Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

1893–1930 · viveu 36 anos GE GE

Vladimir Maiakovski foi um poeta, dramaturgo e artista russo, figura proeminente do futurismo russo. Sua obra, marcada por uma linguagem vigorosa, experimentalismo formal e um forte engajamento político, expressou a turbulência e as aspirações da Rússia pré e pós-revolucionária. Foi um dos mais importantes poetas soviéticos, embora sua relação com o regime tenha se tornado complexa.

n. 1893-07-07, Baghdati · m. 1930-04-14, Moscovo

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O Amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.


– 1923, tradução de Haroldo de Campos
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Vladimir Vladimirovitch Maiakovski (em russo: Влади́мир Влади́мирович Маяко́вский) foi um poeta, dramaturgo, artista e ativista russo, e posteriormente soviético. Foi uma das figuras mais influentes e controversas do futurismo russo, movimento que buscava romper com a tradição e inovar radicalmente a linguagem e a forma artística. Sua obra, caracterizada por um tom grandiloquente, experimentalismo linguístico e forte engajamento com as questões sociais e políticas, reflete as convulsões da Rússia no início do século XX.

Infância e formação

Nasceu em Baghdati, na Geórgia, então parte do Império Russo. Seu pai, um guarda florestal, faleceu quando Vladimir era jovem, um evento que marcou profundamente sua vida. Após a morte do pai, a família mudou-se para Moscou. Maiakovski demonstrou desde cedo um temperamento rebelde e inclinações artísticas. Foi preso várias vezes por atividades revolucionárias e em 1908 ingressou na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou, onde conheceu outros artistas que se tornariam proeminentes no movimento futurista.

Percurso literário

O percurso literário de Maiakovski começou com sua adesão ao futurismo. Ele foi um dos signatários do manifesto "A Tapa no Gosto do Público" (1912), que pregava a rejeição da arte burguesa e a criação de uma nova linguagem poética. Seus primeiros poemas, como "Nuvem de Calças" (1915) e "O Fim do Teatro" (1916), chocaram o público pela audácia formal, pelo vocabulário coloquial e pela temática urbana e social. Após a Revolução de Outubro de 1917, Maiakovski abraçou entusiasticamente o novo regime, vendo na revolução a oportunidade de realizar suas ambições artísticas e sociais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Maiakovski é marcada por um estilo único e inovador. Ele utilizava o verso livre com uma cadência quase oratória, com quebras rítmicas dramáticas e o uso de "escadas" (versos escalonados) para enfatizar o ritmo e a entonação. Sua linguagem era repleta de neologismos, gírias, vocabulário técnico e publicitário, criando um efeito de choque e dinamismo. Os temas abordados incluem o amor (muitas vezes atormentado e grandioso), a crítica à sociedade burguesa, a exaltação da revolução e a vida na cidade moderna. Obras como "Homem" (1918) e "Vladimir Ilitch Lenin" (1924) demonstram seu compromisso com a causa bolchevique. Seu teatro, como "A Peste Escarlate" (1919) e "A Chefe" (1929), também experimentava com formas e temáticas revolucionárias.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Maiakovski viveu e produziu sua obra em um dos períodos mais turbulentos da história russa e mundial. A Revolução Russa de 1917 foi um divisor de águas, e o poeta se tornou um fervoroso apoiador do regime bolchevique, vendo na arte uma ferramenta para a transformação social. Ele trabalhou com o LEF (Frente de Esquerda das Artes), um grupo que defendia a arte engajada e utilitária. Sua obra foi utilizada como propaganda, mas também expressou as contradições e as dificuldades da construção do socialismo na URSS. A relação com o poder soviético, no entanto, tornou-se cada vez mais tensa, especialmente com o endurecimento do realismo socialista.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Maiakovski foi intensa e atormentada. Seus amores, em particular o relacionamento com Lili Brik, foram uma fonte de inspiração e sofrimento, como evidenciado em poemas como "Uma Nuvem de Calças". Sua postura pública era de um artista revolucionário, mas internamente enfrentava crises existenciais e a pressão da censura e das expectativas do regime. A complexidade de seus relacionamentos e suas lutas internas são aspectos cruciais para a compreensão de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Maiakovski foi um artista celebrado e controverso. Suas performances poéticas eram eventos marcantes, e sua figura pública era imponente. Após sua morte, sua obra foi inicialmente promovida pelo regime soviético, mas posteriormente sofreu períodos de desaprovação devido a certas "desvios" ideológicos. No entanto, seu legado como um dos maiores poetas do século XX e como um inovador da linguagem poética é inegável, influenciando gerações de escritores e artistas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Maiakovski foi influenciado pelo futurismo italiano e pela vanguarda europeia, mas desenvolveu um estilo inconfundível. Sua poesia influenciou a poesia soviética e a poesia revolucionária em todo o mundo. Sua experimentação formal, o uso da linguagem cotidiana e a fusão de arte e política abriram novos caminhos para a expressão artística. Sua obra continua a ser estudada e admirada por sua força, originalidade e pela capacidade de capturar o espírito de uma época de profundas transformações.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Maiakovski é frequentemente analisada sob a ótica de seu engajamento político e de suas inovações formais. Críticos debatem a autenticidade de seu fervor revolucionário versus as pressões ideológicas que enfrentou. Sua poesia amorosa, muitas vezes grandiosa e desesperada, também é um campo fértil para análise, revelando a dualidade entre o homem público e o indivíduo atormentado. O "problema Maiakovski" reside na dificuldade de separar o artista do propagandista, o gênio do instrumento ideológico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Maiakovski era conhecido por sua estatura imponente (mais de dois metros de altura) e por seu estilo de se vestir chamativo, que o tornava uma figura pública instantaneamente reconhecível. Ele não se limitava à poesia; trabalhou extensivamente em cartazes de propaganda, designs gráficos e até mesmo em roteiros de cinema. Sua morte por suicídio em 1910, com um tiro em plena sala de escrita, é um dos momentos mais trágicos de sua biografia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Vladimir Maiakovski cometeu suicídio em 14 de abril de 1930, em Moscou, aos 36 anos. Em seu bilhete de despedida, ele escreveu: "O barco do amor afundou-se / a vida em comum chegou ao fim / tu e eu estamos quitados". Sua morte chocou o mundo artístico e político. Após um período em que sua obra foi alvo de críticas e até mesmo suprimida, o regime soviético, sob a influência de Stalin, acabou por canonizá-lo como "o melhor, o mais talentoso poeta de nossa era soviética", embora essa canonização tenha simplificado a complexidade de sua obra e de sua vida.

