Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho

1942–2023 · viveu 81 anos BR BR

Rubens Rodrigues Torres Filho foi um poeta brasileiro, nascido no Rio de Janeiro. Sua obra poética é notável pela exploração de temas como a cidade, a memória e a subjetividade, com uma linguagem que transita entre o coloquial e o erudito. É reconhecido por sua contribuição para a poesia contemporânea brasileira, onde se destacou pela originalidade e pela forma como abordou o cotidiano e as complexidades da vida urbana.

n. 1942-05-06, Botucatu, São Paulo · m. 2023-12-12

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Existencialismo

No fim das contas, que me resta? O sono,
o despejar meus restos na privada,
o querer tudo, não poder mais nada,
não responderem mais se eu telefono.

Ir à cozinha, no meu abandono,
comer um pote dessa marmelada,
voltar ao quarto, pôr o meu quimono,
deitar na minha África sonhada.

Ler um pouco de Sartre, abrir a boca.
Riscar num bloco uma bacante feia.
Ligar o rádio: uma cantora rouca.

Sentir meus olhos grávidos de areia.
Sentir no fundo uma saudade (pouca).
Ir olhar que horas são. Duas e meia.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.34

NOTA: Quatro sonetos: 1. Quinhentismo, 2. Seiscentismo, 3. Oitocentismo, 4. Existencialism
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Biografia

Identificação e contexto básico

Rubens Rodrigues Torres Filho foi um poeta brasileiro, nascido e falecido na cidade do Rio de Janeiro. Escreveu em língua portuguesa.

Infância e formação

Nascido no Rio de Janeiro, sua infância e juventude foram marcadas pela vivência na efervescente capital cultural do Brasil. A formação intelectual e poética de Torres Filho ocorreu em um ambiente rico em estímulos literários e artísticos.

Percurso literário

O percurso literário de Rubens Rodrigues Torres Filho iniciou-se com a publicação de seus poemas em revistas e antologias. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, consolidando um estilo próprio que dialogava com as tendências da poesia brasileira. Sua atividade incluiu também a crítica literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Rubens Rodrigues Torres Filho é caracterizada pela exploração da vida urbana, da memória e da subjetividade. Seus poemas frequentemente retratam o cotidiano carioca, com uma linguagem que mescla o registro coloquial com elementos mais elaborados. O uso de metáforas, a atenção ao ritmo e à sonoridade dos versos são marcas de seu estilo. A voz poética pode ser considerada pessoal e reflexiva, abordando temas universais a partir de experiências individuais. A linguagem é densa em imagens e recursos retóricos. Sua poesia se insere no contexto da poesia contemporânea brasileira, dialogando com a tradição e introduzindo novas perspectivas temáticas e formais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como poeta carioca, Rubens Rodrigues Torres Filho esteve imerso no vibrante cenário cultural do Rio de Janeiro e do Brasil. Sua obra reflete as nuances da vida urbana em um país em constante transformação. Esteve integrado a círculos literários que discutiam e produziam poesia na época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As experiências vividas no Rio de Janeiro, suas observações sobre a cidade e as relações humanas, certamente influenciaram sua produção poética. A vida pessoal do poeta, embora menos documentada em detalhes públicos, é intrinsecamente ligada à sua obra pela sua forte carga observacional e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Rubens Rodrigues Torres Filho é reconhecido como um poeta importante da literatura brasileira contemporânea. Sua obra tem sido objeto de estudo e apreço por sua originalidade e pela forma como capturou a essência da vida urbana e a complexidade da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Rubens Rodrigues Torres Filho reside em sua contribuição para a renovação da temática e da linguagem na poesia brasileira. Sua obra influenciou e continua a inspirar poetas que buscam explorar o cotidiano e a vida urbana com profundidade e sensibilidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica de sua obra frequentemente aponta para a habilidade do poeta em transitar entre o concreto da cidade e a abstração do pensamento, construindo pontes entre o mundo exterior e o universo interior.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O poeta era conhecido por sua aguda observação da cidade do Rio de Janeiro, capturando em seus versos detalhes e atmosferas que muitas vezes passam despercebidos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Rubens Rodrigues Torres Filho faleceu no Rio de Janeiro, deixando um corpo de obra valioso que continua a ser descoberto e celebrado pela crítica e pelos leitores.

