Poemas neste tema
Vida
Pablo Neruda
Tarde - LV
Espinhos, vidros rotos, enfermidades, pranto
assediam dia e noite o mel dos felizes
e não serve a torre, nem a viagem nem os muros:
a desventura atravessa a paz dos adormecidos,
a dor sobe e desce e acerca suas colheres
e não há homem sem este movimento,
não há natalício, não há teto nem cercado:
há que tomar em conta este atributo.
E no amor não valem tampouco olhos fechados,
profundos leitos longe do pestilente ferido,
ou do que passo a passo conquista sua bandeira.
Porque a vida pega como cólera ou rio
e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos de uma imensa família de dores.
assediam dia e noite o mel dos felizes
e não serve a torre, nem a viagem nem os muros:
a desventura atravessa a paz dos adormecidos,
a dor sobe e desce e acerca suas colheres
e não há homem sem este movimento,
não há natalício, não há teto nem cercado:
há que tomar em conta este atributo.
E no amor não valem tampouco olhos fechados,
profundos leitos longe do pestilente ferido,
ou do que passo a passo conquista sua bandeira.
Porque a vida pega como cólera ou rio
e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos de uma imensa família de dores.
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Pablo Neruda
XI - Os homens
Vê-se que nascemos para nos ouvir e nos ver,
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
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Pablo Neruda
Epitalâmio
Lembras-te de quando
no inverno
chegámos à ilha?
O mar erguia em nossa direcção
uma taça de frio.
Nas paredes as vides
sussurravam deixando
cair folhas obscuras
à nossa passagem.
Tu eras também uma folhinha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
Num princípio não te vi: não soube
que ias andando comigo
até que as tuas raízes
furaram o meu peito,
uniram-se aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Assim foi a tua presença inadvertida,
folha ou ramo invisível,
e depressa se povoou
o meu coração de frutos e sons.
Habitaste a casa
que te esperava obscura
e acendeste então as luzes.
Lembras-te, meu amor,
dos nossos primeiros passos na ilha?
As pedras cinzentas reconheceram-nos,
as fendas da chuva,
os gritos do vento na sombra.
Mas foi o fogo
o nosso único amigo,
junto dele abraçámos
o doce amor de inverno
a quatro braços.
O fogo viu crescer o nosso beijo nu
até tocar estrelas escondidas,
e viu nascer e morrer a dor
como uma espada quebrada
contra o amor invencível.
Lembras-te,
oh adormecida na minha sombra,
de como em ti crescia
o sonho,
do teu peito nu
aberto com as suas cúpulas gémeas
até ao mar, até ao vento da ilha,
e de como eu no teu sonho navegava
livre, no mar e no vento
embora preso e submerso
ao volume azul da tua doçura?
Oh doce, minha doçura,
a primavera mudou
os muros da ilha.
Apareceu uma flor como uma gota
de sangue alaranjada,
e logo as cores descarregaram
todo o seu peso puro.
O mar reconquistou a sua transparência,
no céu a noite
separou os seus cachos
e já todas as coisas sussurraram
o nosso nome de amor, pedra a pedra,
disseram o nosso nome e o nosso beijo.
A ilha de pedra e musgo
ressoou no segredo das suas grutas
como na tua boca o canto,
e a flor que nascia
entre os interstícios da pedra
com a sua secreta sílaba
ao passar disse o teu nome
de planta abrasadora
e o escarpado rochedo erguido
como o muro do mundo
reconheceu o meu canto, bem amada,
e todas as coisas disseram
o teu amor, o meu amor, amada,
porque a terra, o tempo, o mar, a ilha,
a vida, a maré,
o gérmen que entreabre
os lábios na terra,
a flor devoradora,
o movimento da primavera,
tudo nos reconhece.
O nosso amor nasceu
fora das paredes,
no vento,
na noite,
na terra,
e por isso a argila e a corola,
o barro e as raízes
sabem como te chamas,
e sabem que a minha boca
se juntou com a tua
porque juntos fomos semeados na terra
sem que alguma vez o soubéssemos
e juntos crescemos
e juntos florescemos
e por isso
quando passamos,
o teu nome está nas pétalas
da rosa que cresce na pedra,
o meu nome está nas grutas.
Tudo isto eles o sabem,
não temos segredos,
juntos crescemos
mas não o sabíamos.
O mar conhece o nosso amor, as pedras
do cume rochoso
sabem que os nossos beijos floresceram
com pureza infinita,
como nos interstícios uma boca
escarlate amanhece:
tal como o nosso amor e o beijo
que reúne a tua boca e a minha
numa flor eterna.
Meu amor,
a primavera doce,
flor e mar, rodeiam-nos.
