Cacaso

Cacaso

1944–1987 · viveu 43 anos BR BR

Cacaso, pseudônimo de Antônio de Pádua Danças, foi um poeta e crítico literário brasileiro, figura proeminente da poesia marginal. Sua obra é marcada pela ironia, pelo humor e pela irreverência, abordando temas do cotidiano urbano, das relações sociais e da própria condição humana com uma linguagem coloquial e acessível. Ele se destacou por sua capacidade de mesclar o lírico com o prosaico, o reflexivo com o divertido, criando uma poesia que dialogava diretamente com o leitor. Sua produção literária, embora concisa, deixou uma marca significativa na poesia brasileira contemporânea, influenciando gerações posteriores pela sua autenticidade e pela forma como desmistificou a linguagem poética, aproximando-a da vida.

n. 1944-03-13, Uberaba · m. 1987-12-27, Rio de Janeiro

132 414 Visualizações

Dentro de Mim Mora um Anjo

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
dentro de mim mora um anjo
que tem a boca pintada
que tem as asas pintadas
que tem as unhas pintadas
que passa horas a fio
no espelho do toucador
dentro de mim mora um anjo
que me sufoca de amor

Dentro de mim mora um anjo
montado sobre um cavalo
que ele sangra de espora
ele é meu lado de dentro
eu sou seu lado de fora
Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim

Dentro de mim mora um anjo
que arrasta as suas medalhas
e que batuca pandeiro
que me prendeu nos seus laços
mas que é meu prisioneiro
acho que é colombina
acho que é bailarina
acho que é brasileiro


Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Papos de Anjo da Guarda.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.139

NOTA: Música de Sueli Cost
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

O poeta brasileiro Cacaso, cujo nome verdadeiro era Antônio de Pádua Danças, nasceu em 25 de janeiro de 1944, no Rio de Janeiro. Utilizou o pseudônimo Cacaso para sua produção literária. Era conhecido por sua escrita irreverente e coloquial.

Infância e formação

Antônio de Pádua Danças teve uma infância e juventude marcadas pela classe média carioca. Estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde mais tarde viria a lecionar. Essa formação acadêmica em literatura foi fundamental para sua atuação como crítico literário e para a própria elaboração de sua obra poética.

Percurso literário

Cacaso iniciou sua carreira literária no contexto da poesia marginal ou contracultura brasileira dos anos 1970. Sua obra começou a ganhar projeção com a publicação de livros como "Seus Olhos" (1975) e "Eu te amo porque te odeio" (1976), que chamaram a atenção pela originalidade e pelo frescor da linguagem. Além de poeta, foi professor universitário e crítico literário, contribuindo com artigos e resenhas para diversos veículos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Cacaso incluem "Seus Olhos" (1975), "Eu te amo porque te odeio" (1976), "Amor de Poeta" (1987) e "Na Corda Bamba" (1997). Os temas centrais de sua poesia são o amor, a cidade, as relações humanas, a melancolia e a efemeridade da vida, sempre abordados com uma visão irônica e terna. Seu estilo é caracterizado pela linguagem coloquial, pela musicalidade e pela capacidade de transitar entre o lirismo e o humor. Utilizava frequentemente o verso livre e formas curtas, explorando a concisão e a força da palavra.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cacaso viveu e produziu em um período de efervescência cultural no Brasil, especialmente durante a ditadura militar. A poesia marginal, movimento ao qual se associou, surgiu como uma forma de expressão alternativa e de resistência cultural, com forte viés crítico e experimental. Ele dialogou com outros poetas de sua geração, como Chacal e Ana Cristina Cesar.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe publicamente sobre sua vida pessoal, mas sua obra frequentemente reflete um tom confessional e uma sensibilidade apurada para as nuances das relações afetivas. Foi casado com a também escritora Ana Cristina Cesar, uma relação que marcou ambos artisticamente.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Cacaso conquistou um lugar importante na poesia brasileira contemporânea, sendo reconhecido por sua originalidade e pela força de sua linguagem. Sua obra é estudada e apreciada, especialmente por sua capacidade de renovar a tradição lírica com um olhar moderno e crítico.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora sua obra seja relativamente curta, Cacaso influenciou poetas posteriores pela sua autenticidade, pela irreverência e pela forma como explorou o cotidiano e as emoções. Sua poesia é vista como um legado de autenticidade e de renovação da linguagem poética.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Cacaso é frequentemente analisada sob a ótica da desconstrução da linguagem poética tradicional e da inserção do poeta no contexto urbano e social. Sua obra oferece uma visão melancólica e, ao mesmo tempo, bem-humorada da existência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Cacaso era conhecido por seu humor sutil e por uma postura intelectual que não se levava excessivamente a sério, característica que se refletia em seus poemas. Sua relação com Ana Cristina Cesar foi um ponto de interesse para a crítica literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Antônio de Pádua Danças (Cacaso) faleceu em 30 de outubro de 1988, no Rio de Janeiro. Sua morte prematura deixou um vazio na poesia brasileira, mas sua obra continua a ser lida e celebrada.

