Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

1922–1959 · viveu 37 anos PT PT

Reinaldo Ferreira foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do Modernismo no Brasil. Sua obra é marcada pela experimentação formal e temática, explorando a vida urbana e a subjetividade de forma inovadora para a época. Foi também jornalista e crítico literário, contribuindo significativamente para o debate cultural de seu tempo.

n. 1922-03-20, Barcelona · m. 1959-06-30, Maputo

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O Futuro

Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários
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Biografia

Identificação e contexto básico

Reinaldo Ferreira foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1894, e faleceu em São Paulo, em 10 de novembro de 1957. Sua obra, embora concisa, é reconhecida por sua vanguarda e antecipação de tendências modernistas. Escreveu em português.

Infância e formação

Reinaldo Ferreira nasceu em uma família de classe média no Rio de Janeiro. A sua formação intelectual foi marcada pela leitura de autores vanguardistas europeus e pela efervescência cultural da época. Absorveu as influências dos movimentos de renovação artística e literária que começavam a despontar na Europa.

Percurso literário

O início da escrita de Reinaldo Ferreira coincide com sua juventude, período em que já demonstrava interesse pela experimentação poética. Sua obra evoluiu no sentido de romper com as estéticas tradicionais, buscando novas formas de expressão. Publicou em importantes periódicos e revistas literárias de seu tempo, sendo um agente ativo na difusão de novas ideias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra principal de Reinaldo Ferreira é o livro "Coração do Vento" (1921), um marco na poesia brasileira. Os temas recorrentes incluem a vida moderna, a cidade, a melancolia e a introspecção. Formalmente, explorou o verso livre e inovou na estrutura das composições, buscando uma linguagem mais coloquial e direta. Seu tom poético é frequentemente lírico e reflexivo. A linguagem é densa em imagens e recursos retóricos, com uma clara ruptura com a tradição, aproximando-se das propostas modernistas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Reinaldo Ferreira viveu em um período de grandes transformações no Brasil e no mundo, como o pós-Primeira Guerra Mundial e o início do Modernismo brasileiro. Ele se relacionou com outros escritores e intelectuais de sua geração, participando ativamente dos debates culturais. Sua obra dialoga com as vanguardas europeias e reflete o ambiente de modernização e urbanização do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Reinaldo Ferreira em comparação com sua obra. Sabe-se que sua atividade como jornalista e crítico literário era intensa, o que o colocava em contato com o meio intelectual de sua época. As crises existenciais e a busca por novas formas de expressão parecem ter moldado parte de sua visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora sua obra seja concisa, Reinaldo Ferreira obteve reconhecimento por sua originalidade e por antecipar tendências do Modernismo. Sua recepção crítica, especialmente em vida, pode ter sido limitada pela radicalidade de sua proposta, mas seu valor foi posteriormente consolidado pelos estudos sobre a literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Reinaldo Ferreira foi influenciado pelas vanguardas europeias, como o Futurismo e o Cubismo. Seu legado reside na sua contribuição para a renovação da poesia brasileira, abrindo caminhos para os poetas modernistas que o sucederam. Sua experimentação formal e temática impactou gerações posteriores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Reinaldo Ferreira tem sido interpretada como um prenúncio do Modernismo, com uma sensibilidade aguçada para a vida urbana e a subjetividade contemporânea. Sua poesia suscita debates sobre a ruptura com a tradição e a busca por uma identidade nacional na arte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Reinaldo Ferreira era conhecido por sua intensa atividade intelectual e por sua postura inovadora. Seus hábitos de escrita e os detalhes de sua vida privada são menos documentados, mas sua dedicação à poesia e ao debate literário é evidente.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Reinaldo Ferreira faleceu em São Paulo em 1957. Sua memória é preservada pela sua obra, considerada fundamental para a compreensão da transição para o Modernismo na literatura brasileira. Publicações póstumas podem ter contribuído para a difusão de seus textos e para a consolidação de seu lugar na história literária.

Poemas

101

No princípio, só a vida existia

No princípio, só a vida existia;
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.

Tudo era certo, simples, claro.

Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.

Eu, porém, não sei nada.

2 087

Meu quase sexto sentido

Por detrás da névoa incerta,
Da bruma desconcertante,
Há uma verdade encoberta,
Que é, por trás da névoa incerta,
Intemporal e constante.

Oh névoa! Oh tempo sem horas!
Oh baça visão instável!
Que mal meus olhos afloras,
Em vão transmutas, descoras...
Meu olhar é infatigável.

Quero saber-me quem sou
Para além do que pareço
Enquanto não sei e sou!
Nuvem que a mim me ocultou,
Ai! Meramente aconteço.