Poemas

8

Existencialismo

No fim das contas, que me resta? O sono,
o despejar meus restos na privada,
o querer tudo, não poder mais nada,
não responderem mais se eu telefono.

Ir à cozinha, no meu abandono,
comer um pote dessa marmelada,
voltar ao quarto, pôr o meu quimono,
deitar na minha África sonhada.

Ler um pouco de Sartre, abrir a boca.
Riscar num bloco uma bacante feia.
Ligar o rádio: uma cantora rouca.

Sentir meus olhos grávidos de areia.
Sentir no fundo uma saudade (pouca).
Ir olhar que horas são. Duas e meia.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.34

NOTA: Quatro sonetos: 1. Quinhentismo, 2. Seiscentismo, 3. Oitocentismo, 4. Existencialism
2 128

Trovas Populares

I

Botei lenha no borralho
comprei ovos no mercado
mexi tudo na panela
preparei uma omelete

II

Havia flores na estrada
havia tédio no pátio
Dêem-me quatro desenhos
de mulheres e de sóis

III

Onde foi visto (aqui mesmo)
o cosmo através das lentes
porém crianças latentes
e os poetas minerais

IV

Vou-me embora p'ra Brasília
estou cansado de estar
Me mudo para uma ilha
Tem alguma p'ra alugar?

V

Foi em vão que João fugiu
todo-o-mundo abriu a boca
Jogou seu corpo no rio
Dona Xica ficou louca

VI

Resta ainda nesta terra
um pouco de quase-amor
um resto de primavera
que ninguém sabe onde pôr

VII

Coloque o vaso num canto
Logo as flores vão murchar
Vou aprender esperanto
p'ra nunca mais conversar

(...)


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Retrovar: poemas. São Paulo: Iluminuras, 1993.

NOTA: Poema composto de 11 trovas (quadras
2 178

Janelas

Minha amada me diz: — Mete.
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 337

Circunflexo

O vôo circunflexo de uma ave,
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)

Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.

Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.

As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 740

Desenvolturas

Nós nos queremos bem: ah que derrama,
que hemorragia de sentimentos!
Irmãos! que almas transparentes temos!
O chão nos foge sob os pés, tão leve.
Podemos nos olhar pelos avessos
que é tudo luz. O bem que nos queremos
nos santifica até aos intestinos.
Que vísceras de vidro! Que evidência!
Meu pênis se eletriza — é um travessão! Um hífen!
Um traço-de-união entre duas almas
tão juntas, tão aninhadinhas
uma na outra que dá gosto e enlevos.
Nos sabemos de cor, rosto e relevos.
Tudo nos dança: umas fosforescências
embevecidas lambem nossos beiços
e um simples esplendor nos satisfaz!


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 283

Senha

— Abra, bradava!
Pode a palavra?
Abra cada. Abra
esses estojos
invioláveis
(não dirão nada).
Branco segredo
tão pronunciado
na concha brava.
Vulcão extinto?
Lívida lava
que deslumbrava?
Palavra dada?
Peço a palavra?
Maga palhaça
que se disfarça
de deslembrada.
Abra! Bradava.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 399

Figura

Esse sorriso justo, pontuado por vírgulas abstratas,
e no caminho, seguramente em cena, mira
o claro desejo: desmisturar-nos, por qual arte,
em meio a tanto. Mexer com esses relevos
subordinados ao fio da ausência. E o que se supõe
dispõe flores avulsas e laços de linguagem.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Figura. São Paulo: Ed. do artista, 1987
1 260

Clorofila

Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.

As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.

São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.

Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 654

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