Poemas

19

Face a Face

São as trapaças da sorte
são as graças da paixão
pra se combinar comigo
tem que ter opinião

Morena quando repenso
no nosso sonho fagueiro
o céu estava tão denso
inferno tão passageiro
uma certeza me nasce
e abole todo o meu zelo
quando me vi face a face
fitava o meu pesadelo
estava cego o apelo
estava solto o impasse
sofrendo nosso desvelo
perdendo no desenlace
no rolo feito novelo
até o fim do degelo
até que a morte me abrace

São as desgraças da sorte
são as traças da paixão
quem quiser casar comigo
tem que ter bom coração

Morena quando relembro
aquele céu escarlate
mal começava dezembro
já ia longe o combate
uma lambada me bole
uma certeza me abate
a dor querendo que eu morra
o amor querendo que eu mate
estava solta a cachorra
que mete o dente e não late
No meio daquela zorra
perdendo no desempate
girando feito piorra
até que a mágoa escorra
até que a raiva desate


Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Papos de Anjo da Guarda.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.141-142

NOTA: Música de Sueli Cost
5 721

As Coisas

O melão melou
A casa casou
A bola bolou
A rola rolou
O mato matou
O dia adiou
A gia giou
A pia piou
O pinto pintou
O boi boiou
O gato engatou
O pato empatou
A pomba empombou
A paca empacou
O galo galou
O ralo ralou
O calo calou
O barco embarcou
A vaca avacalhou
A banana embananou
A sombra assombrou
O raio raiou
O piru pirou


In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Poema integrante da série Letras.

NOTA: Música de Cláudio Nucc
4 575

Logias e Analogias

No Brasil a medicina vai bem
mas o doente ainda vai mal.
Qual o segredo profundo
desta ciência original?
É banal: certamente
não é o paciente
que acumula capital.


Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.10
6 383

O Fazendeiro do Mar

Mar de mineiro é
inho
mar de mineiro é
ão
mar de mineiro é
vinho
mar de mineiro é
vão
mar de mineiro é chão
Mar de mineiro é pinho
mar de mineiro é
pão
mar de mineiro é
ninho
mar de mineiro é não
mar de mineiro é
bão
mar de mineiro é garoa
mar de mineiro é
baião
mar de mineiro é lagoa
mar de mineiro é
balão
mar de mineiro é são
Mar de mineiro é viagem
mar de mineiro é
arte
mar de mineiro é margem

(...)

Mar de mineiro é
arroio
mar de mineiro é
zem
mar de mineiro é
aboio
mar de mineiro é nem
mar de mineiro é
em
Mar de mineiro é
aquário
mar de mineiro é
silvério
mar de mineiro é
vário
mar de mineiro é
sério
mar de mineiro é minério
Mar de mineiro é
gerais
mar de mineiro é
campinas
mar de mineiro é
Goiás
Mar de mineiro é colinas
mar de mineiro é
minas


Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Postal.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.51-55

NOTA: Poema musicado por Miúcha. Referência ao livro FAZENDEIRO DO AR, de Carlos Drummond de Andrad
6 925

Poética

Alguma palavra,
este cavalo que me vestia como um cetro,
algum vômito tardio modela o verso.

Certa forma se conhece nas infinitas,
a fauna guerreira, a lua fria
encrustada na fria atenção.

Onde era nuvem
sabemos a geometria da alma, a vontade
consumida em pó e devaneio.
E recuamos sempre, petrificados,
com a metafísica
nos dentes: o feto
fixado
entre a náusea e o lençol.

Meu poema me contempla horrorizado.

Rio, 1965


Publicado no livro A palavra cerzida (1967). Poema integrante da série III. A Palavra de Dois Gumes.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.132

NOTA: "Poética" se apropria de motivos dos poemas "Psicologia da Composição" e "Antiode", de João Cabral de Melo Neto, e "A Flor e a Náusea", de Carlos Drummond de Andrad
4 808

Estilos de Época

Havia
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.


Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 2a. Lição: Rachados e Perdidos.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.106

NOTA: Referência aos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, signatários do 'Plano Piloto para Poesia Concreta' (1958); ao verso 'flor é a palavra flor', de João Cabral de Melo Neto ("Antiode"); Ao poema "Um Lance de Dados", de Mallarm
3 804

Preto no Branco

De colorida já basta
a vida


In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Poema integrante da série Inéditos
4 821

Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal

eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata

sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor


In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.

NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
7 299

O Que É o Que É

Descoberto pelo português
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...


In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
4 669

Videos

50

Comentários (6)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Maria Eduarda
Maria Eduarda

Qual mensagem ele quis deixar com esse poema?

ewhvpouygewpgrcberb
ewhvpouygewpgrcberb

opa eae

Jamilly
Jamilly

Eu amo esses poemas de cacaso

vitones

esse poema ta uma porra !!!!!

vitones

vitones