Não a trocamos
pelo nosso inverno,
quando o vento
começou a decifrar o teu nome
que hoje a toda a hora repete,
quando
as folhas não sabiam
que eras uma folha,
quando
as raízes
não sabiam que me procuravas
no meu peito.
Amor, amor,
a primavera
oferece-nos o céu,
mas a terra obscura
é o nosso nome,
o nosso amor pertence
a todo o tempo e à terra.
Amando-nos, o meu braço
sob o teu pescoço de areia,
iremos esperar
como mudam a terra e o tempo
na ilha,
como caem as folhas
das taciturnas vides,
como parte o outono
pela janela partida.
Mas nós
vamos esperar
pelo nosso amigo,
o nosso amigo de olhos vermelhos,
o fogo,
quando de novo o vento
sacudir as fronteiras da ilha
e não saiba o nome
de todos,
o inverno
irá procurar-nos, meu amor,
sempre
irá procurar-nos, porque o conhecemos,
porque não o tememos,
porque temos
connosco
o fogo
para sempre,
temos
a terra connosco
para sempre,
a primavera connosco
para sempre,
e quando se desprender
das vides
uma folha,
tu sabes, meu amor,
que nome vem escrito
nessa folha,
um nome que é o teu e é o meu,
o nosso nome de amor, um único
ser, a flecha
que atravessou o inverno,
o amor invencível,
o fogo dos dias,
uma folha
que me caiu no peito,
uma folha da árvore
da vida
que fez ninho e cantou,
que criou raízes,
que deu flores e frutos.
E assim vês, meu amor,
como ando
pela ilha,
pelo mundo,
seguro no meio da primavera,
louco de luz no frio,
caminhando tranquilo no fogo,
erguendo o teu peso
de pétala nos meus braços
como se nunca tivesse andado
senão contigo, minha alma,
como se não soubesse andar
senão contigo,
como se não soubesse cantar
senão quando tu cantas.
no inverno
chegámos à ilha?
O mar erguia em nossa direcção
uma taça de frio.
Nas paredes as vides
sussurravam deixando
cair folhas obscuras
à nossa passagem.
Tu eras também uma folhinha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
Num princípio não te vi: não soube
que ias andando comigo
até que as tuas raízes
furaram o meu peito,
uniram-se aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Assim foi a tua presença inadvertida,
folha ou ramo invisível,
e depressa se povoou
o meu coração de frutos e sons.
Habitaste a casa
que te esperava obscura
e acendeste então as luzes.
Lembras-te, meu amor,
dos nossos primeiros passos na ilha?
As pedras cinzentas reconheceram-nos,
as fendas da chuva,
os gritos do vento na sombra.
Mas foi o fogo
o nosso único amigo,
junto dele abraçámos
o doce amor de inverno
a quatro braços.
O fogo viu crescer o nosso beijo nu
até tocar estrelas escondidas,
e viu nascer e morrer a dor
como uma espada quebrada
contra o amor invencível.
Lembras-te,
oh adormecida na minha sombra,
de como em ti crescia
o sonho,
do teu peito nu
aberto com as suas cúpulas gémeas
até ao mar, até ao vento da ilha,
e de como eu no teu sonho navegava
livre, no mar e no vento
embora preso e submerso
ao volume azul da tua doçura?
Oh doce, minha doçura,
a primavera mudou
os muros da ilha.
Apareceu uma flor como uma gota
de sangue alaranjada,
e logo as cores descarregaram
todo o seu peso puro.
O mar reconquistou a sua transparência,
no céu a noite
separou os seus cachos
e já todas as coisas sussurraram
o nosso nome de amor, pedra a pedra,
disseram o nosso nome e o nosso beijo.
A ilha de pedra e musgo
ressoou no segredo das suas grutas
como na tua boca o canto,
e a flor que nascia
entre os interstícios da pedra
com a sua secreta sílaba
ao passar disse o teu nome
de planta abrasadora
e o escarpado rochedo erguido
como o muro do mundo
reconheceu o meu canto, bem amada,
e todas as coisas disseram
o teu amor, o meu amor, amada,
porque a terra, o tempo, o mar, a ilha,
a vida, a maré,
o gérmen que entreabre
os lábios na terra,
a flor devoradora,
o movimento da primavera,
tudo nos reconhece.
O nosso amor nasceu
fora das paredes,
no vento,
na noite,
na terra,
e por isso a argila e a corola,
o barro e as raízes
sabem como te chamas,
e sabem que a minha boca
se juntou com a tua
porque juntos fomos semeados na terra
sem que alguma vez o soubéssemos
e juntos crescemos
e juntos florescemos
e por isso
quando passamos,
o teu nome está nas pétalas
da rosa que cresce na pedra,
o meu nome está nas grutas.
Tudo isto eles o sabem,
não temos segredos,
juntos crescemos
mas não o sabíamos.