Poemas

21

O Amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.


– 1923, tradução de Haroldo de Campos
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E Então Que Quereis?

(Tradução de E. Carrera Guerra)

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

5 832

ADULTOS

Os adultos fazem negócios.
Têm rublos nos bolsos.
Quer amor? Pois não!
Ei-lo por cem rublos!
E eu, sem casa e sem teto, com as mãos metidas nos bolsos rasgados, vagava assombrado.
À noite vestis os melhores trajes e ides descansar sobre viúvas ou casadas.
A mim Moscou me sufocava de abraços com seus infinitos anéis de praças.
Nos corações, no bate o pêndulo dos amantes.
Como se exaltam as duplas no leito do amor!
Eu, que sou a Praça da Paixão, surpreendo o pulsar selvagem do coração das capitais.
Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao sol e aos jatos díágua.
Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores!
Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe!
O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração - em todas as partes palpita.
Oh! Quantas são as primaveras em vinte anos acesas nesta fornalha!
Uma tal carga acumulada torna-se simplesmente insuportável.
Insuportável não para o versos de veras.


12 277

PODER

Tu sabes e conhece melhor do que eu a velha história…
Na primeira noite, eles se aproximam de nossa casa,
roubam-nos uma flor e nós não dizemos nada…
Na segunda noite, eles não só se aproximam da nossa casa,
mas pulam o muro, pisam nas flores, matam o nosso cãozinho
E nós não dizemos nada…
Até que um dia, o mais sábio deles, entra em nossa casa,
rouba-nos a luz, arranca a voz de nossa garganta
e aí então meus caros amigos
é que não podemos dizer mais nada mesmo.

