De Profundis
Diante
da Beleza, do Amor, de Deus
emudecemos
As palavras são excrescências
e despropositadas vêm
invadir a densa profundidade do silêncio
onde se vive a dimensão do essencial.
Corpo e Alma
Procuramos
ser corpo de uma outra forma
mas o corpo é feroz e felino,
e vive do toque da presa,
do calor e do sangue que lhe bebe
no corpo que se rasga em oferendas.
O corpo tem leis…
Eu quis ser corpo e alma
para um outro corpo e uma outra alma…
mas só pude ser alma
no tempo possível…
e a alma transfigurada
foi sangue, vísceras, músculo, estertor
pulsão, êxtase
para aquele corpo e aquela alma
e aquele corpo e alma
não pôde ser alma,
no tempo em que só almas transfigurando-se
podíamos ser.
Recomeço
Recomeçar
como a força silenciosa
dos invernos
Recomeçar
leve a alma
vigilantes os sentidos
Recomeçar
e rasgar num voo
o espaço imenso
onde ainda possa
desenhar sem medos
o meu golpe de asa.
Poiésis
Vinhas
e eu não sei donde
nem porque vinhas
mas à tua chegada
alguma coisa se iluminava
e crescia
Revelação,
interminável afã de quem se busca
na imensidão dos estilhaços
que de si dispersos
vogam por aí
Vinhas e trazias
dores de punhais e mel
e cada sílaba carregava
o gosto a verdade
Silenciada a fonte,
de quando em vez se sente ainda,
hoje
menos cismo e mais corrente.
Só por vires
abençoada sejas
Olhar e Ver, eis
a Questão
Da
riqueza do imprevisível, esse reduto do indecifrável acontecer,
pouco se diz. A pobreza, a repetição enfadonha do quotidiano,
os hábitos cristalizados a que nos apegamos, ou se apegam a gente,
limitam-nos para a capacidade de ver o novo que nos desafia a cada momento.
O panorama do certo, do que se espera acontecer, nos dá esse
cinzento tom à vida e a torna pouco a pouco essa coisa enfadonha
e repetitiva que veste nossos dias.
Mas
há esse fundo inexplicável, onde se entretecem teias,
que nos ligam e conduzem a coisas novas. Um encontro casual, que não
esperamos, nem provocamos, uma palavra, uma frase que nos conduz no
meio da comunicação com os outros à descoberta
de metas paralelas, de universos partilhados; um gesto inesperado que
nos revela algo, todo esse fundo não pré-concebido, onde
nos movemos onde se cozinham as coisas, aparentemente insignificantes,
que podem alterar o curso de uma vida.
O
que falta é essa capacidade atentiva para decifrar o código
do aparentemente vulgar, de vermos o novo onde só víamos
o mesmo. Ver de novo, de novo sentir vem afinal da capacidade de se
abrir à revelação, diante de nós a cada
instante.
Não
é o apelo ao deixar-se ir na corrente, é antes o ser capaz
de perceber que há uma corrente. Não é a apologia
da passividade, ao puro entregar-se do acontecer, é saber que
continuamente estamos mergulhados no acontecer. O homem define-se pela
acção, pela escolha, pela assunção de caminhos,
que levam à total expressão da sua individualidade.
Imperioso
será a abertura da alma, a disponibilidade do coração,
desse olhar interior quantas vezes impedido de ver pela ganga com que
nos revestimos, pela presença quotidiana da norma, de que não
nos podemos descartar; pelo cumprimento de horários, o frenesim
que não nos deixa tempo para parar, respirar fundo e voltar a
sentir como isso é bom; o ficar só olhando com olhos abobalhados
qualquer coisa sem estar olhando em direcção nenhuma,
simplesmente sendo levado pelo pensamento, parar e escutar alguém
que de repente ao nosso lado começa a falar, gente que não
conhecemos mas que naquele momento nos escolhe para dizer algo, porque
precisa falar, ou antes ser escutado.