O mar conhece o nosso amor, as pedras
do cume rochoso
sabem que os nossos beijos floresceram
com pureza infinita,
como nos interstícios uma boca
escarlate amanhece:
tal como o nosso amor e o beijo
que reúne a tua boca e a minha
numa flor eterna.
Meu amor,
a primavera doce,
flor e mar, rodeiam-nos.
Não a trocamos
pelo nosso inverno,
quando o vento
começou a decifrar o teu nome
que hoje a toda a hora repete,
quando
as folhas não sabiam
que eras uma folha,
quando
as raízes
não sabiam que me procuravas
no meu peito.
Amor, amor,
a primavera
oferece-nos o céu,
mas a terra obscura
é o nosso nome,
o nosso amor pertence
a todo o tempo e à terra.
Amando-nos, o meu braço
sob o teu pescoço de areia,
iremos esperar
como mudam a terra e o tempo
na ilha,
como caem as folhas
das taciturnas vides,
como parte o outono
pela janela partida.
Mas nós
vamos esperar
pelo nosso amigo,
o nosso amigo de olhos vermelhos,
o fogo,
quando de novo o vento
sacudir as fronteiras da ilha
e não saiba o nome
de todos,
o inverno
irá procurar-nos, meu amor,
sempre
irá procurar-nos, porque o conhecemos,
porque não o tememos,
porque temos
connosco
o fogo
para sempre,
temos
a terra connosco
para sempre,
a primavera connosco
para sempre,
e quando se desprender
das vides
uma folha,
tu sabes, meu amor,
que nome vem escrito
nessa folha,
um nome que é o teu e é o meu,
o nosso nome de amor, um único
ser, a flecha
que atravessou o inverno,
o amor invencível,
o fogo dos dias,
uma folha
que me caiu no peito,
uma folha da árvore
da vida
que fez ninho e cantou,
que criou raízes,
que deu flores e frutos.
E assim vês, meu amor,
como ando
pela ilha,
pelo mundo,
seguro no meio da primavera,
louco de luz no frio,
caminhando tranquilo no fogo,
erguendo o teu peso
de pétala nos meus braços
como se nunca tivesse andado
senão contigo, minha alma,
como se não soubesse andar
senão contigo,
como se não soubesse cantar
senão quando tu cantas.
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Pablo Neruda
Final
Matilde, anos ou dias
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
1 382
Pablo Neruda
Viii - Os Materiais
O mundo se encheu de entretantos,
de infundados temores e dor,
mas tem-se de reconhecer que sobre o pão salobro
ou junto de tal ou qual iniquidade
os vegetais, quando não foram queimados,
continuaram florescendo e repartindo
e continuaram seu trabalho verde.
Não há dúvida que a terra
entregou a duras penas outras coisas
de seu baú que parecia eterno:
morre o cobre, soluça o manganês,
o petróleo é um último estertor,
o ferro se despede do carvão,
o carvão já fechou suas cavidades.
Agora este século deve assassinar
com outras máquinas de guerra, vamos
inaugurar a morte de outro modo,
mobilizar o sangue em outras naves.
de infundados temores e dor,
mas tem-se de reconhecer que sobre o pão salobro
ou junto de tal ou qual iniquidade
os vegetais, quando não foram queimados,
continuaram florescendo e repartindo
e continuaram seu trabalho verde.
Não há dúvida que a terra
entregou a duras penas outras coisas
de seu baú que parecia eterno:
morre o cobre, soluça o manganês,
o petróleo é um último estertor,
o ferro se despede do carvão,
o carvão já fechou suas cavidades.
Agora este século deve assassinar
com outras máquinas de guerra, vamos
inaugurar a morte de outro modo,
mobilizar o sangue em outras naves.
995
Pablo Neruda
Noite - XCIV
Se morro sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
1 349
Pablo Neruda
Esperemos
Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
1 484
Pablo Neruda
La Chascona
A pedra e os pregos, a tábua e a telha se uniram: eis aqui levantada
a casa enredada com água que corre escrevendo em seu idioma,
as sarças guardavam o sítio com sua sanguinária ramagem
até que a escada e seus muros souberam teu nome
e a flor encrespada, a vide e seu alado pingente,
as folhas de figueira que como estandartes de raças remotas
erguiam suas asas escuras sobre tua cabeça,
o muro de azul vitorioso, o ônix abstrato do solo,
teus olhos, meus olhos, estão derramados em rocha e madeira
por todas as partes, os dias febris, a paz que constrói
e continua ordenada a casa com tua transparência.
Minha casa, tua casa, teu sonho em meus olhos,
teu sangue continuando o caminho do corpo que dorme
como uma pomba fechada em suas asas imóvel persegue
seu voo
e o tempo recolhe em sua taça teu sonho e o meu
na casa que apenas nasceu das mãos despertas.
