Vasko Popa
1922–1991
· viveu 68 anos
RS
Vasko Popa foi um poeta sérvio considerado um dos mais importantes da poesia moderna sérvia e europeia. A sua obra, marcada por uma linguagem concisa e imagética, explora temas universais como a identidade, a memória e a condição humana, muitas vezes através de uma abordagem mítica e folclórica. Popa é conhecido pela sua capacidade de transformar elementos do quotidiano e do imaginário popular em metáforas poderosas, criando um universo poético único e de grande profundidade.
n. 1922-06-29, Grebenac · m. 1991-01-05, Belgrado
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Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
Biografia
Identificação e contexto básico
Nome completo: Vasko Popa Data de nascimento: 29 de junho de 1922 Local de nascimento: Glogovac, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (atual Sérvia) Data de morte: 19 de junho de 1991 Local de morte: Belgrado, República Socialista Federativa da Jugoslávia Origem familiar: Filho de pai sérvio e mãe romena. Nacionalidade: Sérvio Língua(s) de escrita: Sérvio Contexto histórico: Viveu e produziu a maior parte da sua obra durante o século XX, atravessando a Segunda Guerra Mundial e o período comunista na Jugoslávia.Infância e formação
Vasko Popa passou a infância em diferentes aldeias da Vovdina, região da Sérvia com forte influência cultural romena e húngara. A sua educação formal incluiu estudos em Pančevo e Belgrado. As experiências da guerra e a ocupação, que o levaram a ser preso em campos de concentração, tiveram um impacto profundo na sua visão de mundo e na sua obra.Percurso literário
Popa começou a escrever poesia na juventude. A sua primeira coleção de poemas, "Kamenovanje" (Pietrificação), foi publicada em 1950, marcando o início de uma carreira prolífica. Ao longo das décadas seguintes, publicou várias obras que consolidaram a sua reputação como um dos grandes poetas da sua geração. Atuou também como tradutor e editor.Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias Obras principais incluem "Kolicina zemlje" (A Quantidade de Terra, 1954), "Sporedni put" (O Caminho Lateral, 1958), "Uspravna zemlja" (Terra Vertical, 1972) e "Kuca na sredini ulice" (A Casa no Meio da Rua, 1980). Temas dominantes: A exploração da identidade, a memória coletiva e individual, a condição humana, a relação com a terra e o cosmos, a passagem do tempo e a busca por um sentido. Forma e estrutura: Utilizou frequentemente formas concisas, com versos curtos e uma estrutura que evoca a oralidade e a canção popular, mas também experimentou com formas mais livres. Recursos poéticos: Metáforas originais e surpreendentes, um ritmo marcado e uma musicalidade subtil. Tom e voz poética: Geralmente reflexivo, por vezes com um toque de ironia ou melancolia, explorando uma voz que é simultaneamente pessoal e universal. Linguagem e estilo: Caracteriza-se pela economia verbal, precisão vocabular e uma forte densidade imagética. A linguagem é clara, mas carregada de significados múltiplos. Inovações: Popa fundiu elementos da tradição épica e folclórica sérvia com uma sensibilidade moderna, criando um estilo singular que influenciou muitos poetas posteriores. Movimentos literários: Associado ao pós-guerra e a uma poesia que se afasta de ideologias explícitas, buscando uma expressão mais autêntica e universal.Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico Vasko Popa viveu num período de grandes transformações na Jugoslávia, sob regime comunista. A sua obra, embora não explicitamente política, reflete um certo desencanto e uma busca por valores humanos fundamentais num contexto de incerteza histórica. Manteve contato com outros escritores e intelectuais da sua geração, contribuindo para o debate cultural do país.Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal Popa foi casado com a tradutora e escritora Ljiljana Popa (nascida Babić). A sua experiência em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial deixou marcas profundas. Trabalhou como editor na editora Nolit, em Belgrado.Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção É amplamente considerado um dos poetas mais importantes da literatura sérvia e da Europa do pós-guerra. Recebeu diversos prémios literários na Jugoslávia e o seu trabalho foi traduzido para muitas línguas, ganhando reconhecimento internacional.Obra, estilo e características literárias
Influências e legado Foi influenciado por poetas da tradição oral sérvia, pela mitologia e pelo folclore balcânico, bem como por poetas simbolistas e surrealistas. O seu estilo conciso e imagético influenciou gerações de poetas na Sérvia e em outras partes da Europa.Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica A obra de Popa é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a existência, a memória e a condição humana. A sua poesia convida à reflexão sobre as origens, o destino e a relação do indivíduo com o universo.Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos Popa era conhecido pela sua discrição e pela sua dedicação à arte. A sua poesia é marcada por uma alquimia verbal, onde o simples se torna profundo e o quotidiano adquire uma dimensão mítica. Os seus poemas frequentemente apresentam objetos banais em contextos insólitos.Obra, estilo e características literárias
Morte e memória Vasko Popa faleceu em Belgrado, em 1991. A sua obra continua a ser estudada e apreciada, mantendo a sua relevância na literatura contemporânea.Poemas
13- No Final
Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
669
- Debaixo da terra
Músculo da treva músculo da carne
Isso dá no mesmo
E o que faremos agora
Convocaremos os ossos de todos os tempos
Subiremos até o sol
E então o que faremos
Cresceremos então limpos
Continuaremos crescendo à vontade
E depois o que faremos
Nada um vagar de cá para lá
Seremos um eterno ser ósseo
Espera só o bocejo da terra
683
- Sob o sol
É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
752
Trepadeira
Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
906
Musgo
Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda
Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores
Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda
Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores
Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela
916
Quartzo
Sem cabeças sem membros
Aparece
Com o emocionado pulso das ocasiões
Move-se
Com o passo atrevido dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço
Tronco liso branco exato
Sorri com a sobrancelha da lua
Aparece
Com o emocionado pulso das ocasiões
Move-se
Com o passo atrevido dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço
Tronco liso branco exato
Sorri com a sobrancelha da lua
938
- No começo
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
666
No suspiro
Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés
Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo
Lábios invisíveis
Apagaram o campo
A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas
786
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
711
Caracol estrelado
Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
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