,
Xiquexique,
Andorinha.
— Vem… me diziam os nomes, ora doces.
— Vem! ora enérgicos ordenavam.
Não fui.
Deixei fugir a minha mocidade,
deixei passar o espírito de viagem,
sem o qual é vão percorrer as sete partidas do mundo.
Ou por outra, comecei a viajar por dentro, à minha maneira.
Ainda carece fazer poema sobre a Bahia?
Não.
A Bahia ficou sendo para mim
poema natural
respirável
bebível
comível
sem necessidade de fonemas.
achei que era imperativo fazer um poema sobre a Bahia,
mãe de nós todos, amante crespa de nós todos.
Mas eu nunca tinha visto, sentido, pisado, dormido, amado a Bahia.
Ela era para mim um desenho no atlas,
onde nomes brincavam de me chamar:
Boninal,
Gentio do Ouro,
Palmas do Monte Alto,
Quijingue,
Xiquexique,
Andorinha.
— Vem… me diziam os nomes, ora doces.
— Vem! ora enérgicos ordenavam.
Não fui.
Deixei fugir a minha mocidade,
deixei passar o espírito de viagem,
sem o qual é vão percorrer as sete partidas do mundo.
Ou por outra, comecei a viajar por dentro, à minha maneira.
Ainda carece fazer poema sobre a Bahia?
Não.
A Bahia ficou sendo para mim
poema natural
respirável
bebível
comível
sem necessidade de fonemas.
3 019
Carlos Drummond de Andrade
Rancho
Carga
e cangalhas
dormem solidariamente com os tropeiros.
Homens arreios mercadorias
não se distinguem uns dos outros, confluídos
no bloco noturno sem estrelas:
viagem dormindo.
e cangalhas
dormem solidariamente com os tropeiros.
Homens arreios mercadorias
não se distinguem uns dos outros, confluídos
no bloco noturno sem estrelas:
viagem dormindo.
1 206
Carlos Drummond de Andrade
Tim-Tim Para Luís Martins
I
Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.
II
Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.
III
De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.
IV
Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.
23/04/1981
Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.
II
Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.
III
De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.
IV
Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.
23/04/1981
1 295
António Ramos Rosa
O Movimento do Dia
Assim prolongo a paisagem e as suas pistas cálidas.
Defendo o meu peito árido com a gramática do sono.
Penetro no seio do esplendor e nas fendas de argila.
Que temeridade, que confiança no movimento do dia!
O horizonte corre à velocidade de um rio.
Os sinais são azuis ou rosa, amarelos ou fulvos.
Na fluidez vagarosa vejo as áreas deslumbradas
de um reino táctil anterior à palavra.
Colho um resto de frescura entre a poeira e a água
e alguns calhaus esparsos que irradiam na areia.
Nada desvendei: tudo é liso e tudo é vago.
Trago nas mãos o odor a pedra e a orvalho.
Defendo o meu peito árido com a gramática do sono.
Penetro no seio do esplendor e nas fendas de argila.
Que temeridade, que confiança no movimento do dia!
O horizonte corre à velocidade de um rio.
Os sinais são azuis ou rosa, amarelos ou fulvos.
Na fluidez vagarosa vejo as áreas deslumbradas
de um reino táctil anterior à palavra.
Colho um resto de frescura entre a poeira e a água
e alguns calhaus esparsos que irradiam na areia.
Nada desvendei: tudo é liso e tudo é vago.
Trago nas mãos o odor a pedra e a orvalho.
1 039
António Ramos Rosa
Na Tensão Apaziguante
Na tensão apaziguante
inicia-se uma viagem com o vento
vazios na dilatação do ar
lúcidos de pé abarcando o horizonte.
inicia-se uma viagem com o vento
vazios na dilatação do ar
lúcidos de pé abarcando o horizonte.
1 059
António Ramos Rosa
Onde o Caminho
Onde o caminho é um dorso
enrugado
sem o fogo do ar.
Que difícil acender uma folha!
Formar o braço
e o pulso do caminho.
Entre as ervas uma pedra branca.
enrugado
sem o fogo do ar.
Que difícil acender uma folha!
Formar o braço
e o pulso do caminho.
Entre as ervas uma pedra branca.
1 093
António Ramos Rosa
O Desejado Chegado
He llegado a una tierra de llegada.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
998
António Ramos Rosa
Por Uma Serena Viagem Em Busca de Uma Pedra
Por uma serena viagem em busca de uma pedra
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
1 111
António Ramos Rosa
Onde o Caminho
Onde o caminho é a mão que se abre,
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.
A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.
Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.
O fragor branco do céu.
O dia não estala.
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.
A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.
Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.
O fragor branco do céu.
O dia não estala.
1 146
Edmir Domingues
soneto XXXV - A rua do vento norte
Servos do rei, tomemos nossa barca,
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.
E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.
Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,
e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.
E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.
Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,
e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.
770
Edmir Domingues
soneto XI - Cantem sinos
Cantem sinos, que parto finalmente
enquanto desce a noite sobre o porto,
e a bruma que nos cega o olhar cansado
sugere a flor cinzenta e a morte vaga.
Cantem sinos que parto, cantem sinos
afim de que eu não ouça o pranto doido
daquela que me acena o lenço branco
e enfeita de papoulas o cabelo.
Eis que busco este mar de tantas vozes,
de ventos, enfunando as velas claras,
de luares cor de sangue e vinho velho.
Onde os meigos fantasmas são mais leves,
onde o tumulto esvai-se em suavidade,
e a lembrança da infância se repete.
enquanto desce a noite sobre o porto,
e a bruma que nos cega o olhar cansado
sugere a flor cinzenta e a morte vaga.
Cantem sinos que parto, cantem sinos
afim de que eu não ouça o pranto doido
daquela que me acena o lenço branco
e enfeita de papoulas o cabelo.
Eis que busco este mar de tantas vozes,
de ventos, enfunando as velas claras,
de luares cor de sangue e vinho velho.
Onde os meigos fantasmas são mais leves,
onde o tumulto esvai-se em suavidade,
e a lembrança da infância se repete.
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