A noite encontrada por fim na nave que construímos,
a paz de madeira cheirosa que continua com pássaros,
que segue o sussurro do vento perdido nas folhas
e das raízes que comem a paz suculenta do húmus
enquanto sobrevém sobre mim adormecida a lua da água
como uma pomba do bosque do Sul que dirige o domínio
do céu, do ar, do vento sombrio que te pertence,
adormecida, dormindo na casa que fizeram tuas mãos,
delgada no sonho, no germe do húmus noturno
e multiplicada na sombra como o crescimento do trigo.
Dourada, a terra te deu a armadura do trigo,
a cor que os fornos cozeram com barro e delícia,
a pele que não é branca nem é negra nem vermelha nem verde,
que tem a cor da areia, do pão, da chuva,
do sol, da pura madeira, do vento,
tua carne cor de sino, cor de alimento fragrante,
tua carne que forma a nave e encerra a onda!
De tantas delgadas estrelas que minha alma recolhe na noite
recebo o orvalho que o dia converte em cinza
e bebo a taça de estrelas defuntas chorando as lágrimas
de todos os homens, dos prisioneiros, dos carcereiros,
e todas as mãos me buscam mostrando uma chaga,
mostrando a dor, o suplício ou a brusca esperança,
e assim sem que o céu e a terra me deixem tranquilo,
assim consumido por outras dores que mudam de rosto,
recebo no sol e no dia a estátua de tua claridade
e na sombra, na lua, no sonho, o racimo do reino,
o contato que induz meu sangue a cantar na morte.
O mel, bem-amada, a ilustre doçura da viagem completa
e ainda, entre longos caminhos, fundamos em Valparaíso uma torre,
por mais que em teus pés encontrasse minhas raízes perdidas
tu e eu mantivemos aberta a porta do mar insepulto
e assim destinamos à La Sebastiana o dever de chamar os navios
e ver sob a fumaça do porto a rosa incitante,
o caminho cortado na água pelo homem e suas mercadorias.
Mas azul e rosado, roído e amargo entreaberto entre suas teias de aranha,
eis aqui, sustentando-se em fios, em unhas, em trepadeiras,
eis aqui vitorioso, andrajoso, cor de sino e mel,
eis aqui vermelhão e amarelo, purpúreo, prateado, violeta,
sombrio e alegre, secreto e aberto como uma melancia
o porto e a porta do Chile, o manto radiante de Valparaíso,
o sonoro estupor da chuva nos cerros carregados de
padecimentos
o sol resvalando no escuro olhar, nos olhos mais belos do mundo.
Eu te convidei para a alegria de um porto agarrado à fúria do alto marulho,
metido no frio do último oceano, vivendo em perigo,
formosa é a nave sombria, a luz vesperal dos meses antárticos,
a nave de teto amaranto, o punhado de velas ou casas ou vidas
que aqui se vestiram com trajes de honra e bandeiras
e se sustiveram caindo no terremoto que abria e fechava o inferno,
tomando ao fim pela mão os homens, os muros, as coisas,
unidos e desvencilhados no estertor planetário.
Cada homem contou com suas mãos os bens funestos, o rio
de suas extensões, sua espada, sua rédea, seu gado,
e disse à esposa “Defende teu páramo ardente ou teu campo
de neve”
ou “Cuida da vaca, dos velhos teares, da serra ou do ouro”.
Muito bem, bem-amada, é a lei dos séculos que foram atando-se
dentro do homem, em um fio que atava também suas cabeças:
o príncipe jogava as redes com o sacerdote enlutado,
e enquanto os deuses calavam, caíam no cofre moedas
que ali acumularam a ira e o sangue do homem nu.
Por isso, erigida a base e abençoada por corvos escuros
subiu o interesse e dispôs na peanha seu pé mercenário,
depois à Estátua impuseram medalhas e música,
jornais, rádios e televisores cantaram a loa do Santo Dinheiro,
e assim até o provável, até quem não pode ser homem,
o manumitido, o nu e faminto, o pastor lacerado,
o empregado noturno que rói em trevas seu pão disputado aos ratos,
acreditaram que aquele era deus, defenderam a Arca suprema
e se sepultaram no humilhado indivíduo, cansados de
orgulho emprestado.
a casa enredada com água que corre escrevendo em seu idioma,
as sarças guardavam o sítio com sua sanguinária ramagem
até que a escada e seus muros souberam teu nome
e a flor encrespada, a vide e seu alado pingente,
as folhas de figueira que como estandartes de raças remotas
erguiam suas asas escuras sobre tua cabeça,
o muro de azul vitorioso, o ônix abstrato do solo,
teus olhos, meus olhos, estão derramados em rocha e madeira
por todas as partes, os dias febris, a paz que constrói
e continua ordenada a casa com tua transparência.
