Lista de Poemas

II [Um coração boxeur que bate, bate

Um coração boxeur que bate, bate
mas convenhamos gosta de apanhar
e bater pernas pelo bulevar:
assim é o meu, desgovernado iate

— não sou piloto para o tripular.
Onde céus ele vai? tatibitate
atrás de um outro coração que o mate
ou lhe acenda uma luz crepuscular

antes que a noite finalmente caia,
noite definitiva carta escrita
em braille, noite noiva predileta,

antes que o dia saia e torne maya
tudo isso que passa por estrita
realidade, dor, desejo, meta.


In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
1 238

God (short) story

Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
722

Altamira's gift

Esboça um caçador a sua caça
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores

839

Tu és o cavaleiro eu sou a montaria

Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão
essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor
dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro
da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo
969

um último poema é uma fragata

um último poema é uma fragata
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.

.
.
.
724

Fiducai. Confissões

1.

Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto

2.

_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.

3.

Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo

4.

Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos

5.

Eu posso ser um impostor.
Eu sou.

6.

Posso não ser um impostor.
Eu sou.

7.

Não ser eu.
E não sou.

8.

Ser eu.
Sim.

9.

pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez

diz oh diz
diz o poema
até silenciar

10.

diz o poema
até dizer

xAma

776

áspera Prisma lápice cria'anza

áspera Prisma lápice cria'anza
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap

? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar

os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo

nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas

: prisma. Ver



800

XXIII [Toda vida é rascunho impermanente

Toda vida é rascunho impermanente
manuscrito com tinta azul lavável.
Não divise futuros, não invente
eternidades nem se torne escrava

de horizontes perdidos e apagados.
Somos mortais, por isso celebramos
casuais centelhas de imortalidade.
Por mais que dure e se transvie em ramos,

uma árvore tem a sua hora.
Se a chuva a curva, sofre mas não chora,
senão, dizem, até se alegra e gosta

sem se dar ao trabalho de sorrir.
Deus, amor, lhe dê olhos de menina
que a paisagem de hoje descortinem.


In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
1 219

como algum astro mestre

como algum astro mestre
apontado nos mapas celestes

um rayito de sol
tostando a testa dos homens sós

como um barco à deriva
uma lady, uma dona, uma diva

uma lasca de noz
no agridoce metal da sua voz

um afago nos ramos mais altos das árvores
uma rosa na sala das armas

como um vitral
infiltrado de luz natural

aeroplano em céu noturno
a letra a de aurora, puro ouro

O ouro. Para Antonio Carlos Jobim


In: LEMOS, Tite de. Corcovado Park. Pref. Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poesia brasileira)
1 123

Irmandade

O meu irmão habita os pântanos e os bosques
ermos, os fundos dos quintais onde não vai
ninguém. Eu tive a mesma mãe e o mesmo pai
mas gosto mais das aquarelas dos pomares,
dos lugares aéreos, de coisas assim.
Eu toco címbalo e marimba, ele mergulha
nas oceânicas igrejas, conchas, símbolos
significando nada além dos seus barulhos
e é um devorador de ostras e escraviza
toda mulher que ama, todos os dragões
que doma; e o meu esporte é cavalgar a brisa
passageira. Seremos para sempre dois
— como o chá e o limão, a coca-cola e o rum —
até que o acaso nos convide a ser só um


In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. Pref. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis)
1 275

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Identificação e contexto básico

O poeta, ensaísta e tradutor brasileiro Tite de Lemos tem como nome completo Tito Machado de Lemos. Não se conhece o uso de pseudónimos ou heterónimos proeminentes. Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, e a sua nacionalidade é brasileira, escrevendo em português. Viveu e vive num período de significativas transformações culturais, sociais e tecnológicas no Brasil e no mundo, desde a segunda metade do século XX até à atualidade.

Infância e formação

A infância e formação de Tite de Lemos ocorreram no ambiente urbano do Rio de Janeiro. Detalhes sobre a sua origem familiar e formação específica são menos documentados publicamente, mas é sabido que desenvolveu um forte interesse pela literatura e pelas artes desde cedo. A sua formação, para além da educação formal, foi marcada por um autodidatismo intenso, com uma vasta leitura de autores clássicos e contemporâneos, tanto da literatura brasileira quanto estrangeira. A absorção de diferentes movimentos literários, filosóficos e artísticos é perceptível em sua obra, que demonstra um diálogo com diversas correntes estéticas.

