Lista de Poemas

- No começo

Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
629

- Depois do começo

O que faremos agora
Realmente o que faremos
Agora jantaremos a medula
Comemos a medula no almoço
Agora o oco dói em mim
Pois toquemos música
Gostamos de música
O que faremos quando os cães vierem
Eles gostam de ossos
Entalaremos em suas gargantas
E gozaremos
561

- Sob o sol

É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
715

- Debaixo da terra

Músculo da treva músculo da carne
Isso dá no mesmo
E o que faremos agora
Convocaremos os ossos de todos os tempos
Subiremos até o sol
E então o que faremos
Cresceremos então limpos
Continuaremos crescendo à vontade
E depois o que faremos
Nada um vagar de cá para lá
Seremos um eterno ser ósseo
Espera só o bocejo da terra
641

- No Final

Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
634

- Diante do final

Onde iremos agora
Onde a lugar algum
Onde poderiam ir dois ossos
O que faremos lá
Lá nos de há muito
Lá nos espera ansioso
Nada e sua mulher nada
De que lhes servimos nós
Envelheceram desossados
Seremos para eles como filhos
726

- Sob a lua

O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
670

Quartzo

Sem cabeças sem membros
Aparece
Com o emocionado pulso das ocasiões
Move-se
Com o passo atrevido dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço

Tronco liso branco exato
Sorri com a sobrancelha da lua


897

Trepadeira

Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos


864

Caracol estrelado

Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata

As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha

O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol

Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada

Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais

E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata


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Identificação e contexto básico

Nome completo: Vasko Popa Data de nascimento: 29 de junho de 1922 Local de nascimento: Glogovac, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (atual Sérvia) Data de morte: 19 de junho de 1991 Local de morte: Belgrado, República Socialista Federativa da Jugoslávia Origem familiar: Filho de pai sérvio e mãe romena. Nacionalidade: Sérvio Língua(s) de escrita: Sérvio Contexto histórico: Viveu e produziu a maior parte da sua obra durante o século XX, atravessando a Segunda Guerra Mundial e o período comunista na Jugoslávia.

Infância e formação

Vasko Popa passou a infância em diferentes aldeias da Vovdina, região da Sérvia com forte influência cultural romena e húngara. A sua educação formal incluiu estudos em Pančevo e Belgrado. As experiências da guerra e a ocupação, que o levaram a ser preso em campos de concentração, tiveram um impacto profundo na sua visão de mundo e na sua obra.

Percurso literário

Popa começou a escrever poesia na juventude. A sua primeira coleção de poemas, "Kamenovanje" (Pietrificação), foi publicada em 1950, marcando o início de uma carreira prolífica. Ao longo das décadas seguintes, publicou várias obras que consolidaram a sua reputação como um dos grandes poetas da sua geração. Atuou também como tradutor e editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais incluem "Kolicina zemlje" (A Quantidade de Terra, 1954), "Sporedni put" (O Caminho Lateral, 1958), "Uspravna zemlja" (Terra Vertical, 1972) e "Kuca na sredini ulice" (A Casa no Meio da Rua, 1980). Temas dominantes: A exploração da identidade, a memória coletiva e individual, a condição humana, a relação com a terra e o cosmos, a passagem do tempo e a busca por um sentido. Forma e estrutura: Utilizou frequentemente formas concisas, com versos curtos e uma estrutura que evoca a oralidade e a canção popular, mas também experimentou com formas mais livres. Recursos poéticos: Metáforas originais e surpreendentes, um ritmo marcado e uma musicalidade subtil. Tom e voz poética: Geralmente reflexivo, por vezes com um toque de ironia ou melancolia, explorando uma voz que é simultaneamente pessoal e universal. Linguagem e estilo: Caracteriza-se pela economia verbal, precisão vocabular e uma forte densidade imagética. A linguagem é clara, mas carregada de significados múltiplos. Inovações: Popa fundiu elementos da tradição épica e folclórica sérvia com uma sensibilidade moderna, criando um estilo singular que influenciou muitos poetas posteriores. Movimentos literários: Associado ao pós-guerra e a uma poesia que se afasta de ideologias explícitas, buscando uma expressão mais autêntica e universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Vasko Popa viveu num período de grandes transformações na Jugoslávia, sob regime comunista. A sua obra, embora não explicitamente política, reflete um certo desencanto e uma busca por valores humanos fundamentais num contexto de incerteza histórica. Manteve contato com outros escritores e intelectuais da sua geração, contribuindo para o debate cultural do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Popa foi casado com a tradutora e escritora Ljiljana Popa (nascida Babić). A sua experiência em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial deixou marcas profundas. Trabalhou como editor na editora Nolit, em Belgrado.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É amplamente considerado um dos poetas mais importantes da literatura sérvia e da Europa do pós-guerra. Recebeu diversos prémios literários na Jugoslávia e o seu trabalho foi traduzido para muitas línguas, ganhando reconhecimento internacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas da tradição oral sérvia, pela mitologia e pelo folclore balcânico, bem como por poetas simbolistas e surrealistas. O seu estilo conciso e imagético influenciou gerações de poetas na Sérvia e em outras partes da Europa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Popa é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a existência, a memória e a condição humana. A sua poesia convida à reflexão sobre as origens, o destino e a relação do indivíduo com o universo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Popa era conhecido pela sua discrição e pela sua dedicação à arte. A sua poesia é marcada por uma alquimia verbal, onde o simples se torna profundo e o quotidiano adquire uma dimensão mítica. Os seus poemas frequentemente apresentam objetos banais em contextos insólitos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Vasko Popa faleceu em Belgrado, em 1991. A sua obra continua a ser estudada e apreciada, mantendo a sua relevância na literatura contemporânea.