Lista de Poemas

Ao Espelho

Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh Braga envelhecido, envilecido.


In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
4 456

Poema em Ipanema, numa Quarta-Feira sem Esperança

Podias ir à proa de barcos antigos
Cortando ventos salgados
Com espumas fervendo em teus seios de virgem
Figure étroite en proue de bâtiment
Galga esgalga
Lili

És menina nos bicos dos seios e
na pevide do sexo —
estranhamente pequenos os três,
como botões de irrevelada flor.
És menina na voz tímida, saccadée,
Nervosa e doce.

És mulher na arquitetura de teus braços
longos como asas de ave do mar
na ousada arcadura de teus ombros
na firmeza de tuas coxas e na longura
nobre de tuas pernas.

De todas as primas feias da roça que eu já tive
és uma insensatamente linda.
Gostaria de ver-te em um vestido de chita —
entretanto desenhado por Chanel —
úmido nos seios e nos lombos
porque terias saído de um banho de rio
descalça, com um pouco de lama e areia
entre os artelhos
Teus olhos luzindo na sombra do bambual
eu te daria pitangas de sangue
jabuticabas de um negrume azul com
a polpa de um branco azul —
cor elusiva — como és —
e cajus, sapotis.
Te ensinaria nomes de passarinhos de nossa terra mas
não prestarias atenção e eu
te amaria de um amor tão complicado apaixonado
brasileiro e chato
que sumirias de mim em uma esquina de Saint-Germain
deixando-me apenas de lembrança a úlcera de teu
[estômago
doendo e ardendo para sempre em meu desatinado
[coração,
Lili.

Rio, 1963


In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
3 057

Ode aos Calhordas

Os calhordas são casados com damas gordas
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com muita eficiência

Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices — nunca fazem nada.
Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ele acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.

Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo vem nos jornais:
"O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais."

Os calhordas não morrem — não morrem jamais
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas da nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.

O calhorda diz: "Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem."

Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.

Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.

1953


In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
3 606

Retrato do Time

No primeiro plano vê-se a linha intrépida
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.

A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:

Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.

Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.

E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.

E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.

Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!

Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.

1946


In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
2 496

Bilhete para Los Angeles

Tu, que te chamas Vinícius
De Moraes, inda que mais
Próprio fora que Imorais
Quem te conhece chamara —
Avis rara!

Tens uns olhos de menino
Doce, bonito e ladino
E és um calhordaço fino:
Só queres amor e ócio,
Capadócio!

Quando a viola ponteias
As damas cantando enleias
E as prendes em tuas teias —
Tanto mal que já fizeste,
Cafajeste!

Apesar do que, faz falta
Tua presença, que a malta
Do Rio pede em voz alta:
Deus te dê vida e saúde
Em Hollywood!

1949


In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
3 015

Peixe e hóspede, depois de três dias, fedem

 

32

De volta às cinzas.

 

32

[ Uma das características que ele exigia da mulher amada :] Que, no verão, seja assaltada por uma remota vontade de miar.

 

29

[ Para uma bela mulher, que lhe deu o fora depois de uma tórrida paixão :] Ah-há! Cuspindo no prato que te comeu?

 

40

Meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos, simplesmente, às favas.

 

44

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Identificação e contexto básico

Rubem Braga (1913-2002) foi um poeta, cronista e contista brasileiro. Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, e faleceu no Rio de Janeiro. É considerado um dos grandes nomes da poesia moderna brasileira e um mestre da crônica.

Infância e formação

Sua infância e juventude no interior do Espírito Santo, em contato com a natureza exuberante, moldaram profundamente sua sensibilidade poética e seu apreço pelo ambiente natural, temas recorrentes em sua obra. Teve uma formação autodidata em literatura, embora tenha iniciado o curso de Direito.

Percurso literário

Rubem Braga começou a escrever poesia na adolescência e logo se destacou. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornou uma figura central na vida cultural. Publicou seu primeiro livro, "A Rua sem Sol", em 1934. Ao longo de sua carreira, publicou diversos livros de poesia e crônicas, colaborando com importantes jornais e revistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra principal inclui livros como "Poemas de Rubem Braga" (1955), "O Sol na Fogueira" (1947), "A Boa Terra" (1962) e "O Homem Involuntário" (1964). Os temas dominantes em sua poesia são o amor, a natureza (com destaque para a flora e a fauna brasileira), o Rio de Janeiro, a passagem do tempo, a infância, a morte e a própria poesia. O estilo de Braga é caracterizado pela simplicidade e pela clareza, com uma linguagem coloquial e ao mesmo tempo lírica. Utiliza o verso livre, mas com forte senso de ritmo e musicalidade. Sua voz poética é confessional, terna e, por vezes, irônica, revelando uma profunda empatia com o ser humano e com o mundo ao seu redor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Rubem Braga viveu e produziu durante um período de intensas transformações no Brasil e no mundo, incluindo a Era Vargas, a Segunda Guerra Mundial, a ditadura militar e o período de redemocratização. Foi um intelectual engajado, embora sua poesia nem sempre abordasse diretamente questões políticas, mas sim o humano em suas relações com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida foi marcada por uma grande paixão pela natureza, pelos amores intensos e pelas amizades sinceras. Teve uma forte ligação com a cidade do Rio de Janeiro, onde viveu grande parte de sua vida, e com sua terra natal. Sua obra reflete essa vivência intensa e essa capacidade de extrair poesia do cotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Rubem Braga é um dos poetas mais populares e lidos no Brasil. Recebeu diversos prêmios literários e sua obra é amplamente estudada em escolas e universidades. É admirado tanto pelo público em geral quanto pela crítica especializada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, mas desenvolveu uma voz poética singular. Seu legado é imenso, especialmente pela forma como humanizou a poesia, aproximando-a do leitor comum e mostrando a beleza escondida nas coisas simples da vida.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Rubem Braga é frequentemente analisada por sua capacidade de fundir o lirismo com o prosaico, a natureza com a cidade, o eu lírico com a coletividade. Suas reflexões sobre a vida, o amor e a morte ressoam profundamente com o leitor.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Rubem Braga era conhecido por seu amor a animais, especialmente cães, e por sua relação íntima com a natureza, que muitas vezes frequentava em seu sítio em São Jacinto, Rio de Janeiro. Sua capacidade de observação detalhada do mundo ao seu redor é uma marca de sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Rubem Braga faleceu em 2002, aos 88 anos, no Rio de Janeiro. Sua morte foi sentida como a perda de um dos maiores poetas brasileiros. Sua obra continua a ser celebrada e a inspirar novas gerações de leitores e escritores.