Deixamos
de ter tempo...sofregamente o tempo tomou conta da gente. E Deus meu
como precisamos parar, aquietar nossos passos em constante correria,
dar férias ao nosso coração que começa a
dar sinais de estar farto da batida acelerada a que o obrigamos, de
parar num jardim numa manhã de sol e sentir a vida á solta
por ali; segurar a mão do filho e leva-lo a um lugar qualquer
onde ainda pule a fantasia e embarcar junto com ele na viagem. Como
precisamos urgentemente de parar, de regressar ao centro de nossa vida
para fazermos de novo a viagem pelo lado de dentro das coisas que deixamos
de ver e sentir.
Ler
os sinais por aí á solta, e esperar despertar com eles
e para eles, quem sabe não é um caminho. Talvez que as
lentes com que a vida olhamos estejam desajustadas a nossa visão.
Quem sabe se o segredo não residirá tão só
em a voltar a olhar tudo com o olhar de um menino, como se pela primeira
vez o mundo nos entrasse pelos olhos da alma.
Casual
É
noite
uma casa ao longe,
pequenos olhos acesos
favos de gesso suspensos
na vertical
Azulejo púrpura
telhado de uniforme
laranja
E aqui tão perto
o miar de um felino…
fome ou cio?
Oikos
Oiço,
quedo-me serena
buscando decifrar as vozes
que emergem do fundo da terra
dos abismos do mar
O mistério …o obscuro
na transparência possível
vozes que emergem…
de onde?
Terra-mãe
mar, berço original
arvore sagrada verde serenidade
serena e erecta matriz do ser
na vertical.
Paradoxo
Na
inteireza das coisas simples,
no desvario urgente que nos leva adiante,
na coragem que exige, cada dia que começa,
no absurdo que grita pela boca da fome,
na festa que reina na nossa vontade cumprida
nesse estar além da pobreza de um quotidiano que fere,
no seio de cada minúsculo acto movido pelo coração
nas avenidas largas e solitárias percorridas,
na verdade e na força do amor
no paradoxo do belo e do bruto que nossa alma abriga
no gesto que em nós acorda a humana face do outro,
na mão que semeia, modela, acaricia, estrangula, esventra,
na viagem que faz o caminho sob o nosso andar
na alegria gerada em cada dia que nasce e nos devolve à vida
e até no silencio ante o meu questionar
eu pressinto um indecifrável sentido.
Por isso sigo, sem muito querer saber
Por isso me agito se oiço o chamado
por isso me entrego à vida e a bendigo
por isso espero se de espera é o momento
por isso me inquieto se o coração diz "Vai!" e eu me
detenho
vivo, sinto, espelho a dualidade viva de tudo o que é……
E além do mal e do bem me quedo,
olho o infinito e sinto-me poeira de estrelas com alma
e no chão que piso, oiço o pulsar do meu ser,
no riacho correndo entre sulcos, é o meu sangue que vibra
e no prumo de uma velha árvore
o sentido da dignidade eu vivo
Se tudo está em mim
parte de quê, enfim, sou ?
Presença
Danam-se
os ventos da alma
e tudo se agita e confunde
no seio do turbilhão
Ainda que eu não saiba
Vou
levada na tempestade
o que me leva não se diz
ou sabe
vou porque sim, sem perguntas
levada vou.
Grandes as presenças
da vida e da morte
abraçamos uma
rechaçamos a outra
sem nada saber…
Que outro olhar
ou dimensão do ver
pode acercar a infinita presença,
vida e morte
morte e vida
tão extremas tão unidas...
Pudesse a vida
ser só celebração, cores, aromas
terra, húmus , simples sentir
e a morte
essa dimensão maior
que aceitássemos não saber.
Entrelinhas
Ali
naquele instante em que não paramos,
não vimos
que não há dias iguais
no seu aparente igual suceder
Um banco de jardim
um sol morno
a tarde que lenta cai,
rodopiando em correrias
uma criança, um cão
e lá longe a linha do horizonte
fundindo tons de azul
Aqui, fixando um sol laranja
dois amantes se entreolham
e tocam num gesto subtil,
seus dedos se enlaçam
e de repente o corpo respira desejo.
E enchem a vida
os quotidianos, vulgares, ínfimos sinais
passamos, e passamos adiante
sem decifrar na superfície do acontecer
que nada se repete,
que não há dias iguais.