Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

1931–2015 · viveu 83 anos SE SE

Tomas Tranströmer foi um poeta e psicólogo sueco, amplamente reconhecido pela sua obra lírica e introspectiva que explora a relação entre a natureza, o eu e o mundo. A sua poesia caracteriza-se pela clareza, imaginação e pela capacidade de evocar estados de espírito profundos através de imagens vívidas e de um ritmo contemplativo. Foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 2011, distinguindo-se pela sua voz única na poesia contemporânea.

n. 1931-04-15, Estocolmo · m. 2015-03-26, Estocolmo

21 818 Visualizações

Dó Maior

Quando desceu à rua depois do encontro
o ar rodopiava de neve.
O inverno chegara
enquanto estiveram juntos.
A noite brilhava branca.
Caminhou leve de alegria.
A cidade inteira em declive.
Os sorrisos que passavam –
sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
Era de graça!
E todos os pontos de interrogação começavam a cantar o ser de Deus.

Foi isso que pensou.
Uma música surgiu
e a passos largos
caminhava num turbilhão de neve.
Tudo a caminho da nota dó.
Um trémulo compasso em direcção a dó.
Uma hora acima dos tormentos.
Era fácil!
Sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Tomas Gösta Tranströmer foi um poeta e tradutor sueco. Utilizou o seu nome próprio em toda a sua obra literária. Nasceu a 15 de abril de 1931, em Estocolmo, Suécia, e faleceu a 26 de março de 2015, em Estocolmo.

Infância e formação

Tranströmer cresceu em Estocolmo, filho único de um professor e de uma professora. O seu pai faleceu quando ele era ainda criança, o que o marcou profundamente. Desde cedo, desenvolveu um forte interesse pela natureza, passando muito tempo em contacto com a paisagem sueca. Estudou botânica, história da arte e literatura na Universidade de Estocolmo, onde se formou em 1956. Mais tarde, completou uma formação em psicologia.

Percurso literário

Tranströmer publicou o seu primeiro livro de poesia, "17 dikter" (17 poemas), em 1954, com apenas 23 anos, obtendo reconhecimento imediato. A sua obra posterior continuou a ser publicada regularmente, com intervalos significativos que refletiam a sua dedicação à escrita e à sua profissão como psicólogo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Tranströmer incluem "Hemligheter på vägen" (Segredos no Caminho, 1959), "Paulusarenan" (A Arena de São Paulo, 1962), "Mörkertalet" (O Denário Negro, 1962), "Klanger och spår" (Sons e Rastros, 1966), "Den levande och den döde" (O Vivo e o Morto, 1970), "Östersjöar" (Mares do Leste, 1974), "Sanningsbarriären" (A Barreira da Verdade, 1978), "Det vilda torget" (A Praça Selvagem, 1983), "För levande och döda" (Para Vivos e Mortos, 1989), "Sorgegondolen" (A Góndola do Luto, 1996), e "Den stora gåtan" (O Grande Enigma, 2004). Os temas centrais na sua obra são a natureza, a memória, a identidade, a solidão, a morte e a condição humana. O seu estilo é marcado pela clareza, pela precisão imagética e por uma profunda capacidade de introspeção. Tranströmer frequentemente utiliza a metáfora e a imagem para criar pontes entre o mundo exterior (a natureza, o quotidiano) e o mundo interior (os sentimentos, as reflexões). A sua poesia tem um tom contemplativo e, por vezes, melancólico, mas sempre com uma esperança subjacente. Ele explorou o verso livre, mas com um forte sentido de ritmo e musicalidade, muitas vezes comparado à música clássica. A sua linguagem é acessível mas densa em significado, evitando o sentimentalismo fácil.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tranströmer viveu grande parte da sua vida no século XX e início do século XXI, um período de intensas transformações sociais, políticas e tecnológicas. Embora a sua poesia não seja explicitamente política, reflete uma sensibilidade para com as questões existenciais e sociais do seu tempo. Foi contemporâneo de outros grandes poetas europeus e mundiais, e a sua obra dialoga com a tradição poética escandinava e europeia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Tranströmer foi casado com Monica Hellström e teve duas filhas. Paralelamente à sua carreira literária, trabalhou como psicólogo, o que influenciou a sua perceção da psique humana e a sua abordagem à condição humana na poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Considerado um dos mais importantes poetas suecos do pós-guerra, Tranströmer alcançou reconhecimento internacional significativo. Foi distinguido com vários prémios literários importantes ao longo da sua carreira. O auge do seu reconhecimento deu-se com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 2011, com a Academia Sueca a salientar "a sua densa transparência, que nos dá acesso a uma realidade inacessível".

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Tranströmer foi influenciado por poetas como Harry Martinson e Gunnar Ekelöf. A sua obra, por sua vez, influenciou gerações de poetas na Suécia e internacionalmente, com o seu estilo lírico e introspectivo a ser amplamente admirado. A sua poesia foi traduzida para mais de 60 idiomas, demonstrando o seu alcance global.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tranströmer é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a existência, a ligação entre o ser humano e a natureza, e a busca por sentido num mundo em constante mudança. A sua poesia convida à reflexão sobre temas universais como o amor, a perda, o tempo e a espiritualidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Tranströmer era conhecido pela sua personalidade reservada e humilde. As suas viagens, especialmente à América Latina e aos Estados Unidos, deixaram marcas na sua obra. O seu forte contacto com a natureza, muitas vezes descrita nas suas paisagens poéticas, era um elemento central da sua vida e inspiração.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Tomas Tranströmer faleceu em 2015, após uma longa doença. A sua morte foi amplamente lamentada no mundo literário. Após a sua morte, continuaram a ser publicadas antologias e edições das suas obras completas, mantendo viva a sua memória e o seu legado poético.