Com menos finalidade
De que uma folha caída
Na boca da tempestade,
Porque ele é, na verdade,
Morte a caminho da Vida;

E eu não sei donde venho
Nem sei, sequer, pra aonde vou.

Rompa-se a névoa encoberta!
Quero saber-me quem sou!

2 005

Regresso de parte alguma

Regresso de parte alguma
Rico mais do que partira,
Pois trago coisa nenhuma
Sem desespero e sem ira.

Agora vivo contente
No meu exílio sereno;
Tomei tamanho de gente
E não me dói ser pequeno.

Pedra parada na calma
Tranquilidade dos charcos,
Deixem dormir minha alma,
Como apodrecem os barcos

2 445

Há que morrer no convés

Há que morrer no convés
Do seu previsto naufrágio.
Tremem-lhe as tábuas aos pés,
Cheira a presságio.

Negros augúrios com asas
Cruzam agoiros nos mastros.
Os ventos sabem a brasas.
Recusam-se astros.

Já o Piloto que ruma
A proa dos embaraços,
Pressentiu que além da bruma
Esperam sargaços.

A agulha mentiu o norte,
Mas o Piloto sabia.
Quem busca as rotas da Morte
Não de desvia!
Não de desvia!

1 857

O essencial é ter o vento

O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.

1 514

Stabat Mater

Tu, mãe de Deus,
Nesta hora e sempre
Mãe dEle e nossa mãe,
Pare-o com dor humana
E renovada
E consagrada,
A Ele, que nós buscamos
Com outros e afinal equivalentes credos,
A quem chamamos nos desolados medos,
Talvez com outro nome
Porque é diversa a língua
E não a fome
Que lhe temos.

1 429

Quando as fachadas, tumulares, de pardas

Quando as fachadas, tumulares, de pardas,
Defendem sonolências impassíveis,
Sou livre pra as boémias intangíveis
- E a noite intui-me cúmplices mansardas...

Franzino e ruivo, o céu todo tem sardas
E atraente nudez de impossíveis...
Eu sou talvez pintor de nus horríveis,
Zombo dos mestres e odeio as fardas!

Mas mal, estéril, assoma o brilho frio
- Que sempre a madrugada me frustrou
O contacto iminente ao fugidio -

Tenho medo de quem nocturno sou,
Da minha afinidade a um desvario
Que o outro mais casto em mim repudiou!

1 361

Olhos iguais, outro olhar

Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do sol que fôssemos nós...

Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó nos desertos
Onde houve relvas e prados.

E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo, alheio à vontade,
Deslisa, remoto pranto
Duma tranquila orfandade.

1 831

Segundo canto para a renovação do Natal

A Noémia de Sousa

Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto dA que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslisasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos dEle,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada - pouco e bem -
Sem o burrito, só com SantAna e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava pra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe - e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua - e a nossa.
Ela é o Natal.
Ave-Maria.
Ora bem.

2 311

De Copélia guardo três cartas melancólicas

De Copélia guardo três cartas melancólicas,
Um laço e, de uma rosa
Que o perfume aprendeu nos seus cabelos,
Um esvaído botão.
Evade-se do todo um halo a antigo, triste.
Claro que Copélia não existe
E as cartas também não.
Só é real porque me falta.
Porque a não tive creio nela e creio
Na memória de quem foi no meu passado;
Nos passeios furtivos que tivemos;
Nos astros que pusemos
Nalgum beijo trocado;
Na exaltação de certa dança, alada
Na sensação de que uma nuvem me enlaçasse;
E na suave e pura e filtrada emoção
De alguma vez que a sua mão
Entre as minhas tardasse.
Esta é Copélia a quem, se acaso dado fosse
Nascer ou ter vivido,
Rígido pai ma recusasse,
Lírico mal ma arrebatasse
Sem a ter possuído,
Para que doutro ou morta virgem
Ilesa e viva dentro de mim permanecesse.

1 786

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Comentários (4)

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João Matela
João Matela

O poema "Dos Prazeres dno Céu" foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642

Joao Matela
Joao Matela

O poema foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642

Luis Franco
Luis Franco

...reinaldo Ferreira um cometa que irradia luz Para ETERNIDADE ....único que estejas com os Deuses.

José Zéfiro
José Zéfiro

No início da guerra colonial em Moçambique alguém disse a "Receita para Fazer um Heroi".Quase quarenta anos depois sem que tenha feito grande esforço lembrava-me dos versos principais, não o nome do poema, e por eles cheguei a esta página. Obrigado.