Lista de Poemas

Romaria dos Mortos

Oh! que triste e terrível Romaria
Dos que retornam para a eternidade:
Há caretas medonhas de agonia;
Há tristonhos suspiros de Saudade!

Uns, pela noite merencória e fria,
Soluçando, suplicam PIEDADE!
Outros, se debatendo em rebeldia,
Proferem maldição à divindade!

Vão-se sumindo pela noite afora,
A triste noite que não tem aurora.
A longa Sexta-feira da Paixão,

Arrastando seus fardos de amarguras
Entre lamentos e descomposturas,
Aos bandos, em profana Procissão!

1 196

Meu Signo

Quatorze dias por andar janeiro,
Ano da graça de cinqüenta e sete,
Vim ao mundo levando um bofete
Para chorar o meu pesar primeiro.

Segue meus passos signo agoureiro,
E a ventura, vilíssima vedete,
Armada de punhal e de gilete,
Quer me matar pois não me quer herdeiro.

Quando nasci, o céu anuviou-se,
Um cipreste nasceu, ua flor murchou-se;
O sino da matriz dobrou sem fim.

Pálida a lua despencou, minguante,
E a maré, no refluxo da vazante,
Buscou os mares pra fugir de mim.

939

Os Bastardos

Alta noite e eu andava descontente
Pela cidade horrivelmente feia;
Meia noite ou meia noite e meia
Um relógio bateu sinistramente.

Os meus passos rebeldes pela rua,
Assim como se fosse de animal,
Reboavam num silêncio sepulcral,
Enquanto lá no céu surgia a lua,

Que mais se parecia uma caveira
Amortalhando com a luz mortiça
Em cada escura esquina uma carniça
Que apodrecia até virar poeira.

Exalava na podre madrugada
Um bafio a cortar o meu pulmão
Do lixo revirado por um cão,
Que farejava à beira da calçada.

A cidade dormia convulsiva,
E só eu, como um verme solitário,
Ia seguindo meu itinerário
Com uma ansiedade compulsiva.

A rua parecia um cemitério,
E toda casa era uma sepultura
Onde jazia cada criatura
Amortalhada num mortal mistério;

Mas eu seguia pela rua torta,
Escutando as pancadas do meu peito
Que de tudo pulsava insatisfeito
Por entre as casas da cidade morta.

De repente, porém, um burburinho:
Era uma casa de carnal comércio,
Que me deixou mais triste que Propércio,
E eu não pude seguir o meu caminho.

Era de ser o foco, com certeza,
De toda podridão da vil cidade
Onde os homens em animalidade,
No cio, como um bicho atrás da presa,

Vinham à tentação de tais pecados
E assim como um bando de possessos,
Na fúria mais lasciva dos excessos,
Contorciam-se como invertebrados.

E cada um era um pai irresponsável
Que outro filho gerava ao desconforto,
E eu que observava tudo aquilo torto,
Achava aquilo tudo abominável.

Uma calça esquecida pelo dono
Sobre a saia da moça quase virgem
Provava todo mal que dava origem
À criança que vive no abandono.

E na fornicação de tal orgia,
Quem sabe um deles cometesse incesto
E fosse ao leito, sem nenhum protesto,
Da própria filha que desconhecia.

Cantava o galo pela noite afora;
Mas na luxúria de Sardanapalo
Não respeitavam o cantar do galo,
Nem davam conta do romper da Aurora.

E às pancadas do sino da matriz,
Lembraram-se de ir a santa missa,
E cada qual com a consciência omissa
De ter gerado mais um infeliz.

Era quase manhã e a contragosto
Um tardio que vinha à socapa,
Tentava se esconder atrás da capa;
Mas era tarde pra cobrir o rosto.

1 192

Aparição

Quando te vi, cuidei estar sonhando.
Era de ser miragem com certeza.
Porém eras real, vi com clareza
E assim fiquei perplexo me indagando.

Quem te teria dado, como e quando,
Traços sutis de exótica beleza,
E que esmero não teve a natureza
Quando teu belo colo ia talhando?

Oh! com certeza, foi a mão divina
Quem te deu tanta graça feminina:
Feitio e forma de tão bons agrados!

Certamente és um anjo do Senhor
Que me veio fazer sofrer de amor
Para que eu pague, enfim, os meus pecados.

910

O Sem-Terra do amor

Quase posseiro do teu coração,
Assim como um Sem-Terra resoluto,
Que se arrancha num sítio devoluto
E, depois, requer junto à União,

Pelo processo de Usucapião,
O direito de posse e usufruto;
Também o requeri e ainda luto
Nos tribunais do Amor em petição!

Entretanto, não fui bem sucedido,
Pois o meu rogo foi indeferido
Sob falsa alegação de invasor.

Mesmo expulso das terras do teu peito,
Prossigo em luta pelo meu direito
De entrar na posse do teu vago amor.

961

Um Vulto

Noite atroz! Na medonha Solidão
Da rua torta e mal iluminada
Pela pálida luz da madrugada,
Um vulto ia varando a escuridão.

