Salette Tavares

Salette Tavares

1922–1994 · viveu 72 anos MZ MZ

Salette Tavares foi uma poeta e ensaísta portuguesa, cuja obra se destaca pela sua originalidade e pela experimentação formal, inserida no contexto do concretismo e da poesia visual. Com uma linguagem inovadora e um olhar crítico sobre a sociedade, Tavares explorou as potencialidades da palavra escrita e visual, desafiando os limites convencionais da poesia. A sua produção literária, marcada pela inteligência e pela irreverência, deixou um legado importante para a poesia contemporânea em língua portuguesa, sendo reconhecida pela sua contribuição para a renovação da linguagem poética.

n. 1922-03-31, Maputo · m. 1994-05-30, Lisboa

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Espelho Cego

Eu leio o meu destino nos jornais.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.

Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Salette Tavares, nome completo Salette Alves Tavares, nasceu no Porto, Portugal. Pseudónimos ou heterónimos não são comuns na sua obra. É uma das figuras centrais da poesia experimental portuguesa, particularmente associada ao concretismo e à poesia visual. A sua nacionalidade é portuguesa e a sua língua de escrita é o português. Viveu e produziu a sua obra num período de significativas transformações sociais e políticas em Portugal, incluindo o Estado Novo e a transição para a democracia.

Infância e formação

A infância e formação de Salette Tavares foram marcadas pela efervescência cultural e intelectual do Porto. Embora detalhes específicos da sua educação formal sejam escassos, a sua obra revela uma vasta cultura e um aguçado sentido crítico. As suas primeiras leituras e influências artísticas, embora não explicitamente documentadas, parecem ter absorvido as vanguardas artísticas europeias e as correntes literárias que questionavam os moldes tradicionais da expressão.

Percurso literário

O percurso literário de Salette Tavares é indissociável do seu envolvimento com o movimento concretista em Portugal. Iniciou a sua atividade poética em meados dos anos 1960, colaborando com outros poetas e artistas visuais em revistas e publicações de vanguarda. A sua obra evoluiu no sentido de uma maior experimentação, explorando a intersecção entre a palavra, a imagem e o objeto. Foi também ensaísta, crítica literária e participou ativamente em exposições e debates sobre poesia experimental.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Salette Tavares é multifacetada, abrangendo poesia escrita, poesia visual, objetos poéticos e ensaio. As suas obras principais incluem "Onde o tempo" (1962), "Segredos Agrícolas" (1970) e "A Sombra" (1977), além de inúmeros poemas visuais e objetos conceituais. Os temas recorrentes na sua poesia são a condição humana, a crítica social e política, a efemeridade do tempo e a relação entre a linguagem e a realidade. O seu estilo é marcado pela concisão, pela ironia, pelo jogo de palavras e pela exploração visual do texto. Tavares utilizou o verso livre e a experimentação métrica, mas a sua maior inovação reside na criação de poemas-objeto e na fusão da poesia com as artes plásticas. A sua linguagem é simultaneamente erudita e irreverente, desafiando as expectativas do leitor e explorando a materialidade da palavra. É uma figura chave do concretismo português.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Salette Tavares esteve inserida no contexto cultural e artístico do Porto e de Lisboa nas décadas de 1960 e 1970, dialogando com o movimento concretista internacional e com artistas de outras áreas. A sua obra reflete as tensões sociais e políticas do Estado Novo, muitas vezes através de uma crítica subtil e irónica. A sua posição crítica em relação à sociedade e à linguagem estabelecida marcou a sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Salette Tavares são relativamente escassas. Sabe-se que manteve uma forte ligação com o meio artístico e intelectual português, participando ativamente em tertúlias e eventos. A sua dedicação à poesia experimental e à crítica cultural moldou a sua vida, sendo conhecida pela sua inteligência aguçada e pela sua postura inconformista.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Salette Tavares é amplamente reconhecida como uma das figuras mais importantes da poesia experimental portuguesa do século XX. A sua obra, embora por vezes considerada de nicho devido à sua natureza vanguardista, tem vindo a ser cada vez mais valorizada e estudada. Recebeu reconhecimento pela sua originalidade e pela sua contribuição para a renovação da linguagem poética em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Salette Tavares foi influenciada por poetas concretistas internacionais e por pensadores que exploraram a relação entre linguagem e significado. O seu legado é fundamental para a poesia visual e experimental em língua portuguesa. Influenciou gerações posteriores de artistas e poetas que exploram as fronteiras entre diferentes formas de arte e expressão. A sua obra continua a ser uma referência para o estudo da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Salette Tavares oferece um terreno fértil para a análise crítica, especialmente no que diz respeito à desconstrução da linguagem e à crítica social. As suas obras visuais e objetos poéticos convidam a reflexões sobre a percepção, o tempo e a natureza da arte. A sua postura crítica e irónica é um ponto central de interpretação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Salette Tavares é a sua habilidade em transitar entre a poesia, a crítica e a arte visual, demonstrando uma versatilidade notável. A sua postura desafiadora e a sua inteligência perspicaz são aspetos que a distinguiram. Os seus poemas visuais e objetos poéticos, muitas vezes concebidos com materiais simples, revelam uma criatividade ímpar e um olhar atento aos detalhes do quotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Salette Tavares faleceu em Lisboa, Portugal. A sua memória é mantida viva através da sua obra, que continua a ser divulgada, estudada e exposta em galerias e instituições culturais. Publicações póstumas e reedições da sua obra consolidam o seu lugar na história da literatura e da arte portuguesa.

