Sousa Caldas

Sousa Caldas

1762–1814 · viveu 51 anos BR BR

Sousa Caldas, poeta português, dedicou a sua vida à arte da palavra, explorando temas como a saudade, o amor e a natureza com uma sensibilidade lírica acentuada. Sua obra reflete uma profunda ligação à terra e às tradições, expressa através de uma linguagem cuidada e musical.

n. 1762-11-24, Rio de Janeiro · m. 1814-03-02, Rio de Janeiro

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Ode ao Homem Selvagem

(...)

Estrofe 4a.

Que Augusta imagem de esplendor subido
Ante mim se figura!
Nu; mas de graça e de valor vestido
O homem natural não teme a dura
Feia mão da Ventura:
No rosto a Liberdade traz pintada
De seus sérios prazeres rodeada.

(...)

Estrofe 5a.

Eu vejo o mole sono sussurrando
Dos olhos pendurar-se
Do frouxo Caraíba que, encostando
Os membros sobre a relva, sem turbar-se,
O Sol vê levantar-se,
E nas ondas, de Tétis entre os braços,
Entregar-se de Amor aos doces laços.

Antístrofe 5a.

Ó Razão, onde habitas?... na morada
Do crime furiosa,
Polida, mas cruel, paramentada
Com as roupas do Vício, ou na ditosa
Cabana virtuosa
Do selvagem grosseiro?... Dize... aonde?
Eu te chamo, ó filósofo! responde.

Epode 5a.

Qual o astro do dia,
Que nas altas montanhas se demora,
Depois que a luz brilhante e criadora,
Nos vales já sombria,
Apenas aparece; assim me prende
O Homem natural, e o Estro acende.

(...)


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.398-399. (Textos, 2)

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
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Biografia

Identificação e contexto básico

Sousa Caldas foi um poeta e dramaturgo brasileiro. A sua produção literária insere-se no panorama da literatura brasileira, num período que viu florescer diversas manifestações artísticas e intelectuais. A sua nacionalidade brasileira e a língua portuguesa são os elementos centrais da sua identidade literária.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Sousa Caldas são limitadas em fontes gerais. Presume-se que a sua educação tenha sido influenciada pelo contexto cultural e social do Brasil, e que tenha tido acesso a leituras que moldaram a sua sensibilidade poética e dramática. A formação intelectual e a absorção de influências literárias foram, provavelmente, cruciais para o desenvolvimento do seu talento.

Percurso literário

O percurso literário de Sousa Caldas abrange tanto a poesia quanto o teatro. Dedicou-se à criação artística, contribuindo com obras que exploram diferentes facetas da expressão literária. O seu trabalho pode ter sido divulgado em publicações da época, ou através de encenações teatrais, marcando a sua presença no cenário literário e artístico.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Sousa Caldas, tanto poética quanto dramática, é reconhecida pelo seu lirismo e pela profundidade das temáticas abordadas. Na poesia, explora frequentemente o amor, a natureza e reflexões sobre a vida e a espiritualidade, com um estilo que pode variar entre o clássico e o moderno, mas que mantém sempre uma marca de introspeção e beleza. No teatro, as suas peças podem abordar questões sociais, humanas ou existenciais, com diálogos e estruturas que refletem a sua visão artística. O seu estilo é frequentemente descrito como elegante e musical.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sousa Caldas viveu e produziu num período significativo para a cultura brasileira, possivelmente no século XX, um tempo de intensas mudanças sociais, políticas e artísticas. A sua obra pode refletir as tensões e as aspirações da sociedade brasileira, dialogando com outros artistas e intelectuais da sua época e participando do movimento cultural que o rodeava.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações específicas sobre a vida pessoal de Sousa Caldas são escassas em fontes de acesso público. Sabe-se que a sua dedicação à arte e à literatura foi um aspeto central da sua vida. As suas experiências pessoais, relações e visões de mundo, embora não detalhadas, certamente permearam a sua criação artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Sousa Caldas, embora talvez não universalmente amplo, é valorizado por aqueles que apreciam a sua contribuição para a literatura brasileira. A sua obra poética e teatral representa um legado artístico que pode ter sido apreciado em círculos literários e teatrais específicos, com uma receção crítica que destaca a sua qualidade estética e temática.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Sousa Caldas podem derivar de tradições poéticas e teatrais, tanto brasileiras quanto estrangeiras. O seu legado reside na sua capacidade de expressar a sensibilidade humana através da palavra, deixando um acervo literário que pode continuar a inspirar e a encantar gerações futuras de leitores e artistas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sousa Caldas convida a análises críticas focadas nas suas temáticas universais, na sua linguagem poética e na sua visão do mundo. As suas peças teatrais podem ser estudadas pela sua estrutura dramática e pelas mensagens que transmitem, enquanto a sua poesia pode ser interpretada sob a luz das suas reflexões existenciais e espirituais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da vida de Sousa Caldas podem incluir detalhes sobre o seu processo criativo, as suas inspirações específicas ou episódios curiosos da sua vida pessoal ou profissional que, se conhecidos, poderiam enriquecer a compreensão da sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre as circunstâncias da morte de Sousa Caldas e a existência de publicações póstumas não são de fácil acesso em fontes gerais. No entanto, a sua obra literária permanece como um testemunho do seu talento e da sua contribuição para a cultura brasileira.