Quem seria tal vulto? Algum ladrão,
Resvalando furtivo na calada?
Um amante buscando sua amada?
Seria alma penada, assombração?

Fazia frio. Os cães se enrodilhavam,
Os pássaros noturnos não voavam,
E um silêncio mortal dava receio.

Somente aquele vulto vertical,
Envolto no silêncio sepulcral,
Impávido, seguia o seu passeio.

1 213

Sobre o autor :

1992-Medalha de ouro no XIII concurso nacional de poesia.

1993-Destaque especial no XIV concurso nacional de poesia.

1993-Membro da Academia Uruguaiana de Letras.

1994-Destaque especial no XV concurso nacional de poesia.

1994-Medalha cultural da Revista Brasília.

1994-Verbete da Enciclopédia Contemporânea Brasileira.

1994-Convite para uma seleta de poetas na Coréia e na China.

1995-Destaque especial no XVI concurso nacional de poesia.

1995-Medalha cultural É.DAlmeida Vítor.

1996-Colar do mérito cultural.

1997-Medalha Estella Brasiliense

1 093

Além do mal

Não levo em conta o mal que me fizeste,
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.

Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.

A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores

E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.

1 056

Tapera

Tornei à casa onde morei um dia
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.

Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!

Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.

Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.

1 000

Separação

Dá-me cedo, Senhor, humilde assento
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.

Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!

Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".

Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!

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Seus poemas são singelos e profundo, penas que não estão expostos nessa página.

Identificação e contexto básico

Raimundo Bento Sotero é um poeta brasileiro. A sua nacionalidade é brasileira e a sua língua de escrita é o português. A sua obra está fortemente associada à cultura e às paisagens do Nordeste brasileiro. Viveu num período que abrangeu transformações sociais e culturais significativas no Brasil.

Infância e formação

As informações detalhadas sobre a infância e a formação de Raimundo Bento Sotero não são amplamente divulgadas. No entanto, a sua obra sugere uma forte ligação com as tradições culturais e populares do Nordeste, o que indica que a sua formação, formal ou informal, foi profundamente influenciada pelo ambiente em que cresceu. As leituras e as influências culturais da região certamente moldaram a sua sensibilidade poética.

Percurso literário

O percurso literário de Raimundo Bento Sotero é marcado pela sua dedicação à poesia, com um foco particular na valorização da cultura nordestina. A sua escrita caracteriza-se pela musicalidade e pelo lirismo, explorando temas que ressoam com a identidade e as experiências do povo do Nordeste. A sua obra contribui para a riqueza da literatura brasileira, dando voz a paisagens e a vivências muitas vezes marginalizadas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Raimundo Bento Sotero destaca-se pelo uso de uma linguagem poética rica em musicalidade e expressividade. Os temas abordados frequentemente incluem a natureza exuberante do Nordeste, a fé, o cotidiano das pessoas, as tradições culturais e a reflexão sobre a condição humana. O seu estilo é lírico e acessível, buscando capturar a essência das coisas simples e a beleza encontrada na simplicidade. A sua poesia celebra a identidade nordestina e a força do seu povo, transmitindo emoções e sensações de forma autêntica e comovente. O uso de ritmos e sonoridades evocam a musicalidade intrínseca da cultura popular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Raimundo Bento Sotero insere-se no contexto cultural brasileiro, com uma forte representação da literatura nordestina. A sua obra dialoga com as tradições e as especificidades sociais e geográficas da sua região, contribuindo para a diversidade da produção literária nacional. A valorização da cultura popular e das raízes regionais é um aspeto relevante do seu trabalho.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações específicas sobre a vida pessoal de Raimundo Bento Sotero, como relações familiares, amizades ou crenças filosóficas e religiosas, não são amplamente documentadas na esfera pública. Contudo, a sua poesia revela uma profunda empatia com as pessoas e com o ambiente do Nordeste.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A receção da obra de Raimundo Bento Sotero é geralmente positiva entre os apreciadores da poesia que valorizam a temática regional e a qualidade lírica. Embora possa não ter alcançado um reconhecimento de massas, o seu trabalho é estimado pela sua autenticidade e pela sua contribuição para a literatura nordestina.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Raimundo Bento Sotero tenha sido influenciado por outros poetas que celebraram a cultura e as paisagens brasileiras, bem como pelas manifestações da cultura popular nordestina. O seu legado reside na preservação e na celebração da identidade nordestina através da poesia, inspirando outros a explorar as riquezas das suas próprias origens culturais.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Raimundo Bento Sotero pode ser interpretada como um hino à terra e ao povo do Nordeste, destacando a beleza e a resiliência encontradas na região. A sua poesia convida à reflexão sobre a importância das raízes culturais e da valorização das tradições.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da vida de Raimundo Bento Sotero podem estar relacionados com o seu envolvimento em manifestações culturais locais ou com episódios da sua vida que inspiraram poemas específicos. A sua obra, focada na cultura popular, pode conter detalhes anedóticos ou descrições vívidas de costumes e tradições.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações disponíveis sobre a morte de Raimundo Bento Sotero ou sobre publicações póstumas. A sua memória é mantida viva através da sua obra poética, que continua a ser lida e apreciada.