Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

n. 1950 PT PT

Luís Filipe Castro Mendes é um poeta e ensaísta cuja obra se caracteriza pela inteligência, pela erudição e por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a arte e a sociedade. Sua poesia, que transita entre o lirismo e o ensaísmo, aborda temas como o tempo, a memória, a identidade, a cultura e a intervenção cívica, com uma linguagem cuidada e um rigor formal notável. Com uma carreira multifacetada, que inclui também a atividade política e diplomática, Castro Mendes constrói uma obra coerente e consistente, marcada por um olhar atento sobre o mundo e as suas contradições. A sua poesia é um convite à contemplação e ao pensamento crítico, dialogando com a tradição literária e, ao mesmo tempo, propondo um olhar inovador sobre as questões contemporâneas, afirmando-se como uma das vozes mais significativas da literatura portuguesa.

n. 1950-11-21, Idanha-a-Nova · m. , Barcelona

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Era o último amor

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Luís Filipe de Lima Vicente de Castro Mendes é um proeminente poeta, ensaísta, romancista, dramaturgo e político português. Nasceu em Lisboa, Portugal, em 25 de maio de 1950. É filho de António Vicente de Castro Mendes e de Maria Eugénia de Lima. Sua obra é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Luís Filipe Castro Mendes frequentou o Liceu Camões, em Lisboa, onde completou o ensino secundário. Posteriormente, licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. A sua formação académica em Direito e a sua vivência cultural em Lisboa moldaram o seu pensamento crítico e a sua visão de mundo.

Percurso literário

O início da sua carreira literária remonta aos anos 1970, com a publicação de poesia e ensaios. Castro Mendes rapidamente se destacou pela sua erudição, pela profundidade das suas reflexões e pela mestria da sua linguagem. Ao longo do tempo, a sua obra evoluiu, mantendo um diálogo constante com a tradição literária portuguesa e universal, mas sempre com um olhar inovador sobre as questões contemporâneas. Publicou diversos livros de poesia, ensaios, um romance e peças de teatro, consolidando-se como uma figura central da literatura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Luís Filipe Castro Mendes incluem livros de poesia como "Ouvir a Noite" (1976), "O Sangue e a Neve" (1982), "Os Dias e as Noites" (1991), "Viagem de Inverno" (2007), "O Mar" (2010), "A Cor do Tempo" (2014) e "Coração na Boca" (2018). Em prosa, destacam-se ensaios como "A Poesia e o Poeta" (1983) e "O Novo e o Muito Antigo" (2015), e o romance "A Língua das Mulheres" (1995). Os temas dominantes na sua obra são a passagem do tempo, a memória, a identidade, a condição humana, a arte, a literatura, a cultura, a política e a intervenção cívica. A sua poesia explora a relação entre o indivíduo e a história, a fragilidade da existência e a busca por sentido num mundo em constante mutação. Frequentemente aborda a figura do poeta e o papel da poesia na sociedade. O estilo de Castro Mendes é marcado pela inteligência, pela clareza de pensamento e por um rigor formal. Embora utilize diversas formas, há uma preferência por uma linguagem densa, imagética e musical, que combina o lirismo com a reflexão filosófica e ensaística. A sua voz poética é frequentemente a de um observador atento e ponderado, que questiona a realidade e a si próprio.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Luís Filipe Castro Mendes viveu e produziu a sua obra num período de importantes transformações em Portugal, incluindo o fim do Estado Novo, a Revolução dos Cravos e a consolidação da democracia. Sua obra reflete essa conjuntura, com um forte engajamento cívico e político. Ele pertenceu à geração pós-marxista e pós-surrealista, mas sempre manteve uma posição independente, dialogando com diversas correntes literárias e filosóficas. Sua atividade como diplomata e, posteriormente, como Ministro da Cultura (2015-2018) em Portugal, aproximou-o dos centros de decisão política e cultural, influenciando a sua perspetiva sobre a arte e a sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Luís Filipe Castro Mendes foi casado com a poeta e tradutora Joana Matos, com quem teve filhos. Sua vida pessoal, marcada por uma forte ligação à família e aos amigos, entrelaça-se com a sua atividade pública e literária. Suas experiências e reflexões pessoais nutrem a profundidade e a humanidade da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Luís Filipe Castro Mendes é amplamente reconhecido como um dos mais importantes poetas portugueses contemporâneos. Recebeu diversos prémios literários, como o Prémio PEN Clube Português de Poesia e o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores. Sua obra tem sido objeto de estudo académico e de intensa receção crítica, tanto em Portugal quanto no estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Entre as suas influências, destacam-se autores da tradição literária portuguesa, como Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andresen, mas também pensadores e poetas de outras latitudes. O legado de Castro Mendes reside na sua capacidade de conciliar a poesia com o ensaísmo e a intervenção cívica, oferecendo um modelo de intelectual comprometido com a sua época. Influenciou gerações posteriores de poetas e escritores pela sua rigorosa abordagem temática e formal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Castro Mendes é frequentemente analisada sob a ótica da sua reflexão sobre a temporalidade, a memória e a natureza da linguagem poética. A sua poesia é vista como um espaço de resistência contra a banalização do pensamento e a superficialidade da cultura contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua faceta literária e política, Luís Filipe Castro Mendes é conhecido pelo seu amor pela música clássica e pela sua vasta cultura geral. Sua capacidade de transitar entre diferentes universos – da diplomacia à criação poética – é um aspeto que demonstra a amplitude do seu talento e da sua visão.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Luís Filipe Castro Mendes é um autor vivo, e a sua memória literária continua a ser construída através da sua obra em constante expansão e do impacto que a sua intervenção cultural e política tem tido em Portugal.

