Manuel Alegre

Manuel Alegre

n. 1936 PT PT

Manuel Alegre é uma figura proeminente da literatura portuguesa contemporânea, conhecido pela sua poesia engajada, lírica e profundamente humana. A sua obra é marcada por uma forte ligação à história recente de Portugal, em particular ao período da ditadura e à luta pela liberdade. Com um estilo que conjuga a força da palavra com a subtileza do sentimento, Alegre explora temas como a identidade, a memória, a justiça e a esperança. A sua poesia, de grande alcance popular e reconhecimento crítico, é um testemunho da sua passagem pela vida política e pela vivência dos ideais de democracia e de intervenção cívica.

n. 1936-05-12, Águeda · m. , Ciudad de México

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Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Manuel Alegre de Miguel Fernandes, conhecido como Manuel Alegre, é um poeta, escritor e político português. Nasceu em Coimbra em 1936. É conhecido por sua poesia engajada e lírica, que reflete a sua experiência política e vivência histórica de Portugal no século XX. Escreve em português.

Infância e formação

Nasceu em Coimbra, onde o pai era militar. Passou parte da infância em Angola, onde o pai esteve colocado, o que lhe proporcionou um contacto precoce com realidades sociais e culturais distintas, que viriam a influenciar a sua obra posterior. Frequentou o curso de Direito na Universidade de Coimbra, onde se envolveu ativamente na vida estudantil e política antifascista. A sua juventude foi marcada pela repressão da ditadura salazarista.

Percurso literário

O início da sua produção poética deu-se durante a sua juventude em Coimbra, com poemas que já revelavam um forte sentido de intervenção social e de crítica ao regime. A sua obra evoluiu, mantendo sempre um fio condutor de ligação à história e à identidade portuguesa, mas também explorando temas universais como o amor, a morte e a passagem do tempo. A sua escrita ganhou destaque com a publicação de 'O Canto e as Armas' (1966). Colaborou em diversas publicações clandestinas e de resistência durante a ditadura. Paralelamente, teve uma intervenção cívica e política ativa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Algumas das suas obras poéticas mais importantes incluem 'O Canto e as Armas' (1966), 'Babilónia' (1983), 'A Secreta Vida das Palavras' (2007) e 'O Pão e a Pedras' (2017). Os temas centrais da sua poesia são a liberdade, a resistência, a memória, a identidade nacional, a justiça social, o amor e a condição humana. O seu estilo é marcado por uma linguagem direta e acessível, mas carregada de significado e emoção. Utiliza frequentemente o verso livre, com uma forte musicalidade e um ritmo marcante. O tom poético varia entre o épico e o lírico, o confessional e o social, sendo a sua voz poética inconfundível na sua força e autenticidade. A sua poesia procura criar um diálogo entre a experiência individual e a dimensão coletiva da história, aproximando o leitor das suas vivências e reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Manuel Alegre é um dos poetas mais representativos da resistência à ditadura em Portugal. A sua obra está intrinsecamente ligada aos acontecimentos históricos do século XX em Portugal, como a guerra colonial e a luta pela democracia. Pertence a uma geração de escritores que usaram a palavra como instrumento de intervenção e de esperança. A sua posição política é de esquerda, tendo sido um dos fundadores do Partido Socialista. A sociedade e a cultura portuguesas, marcadas pela ditadura, pela censura e pela guerra, moldaram profundamente a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Manuel Alegre viveu intensamente os anos de luta contra a ditadura, tendo sido preso e exilado. A sua experiência de vida, marcada pela política, pela resistência e pela esperança na liberdade, é um elemento fundamental para a compreensão da sua obra. Foi militante ativo contra o regime salazarista e, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, desempenhou um papel importante na vida política portuguesa, tendo sido deputado e candidato à Presidência da República.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Manuel Alegre é um poeta amplamente reconhecido em Portugal e com repercussão internacional. A sua obra tem sido objeto de estudo académico e a sua poesia goza de grande popularidade junto do público, sendo frequentemente lida e recitada em diversas ocasiões. Recebeu vários prémios literários ao longo da sua carreira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Na sua formação poética, sentiu influências de poetas como Fernando Pessoa e de outros escritores que marcaram a resistência cultural contra a ditadura. O seu legado reside na sua capacidade de dar voz a um povo em luta pela liberdade e de transformar a experiência histórica em poesia universal. Influenciou gerações de poetas e escritores pela sua coragem, pela sua autenticidade e pela força da sua mensagem.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Manuel Alegre é vista como um espelho da história recente de Portugal, abordando temas como a luta pela liberdade, a memória coletiva e a identidade nacional. As análises críticas destacam a sua capacidade de aliar a dimensão política à lírica, criando uma obra de grande profundidade humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Manuel Alegre tem uma forte ligação à música popular portuguesa, tendo sido autor de letras de canções emblemáticas. A sua experiência em Angola deixou marcas profundas na sua visão do mundo e na sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Manuel Alegre continua ativo e a sua obra é um testemunho vivo da história e da cultura portuguesas.