Percurso literário

O percurso literário de Tite de Lemos iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas, marcando sua entrada no cenário literário brasileiro. A sua obra poética demonstra uma evolução ao longo do tempo, com fases que exploram diferentes abordagens temáticas e estilísticas. A cronologia da sua obra reflete uma maturação contínua, consolidando a sua voz poética. Tite de Lemos também atuou como tradutor, tendo vertido para o português obras de autores importantes, enriquecendo o panorama literário brasileiro com novas vozes e perspectivas. A sua atividade como ensaísta também é notável, abordando temas relacionados à literatura, arte e cultura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Tite de Lemos abrange poesia e ensaio. Em sua poesia, temas como a memória, a identidade, a cidade, a natureza, o tempo e as relações humanas são recorrentes. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem lírica e reflexiva, com atenção à musicalidade e ao ritmo do verso. Utiliza recursos poéticos como a metáfora e a imagem para construir um universo poético denso e sugestivo. A voz poética em seus poemas é, muitas vezes, íntima e contemplativa, mas capaz de abranger questões universais. A linguagem tende a ser elaborada, mas acessível, com um vocabulário que transita entre o coloquial e o erudito. Sua obra dialoga com a tradição da poesia brasileira, ao mesmo tempo em que apresenta uma perspectiva contemporânea. Está associado a movimentos e tendências da poesia brasileira contemporânea, que buscam a renovação formal e temática.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tite de Lemos viveu e produziu em um período de intensas mudanças culturais e políticas no Brasil. Sua obra reflete, de maneira sutil ou explícita, as inquietações e os debates do seu tempo. Manteve relações com outros escritores e intelectuais, participando do circuito literário brasileiro. A geração a que pertence é a da poesia brasileira contemporânea, que se caracteriza pela diversidade de estilos e pela busca por novas formas de expressão. Sua posição filosófica e política, quando manifestada, tende a ser reflexiva e crítica.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Tite de Lemos, como relações afetivas ou familiares significativas, não são amplamente divulgadas na esfera pública. Sabe-se que sua dedicação à literatura e à tradução moldou sua trajetória. Acredita-se que suas experiências de vida, observações do cotidiano e reflexões sobre a existência humana sejam fontes de inspiração para sua obra. Sua atuação como tradutor também sugere um profundo apreço e conhecimento de outras culturas e literaturas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Tite de Lemos tem crescido no meio literário brasileiro, sendo sua obra valorizada pela crítica e por leitores atentos à poesia contemporânea. Embora não sejam sempre divulgados prêmios e distinções específicas, sua presença em antologias e publicações literárias atesta sua relevância. Sua popularidade pode ser maior em círculos acadêmicos e entre apreciadores de poesia, em contraste com um alcance massivo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Tite de Lemos foi influenciado por uma vasta gama de poetas brasileiros e estrangeiros, bem como por correntes filosóficas e artísticas. Seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea brasileira, tanto pela sua própria obra quanto pelo seu trabalho como tradutor, que ampliou o acesso a importantes autores estrangeiros. Sua influência pode ser percebida em poetas mais jovens que compartilham de sua sensibilidade e interesse por temas como a memória e a identidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tite de Lemos oferece um terreno fértil para interpretações críticas, especialmente no que diz respeito à exploração da memória individual e coletiva, da subjetividade e das complexidades da vida urbana. Sua poesia convida à reflexão sobre a condição humana em tempos modernos, a relação entre o eu e o mundo, e a busca por sentido em meio à efemeridade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos sobre Tite de Lemos podem estar relacionados aos detalhes de seu processo criativo ou a episódios de sua vida pessoal que não são de conhecimento público geral. Sua expertise como tradutor, aliada à sua produção poética, demonstra uma amplitude de talentos e interesses no campo das letras.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sendo um autor contemporâneo, Tite de Lemos está vivo e em atividade. Portanto, não há informações sobre sua morte ou publicações póstumas.