Minha casa, tua casa, teu sonho em meus olhos,
teu sangue continuando o caminho do corpo que dorme
como uma pomba fechada em suas asas imóvel persegue
seu voo
e o tempo recolhe em sua taça teu sonho e o meu
na casa que apenas nasceu das mãos despertas.
A noite encontrada por fim na nave que construímos,
a paz de madeira cheirosa que continua com pássaros,
que segue o sussurro do vento perdido nas folhas
e das raízes que comem a paz suculenta do húmus
enquanto sobrevém sobre mim adormecida a lua da água
como uma pomba do bosque do Sul que dirige o domínio
do céu, do ar, do vento sombrio que te pertence,
adormecida, dormindo na casa que fizeram tuas mãos,
delgada no sonho, no germe do húmus noturno
e multiplicada na sombra como o crescimento do trigo.
Dourada, a terra te deu a armadura do trigo,
a cor que os fornos cozeram com barro e delícia,
a pele que não é branca nem é negra nem vermelha nem verde,
que tem a cor da areia, do pão, da chuva,
do sol, da pura madeira, do vento,
tua carne cor de sino, cor de alimento fragrante,
tua carne que forma a nave e encerra a onda!
De tantas delgadas estrelas que minha alma recolhe na noite
recebo o orvalho que o dia converte em cinza
e bebo a taça de estrelas defuntas chorando as lágrimas
de todos os homens, dos prisioneiros, dos carcereiros,
e todas as mãos me buscam mostrando uma chaga,
mostrando a dor, o suplício ou a brusca esperança,
e assim sem que o céu e a terra me deixem tranquilo,
assim consumido por outras dores que mudam de rosto,
recebo no sol e no dia a estátua de tua claridade
e na sombra, na lua, no sonho, o racimo do reino,
o contato que induz meu sangue a cantar na morte.
O mel, bem-amada, a ilustre doçura da viagem completa
e ainda, entre longos caminhos, fundamos em Valparaíso uma torre,
por mais que em teus pés encontrasse minhas raízes perdidas
tu e eu mantivemos aberta a porta do mar insepulto
e assim destinamos à La Sebastiana o dever de chamar os navios
e ver sob a fumaça do porto a rosa incitante,
o caminho cortado na água pelo homem e suas mercadorias.
Mas azul e rosado, roído e amargo entreaberto entre suas teias de aranha,
eis aqui, sustentando-se em fios, em unhas, em trepadeiras,
eis aqui vitorioso, andrajoso, cor de sino e mel,
eis aqui vermelhão e amarelo, purpúreo, prateado, violeta,
sombrio e alegre, secreto e aberto como uma melancia
o porto e a porta do Chile, o manto radiante de Valparaíso,
o sonoro estupor da chuva nos cerros carregados de
padecimentos
o sol resvalando no escuro olhar, nos olhos mais belos do mundo.
Eu te convidei para a alegria de um porto agarrado à fúria do alto marulho,
metido no frio do último oceano, vivendo em perigo,
formosa é a nave sombria, a luz vesperal dos meses antárticos,
a nave de teto amaranto, o punhado de velas ou casas ou vidas
que aqui se vestiram com trajes de honra e bandeiras
e se sustiveram caindo no terremoto que abria e fechava o inferno,
tomando ao fim pela mão os homens, os muros, as coisas,
unidos e desvencilhados no estertor planetário.
Cada homem contou com suas mãos os bens funestos, o rio
de suas extensões, sua espada, sua rédea, seu gado,
e disse à esposa “Defende teu páramo ardente ou teu campo
de neve”
ou “Cuida da vaca, dos velhos teares, da serra ou do ouro”.
Muito bem, bem-amada, é a lei dos séculos que foram atando-se
dentro do homem, em um fio que atava também suas cabeças:
o príncipe jogava as redes com o sacerdote enlutado,
e enquanto os deuses calavam, caíam no cofre moedas
que ali acumularam a ira e o sangue do homem nu.
Por isso, erigida a base e abençoada por corvos escuros
subiu o interesse e dispôs na peanha seu pé mercenário,
depois à Estátua impuseram medalhas e música,
jornais, rádios e televisores cantaram a loa do Santo Dinheiro,
e assim até o provável, até quem não pode ser homem,
o manumitido, o nu e faminto, o pastor lacerado,
o empregado noturno que rói em trevas seu pão disputado aos ratos,
acreditaram que aquele era deus, defenderam a Arca suprema
e se sepultaram no humilhado indivíduo, cansados de
orgulho emprestado.
