Instantes
Espanto e
assombro
navegam meus dias
e na visão de uma gota de orvalho
toda a luz de um cristal plangente
se revela no instante
em que o mistério se acerca.
Diante das coisas do mundo
se abrem feridas
e cascatas de luz se derramam também
se abertas as fendas
por onde entrar possam
os sinais aos olhos invisíveis
Estremeço
diante de um beijo
que se sente como pura vibração
num recanto de uma esquina qualquer
trocado, marcado em duas bocas
que ignoro, exibindo ao mundo
na expressão de um beijo
a incontida força que assoma à boca
da paixão
Em tudo me sinto,
e nada é ausência ou sem sentido
se desço ao centro do assombro
que rasga meus olhos
e deixa perenes sinais
Sobre a varanda dos meus dias
espero a luz da revelação,
e pressagio
em cada momento que passa
o inesperado mensageiro
do mistério da vida
que persigo.
Deixo-me levar no que vem
abraçando isso que não sei dizer
e na doce melopeia que me embala,
surgida desse ficar atenta
sacudo resquícios de raiva insuspeita
e sinto-me perto...mais perto de mim.
Verbo
As
palavras são o que são...
delas fazemos pedras raras
farpas com que ferimos
oração com que nos ungimos,
revelação, descoberta, desocultação.
Com as palavras mordemos a boca
que sente o beijo contido na palavra,
com palavras matamos
ou fazemos reviver a alma,
com as palavras construímos ilusões,
destroçamos vidas refazemos corações
Com as palavras erguemos pirâmides de amor,
e no seu vértice estendidos em oferenda ao sol dourado
deitamos corpos amantes
no momento em que se transmudam
de sujeito em objecto amado
Com palavras mordemos
amamos, ferimos, oramos, refazemos,
pensamos destruímos
as palavras onde nos pomos
as palavras com que nos fazemos
as palavras que também somos.
Origens
Gravadas
na alma as marcas
desse emergir lento da terra de ninguém:
e no corpo réstias do sal
que aflora no sangue e nas lágrimas,
amnióticas águas nascentes da mãe.
O primeiro vislumbre de luz,
O som do primeiro grito
O medo do salto pra vida
o saber secreto de que nascemos à vez
e um a um partimos,
primordial e derradeira forma
de estarmos inteiramente a sós.
Um distinto sinal em nossas vidas,
O desenho único na anatomia da mão
a irrepetivel impressão digital
e outras distintas marcas impressas:
a resistência sobre-humana
quantas vezes impensada,
a teimosia do sonho
de outros cumes alcançar,
o permanente sentido dado
ao que se faz e é
Ousadia de criar asas
e levantar-se do chão,
de recriar e persistir
natureza que se desnatura,
afã e busca,
a cada novo golpe a cada novo voo
a indomável vontade de ser mais
e ir mais além
Anima, Animus,
e contudo sopro
humana fragilidade em nossa sina inscrita
quando veloz é a corrente que submerge
e bruta a força da vida,
irmanando na mesma química
homens, bichos, estrelas, pedras
as entranhas da terra
e as águas marinhas.
Ténues fios seguram o cálice da vida
onde sôfregos bebemos cada gota consentida,
isso que leva adiante e torna maiores
ante a inexorável forma que nos determina,
o sobre-humano gesto
que em si mesmo inscreve distintos sinais
Sinais é o que somos
nem deuses , nem demónios
humanos tão só humanos,
humanos até na desumanidade
ou antes de mais e depois de tudo
frágeis seres inacabados
buscando razões para erguer a ponte
que nos leve além
e nos faça chegar mais perto de Ser
que ainda não fomos.