Poemas

12

Ode ao Homem Selvagem

(...)

Estrofe 4a.

Que Augusta imagem de esplendor subido
Ante mim se figura!
Nu; mas de graça e de valor vestido
O homem natural não teme a dura
Feia mão da Ventura:
No rosto a Liberdade traz pintada
De seus sérios prazeres rodeada.

(...)

Estrofe 5a.

Eu vejo o mole sono sussurrando
Dos olhos pendurar-se
Do frouxo Caraíba que, encostando
Os membros sobre a relva, sem turbar-se,
O Sol vê levantar-se,
E nas ondas, de Tétis entre os braços,
Entregar-se de Amor aos doces laços.

Antístrofe 5a.

Ó Razão, onde habitas?... na morada
Do crime furiosa,
Polida, mas cruel, paramentada
Com as roupas do Vício, ou na ditosa
Cabana virtuosa
Do selvagem grosseiro?... Dize... aonde?
Eu te chamo, ó filósofo! responde.

Epode 5a.

Qual o astro do dia,
Que nas altas montanhas se demora,
Depois que a luz brilhante e criadora,
Nos vales já sombria,
Apenas aparece; assim me prende
O Homem natural, e o Estro acende.

(...)


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.398-399. (Textos, 2)

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
2 524

Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [1

Em que lhe descrevo a minha Viagem por mar até Gênova

Meu Pires,

Despontava o dia em que a meus olhos, não
sem saudade, havia por alguns meses desaparecer
Lisboa,

Que merece bem o nome
De Bisâncio ocidental;
Onde o saber pouco val,
Têm valor só prata e ouro,
Branco açúcar, rijo couro;
É melhor ter, que virtude:
Pelo menos assim pensa
Gente douta, e povo rude.

Dir-me-á que de Londres, Amsterdã, Berlim,
Viena, se pode dizer que sicut et nos manquejam
de um olho; não duvido: de Paris por ora nada
digo; espero as leis civis para ajuizar se fizeram
nelas o que devem.

É então que a minha Musa,
De cantar mais ansiosa,
Ferirá de novo as cordas
De sua lira saudosa.

Entretanto vamos ao ponto, que é a descrição
da minha viagem até Gênova. Por onde começarei?

Cansada a mimosa Aurora,
Para o leito se acolhia,
Enquanto Apolo açoitava
Os messageiros do dia.

Em vão Pirois retorcia
As orelhas fumegantes,
E com rinchos dissonantes
Etonte o ar aturdia;

Porque Apolo enfurecido
Mais e mais os fustigava,
Vibrando a torta manopla
Com horroroso estampido:

Vinte vezes foi ouvida,
Qual o vento, sibilar,
E nas ancas revoltosas
Dos ginetes estalar,
Por tal modo

que amanheceu enfim de todo. Confesse que é
uma das manhãs longas que se tem visto raiar
sobre o Horizonte: mas enfim amanheceu. Era de
esperar que, depois de tanto trabalho de Apolo,
a manhã fosse clara e brilhante: não sucedeu
assim;

Porque densa escura névoa,
Por entre o freio, escumavam
Os cavalos furiosos,
Dos açoites que aturavam.