1 616
Pablo Neruda
XXXVIII
Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
1 039
Pablo Neruda
Sonata
Oh clara de lua, oh estátua pequena e escura,
oh sal, oh colher que tira o aroma do mundo e o entorna em minhas veias,
oh cântara negra que canta à luz do orvalho,
oh pedra do rio enterrado de onde voava e volvia a noite,
oh pâmpano de água, peral de cintura fragrante,
oh tesoureira do bosque, oh pomba da primavera,
oh mensagem que deixa o sereno nos dedos da madressilva,
oh metálica noite de Agosto com argolas de prata no céu,
oh meu amor, pareces com o trem que atravessa o outono em Temuco,
oh minha amada perdida em minhas mãos como um anel na neve,
oh entendida nas cordas do vento cor de guitarra
que desce das cordilheiras, junto a Nahuelbuta chorando,
oh função matinal da abelha buscando um segredo,
oh edifício que o âmbar e a água construíram para que habitasse
eu exigente inquilino que esquece a chave e adormece à porta,
oh corneta levada na garupa celestial do tritão submarino,
oh guitarra de greda soando na paz poeirenta do Chile,
oh frigideira de azeite e cebola, vaporosa, cheirosa, saborosa,
oh expulsada da geometria por arte de nuvem e quadril,
oh máquina de água, oh relógio de passarada,
oh minha amorosa, minha negra, minha branca, minha pena, minha vassoura,
oh minha espada, meu pão e meu mel, minha canção, meu silêncio, minha vida.
oh sal, oh colher que tira o aroma do mundo e o entorna em minhas veias,
oh cântara negra que canta à luz do orvalho,
oh pedra do rio enterrado de onde voava e volvia a noite,
oh pâmpano de água, peral de cintura fragrante,
oh tesoureira do bosque, oh pomba da primavera,
oh mensagem que deixa o sereno nos dedos da madressilva,
oh metálica noite de Agosto com argolas de prata no céu,
oh meu amor, pareces com o trem que atravessa o outono em Temuco,
oh minha amada perdida em minhas mãos como um anel na neve,
oh entendida nas cordas do vento cor de guitarra
que desce das cordilheiras, junto a Nahuelbuta chorando,
oh função matinal da abelha buscando um segredo,
oh edifício que o âmbar e a água construíram para que habitasse
eu exigente inquilino que esquece a chave e adormece à porta,
oh corneta levada na garupa celestial do tritão submarino,
oh guitarra de greda soando na paz poeirenta do Chile,
oh frigideira de azeite e cebola, vaporosa, cheirosa, saborosa,
oh expulsada da geometria por arte de nuvem e quadril,
oh máquina de água, oh relógio de passarada,
oh minha amorosa, minha negra, minha branca, minha pena, minha vassoura,
oh minha espada, meu pão e meu mel, minha canção, meu silêncio, minha vida.
620
Pablo Neruda
XXXIX
Não sentes também o perigo
na gargalhada do mar?
Não vês na seda sangrenta
da papoula uma ameaça?
Não vês que floresce a macieira
para morrer na maçã?
Não choras rodeado de riso
com as garrafas do olvido?
na gargalhada do mar?
Não vês na seda sangrenta
da papoula uma ameaça?
Não vês que floresce a macieira
para morrer na maçã?
Não choras rodeado de riso
com as garrafas do olvido?
1 066
Pablo Neruda
Desde Que Amanheceu
Desde que amanheceu
com quantos hoje se alimentou este dia?
Luzes letais, movimentos de ouro,
centrífugos pirilampos
gotas de lua, pústulas, axioma,
superpostos todos os materiais
do transcurso: — dores, existências,
direitos e deveres —
nada é igual quando desgasta o dia
sua claridade e cresce
e logo enfraquece seu poder.
Hora por hora
com uma colher
cai do céu o ácido
e assim é o hoje do dia,
o dia de hoje.
com quantos hoje se alimentou este dia?
Luzes letais, movimentos de ouro,
centrífugos pirilampos
gotas de lua, pústulas, axioma,
superpostos todos os materiais
do transcurso: — dores, existências,
direitos e deveres —
nada é igual quando desgasta o dia
sua claridade e cresce
e logo enfraquece seu poder.
Hora por hora
com uma colher
cai do céu o ácido
e assim é o hoje do dia,
o dia de hoje.
