A estátua jacente
Mandei, mundano, talhar
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!
Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.
O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.
Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.
Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra
Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.
Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.
Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.
Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.
Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.
Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -
Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.
Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi
De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.
Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!
Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!
Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,
Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!
O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.
Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.
A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa
Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.
Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.
Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!
Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;
Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.
Apocalipse
João, iracundo João,
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.
No princípio, só a vida existia
No princípio, só a vida existia;
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.
Tudo era certo, simples, claro.
Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.
Eu, porém, não sei nada.
Menino só
Assim que o Anjo descer,
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................
De Copélia guardo três cartas melancólicas
De Copélia guardo três cartas melancólicas,
Um laço e, de uma rosa
Que o perfume aprendeu nos seus cabelos,
Um esvaído botão.
Evade-se do todo um halo a antigo, triste.
Claro que Copélia não existe
E as cartas também não.
Só é real porque me falta.
Porque a não tive creio nela e creio
Na memória de quem foi no meu passado;
Nos passeios furtivos que tivemos;
Nos astros que pusemos
Nalgum beijo trocado;
Na exaltação de certa dança, alada
Na sensação de que uma nuvem me enlaçasse;
E na suave e pura e filtrada emoção
De alguma vez que a sua mão
Entre as minhas tardasse.
Esta é Copélia a quem, se acaso dado fosse
Nascer ou ter vivido,
Rígido pai ma recusasse,
Lírico mal ma arrebatasse
Sem a ter possuído,
Para que doutro ou morta virgem
Ilesa e viva dentro de mim permanecesse.
Ela, a Poesia de hoje
Ela, a Poesia de hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.
Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!
Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...
Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!
Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...
Duma outra infância, inventada
Duma outra infância, inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.
Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.
Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.
A tua mão é que desperta Abril
A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
Desde quando alguma vez anoiteceu
Desde quando alguma vez anoiteceu
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.
Minha alma é obelisco corroído
Minha alma é obelisco corroído
Ou apenas quem sabe? inacabado.
A memória dum fasto já esquecido
Ou dum outro talvez antecipado.
Só sei que lhe não sei qual o sentido;
E o erro foi, assim, ter procurado
O que tenha talvez desaparecido
Ou não fosse jamais concretizado.
Na encruzilhada, os viandantes raros,
Se os olhos para ela erguem, avaros,
Não conservam, sequer, a sua imagem.
Mas erguida, sem nexo, longa e triste,
Ela sabe que é, sente que existe,
Na dor com que ensombrece esta paisagem.