4 631

A Plenos Pulmões

Primeira Introdução ao Poema
Caros
..........camaradas
......................futuros!
Revolvendo
........a merda fóssil
.........................de agora,
......perscrutando
estes dias escuros,
talvez
...............perguntareis
.............................por mim. Ora,
começará
.................vosso homem de ciência,
afagando os porquês
..............num banho de sabença,
conta-se
........que outrora
...............um férvido cantor
a água sem fervura
..........................combateu com fervor
Professor,
..........jogue fora
.................as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
................de mim
.......................de minha era.
Eu – incinerador,
................ eu – sanitarista,
a revolução
....................me convoca e me alista.
Troco pelo “front”
.......... a horticultura airosa
da poesia –
....................fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
...virgem
.................vargem
..........sombra
...............................alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim."
Estes verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, –
bonifrates encapelados,
......................descabelados vates –
entendê-los,
................ao diabo!,
...........................quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles -
.....................mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
.......................ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
.................se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
...........escarra a tuberculose;
putas e rufiões
.................numa ronda de sífilis.
Também a mim
..........a propaganda
........................cansa,
é tão fácil
........alinhavar
................romanças, –
mas eu
..........me dominava
...................entretanto
e pisava
............a garganta do meu canto.
Escutai,
.............camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
.............dos melífluos enxurros:
por cima
..........dos opúsculos líricos,
eu vos falo
............ como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
...... à Comuna distante,
não como Iessiênin,
.........................guitarriarcaico.
Mas através
..... dos séculos em arco
sobre os poetas
.....................e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
................não como a seta
lírico-amável,
..............que persegue a caça.
Nem como
..........ao numismata
............... a moeda gasta,
nem como a luz
.....................das estrelas decrépitas.
Meu verso
..........com labor
.............. rompe a mole dos anos,
e assoma
.....a olho nu,
................ palpável,
......................bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
.................por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
.............. versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
..........................como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
................mas terrível.
Ao ouvido
.........não diz
................blandícias
.........................minha voz;
lóbulos de donzelas
..........de cachos e bandós
não faço enrubescer
.............................com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
..........– tropas em parada,
e passo em revista
...........................o front das palavras.
Estrofes estacam
............. chumbo-severas,
prontas para o triunfo
..........ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
.............. as maiúsculas
.......... abertas.
Ei-la,
.....a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
......................alerta para a luta.
Rimas em riste,
......sofreando o entusiasmo,
eriça
........suas lanças agudas.
E todo
......este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
.................proletários do planeta,
cada folha
.............até a última letra.
O inimigo
......da colossal
................classe obreira,
é também
meu inimigo
................figadal.
Anos
........de servidão e de miséria
comandavam
...............................nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
..........volume após volume,
janelas
.............de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
........................saberíamos o rumo!
onde combater,
................de que lado,
.......................em que frente.
Dialética,
..........não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
....... ao fragor das batalhas,
quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
.........................que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
.....................– glória –
se arraste
após os gênios,
..............merencória.
Morre,
..........meu verso,
.....................como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
......sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
..........sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
....................entre nós todos, –
o comum monumento:
o socialismo,
.............forjado
........................na refrega
.................................e no fogo.
Vindouros,
..........varejai vossos léxicos:
......................do Letes
.............................brotam letras como lixo –
"tuberculose",
.........."bloqueio",
.............."meretrício".
Por vós,
........geração de saudáveis, –
...................um poeta,
....................com a língua dos cartazes,
lambeu
..........os escarros da tísis.
A cauda dos anos
..............faz-me agora
....................um monstro,
......................fossilcoleante.
Camarada vida,
............vamos,
................para diante,
galopemos
.......pelo qüinqüênio afora.
Os versos
......para mim
...............não deram rublos,
.....................nem mobílias
.................de madeiras caras.
Uma camisa
.......lavada e clara,
.....................e basta, –
..............................para mim é tudo.
Ao Comitê Central
..................do futuro
.......................ofuscante,
.........................sobre a malta
...................dos vates
velhacos e falsários,
.....................apresento
.............................em lugar
do registro partidário
......todos
.................os cem tomos
.....................dos meus livros militantes.
dezembro 1929/janeiro 1930
Do livroMaiakóvski - Poemas (São Paulo: Editora Perspectiva, 1982)
tradução de Haroldo de Campos
2 362

EU

(tradução: Haroldo de Campos)

Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneo de frases ásperas
Onde
forcas
esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
pescoço de torres
oblíquas

soluçando eu avanço por vias que se encruz-
ilham
à vista
de cruci-
fixos

polícias

5 224

IMPOSSÍVEL

Sozinho não posso carregar um piano e menos ainda um cofre-forte.
Como poderia então retomar de ti meu coração e carregá-lo de volta?
Os banqueiros dizem com razão: "Quando nos faltam bolsos, nós que somos muitíssimo ricos, guardamos o dinheiro no banco".
Em ti depositei meu amor, tesouro encerrado em caixa de ferro, e ando por aí como um Creso contente.
É natural, pois, quando me dá vontade, que eu retire um sorriso, a metade de um sorriso ou menos até e indo com as donas eu gaste depois da meia-noite uns quantos rublos de lirismo à toa.


2 134

DEDUÇÃO

Não acabarão com o amor, nem as rusgas, nem a distância.
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!


5 674

ADOLESCENTE

A juventude de mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.


2 616

CLAMO

Levantei-me como um atleta,
levei-o como um acrobata,
como se levam os candidatos ao comício,
como nas aldeias se toca a rebate nos dias de incêndio.
Clamava: "Aqui está, aqui! Tomai-o!"
Quando este corpanzil se punha a uivar, as donas disparando pelo pó, pelo barro ou pela neve, como um foguete fugiam de mim.
- "Para nós, algo um tanto menor, algo assim como um tango...
" Não posso levá-lo e carrego meu fardo. Quero arremessá-lo fora e sei, não o farei.
Os arcos de minhas costelas não resistem.
Sob a pressão range a caixa torácica.


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