1 093
Ana Martins Marques
Dardo
Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
1 218
Ana Martins Marques
O que nos aconteceu
O que nos aconteceu
o que não nos aconteceu
têm o mesmo peso no poema
Ontem visitamos
nosso amigo doente
era comovente ver seu esforço
para parecer melhor do que estava
Andamos um pouco pela praia
a certa altura me dei conta
de que nunca perguntei onde ele nasceu
Encontramos uma água-viva na areia
alguém disse que ser assim
indistinguível como a areia da areia
o mar do mar
deve ser algo próximo da felicidade
Uma dessas coisas não aconteceu
o que não nos aconteceu
têm o mesmo peso no poema
Ontem visitamos
nosso amigo doente
era comovente ver seu esforço
para parecer melhor do que estava
Andamos um pouco pela praia
a certa altura me dei conta
de que nunca perguntei onde ele nasceu
Encontramos uma água-viva na areia
alguém disse que ser assim
indistinguível como a areia da areia
o mar do mar
deve ser algo próximo da felicidade
Uma dessas coisas não aconteceu
1 409
Stela do Patrocínio
Eu não queria me formar
Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
724
José Saramago
25
Embora houvesse já muito tempo que não nasciam crianças não se perdera por completo a lembrança de um mundo fértil
E acontecera mesmo que algumas tribos mais sedentárias redescobriram certas práticas mágicas que vinham de tempos antiquíssimos
Por isso nos campos cultivados faziam correr as mulheres menstruadas pra que o sangue escorrendo ao longo das pernas embebesse o chão com sangue de vida e não de morte
Nuas corriam deixando um rasto que os homens cobriam cuidadosamente de terra para que nem uma gota secasse sob o calor agora nocivo do sol
E um dia vinda de longe uma mulher grávida quase no fim do tempo chegou e pediu que a deixassem ficar ali até parir
Porém preciosa era aquela criança que estava para nascer e a sua mãe foi dada a melhor cabana e duas mulheres de mais experiência ficaram com ela para a assistirem no parto
Mas antes que a criança nascesse um homem escolhido da tribo uniu-se carnalmente à mulher grávida
E desta maneira tudo começou naquele lugar e não noutro com aquela gente e não outra apenas com o presente e o futuro não o passado
Alguns dias mais tarde nasceu uma criança e houve as melancólicas festas de então e todas as mulheres se declararam grávidas
Mas a mãe da criança desapareceu nessa mesma noite enquanto longe dali as tribos que haviam atravessado a montanha começavam a mover-se na planície em direcção à cidade armada
E acontecera mesmo que algumas tribos mais sedentárias redescobriram certas práticas mágicas que vinham de tempos antiquíssimos
Por isso nos campos cultivados faziam correr as mulheres menstruadas pra que o sangue escorrendo ao longo das pernas embebesse o chão com sangue de vida e não de morte
Nuas corriam deixando um rasto que os homens cobriam cuidadosamente de terra para que nem uma gota secasse sob o calor agora nocivo do sol
E um dia vinda de longe uma mulher grávida quase no fim do tempo chegou e pediu que a deixassem ficar ali até parir
Porém preciosa era aquela criança que estava para nascer e a sua mãe foi dada a melhor cabana e duas mulheres de mais experiência ficaram com ela para a assistirem no parto
Mas antes que a criança nascesse um homem escolhido da tribo uniu-se carnalmente à mulher grávida
E desta maneira tudo começou naquele lugar e não noutro com aquela gente e não outra apenas com o presente e o futuro não o passado
Alguns dias mais tarde nasceu uma criança e houve as melancólicas festas de então e todas as mulheres se declararam grávidas
Mas a mãe da criança desapareceu nessa mesma noite enquanto longe dali as tribos que haviam atravessado a montanha começavam a mover-se na planície em direcção à cidade armada
1 054
José Saramago
Afrodite
Ao princípio, né nada. Um sopro apenas,
Um arrepio de escamas, o perpassar da sombra
Como nuvem marinha que se esgarça
Nos radiais tentátculos da medusa.
Não se dirá que o mar se comoveu
E que a onda vai formar-se deste frémito.
No embalo das algas, serpentinos,
À corrente se dobram, as crinas dos cavalos.
Entre dois infinitos de azul avança a onda,
Toda de sol coberta, rebrilhando,
Líquido corpo, instável, de água cega.
De onge ocorre o vento, transportando
O pólen das flores e os mais perfumes
Da terra confrontada, escura e verde.
Trovenjando, a vaga rola, e fecundada
Se lança para o vento à sua espera
No leito de rochas negras que se encrespam
De agudas unhas e vidas fervilhantes.
Ainda alto as águas se suspendem
No instante final da gestação sem par.
E quando, num rapto de vida que começa,
A onda se despedaça e rasga no rochedo,
O envolve, cinge, aperta e por ele escorre
— Da espuma branca, do sol, do vento que soprou,
Dos peixes, das flores e do seu pólen,
Das algas trémulas, do trigo, dos braços da medusa,
Das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda,
Afrodite nasceu, nasce o teu corpo.
Um arrepio de escamas, o perpassar da sombra
Como nuvem marinha que se esgarça
Nos radiais tentátculos da medusa.
Não se dirá que o mar se comoveu
E que a onda vai formar-se deste frémito.