Poemas

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Espelho Cego

Eu leio o meu destino nos jornais.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.

Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.

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Enigma Lua

Esqueceste
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.

Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.

Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste

Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.

Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?

Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra

olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.

Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.

Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,

1 547

Amor Silêncio

Amor silêncio amargo a roçar-me a morte
grito partido do vidro sobre o peito
ilha deserta no meio das capitais do norte
grilhetas ajustadas no rio em que me deito.

Distância cumulada remanso duma espera
ponte de aventura do dois à unidade
amor brilho raiando a chave do desejo
minuto adormecido ao pé da eternidade.

Amor tempo suspenso, ó lânguido receio,
no pranto do meu canto és a presença forte
estame estremecido dissimulado anseio
amor milagre gesto incandescente porte.

Amor olhos perdidos a riscar desenhos
em largo movimento o espaço circular
amor segundo breve, lanceta, tempo eterno
no rápido castigo da lua a gotejar.

1 598

Aqui Estou

Aqui estou, no encontro dos caminhos
no sítio onde os olhares se dobram de terror...
Quando a minha voz disse não e a vontade e o espelho
havia acordo e sonho e flores para abrir.
Quando as minhas mãos escorriam de ternura
havia liberdade e os meus pés descalços
recortavam em sombra a única lisura.

Que lindo o que eu sonhei, que paz e que mistério
que grande força sem lágrimas no mar. . .
Agora estou dorida, morreram-me os cabelos
nos dedos que pediam caiu uma agonia,
as cordas já cortadas tornaram a me ligar.
Na noite que me seque eu quisera sorver
toda a ausência direta do possuir e do ter,
fugida na floresta escondida na giesta
morder aquela terra fecunda em que me sei.
Sem luta, a navegar, um barco branco e meu
sem timoneiro nem rota marcando-me o destino
singrando sob a lua, bebendo o sol dos dias
tão só e o grande olhar de Deus,
deitado ao pé de mim.

Assim correr, ser livre, criar e ter prazer
aquele só prazer igual ao que já sou
uma lira, um canto, uma harmonia enfim
serena, bela, doce e sem violência louca.
Idade duma rosa colhida na manhã
vibrando no calor as pétalas a abrir
surpresa vegetal da vida que se inflama
com o caule cortado e sem poder sorrir.

Quem livre me deixasse dormir na minha planta
este acordo supremo dos membros do amor,
sem traição, sem corte, e só aquele manso
sorver da terra a seiva para poder florir.
Ai, mar em que me banho e que livre me deixas
miragem do meu ritmo, partida para além
meu doce só saber braços, pernas, seios, beijos,
e toda a maravilha de ser sem mais ninguém.

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