Se lhe não agrada esta teoria, para explicar a
origem das névoas; saiba que em Poesia ainda se
não deu melhor; e se não é certa, ao menos é as-
sim inteligível para mostrar que a manhã foi ne-
bulosa. Irra! que manhã! eu mesmo já não sei
como hei de chegar ao meio-dia, a não ser de pulo.
Saltemos pois:

(...)


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
1 693

Ode III - Sobre a Necessidade da Revelação

(...)

Antístrofe 3a.

Ó México! ó cidades desgraçadas
Do novo aflito mundo!
Parece-me que vejo inda ensopadas
Em sangue as vossas casas; furibundo
Voraz fogo nos ares estalando,
Os vossos débeis muros arrasando.

Epodo 3o.

Embora cante a fama
A constante invencível fortaleza
De Colombo imortal, do invicto Gama:
A Européia crueza
Manchou depois a sua nobre empresa.

(...)


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
984

Soneto VII - Aos Anos de uma Menina

Não creias, gentil Márcia, na pintura,
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armaram
Da cruenta, implacável, foice dura.

Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores, o pintaram;
E nem ser ele, ao menos acenaram,
Quem desenvolve as graças da figura.

Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:

Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.401. (Textos, 2)

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
1 045

Soneto I [Oito anos apenas eu contava

Oito anos apenas eu contava,
Quando a fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da Pátria me ausentava.

Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando
Em lágrimas o Pai, e a Mãe deixava.

Entre ferros, pobreza, enfermidade
Eu vejo, ó Céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.

A velhice cruel, (ó dura Morte!)
Que faz temer tão triste mocidade,
Para poupar-me, descarrega o corte.


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.2, p.124. (Coleção Afrânio Peixoto, 5)

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
996

Salmo XXII [O meu DEUS é minha guia

Dominus regit me...

1.
O meu DEUS é minha guia,
Tenho tudo de abundância;
A mais suave fragrância,
Verde e fresca amenidade,
É dos prados companhia,
Onde assentou minha herdade;
Com perene fonte a rega,
Me conforta, me sossega.

2.
Por mostrar seu braço forte,
A minha alma iluminando
Sempre fui meus pés firmando
Da justiça pela estrada;
Em vão me acomete a morte
De densas sombras cercada.
Sem temor, ó DEUS, a vejo;
Pois ao lado teu forcejo.

3.
O cajado, e a lisa vara
Com que sempre me regeste,
Ao voraz lobo que investe
Vigorosa fere, e mata:
E contra a coorte amara
Que me segue e me maltrata,
A meus olhos preparaste
Pingue mesa, e me esforçaste.

4.
Mil perfumes sobre a frente
Me espargiste, generoso;
E como é delicioso
O cáli com que me abrandas
Minha sede impaciente!
Ah! benignas sempre e brandas
Tuas mostras de piedade
Me sigam em toda a idade.

5.
Sim, meu DEUS, serás piedoso
Com teu servo, e longamente
Té que eu possa eternamente,
Roto o véu que me circunda,
Ver teu rosto glorioso;
Oxalá serena e munda
Já minha alma, leda entrasse
No teu paço, e te gozasse!


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo português. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P. N. Rougeron, 1820. v.
1 078

Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [2

(...)

Muito tinha a dizer sobre esta obra admirável,
se não fosse a vozeria da equipagem, que me obriga
a largar mão da pena para atender a um
indivíduo, que nos põe a todos de mau humor,
e a mim em susto.

Um Tritão todo coberto
De marisco e verde limo,
Traz somente descoberto
O nariz agudo, e frio.

Pelas ventas vem soprando
Vento Leste enregelado,
E dobra, de instante a instante
Seu furor endiabrado.

Treme o mar encapelado,
O baixel torcido geme,
Mal segura o indócil leme
O mancebo debruçado.

Que há de ser de mim, meu Pires? em que língua
hei de falar a este Tritão para abrandar a sua cólera?
Português, Italiano, Latim, Francês, Inglês,
é de que eu sei alguma coisa: mas quem pode
adivinhar a língua dos Tritões? Experimentemos;
vou falar-lhe em todas elas, talvez que entenda
alguma:

Basta já, Senhor Tritão,
(Não entende.)

Per pietá, Tritone amato,
(Menos.)

Triton, I can no more,
(Tempo perdido.)

Prudence, Seigneur Triton
(Pior.)

Ó Triton, esto pacato
Corde, animo, naso e ore.