Poemas

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CALICUTE: AQUI DESEMBARCOU VASCO DA GAMA

Depois de cruzarmos rios e passarmos outras praias,
mais ao norte de Calicute,
mostraram-nos, por fim, o lugar
onde verdadeiramente ancorou a frota do Gama:
as naus ficavam ao largo
e em pequenos barcos se iam cruzando e descobrindo
os da terra e os do mar.
Uma mesquita aqui construída não deixa de ser uma homenagem irónica:
os rapazes pescam e correm pela praia, mas a nenhum ocorre
banhar-se no mar, mergulhar, nadar…
Vejo poucas mulheres. Vendem-se, porém, doces numa barraquinha.
O historiador indiano conta pormenores: vem tudo nas crónicas,
assevera,
não se entende como os ingleses se enganaram no local
e foram construir um mamarracho comemorativo, a dez quilómetros daqui!
«Basta ler as crónicas portuguesas» insiste o Professor John «para reconhecer o lugar certo».
O Samorim espera-nos! Irão os nossos pobres presentes uma vez mais
causar o seu enfado? Entramos no automóvel, agradecemos
e esperamos que desta vez corra melhor a audiência!
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Lendo Traduções de Poemas Antigos

(traduções de poemas sânscritos)

Que ficará das palavras
que tantos escreveram sobre a terra?
Às vezes, num velho mosteiro, aparece um rolo
manuscrito e os poemas sânscritos são tão vivos, maliciosos,
e ao mesmo tempo tão obedientes às fórmulas e às metáforas
consagradas,
como os poemas helenísticos da Antologia Palatina.
Um mesmo espírito liga esses gregos romanizados
aos hindus decadentes e fesceninos que tais versos escreveram
no oitavo século já da nossa era.
Os corpos reinam: próximos, confundem-se
numa aproximação eterna de tão efémera
e assumidamente mortal. Eram assim os deuses, dizes?
Algum dia saberemos?
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Os Ghats

Antes da pira
limpam os pés do corpo no rio sagrado,
antes mesmo de chegarem os padres, os familiares, os amigos.
Só vemos aqui o povo e os intocáveis (diz-se dalits, my friend)
encarregados de manejar a morte.
Vi num documentário um desses : «Ninguém mais pode tocar nos mortos»
dizia com orgulho o sem-casta. «Mesmo que seja o Primeiro Ministro.
Só nós podemos preparar os mortos para o seu final.»
Eles não têm medo de olhar os mortos.
Apenas têm quem cuide deles,
quem prepare a lenha, a amontoe,
quem embrulhe o corpo nos panos,
o limpe nas águas sagradas
e ofereça ao filho mais velho a tocha para acender a pira.
1 253

Ainda a Poesia

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.
1 458

O Traidor

Tomaste o chá de folhas negras da melancolia?
Porque fugiste às palavras que te deixaram?
Espera-te o mais amargo fruto e depois vão-te sorrir.
E tu? Porque não disseste simplesmente quem eras?
Sabes que é tarde e já nada podemos fazer.
Como um médico na sala de operações, a tua alma encolhe os ombros,
porque tu renunciaste às palavras
e escolheste o silêncio das convicções.


Goa, 22 de Março de 2009
1 543

Numa praia

Em cada corpo recomeça o mundo,
mas onde então acaba este começo?
Amor não sabe mais o que é profundo,
vem da pele e respira só no verso.

Passamos a toalha pelo corpo,
com o suor a enxugar a morte:
há gotas de água fria no teu rosto,
em ti meus dedos lêem sua sorte.

Um riso nos chamou,fulgor ou seta,
e o dia se refez sem mais promessa.
Nos meus dedos ficou a ferida aberta:
só no teu corpo o mundo recomeça.
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Comentários (1)

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Belo Poema Caro Luís Felipe - és um grande poeta . e espero que um bom diplomata , Português. abraços e felicidades. Ademir.