Poemas

32

PAUSA RESPIRATÓRIA EM JULHO

Quem está deitado de costas debaixo das árvores altas
está também lá em cima. Ele flui por milhares de ramos,
balança para cá e para lá,
está sentado num assento ejector que voa em câmara lenta.

Quem está lá em baixo no passadiço, pisca os olhos à água.
Os passadiços envelhecem mais rápido que as pessoas.
Eles têm madeira acinzentada e pedras no estômago
A luz ofuscante bate no fundo.

Quem durante todo o dia navega no barco aberto
por cima das baías cintilantes,
acabará por adormecer numa lâmpada azul,
enquanto as ilhas rastejam pelo vidro como grandes mariposas.
645

NOVEMBRO

Quando o lacaio se aborrece, torna-se perigoso.
O céu em chamas contrai-se.
Pancadas ecoam de cela em cela.
E o espaço jorra da geada.
Algumas pedras brilham como luas cheias.
727

Arcos Românicos

Turistas amontoados no lusco-fusco da grande
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
701

Música lenta

A casa hoje por abrir. O sol entra a jorros pelas janelas
e aquece o tampo da secretária
que é sólida capaz de carregar com o destino dos outros.

Andamos hoje ao ar livre pela longa e larga encosta.
Há quem se vista de negro. Se ficares ao sol e fechares os olhos
vais sentir o vento a levar-te lentamente.

É raríssimo vir até junto ao mar. Vim agora
entre enormes pedras com um lado tranquilo.
Pedras que passo a passo recuam para fora do mar
751

CAPRICHOS

Escurece em Huelva: as palmeiras fuliginosas
e os morcegos prateado - claros apressados
do apito do comboio.

As ruas encheram-se de gente.
E a senhora, que caminha apressada por entre a multidão,
pesa cuidadosamente a última luz do dia na balança dos seus olhos.

As janelas dos escritórios abertas. Ainda se ouve,
como o cavalo bate com os cascos lá dentro.
O velho cavalo com os cascos de carimbo.

As ruas só ficam vazias depois da meia-noite.
Finalmente, é azul em todos os escritórios.

O espaço lá em cima:
troteando sem ruído, dispersa e negra,
despercebida e solta,
atirada ao cavaleiro:
uma nova constelação que eu chamo “ Cavalo “.
728

Allegro

Toco Haydn depois de um dia negro
e sinto um calor simples nas mãos.
O teclado está ansioso. Os martelos soam temperados.
O som é verde, vivíssimo, tranquilo.

O som diz que a liberdade existe,
que alguém não paga o imposto de César.

Meto as mãos nos meus bolsos de Haydn
e finjo deitar um olhar frio ao mundo.

Faço içar a bandeira de Haydn – ela indica:
“Não nos renderemos. Mas queremos paz.”

A música é uma casa de vidro na encosta
onde voam pedras, se quebram pedras.

E as pedras quebram-se pelos vidros adentro
mas a casa continua de pé, inteira.
728

CARA A CARA

Em Fevereiro a vida parou.
Os pássaros não gostavam de voar e a alma
esfregava-se na paisagem como um barco
que se esfrega ao passadiço, onde está amarrado.

As árvores estavam de costas viradas para aqui.
Talos mortos mediam a profundidade da neve.
Pegadas envelheciam na neve áspera.
Sob um toldo a linguagem definhava.

Um dia apareceu uma coisa à janela.
O trabalho parou e eu ergui os olhos.
As cores ardiam. Tudo se transformara.
O solo e eu demos um salto em direcção um ao outro.
846

DESDE A MONTANHA

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
751

A viagem

Na estação subterrânea.
Uma multidão entre placares
num pasmo de luz morta.

O comboio parou e recolheu
rostos e portefólios

Depois a escuridão. Sentámo-nos
nas carruagens como estátuas,
arrastados pelas cavernas.
Restrição, sonhos, restrição.

Em estações abaixo do nível do mar
vendiam-se notícias da escuridão.
Pessoas movendo-se tristemente
silenciosas debaixo do mostrador dos relógios.

O comboio carregando
roupas e almas

Olhares em todas as direcções
na viagem pela montanha.
Nenhuma mudança.

Junto à superfície começa
um zunido de abelhas – liberdade.
Saímos da terra.

A terra por uma vez bateu
asas e ficou quieta debaixo
de nós, estirada e verde.

Espigas de milho esvoaçavam
por cima das plataformas.

Terminal – eu
prossegui mais além.

Comigo quantos estavam? Quatro,
cinco, não mais.

Casas, estradas, céus,
enseadas azuis, montanhas
abrindo as suas janelas.
705

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
647

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.