Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

n. 1974 BR BR

Alexandre Guarnieri é um poeta e tradutor brasileiro contemporâneo, cuja obra se destaca pela habilidade em articular o coloquial com o lírico, explorando temas como a cidade, o cotidiano, as relações humanas e as complexidades da existência. Sua poesia, muitas vezes marcada por uma ironia sutil e uma profunda observação social, dialoga com a tradição literária ao mesmo tempo em que se insere firmemente no contexto da literatura brasileira atual.

n. 1974-05-10, Rio de Janeiro

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viagem fantástica

para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
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Biografia

Identificação e contexto básico

Alexandre Guarnieri é um poeta e tradutor brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro. É conhecido pela sua obra poética e pela sua atividade como tradutor. Escreve em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Alexandre Guarnieri não são amplamente divulgadas. No entanto, a sua atuação como tradutor sugere uma sólida formação intelectual e um profundo conhecimento literário e linguístico.

Percurso literário

O percurso literário de Alexandre Guarnieri é marcado pela sua produção poética, com poemas publicados em diversas plataformas e antologias. Além de poeta, sua atuação como tradutor de autores de língua inglesa para o português é um aspeto relevante do seu percurso, evidenciando uma profunda ligação com a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Alexandre Guarnieri caracteriza-se por uma linguagem que mescla o coloquial com o lírico, explorando temas do cotidiano, da vida urbana, das relações humanas e das reflexões existenciais. Sua poesia frequentemente apresenta um tom irónico e uma acentuada capacidade de observação social. Utiliza recursos que aproximam o leitor da experiência imediata, sem perder a profundidade. O verso livre é comum, permitindo uma maior flexibilidade na expressão. A voz poética é, muitas vezes, a de um observador atento da realidade, capaz de capturar as nuances e contradições do mundo contemporâneo. A sua escrita dialoga tanto com a tradição literária quanto com as experimentações da poesia moderna e contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como autor contemporâneo, Alexandre Guarnieri está inserido no cenário cultural e literário do Brasil atual. Sua obra reflete as dinâmicas da sociedade brasileira, os costumes e as inquietações da sua geração, dialogando com outros artistas e intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Alexandre Guarnieri, como relações afetivas ou familiares marcantes, não são amplamente divulgados em fontes públicas, o que dificulta a correlação direta entre a sua vivência e a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Alexandre Guarnieri tem recebido reconhecimento no meio literário brasileiro, tanto pela sua poesia quanto pela qualidade das suas traduções. Sua obra é apreciada por críticos e leitores que valorizam a sua voz poética singular e a sua capacidade de abordar temas relevantes com originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Alexandre Guarnieri podem abranger desde a poesia clássica até autores contemporâneos, tanto brasileiros quanto estrangeiros. O seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia brasileira, com uma abordagem que une sensibilidade lírica e uma aguda perceção da realidade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Alexandre Guarnieri permite diversas leituras, focadas na sua representação da vida urbana, nas suas reflexões sobre a condição humana na contemporaneidade e na sua habilidade em capturar a complexidade das relações interpessoais. A ironia e a observação social são elementos chave para a análise crítica da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da obra ou da personalidade de Alexandre Guarnieri podem estar relacionados a detalhes de sua rotina de escrita, a episódios específicos que inspiraram seus poemas, ou a facetas de sua atuação como tradutor que revelam mais sobre seu processo criativo e sua relação com a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Alexandre Guarnieri é um autor contemporâneo, portanto, não há informações sobre sua morte. Sua memória é construída e perpetuada através da sua obra literária e das traduções que realiza, contribuindo para o patrimônio cultural brasileiro.

Poemas

17

viagem fantástica

para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
607

Mágoa no sal

enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;

seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
642

A pele

homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
530

A lágrima

a glândula a carrega               cega
            (como na ostra    a pérola)
                   (como no arco a seta)
o sal na medida certa
(no escuro                algo coagula)
                                           pedra
até que a concha da pálpebra
                                            abra
é quando a gota vem à tona)
                           (fria e quente
                        (simultaneamente
678

O sangue

no corpo
há tão pouco espaço
entre um osso   e outro

só o óleo dos glóbulos
passa (o plasma)
quando não     é pálido

(na ampulheta viva /
sangue é tempo)

como a graxa
(da máquina)
escorre    entre

as engrenagens
               do   relógio
                bio    lógico
552

o barco na garrafa

que vento, tormenta, qual
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?

terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?

pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;

haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?
491

rotinas (repartição)

os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
750

Viagem fantástica

Para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza imaginável pelo homem,
conquistada ou ainda inexplorada,
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro de chiaroscuro, a esponjosa
massa cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?

por quanto tempo seria capaz de estudar
nossas fossas abissais, internas,
nossas zonas de guerra, onde glóbulos
atacassem micróbios entre outros
vírus e furtivos inimigos batalhando
em tantas trincheiras de carne e nervo?

no fluido da medula, no sangue
que circula, tanto nautillus
quanto proteus completariam
a inusitada frota: as vinte mil
léguas submarinas enfim vencidas
na saliva sob nossas línguas…
614

Terrorismo doméstico

toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)

– quem está comigo ? –

se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível

– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
655

ilha na névoa

cercada pela tempestade que ameaça
          sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
          em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
          a mesma meta
          correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
          é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
          entregue à queda
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