Os Olhos do Tempo
Espraiam-se
meus gestos
insinuando desejos que se calam à passagem
do tempo em mim,
mas teimo ainda ser e acreditar
Desfio esperas e no meu regaço
silencio suspiros,
e é na brancura de um certo vazio
que ensaio abraços
perdidos na noite
que se deita a meu lado
E fico pensando
num pássaro que risca
breve o imenso espaço,
quisera eu planar
e voar assim também…
Mas meu coração,
hoje agrilhoado
prende-me a este instante…
quero o que me enche,
quero o que me falta
tenho o que não quero
tenho o que me farta
Olho o tempo e sinto-me
ser a fiandeira do irrepetível
momento que passa
e sinto crescer dentro do meu peito
como prenhe ventre
a imensa a saudade
que não sei se mata
ou aviva a alma
Ajuda
Ajuda-me
, meu guardião a ler nas linhas do meu coração, a
escutar minha voz mais profunda e a ser capaz de ir além das dúvidas
e das feridas que se abrem enquanto caminho.
Dá-me a coragem, a lucidez e a capacidade de fazer entender, aqueles que amo
que o Amor que se dá sem espera de retorno, é amor eterno.
Eu sei que em todos os lugares e em todos os momentos a tua luz sobre mim
incidirá e tua asa protectora me guiará rumo ao que for
mais certo.
Nega-Entropia
O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
Tecedeira
Redes
de pescadora, eu teço
quem sabe, pescadora de palavras e sentido
Caminho, não sobre as águas
mas por dentro das palavras, e do sentir
por dentro das gentes
que abrem um sulco
e por dentro de si me deixam entretecer mais um fio
um subtil fio compondo o inegualável desenho da vida.
As palavras chegam
como? de onde? porque?
chegam...como som de riacho entre rochedos
como linho colhido para tecer brancos lençóis
onde o presente se deita
desfiando memórias...
e lançar a ponte entre os irrepetíveis
momentos do ser.
Sinais
Nas
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
Relatividade
O
belo e o vulgar se misturam
e um dia é belo o que não vi,
vulgar o que esgotou em cansaços meu olhar.
Desempoeirando meus olhos, olhei um dia
e o que não via ou parecia vulgar
o vi cheio de uma outra luz
e seus contornos antes inalcançaveis
tinham um não sei que me bordavam a alma.
Aquele objecto o olhei e quis um dia
pelas formas, harmonia e cor,
nada mais que um vulgar biblot
hoje cansa-me o olhar
Neste mesmo lugar, quotidianamente,
olho as coisas que enchem meus dias
olho hoje, e sei ver o que meus olhos
transfigurados, nem eu sei porquê.
não verão amanhã.
Do Amor
(Para
C., meu amor)
Assim , de repente,
como todas as coisas que vêm sem aviso,
quis falar-te "disto" que cresceu dentro de mim,
este querer feito de coisas que só se sentem,
e ficam no limbo das definições,
porque definir é limitar.
Eu quis falar
do que ao jeito de "milagre" aconteceu
uma palavra, gerou outra e outra e outra,
e essas palavras traziam em si o que nelas colocamos
e era a gente que fluía nessas palavras
Tantas palavras… para dizer o possível de tanto sentir
palavras como corpos gestantes, revelando, desnudando,
quantas vezes se erguendo como muro
tantas vezes nos fartando, nos faltando, sobrando
à mingua de não nos termos e fazermos com as palavras
a vez do corpo, do coração, do suspiro, do sorriso,
do toque, do abraço, da entrega, do desejo, da saudade.
E ainda assim, as palavras
são o que tenho para dizer "te amo",
palavras que entreteço com gestos e sinais
com que se enchem o meu e o teu quotidiano,
meus dias e minhas noites, repletos da tua presença,
antes de mais neste sentir que abrigo
e se encaminha para ti
Se as palavras são o que me resta,
se um vago perfume se te pega às mãos
e por ele me lembras,
se num fio de telefone alivio a fome de ti,
se até no silêncio eu me oiço chamar-te,
que assim seja!
Um dia tudo será diferente e tão igual
ao que sinto, digo, faço
porque o que faço, digo e sinto,
vem do fundo onde te guardo
esse lugar de onde brota
a verdade com que digo
o tanto que quero dizer, se simplesmente digo
"Te amo"