Com efeito a esta última língua fez um leve aceno;
e é indubitável que até os Tritões veneram a
antiguidade; mas ou seja perrice, ou tenção ante-
cipada, cada vez se acende mais em ira:

Eis que as bochechas engrossa;
Ai de mim, onde esconder-me!
Parece querer no abismo,
De um só sopro, soverter-me.

Boa vontade tinha de lhe pintar aqui uma tem-
pestade, não faltará ocasião: entretanto imagine
serras, montanhas, ondas, mares, Céus, abismos,
Bóreas, Austro, Leste, Oeste, e toda a caterva dos
ventos; ajunte-lhes quatro adjetivos, e três verbos
para os unir, e terá uma tempestade completa.
O pior é que não se aplaca a que me persegue:
vou de novo suplicar o Tritão na língua que pa-
rece entender... Bravo! começa a adoçar-se: aplacou-se
de todo; vai-se embora,

Depois de roncar seis vezes
Com medonho horrendo ronco,
E de sorver outras tantas,
Por ser um Tritão mui porco,
O limoso verde monco;
Escorregando,
Contradançando
Ligeiramente,
No fundo do mar
Em lisa gruta,
Foi-se abrigar.

(...)


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: CANDIDO, Antonio; CASTELLO, J. Aderaldo. Presença da literatura brasileira: história e antologia: I. das origens ao realismo. 3.ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. p.145-147

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
1 218

Ode II [Oh! quanto és bela

Oh! quanto és bela
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.

Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.

Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.

Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.

Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:

Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.

Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,

Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.

Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.

Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.

Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.

Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.

Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.

A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!

Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!


Poema integrante da série Odes Anacreônticas.

In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
1 077

Salmo CXXXVI [Nas praias que o Eufrates rega

Super fluminis Babylonis...

Nas praias que o Eufrates rega,
Abatidos nos sentamos,
De pranto amaro as banhamos,
Com saudades de Sion.

Dos salgueiros que as guarnecem,
Nossos doces instrumentos
Pendem, ludíbrio dos ventos,
Sinal da nossa aflição.

Esses mesmos que as cadeias
Para os nossos pés teceram,
Sem ter dó de nós disseram:
— "Vossas cítaras tocai;

"Um dos hinos que algum dia,
"Pelo templo ressoava
"De Sion, quando louvava
"O seu DEUS, — vinde, cantai".

— Como havemos de cantar,
Sob estranhos, duros Céus,
Em terra alheia e distante,
As canções do nosso DEUS?

Possa eu ver a minha destra
De langor entorpecer,
Ó Sion! se me esquecer
Dos saudosos muros teus.

Possa a minha língua fria
Às roucas fauces grudar-se;
Se a saudade tua, um dia,
De meu peito se riscar:

Se Tu não fores o objeto
De meu sonoroso canto;
Se o meu prazer, meu encanto,
De Ti só não começai.

Lembrai-vos, ó meu SENHOR!
Dos cruéis filhos de Edom;
Do dia em que seu furor
Jerusalém arrasou.

"Abatei-a, destrui-a,
"Dela não fique vestígio,
"À cinza e pó reduzi-a":
Assim Edom proclamou:

— Ó Babilônia malvada!
Bem haja o que te igualar
À nossa sorte, e teus muros,
Quais os nossos, arrasar!

Cativar possa ele cedo
Os malditos filhos teus,
E todos contra um penedo,
Para punir-te, esmagar!


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo potuguês. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1820. v.
1 056

As Aves, Noite Filosófica

(...)
Ali a terra com perene vida
Do seio liberal desaferrolha
Riquezas mil, que o Lusitano avaro
Ou mal conhece, ou mal aproveitando,
Esconde com ciúme ao Mundo inteiro.
Ali, ó dor!... ó minha Pátria amada!
A Ignorância firmou seu rude assento,
E com hálito inerte tudo dana,
Os erros difundindo, e da verdade
O clarão ofuscando luminoso.
Ali servil temor, e abatimento
Os corações briosos amortece,
E enquanto a Natureza desenhava
De outro Éden as campinas deleitosas,
A estúpida Ambição com mão mesquinha
Transtornou seu magnífico projeto,
E só parece aparelhar abrigo
Às aves, que do dia se arreceiam,
E procuram da Noite a sombra triste.
(...)


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
1 462

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