Poemas

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Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

20 277

Trova do Emigrante

Parte de noite e não olha
Os campos que vai deixar
Todo por dentro a abanar
Como a terra em Agadir
Folha a folha se desfolha
Seu coração ao partir

Não tem sede de aventura
Nem quis a terra distante
A vida o fez viajante
Se busca terras de França
É que a sorte lhe foi dura
E um homem também se cansa

As rugas que o suor cava
Não são rugas são enganos
São perdas lágrimas e danos
De suor por conta alheia
Não compensa nunca paga
Quanto suor se semeia

Em vida vive-se a morte
Se o trabalho não dá fruto
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança
Porque lhe foi dura a sorte
Vai para terras de França

Não julguem que vai contente
Leva nos olhos o verde
Dos campos onde se perde
Gente que tudo lhe deu
Parte mas fica presente
Em tudo o que não colheu

Verde campo verde e triste
Em ti ceifou e hoje foi-se
Em ti ceifou mas a foice
Ceifava somente esperança
Nem sempre um homem resiste
Vai para terras de frança

Vai-se um homem vai com ele
A marca de uma raiz
Vai com ele a cicatriz
De um lugar que está vazio
Leva gravada na pele
Um aldeia um campo um rio

Ficam mulheres a chorar
Por aqueles que se foram
Ai lágrimas que se choram
Não fazem qualquer mudança
Já foram donos do mar
Vão para terras de França.
10 115

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

5 601

Uma flor de verde pinho

Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.

Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.

Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.

Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

7 373

Coisa amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
13 545

E alegre se fez triste

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

9 202

Abaixo el-rei Sebastião

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair do porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.
5 822

Amor de fixação

Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.

Há um Duarte Pacheco em eu gostar
de ti. Há um saber pela experiência
o que em muitos é só um efabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência

que é eu gostar de ti como um buscar
as índias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar)

naus a voltar no meu gostar de ti:
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi.

5 995

Última Página

Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.

Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.

Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.

Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.

Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus.

4 399

Lusíada Exilado

Nem batalhas nem paz: obscura guerra.
Dói-me um país neste país que levo.
Sou este povo que a si mesmo se desterra
meu nome são três sílabas de trevo.

Há nevoeiro em mim. Dentro de abril dezembro.
Quem nunca fui é um grito na memória.
E há um naufrágio em mim se de quem fui me lembro
há uma história por contar na minha história.

Trago no rosto a marca do chicote.
Cicatrizes as minha condecorações.
Nas minhas mãos é que é verdade D. Quixote
trago na boca um verso de Camões.

Sou este camponês que foi ao mar
lavrou as ondas e mondou a espuma
e andou achando como a vindimar
terra plantada sobre o vento e a bruma.

Sou este marinheiro que ficou em terra
lavrando a mágoa como se lavrar
não fosse mais do que a perdida guerra
entre o não ser na terra e o ser no mar.

Eu que parti e que fiquei sempre presente
eu que tudo mandava e nunca fui senhor
eu que ficando estive sempre ausente
eu que fui marinheiro sendo lavrador.

Eu que fiz Portugal e que o perdi
em cada porto onde plantei o meu sinal.
Eu que fui descobrir e nunca descobri
que o porto por achar ficava em Portugal.

Eu que matei roubei eu que não minto
se vos disser que fui pirata e ladrão.
Eu que fui como Fernão Mendes Pinto
o diabo e o deus da minha peregrinação.

Eu que só tive restos e migalhas
e vi cobiça onde diziam haver fé.
Eu que reguei de sangue os campos das batalhas
onde morria sem saber porquê.

Eu que fundei Lisboa e ando a perdê-la em cada
viagem. (Pátria-Penélope bordando à espera.)
Eu que já fui Ulisses. (Ai do lusíada:
roubaram-lhe Lisboa e a primavera.)

Eu que trago no corpo a marca do chicote
eu que trago na boca um verso de Camões
eu é que sou capaz de ser o D. Quixote
que nunca mais confunda moinhos e ladrões.

Eu que fiz tudo e nunca tive nada
eu que trago nas mãos o meu país
eu que sou esta árvore arrancada
este lusíada sem pátria em Paris.

Eu que não tenho o mar nem Portugal.
(E foi meu sangue o vinho meu suor o pão.)
Eu que só tenho as lágrimas de sal
que me deixou el-rei Sebastião.

Lusíada exilado. (E em Portugal: muralhas.)
Se eu agora morresse sabia por quê.
Venham tormentas e punhais. Quero batalhas.
Eu que sou Portugal quero viver de pé.

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Comentários (4)

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Julia Pinheiro
Julia Pinheiro

é mentira

Salvador
Salvador

Amigo de infância,um abraço te mando do teu grande amigo Salvador. Ainda me lembro das festa que davas ate as 5 da manha. Abraço

Ana Luísa
Ana Luísa

Amigo meu de infância, bons tempos passados juntos. O teu amor de infância

Pedro Albricoque
Pedro Albricoque

Este senhor era meu vizinho . Muito mal criado, festas até longas horas e tinha 5 mulheres ao mesmo tempo . Invejo .