No embalo das algas, serpentinos,
À corrente se dobram, as crinas dos cavalos.
Entre dois infinitos de azul avança a onda,
Toda de sol coberta, rebrilhando,
Líquido corpo, instável, de água cega.
De onge ocorre o vento, transportando
O pólen das flores e os mais perfumes
Da terra confrontada, escura e verde.
Trovenjando, a vaga rola, e fecundada
Se lança para o vento à sua espera
No leito de rochas negras que se encrespam
De agudas unhas e vidas fervilhantes.
Ainda alto as águas se suspendem
No instante final da gestação sem par.
E quando, num rapto de vida que começa,
A onda se despedaça e rasga no rochedo,
O envolve, cinge, aperta e por ele escorre
— Da espuma branca, do sol, do vento que soprou,
Dos peixes, das flores e do seu pólen,
Das algas trémulas, do trigo, dos braços da medusa,
Das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda,
Afrodite nasceu, nasce o teu corpo.
1 498
José Saramago
Medusas
Tentaculada e branca, morta já,
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.
O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.
O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
1 101
José Saramago
15
Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
930
José Saramago
Não Escrevas Poemas de Amor
Porquê, Rainer Maria? Quem impede
O coração de amar, e quem decide
Das vozes que no verso se articulam?
Que há que nos imponha a cabra-cega
De somar infinito a infinito?
Essa escada tão longa que subiste
Quebrou-se no vazio, quando a sombra
Do Outro nos degraus se repartia.
À vertigem aérea do teu voo
Oponho eu a dimensão do passo,
Terrestre sou, e deste haver terrestre,
Homem me digo homem, poemas faço.
O coração de amar, e quem decide
Das vozes que no verso se articulam?
Que há que nos imponha a cabra-cega
De somar infinito a infinito?
Essa escada tão longa que subiste
Quebrou-se no vazio, quando a sombra
Do Outro nos degraus se repartia.
À vertigem aérea do teu voo
Oponho eu a dimensão do passo,
Terrestre sou, e deste haver terrestre,
Homem me digo homem, poemas faço.
1 285
José Saramago
29
Levantou-se então um grande vento que varreu de estrema a estrema entre o mar e a fronteira a terra dos homens
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
1 141
José Saramago
Science-Fiction Ii
Não há praias nesta vida
Nem horizontes abertos:
Há dois muros apertados,
De noite e dia cobertos.
Há sombras e vagalumes
Que nos fazem companhia:
São as nossas ilusões,
Ai de quem nelas se fia.
Porque os cacos de garrafa
De que os muros são forrados,
Quando corremos por elas,
Nos deixam mal retalhados.
Que estará do outro lado
Dos muros que nos limitam?
Quem sabe se, doutra gente,
Olhos agudos nos fitam?
Um passo após outro passo,
Somamos dias e anos.
Serão as praias lá fora
A vida dos marcianos?
Nem horizontes abertos:
Há dois muros apertados,
De noite e dia cobertos.
Há sombras e vagalumes
Que nos fazem companhia:
São as nossas ilusões,
Ai de quem nelas se fia.
Porque os cacos de garrafa
De que os muros são forrados,
Quando corremos por elas,
Nos deixam mal retalhados.
Que estará do outro lado
Dos muros que nos limitam?
Quem sabe se, doutra gente,
Olhos agudos nos fitam?
Um passo após outro passo,
Somamos dias e anos.
Serão as praias lá fora
A vida dos marcianos?
1 254
José Saramago
Não Das Águas do Mar
Não das águas do mar, mas destas outras,
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
1 217
José Saramago
Recorto a Minha Sombra
Recorto a minha sombra da parede,
Dou-lhe corda, calor e movimento,
Duas demãos de cor e sofrimento,
Quanto baste de fome, o som, a sede.
Fico de parte a vê-la repetir
Os gestos e palavras que me são,
Figura desdobrada e confusão
De verdade vestida de mentir.
Sobre a vida dos outros se projecta
Este jogo das duas dimensões
Em que nada se prova com razões
Tal um arco puxado sem a seta.
Outra vida virá que me absolva
Da meia humanidade que perdura
Nesta sombra privada de espessura,
Na espessura sem forma que a resolva.
Dou-lhe corda, calor e movimento,
Duas demãos de cor e sofrimento,
Quanto baste de fome, o som, a sede.
Fico de parte a vê-la repetir
Os gestos e palavras que me são,
Figura desdobrada e confusão
De verdade vestida de mentir.
Sobre a vida dos outros se projecta
Este jogo das duas dimensões
Em que nada se prova com razões
Tal um arco puxado sem a seta.
Outra vida virá que me absolva
Da meia humanidade que perdura
Nesta sombra privada de espessura,
Na espessura sem forma que a resolva.
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