Lista de Poemas

Espaço Sideral

o que me diz
dos planetas,
dos anéis de saturno,
e da origem dos rios,
que aqui reúno.

o que me diz
de mercúrio,
de seu brilho escuro?

de marte
de sua superfície escarlate,
do mistério,
espalhado por toda parte.

o que me diz
de júpiter.

da lua
que atravessa olhares.

o que me diz
das nebulosas,
que fazem da terráquea existência
poeira e gás:
não origem, não fim,
que não há.

o que me diz
de plutão,
afastado do sol
como qualquer
compreensão.

tudo existe.
homem, morte,
vida real.
que tudo se explique,
será só eclipse
no espaço sideral.


In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990
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O Suicida

o suicida
vê na morte
um direito civil

mata
o que acha
imbecil

por uma utopia
causa
ou fantasia

o ato de matar-se
sutil
ou inconsútil

o caso
pouco divulgado
daquele homem

que bater pregos
no próprio cérebro
preferiu

o suicida
é o que não se repetiu


In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
1 461

O Provérbio Latino, dez 1981

o provérbio latino
ferrum natare doces
(ensinar
ferro a nadar /
querer
o impossível)

tornou-se
com a máquina a vapor de watt
letra
morta

deixando
galeras e caravelas
mar e rio
a ver navios


In: BONVICINO, Régis. Sósia da cópia, 1978/1983. São Paulo: Max Limonad, 1983
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Mera Praga, nov 1981

para que
fazer poesia?

se em mim

diabo
de rabo entre as pernas
que arromba
portas abertas

se em mim

fio e pavio
do óbvio

epígono sim
"inocente" inútil

dilutor

com todas as letras

caixinha de eco
menino de recados

robô abobado

malhador
de pó refinado

em vez de ácido
água com açúcar
em vez de cabelo
peruca

língua de fogo
de palha
que não fala nem cala
falso alarma

por que
a necessidade?

por que
poesia?

se sou

personagem de bijuteria
palavra de segunda mão
tradução da tradução da tra

"no soy nada
nunca seré nada
no puedo
querer ser nada"

mera praga


In: BONVICINO, Régis. Sósia da cópia, 1978/1983. São Paulo: Max Limonad, 1983.

NOTA: Citação dos versos iniciais do poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa (heterônimo Álvaro de Campos): "Não sou nada./Nunca serei nada/Não posso querer ser nada
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Num Zoológico de Letras

ummmmmmmmmmmma centopéia
árápóngá
borbolllleta
raTTo
aa aa aa aa aa belhas
eLEFANTe
micõ-leãõ
Girafas
buRRo
Yena
flámíngó
pbombpa espelho
lobo-coke
môscâ
eMa
lontra
raPOSa utópica
sabiá-exílio
g"t"s
co++lho
Lêãô
m:rc:g:
p'p'f'rm'g's
v,c,
rato anapéstico
m*ripos*
VntV
z=br=
c)ng(r(
homens-em-extinção
;A;U
j]g]]t]r]c]
f.o.r.m.i.g.a.
e uma ]nç] p]nt]d]


In: BONVICINO, Régis. Num zoológico de letras. Il. Guto Lacaz. São Paulo: Maltec, 1994.

NOTA: Referência à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias. Publicado na Folhinha de S. Paulo (30 ago. 1987) e no livro 33 POEMAS (1990
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Uma Idéia

palavras não matam
nem provocam inverno atômico

e na voz do poeta
(abelhas na colméia)

podem até conter uma idéia

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O Tempo

O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva

Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas

Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia

O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia

Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto

O vermelho,
do automóvel na esquina

Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis

Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis


Poema integrante da série Um.

In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
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RB Resolve Ser Poeta

Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.

Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.

No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.

Este pó(eta) que sou será invulnerável.

Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.

Viverei de esquecer-me.

Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.

O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.

Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.


In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.

NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
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Dias em Seguida

estoit il lors temps de moy taire?
françois villon

vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?

vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?


In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.

NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
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Não Pode

poeta não pode sentir ódio
poeta não pode gostar
de automóvel
o poeta
não pode criar filhos
se vai à europa
é por brilho ou compromisso
nunca por troça ou prazer
sua tarefa: fazer
fazer fazer
VeRsOsTeXtOs
martírio
pequeno burguês
tókio nun restaurante japonês

o poeta é o que
se esqueceu
de viver

bem e com idéias?
o sofrimento: sua
platéia
(o mundo, massa maçante,
alcatéia!)
seu marketing-musa: a
lamentação
obsessão obsessão obsessão
assim
um lacaio de lacan num divã
qualquer
(ou eco imaginário de tristan edouard
corbiere)

o poeta não tem casa
de campo
seu lazer: papel
em branco
maçã, maçada
a existência não passa
de uma observação obstinada


In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
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Comentários (2)

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Lorena
Lorena

Eu amei eu esto fazendo uma liçao e agora eu posso mandar para meu professor

Pedro
Pedro

Gostei me ajudou mt

Identificação e contexto básico

Régis Bonvicino é um poeta, tradutor e ensaísta brasileiro. Nasceu em São Paulo. É uma figura proeminente na poesia contemporânea do Brasil, conhecido pela sua obra experimental e pela sua intervenção crítica na esfera cultural e política. Sua escrita é frequentemente associada a uma redefinição dos limites da linguagem poética e a um olhar aguçado sobre a sociedade moderna.

Infância e formação

Os detalhes sobre a infância e a formação específica de Régis Bonvicino não são amplamente divulgados, mas sabe-se que sua trajetória intelectual e literária o levou a desenvolver um profundo interesse pela linguagem e pelas artes. Sua formação acadêmica, embora não especificada em detalhe, certamente contribuiu para sua visão crítica e sua capacidade de análise.

Percurso literário

O percurso literário de Régis Bonvicino é marcado por uma produção poética consistente e inovadora. Desde o início de sua carreira, demonstrou uma inclinação para a experimentação formal e temática. Sua obra se desenvolveu em diálogo com as correntes literárias contemporâneas, buscando sempre novas formas de expressão. Além da poesia, atuou como tradutor e ensaísta, enriquecendo sua contribuição para a literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Régis Bonvicino é caracterizada pela experimentação e pela crítica social. Seus poemas exploram a materialidade da linguagem, utilizando recursos como a fragmentação, a colagem e a quebra da sintaxe tradicional. Temas como a urbanidade, a violência, a cultura de massa e a condição do indivíduo na sociedade contemporânea são recorrentes. O tom da sua poesia pode variar entre o irónico, o crítico e o lírico, mas sempre com uma forte carga de reflexão. Sua linguagem é densa, imagética e desafiadora, buscando romper com o convencional e propor novas percepções sobre a realidade. A relação com a modernidade e a pós-modernidade é um eixo central de sua produção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Régis Bonvicino atua num período de intensas transformações culturais e sociais no Brasil e no mundo. Sua obra reflete as complexidades da vida urbana, a globalização e os conflitos da contemporaneidade. Ele se insere num contexto de poetas que buscam intervir criticamente na realidade através da arte, questionando os discursos hegemónicos e explorando novas estéticas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações específicas sobre a vida pessoal de Régis Bonvicino são escassas, pois o foco de sua projeção pública é sua obra e sua atuação intelectual. No entanto, é de se esperar que suas vivências pessoais e suas observações do cotidiano informem a profundidade e a pertinência de suas reflexões poéticas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Régis Bonvicino tem sido reconhecida pela crítica especializada e por um público interessado em poesia experimental e engajada. Sua postura inovadora e sua capacidade de diálogo com temas contemporâneos o consolidaram como um nome importante na literatura brasileira, embora sua poesia possa, por vezes, demandar um leitor mais atento às suas propostas formais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bonvicino dialoga com diversas tradições poéticas, tanto nacionais quanto internacionais, com destaque para a poesia experimental e de vanguarda. Seu legado reside na sua contribuição para a renovação da linguagem poética no Brasil e na forma como introduziu debates críticos em sua obra. Ele influencia poetas que buscam experimentar com a forma e abordar temas sociais de maneira incisiva.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Régis Bonvicino oferece um rico campo para interpretação, dada a sua complexidade formal e temática. Análises críticas exploram a sua dimensão política, a sua crítica à sociedade de consumo e a sua exploração da fragmentação do sujeito contemporâneo. Sua obra é um convite à reflexão sobre os dilemas da vida moderna.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos de Régis Bonvicino podem incluir detalhes sobre seus hábitos de escrita, suas leituras específicas que moldaram sua visão estética, ou episódios de sua vida que iluminam a origem de sua crítica social e de sua experimentação poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Régis Bonvicino permanece ativo na cena literária, portanto, informações sobre sua morte e publicações póstumas não se aplicam neste momento. Sua obra, no entanto, já constitui um importante legado para a poesia brasileira.