Diálogo
Não acredites: as pessoas que te falam em diálogo
querem o teu mal. Dizem que a compreensão deve
ser «cultivada» - e esperam bem sentados que te estateles ao comprido
na frente de uma esplanadazinha com vista para o tédio.
(Afasta de ti esse cálice!)
Eles querem o teu sangue mas depois não sabem o que fazer com ele,
não fazem nada com ele,
não o bebem, não o vendem, não o poluem com o teu
olhar desvairado ante o corpo aberto dela, do seu nexo tão
carente de ti.
Que a planta tem que ser regada para crescer, ah por favor –
não compres asas novas para a eterna toupeira.
A coisa verde estende as mãos para alcançar a água –
e depois cresce para o sol, incha,
porque ela usa-o e é usada por ele, e usar e ser usado é que é
o meu desejo cheio, a amizade toda e – foi assim connosco mas já não é –
a essência do amor (essa magra celulite que tu deves alcançar pelo diálogo
na demonstração diária do respeito mútuo e sabiamente partilhado!)
Ainda pensas que te darei uma definição do amor?
Dou-te apenas o que não pode ser aceite:
o meu ar luminoso e irascível!
– e nenhum deus invoco ou minimizo.
Faz o que quiseres, ou o que puderes, com o que eu te dou.
É para isso, é por isso que (o café está bom)
(e) eu gosto de ti.
breve ensaio sobre a potência 30
Na serra aliamos as tendas, aquecemos
música. A luz é da tribo, a Grande Pedra
escuta. Somo xamãs foragidos da pele da
Cidade, despidos do Futuro junto ao rio.
Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,
esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as
mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar.
Ao lado
Há nomes que assustam os insectos
e nas folhas deslumbram a casa até quase
noite. As asas batem a penumbra
mas a história dos dias nunca
lhes pertence.
Em pontas de pés esfregam-se nas janelas
com os bicos postos
e só a tempestade lhes garante o sono
e a salvação.
Eu conheço homens assim quando
o tempo acalma.
Têm mil bolsos preparados para esconder
as mãos.
Praticam os espelhos
Com esforço miudinho, quotidianamente
soletrando os amigos
muitas vezes.
E quando à noite se reúnem para fabricar os sinos
ouvem palavras com o seu nome voando
eternamente
ao lado
O pão
Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
breve ensaio sobre a potência 31
E assim ensaiamos o livro entre a
treva e a luz, o coração despedaçado
rasgando novos arquipélagos. São
colmeias brancas que nos coram as
palavras, pedras, constelações de risos
e de limos que transportamos na penumbra.
A poesia não sabe o quanto te devemos.
A peça
A menina à porta do teatro
não faz parte da peça. Pelo
menos até ao momento
em que começo a imaginar-lhe
um outro vestido. Ela vê o
aproximar-me da porta e
quase olha para o escuro
da sala: Percebe-se que
acabo de fazer uma escolha.
Ela agora vai esquecer-se de
mim, inventar um homem que
entra numa sala como a fugir
da luz.
E no entanto é isto que fizemos
sempre.
Faca de incêndio
8
O diabo tem a mesma cara que tu
Era branco cor do leite quando temos
medo. Medo: quatro agulhas nos olhos
à entrada da árvore, os tecidos regenerando
o ar da praia e à luz fosca que segue a perda
da memória. Eles escondiam-na nas pedras,
até na água, homem e mulher – os peixes agitados
pelo movimento da duna, cidade – altíssima!
trabalhavam na cozinha, construindo cedo –
recuperando a tristeza, segando os legumes.
tacteando – à procura do olhar que retomava
o ponto de entrada, as mãos distribuídas pelo pão.
vamos ver as plantas que pesam ainda sobre a mesa,
as facas, pedaços cortados pela flor quando a terra
abriu, quem falou de alma? não era alma, usa
o meu nome. Este sou eu. Esta sou eu, Eu sei,
Eu sei. Mas a alavanca que os recuperou da queda
dispunha os mesmos dedos pela duna.
Quiseram deitar-se nos lábios das urtigas –
Permanecer.
breve ensaio sobre a potência 1
a luz é a metáfora do verbo,
a matéria escura. ilumina
as paredes da água, é como
um vidro com as imagens
do avesso. o animal furtivo
que instaura a violência,
a mãe ao redor do silêncio.
breve ensaio sobre a potência 2
água sobre a mão quando o
sono se deita, um vértice de
pedra subindo entre o caule
da sombra e a propagação do
medo. a luz provoca a primeira
nostalgia, o íncubo que dispara
como um halo que espera.
breve ensaio sobre a potência 27
E já não haver lugar para as imagens.
Eu sei que cabe tudo em disco externo,
mas foi aí que nós perdemos a cabeça.
Temos placas, rígidas plataformas, luz
com pouca treva nas costas da cidade.
Havemos de trocar as nossas memórias,
viver as outras vidas. Que sonho é agora?